quarta-feira, 9 de março de 2011
Cem anos a subsidiar a incultura.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Um prato de ingratidão.
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Chegado o momento da sobremesa, “por escárnio”, serão trazidos aos convivas “os papos de anjo monárquico” (os “talassas” foram uns anjinhos, porque tinham superioridade militar e nem sequer a souberam usar), acrescidos de “leite-creme queimado à Carbonária” (os carbonários eram combatentes que iam “à queima”, para ganhar ou morrer). Para ajudar à digestão, depois da “barriga republicana se sentir abastada, será degustado um cognac francês, em homenagem à “Liberté, Égalité, Fraternité” (é a única concessão que deve ser feita a produtos estrangeiros, por especial deferência para com a revolução francesa de 1789). “O ágape deve terminar com um brinde democrático e com um “VIVA A REPÚBLICA” sonoro e sentido”.
terça-feira, 20 de julho de 2010
Turismo em Portugal na I República

Já percebemos que o Centenário da República, deixou de o ser para passar à comemoração possível sobre os primeiros 16 anos do regime. Para não parecer uma incongruência o saltar por cima da ditadura militar e da II República ou Estado Novo, a Comissão responsável pelas festividades nem se dá ao trabalho de recordar os últimos 36 anos de efectiva democracia.
Mas pior, ainda. Pela força de querer limpar a imagem da República centenária, varrendo para debaixo do tapete o período que medeia entre 1926 e 1974, formata a Memória e a História para caber neste modelo primário de análise: tudo pela I República, nada contra a I República.
Ora, no que se refere ao Turismo, vieram agora os académicos contratados para servir de libré ao regime cometer um dos maiores erros. É que, no que concerne a propaganda, à ideia de Turismo tal qual ainda o conhecemos hoje em dia, foi o Estado Novo que a gizou e não os ideólogos republicanos de 1910. De resto, o Tour oitocentista prolongou-se até às vésperas da I Grande Guerra, até aos grandes acidentes, como o do Titanic, em que a viagem se viu coarctada pelo medo e pela crise económica.
O Portugal turístico foi desenhado por António Ferro. Todos os grandes clichés folcloristas de Portugal, para o mal e para o bem, foram da sua lavra. E a sua obra não se esgotou na Propaganda ao serviço do regime. Desde as Companhias de Teatro que circularam pelo país, ao cinema e às Pousadas, aos luxuosos cartazes de promoção desenhados por Almada ou Stuart, entre outros, tudo passou pelo cunho de A. Ferro e da Sociedade de Propaganda Nacional.
A Primeira República foi um entrave à viagem turística. Sobretudo à viagem em território nacional. Entre a fuga de aristocratas e capitalistas que se seguiu a 5 de Outubro para as estâncias balneares de Espanha e França, e o êxodo da emigração, ficou um país a ferro e fogo e uma capital ameaçada por bombas quase diariamente. Seguiu-se a participação na I Grande Guerra e a pneumónica que dizimou milhares de vidas. O que há de turístico neste período? As comissárias da exposição recentemente inaugurada «Viajar. Viajantes e turistas à descoberta de Portugal no tempo da I República» concluiram que houve muita coisa e fazem-no com esta afirmação: «Se o interesse, privado e público [pelo turismo], vinha de anos anteriores – como o atestam entre outras iniciativas a criação da Sociedade de Propaganda de Portugal em 1906 e a publicação do Manual do Viajante de Portugal em 1907 – foi durante a República que se deu formalmente a sua institucionalização». Que institucionalização? A da fuga? Se se referem à fuga ou à contribuição de portugueses para o turismo internacional, como no caso de Manuel Teixeira Gomes que, cansado da política portuguesa, passou o final da sua vida em viagem, isso sim.
Mas será preciso esperar pela mão férrea do Estado Novo e pela acalmia proporcionada pela neutralidade de Portugal durante a segunda Grande Guerra, para criar a instituição Turismo, tal qual a conhecemos hoje em dia, nos seus vectores principais: Algarve e outras Costas balneares como o Estoril e a Costa de Prata, Fátima, o Minho, o Douro, etc.
Suspeito que até ao final de 2010, com tantas hipóteses de criar cultura e não propaganda ideológica, acabemos mais pobres do que quando começou o ano. Mais pobres economicamente (sem 10 milhões de euros gastos em promoção) e mais pobres mentalmente, com estas lavagens cerebrais com que nos mimoseiam.
sábado, 19 de junho de 2010
A fotografia ao serviço da República.

