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sexta-feira, 29 de maio de 2009

Grande estreia em televisão… “Anthero – O Palácio da Ventura”, dia 1 de Junho às 21h45

Um trabalho com a assinatura do realizador José Medeiros
Uma equipa de televisão roda em várias localidades do país (S. Miguel, Coimbra, Vila do Conde, Lisboa) um filme inspirado na vida e obra do Poeta e Filósofo Anthero de Quental.

Para Pedro K, o Realizador, a vida e a morte do Poeta serão encenadas pelo olhar de um Grupo de Saltimbancos e pelo testemunho de algumas das personalidades que o conheceram melhor: Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Teófilo Braga e sua irmã Ana Quental, cujos pontos de vista, por vezes contraditórios tentarão desvendar alguns dos enigmas que assombraram a atormentada existência de Athero e as completas razões que o levaram ao banco onde, sob a âncora da Esperança, o Poeta descreveu na vida e se suicidou.

A rodagem decorre com as dificuldades inerentes a uma produção de baixo orçamento, mas sem grandes sobressaltos. No entanto para Pedro K este trabalho é mais do que um filme, é uma viagem aos “misteriosos sinais do seu código genético”…

“Anthero – O Palácio da Ventura”, uma obra com argumento de José Medeiros e André Medeiros Palmeiro, baseado num esboço de Vasco Pereira da Costa, imagem de José Fontes, edição de Bruno Correia, direcção de fotografia de Carlos Azevedo, produção de Emanuel Macedo e música e realização de José Medeiros.

Fonte : http://ww1.rtp.pt/acores/?article=8686&visual=14

sábado, 23 de maio de 2009

O Anti-Republicanismo de Antero de Quental - Parte 1




A União Democrática Portuguesa nunca chegou a conhecer a luz do dia, extinguindo-se, como projecto, naquele ano de 1873, possivelmente em Abril, na sequência das divergências programáticas assinaladas. No entanto, a sua finalidade última continuará presente nas opções imediatamente posteriores do poeta, sobretudo nos seus esforços para impedir o avanço das ideias colecti vistas, para bloquear o crescimento do republicanismo e para convencer as classes laboriosas de que a mera mudança de regime não acabaria com as injustiças sociais. Assim, em Julho de 1873, voltava a defender ser urgente lançar as «bases do verdadeiro partido republicano-socialista, zurzindo entre tanto sem piedade as seitas tolas e visionárias, os declamadores chatos e a corrupção geral». E isto porque, em sua opinião, o pior que poderia acontecer era que «os declamadores e os pulhas que actualmente constituem a quase totalidade do grupo republicano» 787 lograssem conquistar o povo português.

Este anti-republicanismo não surpreende. Já em Março de 1873, isto é, na conjuntura em que se procurava lançar a União, receava que os «republicanos lunáticos» (nome por que era conhecido um grupo que, liderado por Oliveira Marreca, se reunia no Pátio do Salema) tivessem conseguido captar o apoio de Alexandre Herculano para um acto eleitoral: «Escrevo à pressa», noticiava a Martins, «por isso só sumariamente lhe direi que o Herculano, saindo da con cha agrícola [isto é, de Vale de Lobos], está entusiasmado por uma grande reforma, toda municipal, com bases democráticas (!) e, quanto posso conjec turar, a vinda dele agora a Lisboa tem talvez por fim entender-se com Marreca e c.a (que tratam de formar partido republicano) para esse fim788.»


