Quase no final deste ano de frenesi comemorativo, que resultou em centenas de laudatórios livros de luxo (repare-se que a diferença entre luxo e lixo é apenas de uma vogal), julgamos ser já possível atribuir o prémio da pior edição pró-republicana. Trata-se, segundo a nossa opinião, de Tudo o que sempre quis saber sobre a Primeira República em 37 mil palavras, do sociólogo Luís Salgado de Matos. A obra foi editada pelo Instituto de Ciências Sociais, com o patrocínio da Comissão do Centenário. É um pequeno manual sobre como amar a I República em 10 passos. Lidas as 37 mil palavras, concluímos que a Primeira República foi um dos piores períodos pelo qual já passaram Portugal e os Portugueses, mas é isso que torna aqueles dezasseis anos tão especiais e tão importantes. A um determinado momento, o autor presenteia-nos com esta pérola justificativa: segundo ele havia violência entre 1910 e 1926 porque toda a gente era violenta, porque os pais batiam nos filhos e isso era normal. Para Luís Salgado de Matos, a bandalheira é um estado de espírito republicano, portanto. Bem haja às cátedras em que se sentam autores como este. Desconfio que depois do Estado do Estado, do Estado da Justiça, e do Estado da Democracia, a Sociologia deve ser um dos caminhos mais rápidos para a ruína deste país.
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segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Aqui del Rei! em tempo de república.
Não há muito a acrescentar a esta carta, enviada ao presidente da república, Manuel de Arriaga, em 1911. Apenas que podia ter sido escrita em 2010.
(Sublinhados nossos)
MATOS, Sérgio Campos, introd. e FREITAS, Joana Gaspar, colab. - Correspondência política de Manuel de Arriaga, volume I. Lisboa: Livros Horizonte, 2004, p. 371.
(Sublinhados nossos)
A vós me dirijo senhor, como chefe desta nação bem digna de melhor sorte!
Fez ontem um ano que existe neste país a República e de então para cá só desenganos! Que dirão aqueles (como eu) que julgavam que em se mudando o regime, que haveria honestidade e liberdade! Puro engano!! Quem foi republicano convicto deve corar de vergonha e decerto não julgava que houvesse tanto heroi republicano de barriga. Se há ainda quem defenda a república é por capricho porque come à mesa do orçamento.
Mas comei lobos famintos!
Houve na verdade nos últimos anos da monarquia cenas escandalosas, mas decerto com o decorrer do tempo ao passo que a República com um ano de existência está ainda muito pior nos exemplos de administração.
Para onde caminhamos?
Pelas ruas não há respeito entre os elementos da classe civil. As autoridades não são respeitadas tudo é carbonários e voluntários!!! No exército não há disciplina e na marinha ainda pior; a organização do exército foi um saque à nação; só assim se explica como se promoveram capitães, com 2 anos de subalterno, como se o país necessitasse de tanto oficial que só serve para receber o salário e passear; como se não se soubesse que tudo isto é um cancro para o país e como a organização obedeceu simplesmente para promoções escandalosas etc etc.
Haveria ordem se houvesse respeito.
Haveria trabalho se o exemplo viesse de cima e os próprios ministros (do governo provisório) dessem o exemplo e não anexassem em altos cargos toda a Ex.ma família.
Haveria Liberdade se cada um dicesse [sic] o que sente. O povo não estava convocado para a república e os grandes republicanos só tinham era inveja de não comer. Não tenho habilitações para melhor me exprimir, mas no intanto [sic] dá vor de gritar: aqui del-Rei!!
Lisboa, 6/10/911
MATOS, Sérgio Campos, introd. e FREITAS, Joana Gaspar, colab. - Correspondência política de Manuel de Arriaga, volume I. Lisboa: Livros Horizonte, 2004, p. 371.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Cá se fazem, cá se pagam...ou da inutilidade de um regime.
«E ouçam V. Exas. Em Dezembro de 1914 estava no Poder um governo saído do Partido Democrático, governo presidido pelo Sr. Vítor Hugo de Azevedo Coutinho e de que eu tive a honra de fazer parte. Contra êsse partido, contra êsse Governo levantou-se a mais feroz guerra por parte dum partido constitucional da República, o Unionista, acusando-se o Sr. Dr. Manuel de Arriaga de ser parcial para com aquele partido. O Sr. Dr. Manuel de Arriaga numa conversa que teve comigo - e desde que se trata duma conversa política, ela pode ser divulgada - disse-me estas palavras: - "Que querem êstes homens que eu faça? Atacam-me como foi atacado o rei Carlos! Esta lei maldita (era assim que êle denominava a Constituição) não deixa fazer nada!"»
Palavras do deputado Barbosa de Magalhães (Ministro da Justiça no governo dos Miseráveis, que durou um mês entre Dezembro de 1914 e Janeiro de 1915), acta da sessão de 30-07-1919 da Câmara dos Deputados da República Portuguesa.
Palavras do deputado Barbosa de Magalhães (Ministro da Justiça no governo dos Miseráveis, que durou um mês entre Dezembro de 1914 e Janeiro de 1915), acta da sessão de 30-07-1919 da Câmara dos Deputados da República Portuguesa.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
João Paulo Freire - um jornalista atento

A I República foi uma história de voos curtos e em múltiplas direcções. De espertalhões. E da indiferença da quase totalidade da população. Só assim se percebe porque meia dúzia de fanáticos conseguiram durante 16 anos impor a sua vontade e guerrearem-se entre si na maior impunidade. Até que o descalabro atingiu os portugueses na sua vidinha e a ditatorial República seguinte por cá se deixou ficar durante meio século.
João Paulo Freire (Mário) foi um jornalista dessa época. Eis o seu testemunho (in «O Livro de João Franco Sobre El-Rei D. Carlos» - 1924 - pág. 79):
«Tenho assistido há vinte e dois anos a todas as manifestações e zaragatas que se têm produzido em Lisboa. Com raras excepções, a massa anónima é quase sempre a mesma, com os mesmos excessos e os mesmos entusiasmos. Assisti por exemplo ao enterro de Sidónio Pais. Duzentas mil pessoas acompanharam o féretro. Foi um espectáculo impressionante. Numa das ruas do trajecto uma voz partindo de cima de um telhado deu um viva a Afonso Costa. Foi um momento de pavor. Havia chispas de ódio no olhar da multidão e se o entusiasta que soltou o viva fosse apanhado linchavam-no. Quarenta e oito horas depois a maioria dos manifestantes tinha-se já voltado para o sol nascente! Mas recordo-me que algumas das caras que vi no enterro de Sidónio as tinha visto já nas bárbaras e canibalescas manifestações contra aqueles eclesiásticos que em 1911 desembarcaram, presos, na estação do Rossio e que chegaram ao forte do Alto do Duque com os cabelos e as barbas arrancadas»
Etiquetas:
1.ª República - a instabilidade
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