Nos primeiros anos do século XX o jornalismo começava a descobrir e a utilizar em média e larga escala os recursos fotográficos aplicados à tipografia. O seu uso não só conferia uma maior veracidade às reportagens, mas permitia divulgar muito rapidamente acontecimentos que por via da escrita ou do desenho demoravam muito mais tempo a expor. Mas ,como qualquer outro processo de impressão, desenho ou gravura, muito cedo a fotografia começou a ser manipulada, umas vezes apenas com sentido estético, como no caso das reproduções a preto e branco aguareladas, ou no caso da emergente foto-reportagem, com o intuito de veicular propaganda ideológica, através de montagens ou adulterações do cenário e das acções seus intervenientes.
Nesse sentido, o novo regime deitou mão deste valioso instrumento, como vimos já no caso do dia 5 de Outubro quando uma certa imprensa fez crer que o Largo do Município estava repleto de fervorosos republicanos para acolherem e dar vivas à República. Mas não só. As reportagens que se seguiram, relativamente a atentados, insurreições e revoltas, nomeadamente as incursões monárquicas que se sucederam entre 1911 e 1919 foram tratadas fotograficamente com vista a fazer passar uma mensagem. Mensagem favorável ao republicanos, obviamente.
Nesse sentido a Ilustração Portuguesa que, depois de 1910, se tornou um dos mais fervorosos órgãos pró-republicanos da comunicação social, tornou-se exímia escola da manipulação fotográfica.
Em ano de centenário, não basta evocar. É preciso conhecer, expôr, estudar. Para quando um estudo sério e profundo sobre esta questão?
Nota: a fotografia foi publicada em RELVAS, José – Memórias políticas, vol. 2. Lisboa: Terra Livre, 1978.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Portugal: «les pays des bombes»
Para acrescentar algo a esta discussão, devemos relembrar as palavras do ex-ministro António Cabral que nas suas memórias faz eco da opinião internacional. Esta olhava para a República Portuguesa com descrédito - à excepção da «amiga» e «aliada» Inglaterra que nunca vira Portugal se não com paternalismo e esperava a sua hora para abocanhar os restos do cadáver. A imprensa internacional pós-1910 é, aliás, pródiga em registar as violências por cá perpetradas. Alguns tinham correspondentes, outros por via indirecta iam desfiando o rol de atrocidades em que sobretudo Lisboa se tornara (ver o que a este respeito refere Fialho de Almeida, aqui e aqui e aqui). Sobre a púrria, os bombistas, os atentados falhados, as incursões violentas sobre grevistas e manifestantes, os assassinatos quase diários, os misteriosos incêndios e roubos, as sovas, as ameaças e os empastelamentos não falta documentação nem sequer testemunhos de insuspeitos escritores, como Fialho ou Raúl Brandão. Estranhamente quase nunca ou pouco citados são nos trabalhos académicos...
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Livre, mas não muito.
terça-feira, 30 de março de 2010
E os servos de hoje?
[...]
«No reino de Portugal, todos trabalham para a ascensão de alguns. De hoje em diante, cada um esforçar-se-á para glória comum.
Companheiros! A Monarquia já mostrou bem aquilo que quer do nosso país: uma coutada em que damas e fidalgos brinquem todo o dia à caça e à guerra, sustentados por nós, milhões de servos agrilhoados. É por isso que nesta manhã de Outono, resolvemos transformar o idílio de uns, na realidade de todos»
[...]
Ao que parece faz parte dos programas educativos uma disciplina de Laudatória à República. Isso, ou os professores, tão gratos que estão à República Portuguesa por serem a classe melhor tratada na Europa, se empenham na evangelização dos acríticos alunos, mesmo apesar daquela Associação que escreve cartas a todos e mais algum - a República e Laicidade - condenar veementemente a propagação de crenças religiosas na sala de aula. Esta religião cívica, o republicanismo, que na sua bonomia salazarista apenas convertia crianças do Ensino Primário em devotos adoradores da bandeira e do hino republicano, como símbolos máximos de uma nação maior e impoluta no seu passado recente, está agora a estender-se a toda a escolaridade obrigatória. Noutros tempos e noutros regimes tal aberração propagandística tinha outro nome. Hoje chama-se Cultura.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
O republicanismo em Portugal: uma análise.

Um dos factos que as actuais comemorações do Centenário permitem esclarecer é que existem pouquíssimos republicanos, ou seja, portugueses que se identificam com o regime e nele acreditam, que sabem destrinçar entre os símbolos identitários nacionais e a iconografia da república portuguesa, por exemplo. Uma viagem pela internet oferece-nos uma leitura proveitosa, a que alguns chamariam sociológica.