Mas esta vigilância começou a dar um maior relevo aos movimentos da corrente federalista, onde, de um modo mais consequente, o radicalismo político se juntava ao positivismo e ao moDismo naturalista. Compreende-se. Este sector integrava Teófilo Braga e alguns antigos companheiros de Antero, e era o que tinha mais pretensões reformistas. Em 22 de Junho de 1873, criou o Centro Republicano Federal de Lisboa e lançou o jornal O Rebate, cujo primeiro número (29 de Junho) inseria o respectivo programa. O paladino da União Democrática Portuguesa reagiu imediatamente, acusando a iniciativa de querer caçar no seu próprio terreno. Daí O teor deste desabafo, feito ao amigo e confidente Oliveira Martins: «Envio-lhe o primeiro número dum jornal do Teófilo, que me mandou o [José] Fontana. É um documento! Que programa!, tiraram ao acaso frases do nosso e amalgamaram-nas com asneiras da própria lavra. Veja também o artigo de fundo, espécime Teófilo tout puro tolo e malévolo. Lá se insinua que os homens da evolução (somos nós) são meros sedentários e inactivos... Que diz a isto?, e que lhe parece duma república feita por esta boa gente?» 789
Com efeito, sob o entusiasmo da revolução espanhola e com a vis jacobina que alimentava o movimento, o articulista anónimo - Teófilo, segundo Antero - escrevia: «Temos porém um equívoco em que laboram os homens de boa-fé [referência a Antero e a Oliveira Martins], sedentários e apáticos: não poderá ser substituída a revolução pela evolução?» E a esta pergunta respondia, com os olhos postos na denúncia dos que desvalorizavam da questão do regime: «Não podemos opor às instituições anacrónicas, que ainda subsistem, a simples inércia da evolução. É preciso alguma coisa de mais forte; depois que se examinou a nau e se reconheceu que não estava capaz de navegar, em vez de deixá-la apodrecer sobre a areia meta-se-Ihe o machado e utilize-se o que tem préstimo para outros fins. É este processo lógico o que se chama revoluçã079o.»
A pedra-de-toque entre o republicanismo e o socialismo começava a tomar -se evidente. E, no terreno dos acontecimentos, Antero sentia-se aliviado com o facto de o exemplo de Castelar e de Pi y Mar~all não se ter propagado a Portugal. Mas isso não afastava os seus receios. E que, como escrevia, ainda em 1873, «o pior que nos pode acontecer é sermos amanhã república. Seria um 48, mas sem o talento, o entusiasmo, o idealismo do outro; um 48 chato»791. Saudava, por isso, a rápida passagem do «arrepio causado pela proclamação da república em Espanha»792. Mas, em sua opinião, o facto de, nos centros republicanos, não se encontrar «um homem nem uma ideia»793 tomava o movimento antidinástico ainda mais perigoso.
Este procedimento crítico foi-se definindo a um ritmo tal que, em Setembro de 1873, congratulava-se com a circunstância de a «fantasia republicana» estar «desfeita de todo no nosso grupo socialista», dando «por isso muitas graças a Deus»794. Todavia, tinha a consciência de que as suas ideias e acções passadas continuavam a suscitar equívocos quanto à questão do regime. No artigo «A República e o Socialismo» (1873)195 procurou esclarecê-las. O que não bastou, como se prova pelo desenrolar dos acontecimentos. Aquando do banquete comemorativo (25 de Março de 1876) da consolidação da III República francesa, foi convidado para participar no ágape congratulatório. «Sabe que», dizia, em evidente ironia, ao autor da Teoria do Socialismo, «há aqui grande faina de organização e reorganização de partidos: o republicano está finalmente constituído e com gente séria e tende a engrossar. Deu banquete e abriu centro [referência à fundação do Centro Republicano Democrático de Lisboa]. Ora eu fui convidado para o banquete, e não fui ao banquete; convidado para o centro, e não vou ao centro. Sou, pois, grande traidor! Como isto me aborrece e, por outro lado, estou convencido de que todo este radicalismo (os históricos e reforrninhos estão aqui estão republicanos) é absurdo, estéril, perigoso; como, ainda por outro lado, acho que é caso de consciência esclarecer sobre tudo isto os nossos amigos socialistas e preveni-]os contra a propaganda republicana que os trabalha; tomei uma resolução: boto folheto!»

Apesar de, no artigo citado, ter esclarecido o que pensava sobre as diferenças entre o socialismo e a república, sentia não haver sido compreendido. E a ameaça jacobina impunha a necessidade de se quebrar «com os republicanos, e eu estou resolvido a fazê-lo em voltando a Portugal [Antero encontra-se, então, nos Açores). Já esbocei para essa execução um folheto com o título: "Os Republicanos perante a República"». E, referindo-se ao grupo União Democrática Portuguesa, precisava: «urge que ninguém nos tome nem por jacobinos nem por comunistas.» Como não cumpriu aquele desígnio, três anos depois voltou a ele, mas novamente se ficou pelas intenções. Por conseguinte, continuou a sentir a necessidade de «botar folheto», isto é, de explicar à opinião pública como era socialista e por que é que, do «ponto de vista socialista, todos os partidos são estéreis, e como o repub1icanismo hoje e aqui é uma quimera. Digo por uma vez o que penso e saio duma situação equívoca que me incomoda», Fá-lo-ia num opúsculo que se iria intitular O Socialismo e os Partidos. Por razões que se desconhecem, mas que devem estar ligadas ao agravamento do seu estado de saúde e à sua ida para Paris, este texto também nunca conheceu a luz do dia. Em 1878, voltava a reagir contra as más interpretações do seu pensamento político: um pequeno grupo republicano-federalista, ou melhor, republicano -socialista (de Alcântara), propô-lo como candidato pelo círculo 98 (sê-Io-á, no ano seguinte, mas numa candidatura socialista); obviamente que não aceitou, tendo respondido «que achava equívoca a expressão republicano-socialista, e como este equívoco praticamente me parece perigoso, só aceitaria a dita candi datura com o carácter exclusivamente socialista, com toda a reserva da questão política e em completa isenção do movimento republicano actuaL.. Não sei o que pensarão e dirão os republicanos. Talvez seja uma ocasião de me explicar sobre a delicada distinção entre socialista e republicano, e de sair de uma vez por todas dum equívoco que me pesa».

