quinta-feira, 2 de março de 2017

Os nomes das nossas ruas

Rua St. António dos Capuchos.jpg
Rua de Stº Antº dos Capuchos em Lisboa

Antes de instalar o meu escritório em Cascais na centralíssima e animada Rua Visconde da Luz, ao lado do jardim com o mesmo nome, fui indagar sobre o eminente cascalense que se esconde por detrás do marido traído (para não usar uma terminologia vernacular) por Rosa Montufar Barreiros, amantíssima musa de Almeida Garrett, conhecida pela sua beleza lendária. Afinal não era apenas esse infortúnio que tornara célebre o oficial do exército liberal que nesta vila piscatória construiu uma casa de veraneio e plantou algumas árvores. Dos heróis derrotados dessa guerra civil, em matéria de toponímia sobrou para amostra a Bica d’el Rei D. Miguel, restaurada há pouco ali no Arsenal da Marinha, junto ao rio Tejo.
A verdade é que a maior parte das pessoas é indiferente à origem dos nomes das avenidas, praças, ruas ou fontanários das nossas terras. E no entanto, a toponímia das nossas cidades, vilas e aldeias esconde uma contenda encarniçada que com raras excepções só os vencedores admite, mesmo que eles tenham sido os mais requintados tiranos ou umas completas nulidades.
Está hoje cientificamente provado que o revisionismo de grande parte da toponímia nacional pelos republicanos de 1910 quedou-se como o seu principal legado. Em Lisboa, entre muitíssimas outras renomeações, a Avenida Rainha D. Amélia passou a chamar-se avenida Almirante Reis, o Cândido comandante da revolta que se suicidou espetando um balázio nos miolos dois dias antes da implantação da dita, convencido de que a revolução estava perdida – sem dúvida um grande feito. E temos o pobre Frederico Ressano Garcia, arquitecto das Avenidas Novas em finais do século XIX que dava nome a uma conhecida artéria que rasgava o planalto urbano em direcção ao Campo Grande: o seu nome foi descartado e a arejada avenida forçada a ser da República. Logo ali ao lado, a Avenida António Maria Avelar foi rebaptizada por avenida Cinco de Outubro. Se eu lá morasse tinha logo mudado de casa.
Bem pior é a quantidade de eminências pardas que empestam a toponímia das nossas cidades, como é o caso flagrante de Miguel Bombarda, vulgar psiquiatra e medíocre publicista republicano assassinado por um seu doente em vésperas da revolução de 1910, de que não se lhe conhece obra que se veja mas que bate Luís de Camões, Gil Vicente, Fernando Pessoa ou outra figura pública em qualquer lugarejo deste jardim à beira-mar plantado. Se um marciano aterrasse hoje numa cidade portuguesa pensaria que Miguel Bombarda e Elias Garcia (alguém lhe conhece feito ou obra?) são as mais gradas figuras históricas nacionais.
É curioso como na cidade de Almada se cruzam ruas Catarina Eufémia, Padre Américo, Aliança Povo-MFA, Dr. António José de Almeida, rei D. Carlos, 31 de Janeiro, José Afonso e Padre António Vieira e Sagueiro Maia. Mas a suprema ironia é a história do militante e resistente monárquico Saturio Pires, um bravo da Galiza com papel preponderante nas Incursões Monárquicas e na Monarquia do Norte, que depois do exílio atingiu o final da vida em grande miséria, e foi viver para uma habitação social atribuída por Salazar na… Avenida Defensores de Chaves. Definitivamente o António não era flor que se cheirasse.
Tenho para mim que os nomes de personalidades a atribuir a topónimos deveriam ser submetidos ao crivo do tempo, quer dizer, da história; e as ganas da homenagem dos seus partidários serem contidas por cem anos, ou mais, antes de se tornarem um factor de desvalorização imobiliária, que é o que acontece antes das pessoas comuns se esquecerem quem foi o pilantra com o nome gravado em determinada tabuleta.
Ninguém se incomodará com uma rua Gil Vicente, Rua Alexandre Herculano, Rua Eça de Queirós, Rua D. Pedro V, Praça Luís de Camões ou Calçada Marquês de Abrantes. Entretanto, diante da expansão urbana, deveríamos fazer como os antigos que sabiam dar nomes bonitos partindo do mérito dos próprios locais. Rua da Alfarrobeira, Rua das Gaivotas, Rua dos Mastros, Rua Navegantes, Rua do Poço Novo, Beco das Terras, Rua da Vitória, Rua da Saudade, Rua da Bela Vista, Rua do Alto do Moinho Velho, Rua das Gáveas, Rua da Horta Seca, Travessa da Espera, Rua da Misericórdia, Rua das Mercês ou dos Fiéis de Deus — tudo nomes que irradiam encantamento e que, por isso, estou convencido, têm o condão de ajudar a fazer dos seus habitantes pessoas melhores e mais felizes...