Por um lado, um pequeno punhado de literatos, na maioria ligados ao ensino (universitário ou liceal) inauguraram blogues cujo objectivo é veicular informações sumárias de carácter histórico, biográfico e bibliográfico sobre o regime e a sua ideologia. São discretos. Exaltam, embora de forma velada, a maçonaria (a cuja instituição devem pertencer) e outros instrumentos do republicanismo português. O seu projecto é anónimo ou quase (assinam o trabalho com iniciais e, ou, pseudónimos) e constituem um movimento silencioso que conquista através da publicação de um conjunto de imagens fortes que aliam a iconografia nacionalista à ideia de república como entidade indissociável de pátria. É o caso do Almanaque Republicano e do "República 100 anos 1910-2010".
Por outro lado, destaca-se um conjunto mais activo e interventivo de blogues que, embora assumindo a sua posição republicana são, essencialmente, espaços de discussão política, onde se comentam os assuntos cadentes e onde a República é apenas símbolo, como a Esquerda Republicana. Dentro desta categoria podemos incluir, ainda, os blogues de opinião pessoal. Conhecemos poucos republicanos dispostos a lutar pela república no espaço da internet, mas devemos destacar o sítio do Prof. Carvalho Homem, defensor acérrimo dos valores republicanos que não se coíbe de promover em entrevistas, conferências e estudos históricos que executa ou dirige.
Finalmente os blogues ou sítios que apresentam conteúdos propedêuticos, para além de propaganda ideológica, são em maior número por força das circunstâncias comemorativas, mas ficam aquém do que se suporia. O facto é que o número de investigadores sobre a República Portuguesa é extremamente diminuto e está concentrado, sobretudo, na Universidade Nova de Lisboa (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas), tendo à cabeça o Dr. Fernando Rosas, cuja formação de base até é o Direito. É uma historiografia tendenciosa, herdeira do pensamento do falecido Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques, grande historiador que nunca se coibiu de manifestar a sua protecção e predilecção pela obra republicana. Como tal, cabe aquele grupo de investigação fazer as honras do regime, que se desdobra em iniciativas e apoios para acalentá-lo. Em Coimbra, um núcleo menor, constituído por alguns moderados, fica com a restante fatia de investigação e influência historiográfica que, ainda assim, não tem força para ultrapassar o forte lobby lisboeta. Basta percorrer os escaparates das livrarias para aquilatar da dimensão e força deste grupo: todas as semanas são publicadas luxuosas edições sobre temas republicanos e História Contemporânea de Portugal.
Devemos assinalar, ainda que, recentemente, foi constituído na internet um grupo intitulado Republicanos Portugueses. A ele pertencem cerca de 500 pessoas. É um campo interessantíssimo de estudo. Constituído na sua maioria por emigrantes, são reveladoras as mensagens nacionalistas deixadas pelos seus elementos. Para eles, a ideia de republicanismo existe apenas na consagração de pátria, ou dos seus símbolos e ídolos (onde se destacam os futebolistas). Não há antítese possível a esta ideia, ou seja, a ideia de monarquia ou outro qualquer tipo de regime nem sequer é ali discutido. Apenas a anulação da pátria, pela supressão da nacionalidade. Neste sentido, a doutrinação republicana iniciada em 1910 falhou e mesmo que uma parte dos dez milhões de euros despendidos nestas comemorações se destinem à veiculação de “valores” republicanos pelas escolas do país (no fundo uma forma de catequese ideológica), julgamos que será necessário um orçamento semelhante, doravante anual, para criar alunos conscientes dos ideais de República.
Não há um movimento global de defesa da República, nem movimentos menores, que permitam identificar o apoio colectivo ao regime e à “ideologia”. Pontualmente, como no caso do 31 de Janeiro, pequenas colectividades, associam República e Resistência, confundido noções como democracia, fascismo, ditadura, etc. Mas essas associações não são republicanas: exaltam o espírito de liberdade e cidadania – uma análise do vocabulário utilizado na elaboração dos seus objectivos exclui a República e os seus “valores”. A “ética republicana”, expressão que nada significa e atenta contra a própria noção de ética, que se quer universal e plural, recusando ideologias e crenças, não tem raízes no republicanismo que herdámos da primeira república. É que apesar do período entre 1926 e 1974 constituir parte destas comemorações, contra a vontade de muitos dos seus corifeus, a doutrinação republicana foi suspensa nesse período, (a qual, em abono da verdade, resistiu em alguns indivíduos como forma de oposição, de resto elemento comum entre republicanos, monárquicos integralistas ou constitucionais, anarquistas, socialistas, marxistas, etc) para reintegrar-se, mais fraca, menos consistente, depois do 25 de Abril de 1974.
Por isso, e infelizmente, não pode a Comissão do Centenário senão ir beber nas fontes da Primeira República, profundamente exclusiva, nada moderada e fortemente autoritária. Mas, dado o tempo que atravessamos, tal colagem até pode fazer sentido…
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Breve história da «Piolheira»

Mas como isto aqui é a Piolheira, como chamam a Lisboa (...)