Fonte : Antero de Quental, de Fernando Catroga, Editorial Notícias

O Anti-Republicanismo de Antero Quental - Parte 2

Esse esclarecimento foi feito nas candidaturas seguintes e, em particular, através do lançamento, em 1880, de um manifesto aos eleitores do círculo 98.800 Na verdade, aproveitou a oportunidade para contestar os fundamentos do demoliberalismo, os seus postulados individualistas e as suas nefastas conse­quências, a saber: o parlamentarismo, o empolamento da questão do regime e a secundarização do problema social. Nesta perspectiva, o republicanismo era apresentado como uma ideia política radical e anacrónica, e os seus adeptos acusados de serem <~acobinos declamadores» que, com verbalismo e dema­gogia, encobriam a sua visão conservadora do mundo. Deste modo, a sua propagandeada república mais não seria que - como a III República francesa estaria a mostrar - «a república do capital, assim como a monarquia dos conservadores não é mais do que a monarquia do capital». Este criticismo explicitava posições já expostas em O que é a Interna cional?, no sentido de se ter de dar prioridade à questão social: «A todos os parti dos, a todos os governos, a todos os salvadores fazemos uma só pergunta: e a reforma social? Se nos responderem com negativas ou com evasivas, tê-Ios-emos por inimigos - pouco importa que~se chamem monarquia, constitucionalismo, ou república802.>> Como se verifica, a sua posição de fundo não se modificou com o tempo, antes se precisou e aclarou. E se, em 1871 e nos anos seguintes, o seu ideal de sociedade ainda era identificado pela expressão «república democrática e social»803, crescentemente, os termos foram sendo dissociados. O entendimento da questão do regime à luz da sobre determinação ética e social relegava a dicotomia monarquia ou república para o limbo das coisas secun dárias. Por isso, no citado manifesto, a sua mensagem culminava num apelo directo aos trabalhadores para que não se deixassem enredar na teia daquela querela: «Que temos nós, Proletariado, que ver com essa estéril questão de forma? É uma questão de fanulia entre os membros da burguesia, nada mais.» A resposta republicana não se fez esperar, fosse em livro ou na imprensa.

Por exemplo, o jornal do grupo de Teófilo Braga e Carrilho Videira escrevia (anonimamente): «O Sr. ,Antero de Quental publicou finalmente o prometido manifesto aos eleitores. E um documento curioso e que dificilmente se acreditará que fosse escrito pelo autor das Odes Modernas. Nós tributamos a mais sincera admiração pelo Sr. Antero das Odes Modernas, e por isso custa-nos a crer que o antigo poeta revolucionário escrevesse aquele monstruoso agregado de palavras e frases, com que nada prova a favor do seu socialismo. Faz diversas afirmações, confundindo todos os grupos monárquicos e republicanos, sem apresentar prova alguma do que avança, e chamando burgueses a todos os que não pensam como ele. Que entende o Sr. Antero de Quental por burgueses? Francamente não o sabemos; pois que um grande número dos republicanos é formado pelos proletários, pelos operários que vivem do rude trabalho manual.» E, fazendo uma referência concreta à origem social do poeta e dos seus proventos financeiros, rematava: os proletários republicanos, «para o Sr. Antero de Quental, são burgueses, ao passo que ele próprio, que vive dos seus rendimentos sem trabalhar, como proprietário rico, considera-se como proletário!» e acordo com este anátema, o poeta socialista havia passado de correligionário a inimigo a bater. Em 1876, Carrilho Videira - um dos mais aguerridos activistas do republicanismo federalista - já o tinha apelidado de «grande traidor». Mas, com aquela proclamação eleitoral, os vitupérios atingiram o auge. «Os federais», explicava a Martins, «a quem a existência do socialista incomoda altamente, abriram contra mim uma campanha de insinuações muito tolas, com o fim de me demolirem no conceito dos operários, persuadidos que, demolido eu, acabaria o socialista.>> E estes ataques não se limitavam a contestar o seu pensamento - Teófilo tenta-o na sua História das Ideias Republicanas em Portugal (1880)807 -, mas desciam ao terreno da injúria, pois chegaram a afirmar que, ética e psicologicamente, ele era um «céptico»,«um bocado cínico», que andava a «desfrutar os operários», para se rir «deles com os amigos». E Antero não tinha dúvidas quanto à origem da campanha: todas as atoardas saíam do «laboratório merdoso do Teófilo». Não surpreende este choque directo entre o poeta e os republicanos-federais: estes eram os que mais íntimos contactos mantinham com o associativismo popular (lisboeta) e, no plano doutrinal, eram os mais receptivos à questão social; por outro lado, alguns deles haviam militado com os socialistas. Ora se, antes de 1871, o projecto federalista, ainda que subordinado à solução do problema social, havia seduzido Antero, a sua maior consciencialização acerca dos elos existentes entre as séries (a série económica e a série política), a fundamentação organicista do seu modelo social e a própria lição que ia recolhendo dos acontecimentos fizeram-no rever o entusiasmo federalista e compreender que a questão do regime era de somenos na transformação da vida social. O radicalismo populista daquela tendência seria ainda mais perigoso do que a do republicanismo moderado. Exigia-se, por isso, uma luta sem tréguas contra todas as formas de jacobinismo, imperativo que terá aumentado com as tentativas de unificação do movimento (1876) e com o aparecimento de textos que visavam fundamentá-lo à luz dos ditames da filosofia positivista e do cientismo em geral.