Publicado originalmente no jornal i

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Nem sempre podemos


Seis meses depois, o recuo da extrema-esquerda nas eleições em Espanha é um ténue sinal de esperança nesta Europa crispada e sem norte, em evidentes dificuldades com o ajustamento a uma ordem económica cada vez mais global, que assim se torna pasto das franjas mais demagógicas e populistas.
O facto é que nem sempre “podemos”, e a coligação de radicais liderada pelo lunático Pablo Iglésias perde no seu conjunto mais de um milhão de votos e as forças moderadas exibem uma resiliência notável. Para lá das previsíveis dificuldades do fortalecido Rajoy formar um governo estável, isso é uma boa notícia. 
É sabido como os tempos de crise sempre constituíram uma oportunidade para os extremistas e uma tentação para os alienados. Em Portugal não deveríamos esquecer o sangue, suor e lágrimas que nos custaram os “amanhãs que cantam” emergentes da crise do Mapa Cor-de-Rosa no final do século XIX, cujo delírio deu origem aos mais tresloucados aproveitamentos políticos (como a intenção de se partir para a guerra contra os ingleses com armamento comprado por subscrições públicas).
Desses tempos despontaram impantes os fanáticos “nacionalistas” republicanos, uma virulenta força radical minoritária que dominaria a partir daí a agenda política. Responsáveis pelo assassinato do Chefe de Estado e depois pela messiânica revolução do 5 de Outubro, em 1910 a república interrompeu mais de meio século de aprendizagem da democracia liberal e arrastou o País por dezasseis anos de miséria, terror e despotismo. Foi a oportunidade dada de bandeja a Oliveira Salazar que, em 1928, acabou com o regabofe. 
Acontece que aqui ao lado, no desastrado xadrez da política joga-se muito mais do que uma economia fragilizada, ou a reversão desta ou daquela política. Em Espanha está em jogo a unidade de uma grande potência europeia, que poderá desmoronar pela força dos egoísmos nacionalistas com consequências económicas e políticas inimagináveis. 
Uma vez mais, vivemos tempos perigosos.