De facto, na segunda metade da década de 70, Teófilo Braga, que já gozava de grande prestígio como intelectual, lançou-se numa teorização apostada em justificar e em unificar o republicanismo português. E, se Antero era visto como o maior ideólogo da corrente socialista, não se estranha que aquele o tivesse escolhido como seu adversário principal, tanto mais que entre ambos existia uma evidente rivalidade no que respeita à liderança de um novo «poder espiri tual» emergente - o poder dos intelectuais.
Fosse em termos sociocráticos (Teófilo), fosse a partir de uma funda mentação ético-metafísica, os intelectuais, reactualizando a ideologia cívica da «república das letras», actuavam como novos deres, ao reivindicarem para si, e geralmente contra a Igreja, um novo poder espiritual, assente na razão crítica e na ciência, e que devia iluminar o poder temporaladequado às sociedades científico-industriais. Isto implicava a redução da política a uma mera arte (de aplicação), prática que, sem a luz dos grandes princípios - que só eles, qual vanguarda, poderiam fornecer -, ficaria nas mãos de uma burguesia medíocre. Porém, neste terreno, por mais antiéticas que tenha sido as suas posições, Antero e Teófilo não divergiam tanto como pensavam. E alguma da animosidade que, a partir de 1872, existiu entre ambos também não é indissociável da luta interna pela hegemonia no interior dessa «república» e do novo poder «intelectual» e «moral» (Renan). Com efeito, se o positivista e republicano criticava o poeta metafísico e socialista (que, para muitos, era o guia espiritual da geração), Antero também não poupava o «merdoso do Teófilo», aplicando -lhe, entre outros epítetos, os de «Dr. Caos»8IO e «Marat de soalheiro»

Fonte : Antero de Quental, de Fernando Catroga, Editorial Notícias

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Antero Quental - Um profeta da República




CONTAM os jornais do Porto que naquela cidade se realizaram imponentes festejos ao ser inaugurada a nova sede doGrupo republicano recreativo Antero de Quental.

Nada, na verdade, mais recreativo do que pôr sob o patrocínio deste altíssimo nome um centro republicano! Eu tenho a vaga desconfiança de que os ilustres membros desta preclara agremiação não fazem ideia muito perfeita das obras e do pensamento de Antero de Quental. Homens de ilustração rudimentar, mal [133 – 134] soletrando alguns as primeiras letras, não venham dizer-me que serão esses os melhores devotos dos Sonetos ou os mais aproveitados leitores do ensaio sobre as Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX.

Se me fosse permitido remover o sentido comum de uma palavra, para dentro dela despertar a antiga significação obliterada, eu diria que Antero foi um matemático, tal como na Grécia se entendeu este vocábulo.

Toda a sua preocupação consiste em apreender as relações entre o homem e a vida. É o enigma da vida que, acima de tudo, o preocupa. Assim a sua poesia traz sempre consigo, como uma chaga sangrenta, a marca abrasada da inquietação espiritual que o consome.

Antero não é grande poeta senão quando tenta ser grande filósofo. E se do filósofo teve todas as qualidades, não lhe faltaram também todos os defeitos. A sua poesia é abstrusa, difícil, deixando as mais das vezes profundamente oculto o seu [134 – 135] sentido íntimo. Não é leitura de agrado para multidões iletradas.

O que em Antero nos interessa, comove e alenta a nossa admiração, não é a palavra encantada, a graça da imagem ou a estrofe colorida. A beleza dos Sonetos  consiste na angústia moral em que se queimou a alma do poeta. Antero soube como ninguém explicar o coração de todos nós, mas não pode conseguir, quase  nunca, que ele, enternecido, batesse mais apressado dentro do nosso peito. A sua imaginação era viva, mas de asas tão curtas que, voando alto, era estreito o voo.