Publicado originalmente no Diário Económico

sábado, 14 de março de 2015

Machinas Fallantes

Ou o mistério da invisibilidade da música gravada em Portugal no início do Século XX
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 “Só o fonógrafo, Zé Fernandes, me faz verdadeiramente sentir a minha superioridade de ser pensante e me separa do bicho. Acredita, não há senão a Cidade, Zé Fernandes, não há senão a Cidade!”
Eça de Queiroz, “A Cidade e as Serras”
Imagine que nas arrumações do sótão da casa dos seus avós encontrava um álbum de fotografias de família dos primeiros anos do século XX — a sensação que essa descoberta faria. Agora, imagine que no mesmo sótão encontrava um fonógrafo, ou um gramofone da mesma época, e uns quantos cilindros de Edison ou discos de goma-laca com a gravação das vozes ou cançonetas dos seus antepassados. É um facto geralmente ignorado que a audição de fonogramas e a indústria fonográfica em Portugal deram os primeiros passos na passagem do século XIX para o XX, ao mesmo tempo que a fotografia “caseira” com as máquinas compactas Kodak. De facto, há em Portugal várias décadas de História da música gravada, dos seus produtores e intérpretes, que são anteriores ao cinema sonoro e ao fenómeno Amália Rodrigues.
Machinas Fallantes: A música gravada em Portugal no início do Século XX, coordenado por Leonor Losa e publicado recentemente pela Tinta da China, desvenda-nos esse mundo desconhecido. Trata-se de um estudo etnomusicológico da música gravada em Portugal desde a primeira notícia publicada na revista O Occidente, em Abril de 1878, sobre os fundamentos técnicos do fonógrafo de Edison (um ano depois da sua invenção).
Este livro profusamente ilustrado, acompanhado por um CD com 20 fonogramas restaurados, oferece pela primeira vez para o grande público um inventário de gravações históricas, partituras, catálogos de discos, documentação de empresas discográficas, lojas, lojistas, empresários, artistas, iconografia, anúncios na imprensa, registos de propriedade industrial, etc. São 240 páginas com um grafismo elegante, que harmoniza com eficiência a profusão de imagens e notas com o texto, beneficiando o leitor da intenção da autora se libertar dos jargões próprios da academia (nem sempre bem-sucedida).
Se ainda ao tempo dos mais toscos cilindros de Edison, as primeiras audições de fonogramas foram tidas como “sessões de alta magia”, nos primeiros anos do século XX a implantação em Portugal do som gravado como mercadoria terá sido percepcionada no mainstream como coisa de excêntricos. Essa é a explicação mais plausível para o enigmático “cenário de invisibilidade”, assinalado por Leonor Losa: o absoluto silêncio que as fontes da época devotaram à indústria do disco então nascente, mas a qual, paradoxalmente, era alvo de profusa publicidade paga nos principais jornais e revistas pelos editores de Lisboa e Porto, dinâmicos lojistas representantes das grandes marcas internacionais, que periodicamente enviavam os seus técnicos em missões a Portugal, para sessões de gravação em espaços improvisados.
Sem um inventário fonográfico nacional, a história da implantação da indústria fonográfica foi quase absolutamente ignorada até hoje — porventura por ser considerada “de pequena escala” e por isso pouco relevante do ponto de vista historiográfico, apesar de, como comprova esta notável monografia, o fenómeno ter envolvido um comércio florescente, a adesão de inúmeros artistas, músicos, artistas de teatro e de revista e bandas filarmónicas, cujo absoluto anonimato persistiu.
Quem sabe quem eram cantores/actores pioneiros, com dezenas de peças comercializadas, como Isabel Costa, Duarte Silva, Medina de Sousa, Manassés Lacerda, ou Reinaldo Varella (que terá sido professor de música do Rei D. Carlos)? Talvez, arrisco eu, que os discos desse período tenham sido equiparados aos “rolos” com temas para as pianolas e as “caixas de música”, artefactos mecânicos tão populares nos séculos XVIII e XIX, que também não constam dos “discursos públicos”, nem eram considerados “produtos culturais”.