De si mesmo fugia, como se fosse um fantasma. Levado pelo vento de mil desejos impossíveis, não acertava consigo. Turbava-lhe a tristeza a consciência. E a dúvida de todas as coisas, o cansaço de tudo, deixavam-no agonizante nas encruzilhadas do pensamento...

Este lugar é uma trincheira de guerra, áspera e rude, e não se estendem por aqui as sombras sossegadas do jardim de [135 – 136] Academus, onde é gostoso divagar parolando sobre as quimeras da literatura. Desviemos, pois, os olhos para outro lado. E porque não se entende que versos como esses se aprendam para cantar nas tabernas, nem para acompanhar o fado pelas vielas, às latas horas da noite, seria para ver se as intenções políticas e sociais do poeta permitem fazer dele orago em capela republicana, se não viesse o número 29 do ano VIII da Revista de História(publicação louvada pelo Ministério da Instrução Pública em portaria de 9 de Dezembro de 1914) dar à estampa uma carta de Antero de Quental que, desapiedadamente, deita abaixo todas as ilusões sobre o seu republicanismo.

Ofereço-a à leitura da digníssima direcção do Grupo republicano recreativo Antero de Quental, e creio que não lhe será precisa longa meditação para em assembleia geral explicar aos seus veneráveis consócios que é necessário modificar o nome da associação, porque Antero de Quental era um descarado reaccionário!

[ 136 – 137] Por tal modo se preparou a República, que os melhores espíritos, os mais nobres e os mais livres, logo a temeram e detestaram. Eça de Queirós dizia apavorado, negando que Ramalho fosse republicano: “Em política tem-se dito que Ramalho Ortigão é republicano. Nada menos exacto. Ramalho, creio, teme a república, tal qual é tramada nosClubs amadores de Lisboa e Porto. A república em verdade, feita primeiro pelos partidos constitucionais dissidentes, e refeita depois pelos partidos jacobinos, que tendo vivido fora do poder e do seu maquinismo, a tomam como uma carreira, seria em Portugal uma balbúrdia sanguinolenta” (A Renascença); e João de Deus, ferido já o terno coração, escreveu: “Nas obras do Arcebispo de Paris, assassinado por uns carrascos, que não podem pertencer a partido nenhum, e a quem por isso não chamo comunistas, respira-se um ar puríssimo de liberdade, e até diria republicano, se a república, como aí se está apregoando, não nos [137 – 138] estivesse prometendo o mais tremendo despotismo” (A Cruz do Operário).

Antero de Quental deixou ferretado em muitos lugares o seu horror pela “fantasia republicana”, como lhe chamava na carta em que a Oliveira Martins anunciou o aziago folheto sobre a posição de Portugal perante a revolução de Espanha.

Tão inquieto sempre, sempre tão agitado por contrários sentimentos e ideais contrários, era nele constante o empenho de combater os nossos republicanos, - “raça pérfida”, no seu expressivo dizer – e tanto que por certo centro republicano foi oficialmente declarado traidor, e nos jornais do bando, O TrintaA República FederalEmancipação, que Teófilo Braga inspirava, grosseiros insultos lhe cobriam o nome.

“O pior que nos podia acontecer é sermos amanhã república” – anunciava em Julho de 73 ao seu dilecto confidente, o mago evocador da História da República Romana. E acrescentando, com justo conhecimento do comum sentir, [138 – 139] que Portugal não era republicano, advertia que “não o serão os declamadores e os pulhas que actualmente constituem a quase totalidade do grupo republicano quem logre converter o velho desconfiado que se chama o povo português” (Cartas Inéditas de Antero de Quental a Oliveira Martins, pág. 152).

Não se enganou o poeta. As armas afiadas “no laboratório merdoso do Teófilo”, conforme a enojada expressão anteriana, não podiam atingir a alma da nossa gente. A República, imposta por traiçoeiro tumulto, matem-se contra o geral querer, trazendo a nação amordaçada e agrilhoada. O povo repele o regime que lhe esconde o Céu e toma por crimes as suas virtudes.

A ajuntar ao que sabíamos, ei-la, a prometida carta de Antero, dirigida a João Lobo de Moura, íntimo amigo do poeta:

Meu caro Lobo – Pensei que me ia anunciar a sua estada em Lisboa e eis que me diz não saber ainda quando nem se será transferido. Gosto da resposta do [139 – 140] Barjona: tem um merecimento aquele rapaz, que o distingue no meio dos seus sodales; é a franqueza no cinismo; creio que por isso ficará na história do constitucionalismo português como uma espécie de M. de Calonne, sabe, aquele último e cinicamente espirituoso ministro de Luís XVI, que o Michelet nos descreve empurrando alegremente para o abismo a velha monarquia.
independência  de ordem jurídica no actual regime é uma coisa engraçadíssima. Mas quê, meu caro, o regime que está para vir, com a gente que o prepara, ainda nos há-de mostrar coisas mais bonitas. V. Faz lá a ideia dos republicanos portugueses! Tive ocasião de os tratar de perto este ano, e declaro-lhe que quase lhes fiquei preferindo o próprio Barros e Cunha, o próprio Melício, o próprio Santos Silva! Sabe V. Quem é que está hoje sendo um dos grandes repúblicos em Lisboa? Adivinhe... o Teófilo Braga! Redige um jornal intitulado O Rebate(traduza Le Rappel) em cujos artigos de fundo desenvolve o homem todos os recursos do estilo colhido nas antigas leituras do Piolho Viajante. Fala nesta choldra e outras amenidades de linguagem, e propõe-se enforcar toda a gente, começando desde já por enforcar a gramática, o senso comum e a decência. É uma espécie de Marat de soalheiro, que faz rir mas enoja, e enoja tanto mais quanto é lido, o que nos dá a medida da capacidade intelectual e moral do público republicano. Creio que teremos a República em Portugal, mais ano, menos ano; mas, francamente, não o desejo, a não ser num ponto de vista todo pessoal, como espectáculo e ensino. Falam de Espanha com desdém – e há de quê – mas eles, os briosos portugueses, estão destinados a dar ao mundo um espectáculo republicano ainda mais curioso; se a república espanhola é de doidos, a nossa será de garotos.
A grande revolução, meu caro, só pode ser uma revolução moral, e essa não se faz dum dia para o outro, nem se decreta nas espeluncas fumosas das conspirações, e sobretudo não se prepara com publicações rancorosas de espírito estreitíssimo e ermas da menos ideia prática. Quando nós virmos o Peniche e o Valadares, e o Teófilo e o Bonança ministros duma revolução compreenderemos tudo isto...
Mas alto! Isto não é artigo de fundo!....
...........................................
do c.
Antero

São suficientemente claros os termos desta carta, e até tão vivos por vezes, que juntar-lhe comentários seria apenas demorar a sua lição.

Quem procurou esmiuçar os escritos de Antero de Quental ou leu o exaustivo estudo crítico de António Sardinha, conhece a influência que sobre o espírito do poeta exerceram as doutrinas de Proudhon, a ponto de, escrevendo a Oliveira Martins, se chamar “arcade proudhoniano”.

[142 – 143] Ao terminar a carta, da qual apenas transcrevi a parte política, Antero declara ter relido ultimamente o famoso capítulo de Proudhon sobre a morte e que ele lhe fizera acudir ideias bastantes para compor com elas umaFilosofia da Morte, no gosto dos tratados de Séneca e de Cícero, mas com mais profundidade.

Confessando assim, incidentalmente, as repetidas leituras de Proudhon, Antero de Quental enchia de luz as linhas da sua carta. Ao dizer que a grande revolução necessária só pode ser uma revolução moral, Antero reconhecia que governar não é lisonjear as paixões do povo – é acordar as suas virtudes, fortalece-las e apoiar-se nelas.

Antero, cujo individualismo extreme podia ser servido para o encerrar na orgulhosa solidão dos ultra-românticos, tornou-se, debaixo do magistério de Proudhon, duro inimigo das ideias e dos sentimentos que deram alma e corpo à Revolução Francesa.

Quando se cuidava que as doutrinas de Rousseau eram um dogma intangível, [143 – 144] Proudhon, arredando de si as sugestões do tempo, escrevia contra elas a mais mordaz e penetrante crítica que o século XIX produziu. É sob a invocação de Proudhon que, para estudar os problemas da economia moderna e da filosofia da história, se juntam hoje, em França, na mesma sala, os escritores monárquicos e os doutrinadores sindicalistas. Os seus métodos de exame e os seus argumentos variam segundo a origem intelectual dos que ali se reúnem, mas idêntico pensamento os prende a todos: a crítica e o combate à democracia [parlamentar].

Admiravelmente descreveu Proudhon a grosseira máquina democrática dizendo que ela era un système politique, invente tout exprès pour le triomphe de la médiocrité parlière, du pédantisme intrigailleur, du journalisme subventionné, exploitant la réclame et le chantage; où les transactions de conscience, la vulgarité des ambitions, la pauvreté des idées, de même que le lieu commun oratoire et la faconde académique, sont des moyens assurés de succès; ou la contradiction et l’incon- [144 – 145] séquence, le manque de francise et d’audace, érigés en prudence et modération, sont perpétuellement à l’ordre du jour; un pareil système se refuse à la réfutation; il suffit de le peindre. L’analyser ce serait le grandir et quoi que fit le critique, en donner une fausse idée” (Contradictions politiques, pág. 222).