Para quem nasceu nos anos 1960, em pleno boom da indústria fonográfica — quando a importância dos seus actores, principalmente os artistas, foi reconhecida política e socialmente, alguns quase idolatrados — a irrelevância concedida aos seus “antepassados” revela-se no mínimo incompreensível, mesmo descontando a precária condição do som e a duvidosa qualidade artística de grande parte das realizações. Esse desinteresse é tanto mais de estranhar quanto afinal o fonograma, um pouco como a fotografia, sua contemporânea, constitui uma inestimável fonte primária de época.
Nesse sentido, esta preciosa obra de Leonor Losa destaca-se por colmatar uma grande lacuna, ao ensaiar os primeiros passos no enquadramento biográfico de alguns dos artistas pioneiros desta indústria.
Bem organizado, o livro estrutura-se em três partes principais: começa com a “Implantação do Mercado de Fonogramas em Portugal”, que aborda o impacto das tecnologias em Portugal e as lojas e lojistas pioneiros na constituição de uma economia de mercado local; a segunda parte, “Música Gravada como Prática Social”, aborda a génese das categorias da música gravada (teatro, humor, cançoneta e fado) e o reconhecimento social das “machinas fallantes” que definitivamente não eram chics no país de 1900. Finalmente, porventura a parte menos interessante, porque mais conhecida, incide na industrialização do sector a partir da gravação eléctrica que cresce com o cinema sonoro, os dias da rádio e o nascimento do star system nacional, que estabelece o protagonismo dos intérpretes, enfim o estrelato tal como o conhecemos.
Não posso evitar uma nota sobre o deslumbramento pelo 5 de Outubro de 1910, que a autora expressa em repetidos pontos da obra, e que a leva a associar, sem fundamentos, o advento da actividade e comércio fonográficos à mudança do regime da chefia do Estado, como por exemplo: “a instalação da república implicou a valorização de estratos sociais até então apartados da aristocracia dominante durante a monarquia” (v. pp. 162) ou, dito de outra forma, “Se concluirmos que, nas décadas anteriores, a música gravada fazia parte das práticas sociais de uma classe intermédia, cultural e socialmente diferentes das classes dominantes, não será despropositado associar o reposicionamento social das mercadorias fonográficas ao processo mais alargado de reposicionamento social da classe média urbana no período que sucedeu a implantação da república” (p. 216).
Esta boutade talvez colha créditos de historiadores politicamente engajados como Fernando Rosas ou Fernanda Rollo (comissária das celebrações do centenário da república portuguesa), que Leonor Losa cita recorrentemente, mas estas suposições — estranhas a um trabalho académico — são afinal tão especulativas quanto atribuir directamente a retracção do mercado fonográfico na década de 1910 à constante perseguição à imprensa, repressão dos movimentos sindicais, redução de 70% do eleitorado, violência nas ruas e exclusão explícita das mulheres da vida cívica que a revolução acarretou.
Ao contrário, o que parece mais evidente, do ponto de vista histórico, é que terá sido o imparável processo de decadência da velha aristocracia e a democratização ocorrida na crescente sociedade urbana durante a monarquia constitucional de 1834-1910 a dar lugar a uma renovada burguesia de prósperos industriais, comerciantes e funcionários do Estado. Afinal, em 1900 — quando já prosperavam em Lisboa a Casa Santos Dinis, e no Porto o Centro Phonográfico Portuguez de Ricardo Lemos (p. 37) — morria Eça de Queiroz, que sobre a república havia dito anos antes: «O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa. Mais ainda, nem o pode ter: porque todas as reformas que, como Partido Republicano, lhe cumpriria reclamar já foram realizadas pelo liberalismo monárquico.»
Apesar disso, a edição deste livro constitui, sem qualquer dúvida, um marco. Que inspire outros investigadores, e sobretudo desperte o interesse do público em geral, ou ajude a elucidar mais um curioso como eu, que um belo dia me vi seduzido por este fascinante mundo dos sons antigos, ao descobrir numa arrecadação de família um velho fonógrafo de Edison com dezenas de cilindros de cera, que depois de reabilitado, pôde encantar-me com ecos de ambientes e sonoridades do tempo dos avós dos nossos avós.