Como Proudhon, Antero de Quental é um mestre da contra-revolução sempre que se mostra liberto dos encantamentos de Michelet. Manter o seu nome na tabuleta dum centro republicano, é vergonhoso testemunho da mais rotunda e pedantesca ignorância.

Se querem, porém, conservar o título glorioso de Antero de Quental lá nessa “fumosa espelunca” do Porto, como ele chamava a semelhantes casas, não esqueçam então de escrever, à laia de divisa, no salão de festas, por cima da cadeira da presidência, aquelas palavras proféticas da sua carta: - “A nossa república é de garotos”.

Luís de Almeida Braga in Sob o Pendão Real, Lisboa, Edições Gama, 1942, pp. 133-145.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

RES PUBLICA - O anti-republicanismo de Antero de Quental

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«O pior que nos pode acontecer é sermos amanhã república .»
ANTERO DE QUENTAL, Cartas

Numa época em que se pretende enunciar os princípios republicanos e socialistas como sendo partes naturalmente integrantes do mesmo edifício político (com manifesto abuso, diga-se desde já), urge como nunca explanar em traços necessariamente céleres, condenados à aridez da simples enunciação, o que foi o desavindo percurso perpetrado por cada dessas escolas ideológicas nascidas sob o úbere pendão das ideias filosóficas posteriores ao ultimo quartel do século XVIII mas que não são - longe disso- definíveis uma pela outra. " Em Portugal» republicanismo e socialismo entram de mãos dadas, embora tardiamente,- com um século de atraso em relação à Europa. Os mais directos responsáveis pela sua introdução no tecido intelectual português, assinalaram o feito com um ciclo de conferências que ficou exactamente conhecido por Conferências do Casino ( 1871).

Antero, o maior vulto dessa novel escola política (socialista e republicana), secundado por alguns mais, cedo se aperceberia da natureza autónoma do ideal do regime e a do sistema político-económico almejado, e bem assim da necessidade de separar as águas adscritas a um e a outro.


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Teófilo Braga

Assim, a clivagem república/socialismo pode ser consubstanciada na disjunção Teófilo Braga/Antero de Quental e verifica-se «a partir do momento em que a Geração setecentista divide o seu caudal, separando-se em dois leitos distintos, o do Partido Socialista (fundado em 1875) e o do Partido Republicano (fundado um ano depois)'»

Ê assim que ainda mal nado, o socialismo português se divorcia do republicanismo e enceta uma clara aproximação ao até aí combatido regime monárquico.

Esse divórcio era ditado pelo mesmo Antero em carta dirigida a Oliveira Martins:

«A fantasia republicana está desfeita de todo o nosso grupo socialista e dou por isso graças aos deuses.É necessário, de toda a necessidade, que quebremos com os republicanos e eu estou resolvido a fazê-lo»(2).

Logo a seguir, declarava a sua «completa isenção «do movimento republicano»(3). Em 1885, o seu descrédito nos decantados benefícios da instituição republicana para suprimento das minguas económicas e sociais do País, vai mais longe:

« (...) Está iminente a bancarrota e uma tremenda crise social; a proclamação da Republica não só não remediaria esses grandes males (...), mas trazia uma complicação e elemento de desordem, como ainda em 1873 se viu em Espanha»(4)


Oliveira Martins, plumitivo de credo monárquico, infatigável teórico da conciliação da doutrina [e] robustecimento do Poder Real com um Socialismo de Estado (5) ,seria a mais bela expressão dessa nova aliança entre o ideário socialista temperado e o regime sete vezes secular. Mesmo depois de ter passado fugazmente pelas esferas do poder, onde o seu sonho de reconstrução nacional esbarrou no imobilismo de um constitucionalismo aferrado e inerte, não cedia a confusões, depois de namorado pelos republicanos para seu deputado pelo Porto:


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Oliveira Martins

- « E quem lhes disse aos senhores, que sou republicano? Não sou, sou socialista..» E acrescentava: «República,anarquia e Castela»(6).

E se assim era no plano intelectual, também na esfera da acção política se verificou a dissensão, acrescida da perseguição que os republicanos começaram a. mover aos movimentos socialistas e sindicais. Em 1885, o Partido dos Operários Socialistas de Portugal acha-se ferido de morte, e mau grado Azedo Gneco tivesse fundado o Partido Socialista Português (1895), e tendo adoptado por estratégia de sobrevivência uma aproximação aos republicanos em 1901 , depois de controvérsia (Luís Figueiredo opôs-se terminantemente e o rompimento definitivo da-se em 1907), o sucesso da táctica era impedido por «uma forte desconfiança.em relação ao Partido Republicano», como escreve António Ventura (7).