Texto original da recensão publicada no Observador

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Regicídio - 107 anos


A Real Associação de Lisboa promove no próximo dia 26 de Janeiro pelas 17h30m no Salão Nobre da Sociedade Histórica da Independência de Portugal uma sessão evocativa dos 107 anos sobre o trágico assassinato de Sua Majestade o Rei Dom Carlos e de Sua Alteza Real o Príncipe Dom Luís Filipe. Nessa ocasião será proferida uma alocução pelo Ten. Cor. João Brandão Ferreira. José Campos e Sousa apresentará a exposição "Monumento Fúnebre d'El-Rei Dom Carlos e do Príncipe Real D. Luís Filipe - Da ideia à inauguração: um ano de mobilização da Pátria reconhecida” e interpretará algumas peças musicais sobre o tema. A exposição estará patente ao público no Palácio da Independência de 27 a 30 de Janeiro, das 15h às 18h.

Pum! Pum!


Eu se apanho algum paivante, Pum! Pum!
Faço-o logo em mil pedaços, Pum! Pum!
Fica em estilhaços no meio do chão…

Se paivante é na gíria um sinónimo de cigarro, esse era também o nome depreciativo dado pelos revolucionários aos monárquicos que, inconformados com o golpe de 5 de Outubro, decidiram seguir Paiva Couceiro, o carismático militar que se veio a afirmar como líder da resistência monárquica no projecto político-militar restauracionista. Desse combate apenas viria a desistir aos 76 anos quando o Estado Novo o condenou ao último de vários exílios. Esta é uma canção satírica de cariz político republicano, intitulada “Republicana”, gravada entre 1911 e 1914 em Lisboa para a editora alemã Odeon.

Publicado originalmente aqui 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

5 de Outubro de 2014

  ... pena que tenha decorrido na clandestinidade, que é o que acontece quando se comete a imprudência de não convidar o Marcelo Rebelo de Sousa, o Mário Nogueira ou o António Costa. Assim ficou assinalado mais um 5 de Outubro: foram largados 871 balões, correspondentes aos 871 anos passados sobre o Tratado de Zamora. Parabéns Portugal. 
Ver aqui galeria de fotos

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Partido Democrático Republicano

Espera-se que esta sinistra invenção revivalista do Partido Democrático Republicano a relembrar-nos o tirânico Afonso Costa não inspire o renascimento de alguma "União Nacional". Esta ideia peregrina de Marinho e Pinto a ser apresentada justamente no dia 5 de Outubro, não sendo pura má-fé, reflecte uma profunda ignorância da história e do significado das suas mais funestas metáforas.
Imagem daqui

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Os "princípios Republicanos"


Sarkozy disse, a propósito da sua detenção para averiguações sobre presumíveis crimes, que nunca cometeu "um acto contrário aos princípios republicanos". Pois não. Não mentiu. Ao invés, os republicanos agem, sempre, tal como ele, Giscard, Chirac, Mitterrand (por cá, nem vale a pena citar nomes), de acordo com os "princípios Republicanos"!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

República e o analfabetismo


D. Carlos Visita lyceu Passos Manuel.jpg

O número de escolas primárias em funcionamento, que subira de 4.665 em 1901 para 6.412 em 1911, continuava em 6.750 em 1918. A taxa de escolarização, depois de aumentar de 22,1% para 29,3% entre 1900 e 1910, quase estagnou até 1920 (30,3%). Entre 1911 e 1920, o analfabetismo na população maior de 7 anos recuou apenas de 70,2% para 66,2%, isto é, desceu menos que entre 1900 e 1911.


História de Portugal
Coordenação Rui Ramos
A Esfera dos Livros 2009

Anticlericalismo republicano

Afonso Costa anti-católico

O número de padres ordenados por ano nunca diminuiu (cerca de 50 entre 1910 e 1930. Em paróquias como as de Lisboa, desenvolveu-se um Catolicismo mais rigoroso e participado pelos fiéis, com a generalização da prática da homilia e da catequese. (…) Como em França, emergiu uma nova elite de intelectuais crentes, alguns deles antigos ateus, prontos a fazer literatura a partir a sua conversão, como o ex-anarquista Manuel Ribeiro, com o romance “A Catedral” (1920).

História de Portugal
Coordenação Rui Ramos
A Esfera dos Livros

2009

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Revisonismo



Um dos poucos indiscutíveis atributos dos republicanos de 1910 foi o voraz revisonismo de grande parte da toponímia nacional como arma de propaganda política. Eis aqui um exemplo paradigmático que me chegou pela mão do meu amigo Lopo Maria Albuquerque.

sábado, 5 de outubro de 2013

5 de Outubro - 5 polícias de intervenção . O dia pôdre da nação




Um "manifestante" anti-governo-mas-pró-fôsgasse-situacionista do regime pôs a mão no carro da "República" e caíram-lhe em cima uma mão de agentes especiais. Coitado. Já nada é como há 105 anos. Os que assassinaram o chefe de estado Carlos de Bragança, em 1908, foram uns heróis, hoje, no orgasmo da República "igualitarista", não se pode nem por a mãozinha, doce e terna, no carrinho do veículo que transporta o representante da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

O dia 5 de Outubro será sempre um dia pôdre. O dia em que a legitimidade da nação portuguesa foi posta em causa por uma escumalha de cidadãos que, embebecidos por uma noção putéfia de "revolução", quiseram acabar com o país público para imporem um país privado (de uns, poucos) acorrentado por uma ideologia anti-natura da génese portuguesa, que sonega e maquilha o passado a bel prazer da revisão histórica, das minorias dominantes.

O dia 5 de Outubro, também, é o "Dia dos Covardes", e distraídos, que se calam perante a ignomínia que nos resvalou até o que somos hoje.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Da história do feminismo em Portugal

"O génio da liberdade alimenta-se mais dos nossos costumes que do vigor das nossas leis"
(José Joaquim Lopes Praça 1844 - 1920).



A propósito de um trabalho sobre a história do feminismo que tenho de momento em mãos, aqui vos deixo um pedaço da nossa história menos conhecida, talvez porque não serve os propósitos de propaganda que como se sabe tem de corresponder a uma narrativa estereotipada e linear.  
A história das causas feministas em Portugal só por falta de “massa critica” não recua para muito antes do Portugal constitucional, e a parte mais conhecida cinge-se aos escritos e intervenções das (desiludidas) militantes republicanas do inicio de Século XX, Carolina Beatriz Angelo, Ana de Castro Osório e Maria Veleda. Mas acontece que pedido de concessão do direito de voto às mulhe­res foi oficialmente feito pela primeira vez em Portugal, no dia 22 de abril de 1822 por Domingos Borges de Barros (na imagem), na sessão das Cortes Gerais, Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa, quando o deputado representante da Baía, propôs que as mães de seis filhos legítimos (!) pudessem votar nas eleições.
Aqui partilho um pequeno excerto do discurso do tribuno mais tarde “nacionalizado” brasileiro: “Ninguém tem mais in­teresses e apego a um país do que aquele que possui nele mais caros objectos, e ninguém mais atendido deve ser de uma Nação do que aquele que mais lhe presta: a mãe que tem seus filhos em um país, é sem dúvida, quem mais interesse, e apego por ele tem; e ninguém dá mais a uma Nação do que quem lhe dá os cidadãos: sendo como são estes princípios de suma verdade, temos que à mãe de família se não deve negar o direito de votar naqueles que devem representar a Nação. Não têm as mulheres defeito algum que as prive daquele direito, e apesar do criminoso desleixo que muito de propósito tem havido em educá-las, por isso que o homem mui cioso de mandar, e temendo a superioridade das mulheres as tem conservado na ignorância, todavia não há talentos, ou virtudes em que elas não tenham rivalizado, e muitas vezes excedido aos homens;” (…) “A Nação portuguesa que tanto se tem distinguido, eu quisera que em si fizes­se sobressair o amor filial, e que nós não negássemos a nossas mães, o que concedemos aos nossos assalariados; nem levados de prejuízos, o duvidemos fazer pela novida­de que a preposição parece encerrar. No estado de New Jersey, nos sete primeiros anos da sua independência, as mulheres votaram nas eleições, e confessam os America­nos que votaram sempre muito bem, confessam que torna ainda mais pecaminosa a cabala, e o partido que fez alterar, sem razão mais que o repreensível ciúme e amor de mandar nos homens, aquele tão louvável arbítrio que tinham tomado homens justos, e conhecedores do cora­ção humano. Por todas estas razões concluo, que quando a todas as mulheres que tiverem os requisitos que a lei exigir não for concedido votar nas eleições, ao menos te­nham esse direito as mães de seis filhos legítimos.”

In A Concessão do Voto às Portuguesas - Breve Apontamento de Maria Reynolds de Souza, Colecção Fio de Ariana – CIG, Comissão para a Igualdade de Género 2006