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Azedo Gneco discursa

Com a fundação do Partido dos Operários Socialistas de Portugal recrudesce e ganha contornos inauditos de animada aversão o combate aberto que o Partido Republicano move aos socialistas. Estes conhecerão um único e fervoroso coadjuvante: El-Rei-D. Manuel II.

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D. Manuel II

O trecho da carta que de seguida expomos .(dirigida pelo monarca a Venceslau de Lima cm 15.6.1909), é a esse respeito bastante esclarecedora:

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Venceslau de Lima

«(..,) o Partido Socialista encontra-se desorganizado e dividido em fracções desde 1891. O Partido Republicano tem-lhe feito uma guerra de morte e arranjou sempre coisas de maneira que o partido se encontrasse sempre em desacordo („.). O Partido Socialista encontra-se há poucos dias completamente unido: a pessoa que conseguiu isso é o Alfredo Aquiles Monteverde (...). Eu tenho-me interessado muito há já bastante tempo por essa questão, que tenho vindo seguindo e ajudando».


Feitas as diligencias régias para que o Partido Socialista ganhasse uma compleição de poder, estudado o respectivo programa enviado por Gneco. Monte verde dirige-se desta parte ao Rei: «Venho agradecer reconhecidíssimo o bilhete e a carta que V.M. houve por bem enviar-me e o interesse que V.M. continua a tomar pelos seus operários. Mal sabem eles do alto patrocínio que tão eficazmente os está auxiliando neste momento». (8)

Após o advento da República, o Partido Socialista, no seu "Manifesto", perfila-se como oposição e não tem pejo em proclamar.

«O Partido Socialista entende que deve ser lançada aos actuais dirigentes e aos elementos mais preponderantes da República Portuguesa a inteira responsabilidade por todas as perturbações de ordem ultimamente havidas e por todas as que parecem prestes a haver ...»(9).


A repressão republicana contra o operariado, revestiu-se de contornos dignos da mais acerba dás tiranias. Em 1912, na Greve Geral de Lisboa, os grevistas foram duramente reprimidos e submetidos a degradantes prisões. Um ano depois o democrático (!) «governo de Afonso Costa proibiu o cortejo e o comício do 1º de Maio...» (10)

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Afonso Costa

Meses antes, o Anti-Cristo de Seia (o epíteto é do seu ex-colega de partido Cunha e Costa) assinava no jornal "O Mundo" um artigo em que demonstrava descrer no futuro do socialismo e bem assim no movimento das cisasses operárias e sindicatos. (11)

E dando vazante à ideia de enfrear o operariado, conta Carlos Mailheiro Dias que os proletários acusaram a «república de ter mandado fuzilar os operários grevistas de Setúbal como nunca-se tinha feito rto tempo da monarquia: (...) de decretar uma lei eleitoral mais reaccionária que qualquer das que estiveram em vigor no antigo regime» (12).

Em 1914 é fundada a União Operária Nacional, que o governo de então logo se apressou a extinguir, sendo reorganizada em 1917. Em Maio desse ano, como protesto contra a falta de pão em Lisboa, quatro milhares de pessoas manifestaram-se no Rossio e a Guarda Nacional Republicana recebeu ordens governamentais para dispersar os civis pela violência, O confronto saldou-se em dezenas de mortos e 547 prisões. (13)
Mas o conflito entre republicanos e socialistas, não se confinaria à I República (onde de resto, nas diversas legislaturas, apenas foi eleito um máximo de dois deputados socialistas, o equivalente a deputados miguelistas). Na II República foi o que se sabe; o socialismo seria banido oficialmente do solo português e o sindicalismo decretado, tal como na I República. adverso ao Estado» Só após o 25 de Abril os socialistas se puderam organizar livremente, como queria 65 anos antes, o Rei D. Manuel II.

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Por este apontamento poderemos ver que socialismo e república, andaram desavindos durante mais de cem anos. e só muito recentemente se reconciliaram...

J. Mendes Rosa

notas
1-João Medina "Antero e Teófilo"

2- Cartas inéditas de Antero de Quental a Oliveira Martins,1, Univ. de Coimbra, Coimbra 1931, pp 17-18

3-Ibiden

4- Carta a S. Costa Botelho de 1-VIII-1885, "Cartas II", p 746


Fonte : Blog Esquerda Monarquica : http://esquerda-monarquica.blogspot.com/
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