sexta-feira, 26 de julho de 2013

A Rainha D. Amélia e o livro de José Alberto Ribeiro

A Rainha. Novecentos anos de história deram a Portugal o tempo necessário para a manifestação de personalidades hoje totalmente esquecidas, mas nem por isso menos determinantes para a afirmação internacional do país que somos. Em períodos onde pesou de sobremaneira o perigo da ocupação estrangeira, o país contou com mulheres exemplarmente exercendo a regência. Na sua grande maioria estrangeiras, cumpriram a função da qual dependia a independência de Portugal. Este é o caso de D. Luísa de Gusmão, talvez a soberana que mais perigos enfrentou durante a sua chefia do Estado, colocando Portugal acima de quaisquer considerações familiares e da sua pátria de origem. No hoje quase obsessivo assunto da assistência social, as rainhas portuguesas marcaram indelevelmente a atenção votada pela Coroa aos mais desprotegidos, em épocas onde a vileza do homem era sobretudo considerada pelo extracto, o berço - ou a ausência deste - onde tinha nascido. A lista é longa, contando-se a Rainha Santa Isabel, D. Filipa de Lencastre, D. Leonor, D. Estefânia e D. Maria Pia, entre aquelas que a memória popular não deixa esquecer. Contudo, quando nestes tempos convulsos alguém se refere à Rainha, a personalidade citada é incontornavelmente D. Amélia. Talvez por ter sido aquela que mais próxima de nós está pela contagem das gerações - as nossas bisavós tiveram-na como referência quotidiana num país constantemente à beira do abismo -, será uma verdade reconhecermos a sorte de podermos reconhecê-la de imediato. Existem milhares de fotografias de D. Amélia de Orleães e mesmo que assim não fosse, restava-nos a grandeza da obra que abnegadamente ergueu num país preocupado com umas tantas pequenezes que insistentemente devoraram todo o século XX e, num misto de mania e teimosia, prosseguem na senda dissolvente da nossa própria - se é que ainda existe - consciência nacional. D. Amélia sintetiza a saudade de muitos portugueses pela Monarquia, significando uma grandeza quase assustadora neste Portugal dado a gente timorata quanto à adopção das novidades, por muito evidentes e benfazejas que estas sejam. Além dos já clássicos autores seus contemporâneos, pelos politicamente rancorosos considerados como desdenháveis panegiristas, poucas biografias de D. Amélia, a Grande, podem ser consideradas como obras fiáveis e distantes das paixões, ódios ou meros intuitos comerciais à semelhança das revistas de um mundo alegadamente cor de rosa e sem qualquer substância. Ler mais aqui

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Monarquia e democracia

(...) A I República foi um regime de partido único. Não foi um regime inclusivo, não foi o chão comum constitucional e democrático para todas as facções. Pelo contrário, foi o veículo que uma facção usou para humilhar as outras facções. Se querem comparar, comparem a I República com o Estado Novo e a nossa III República com a Monarquia Constitucional.  Sim, o regime mais parecido com a nossa democracia é a Monarquia Constitucional. Não por acaso, os poderes do Presidente são parecidos com os poderes do Rei. Tal como o monarca, o Presidente é o árbitro do regime. Tal como o Rei de outrora, o Presidente de hoje tem poderes vastos mas imprecisos, poderes demasiado dependentes do perfil pessoal do detentor do cargo. Na minha modesta opinião, esta imprecisão foi uma das causas da queda do constitucionalismo monárquico em 1910. Como será agora?

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/e-ridiculo-comparar-a-i-republica-com-esta-iii-republica=f821003#ixzz2ZObeciCa

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Hoje, às 20h30 vou à mercearia


O Presidente da República fala e o melhor lugar para se estar é na mercearia! Na minha mercearia, que só fecha depois das 21h00, eu compro o que quero, escolho com o meu tacto e com a minha experiência, regateio o preço, não compro gato por lebre, não me metem no saco o que não pedi e, principalmente, ninguém me obriga a lá voltar ou a estar "fidelizado" com o argumento que é a coisa melhor e mais moderna. Na minha mercearia não compro barretes e as horas – a permanência – que somam as nossas vidas, são dadas pelo pequeno mas belíssimo relógio redondo, que, por acaso em cima do congelador, nos oferece o tempo decorado com uma bandeira azul e branca e o brasão de armas de Portugal.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

terça-feira, 7 de maio de 2013

Presidência da República, um vício caro

A propósito da investidura do Rei Guilherme Alexandre dos Países Baixos, aqui estão os meus comentários sobre a questão do regime de chefia de Estado no noticiário das 20,00hs do Correio da Manhã TV do passado Sábado, dirigido por João Ferreira e com a participação de Aberto Miranda da revista VIP.