Teófilo Braga, «Gomes Freire», 1908
A história é uma destilação do boato
Thomas Carlyle
D. Carlos foi morto de duas formas, por três «criminosos»: o primeiro foi a comunicação social e, consequentemente, pela opinião pública; o segundo e o terceiro, dois desgraçados que, espicaçados pelo oportunismo dos futuros paladinos da República de Outubro, o cravaram de balas julgando matar um monstro criado pelo primeiro facínora. A comunicação social de 1908, como a de hoje, é capaz de levar homens ao patíbulo, sem passar pelo tribunal. Para tal bastam duas ou três palavras bem colocadas; depois é só esperar por quem prima o gatilho.
Mas muito mais poderosas do que o gesto e as balas das armas dos pobres coitados do Costa e do Buiça, meros instrumentos, foram as palavras que continuam a circular. As mesmas que mataram D. Carlos antes do crime do Terreiro do Paço e as mesmas que conspurcam a memória do monarca. Uma delas foi e é a expressão «piolheira». Circulam muitas histórias, sobre quando e em que circunstâncias D. Carlos terá aplicado esta palavra, supostamente como qualificação do seu país. Mas nenhuma sabe, especificamente, aferir da veracidade de tal afirmação.
Piolheira (de piolho) foi uma expressão muito utilizada ao longo do século XIX. Eça de Queirós, Trindade Coelho e Fialho de Almeida usam-na amiúde, quer pela própria mão, quer pela boca das suas personagens para descrever alguns aspectos ora de Lisboa ora de Portugal. Já no longínquo ano de 1858 o poeta Faustino Xavier de Morais (em «Novas Poesias«) se referiu a Portugal como «esta piolheira» e Fialho de Almeida, nos seus Gatos, é particularmente expressivo quando descreve a forma como muitos portugueses deslumbrados pela Europa, se referiam próprio país (1):
Os governos mesmo teem lisongeado esta paixão dos naturaes pelo parisienismo de torna viagem, subsidiando viagens de funccionarios e vadios publicos, de pintores problematicos, e de jovens capacidades scientificas, détournées. Essas viagens d’instrucção, de que jamais se vêem pomos úteis, gastam ordinariamente em pandegas as bourses de travail que geralmente se recusam aos verdadeiros estudiosos, e dão em resultado enviar-se um ingenuo, e receber-se um monsiú de vidro no olho, com barbicha de bode, chupado e tanso, para quem Portugal nunca mais deixa de ser uma piolheira. — Paris, ha Paris! — Quando eu estive em Paris...— Uma noite, em Paris.-.— Mas meu caro, é que verdadeiramente, Paris...E a cada instante este true ritornella-lhes na bocca, para sublinhar a inferioridade manifesta de tudo quanto traz chancella nacional.
Ora, tivesse D. Carlos empregue a expressão para referir-se a Portugal, não seria o único, nem sequer original, a qualificar um país naqueles termos em que a Geração Coimbrã e uma vasta plêiade de escritores e pensadores de oitocentos o fazia, recusando-se a aceitar um país sem a força anímica da França.
Mas, terá efectivamente D. Carlos proferido aquelas palavras? E mais, tê-lo-á feito em público - ele que, como monarca culto e esclarecido, sabia o poder de uma palavra mal interpretada, ou de uma expressão distorcida?
Basta uma pequena pesquisa na internet para perceber o poder e a força da expressão. Ninguém sabe nem quando (uns falam no regresso de Paris) nem como (segundo uns em privados, segundo outros numa entrevista!) D. Carlos teria deixado escapar a referência insultuosa a Portugal. Verifiquei, uma por uma, as 663 referências fornecidas pelo motor de busca Google e em nenhuma delas, absolutamente nenhuma, o respectivo autor da acusação é capaz de citar, com o rigor exigido, onde colheu tal informação. Apenas um jornalista, Luís Miguel Queirós, no Público de 01-02-2008 refere: « Era o monarca [D. Carlos] que achava Portugal uma “piolheira”. Não há evidência segura de que tenha, de facto, proferido esse desabafo, mas quando o boato foi posto a correr, acreditou-se facilmente que era verdadeiro.»
Ora o boato foi lançado antes de 1903, por Bordalo Pinheiro. Passou-o a limpo, em forma de letra, Raúl Brandão, nas suas Memórias (Relógio d’Agua, 1998, p. 46): «Conta que [Bordalo Pinheiro] em Paris ouviu ao rei dizer – Isto aqui é uma terra, lá é uma piolheira.» - é o testemunho de um republicano, mas é, sobretudo, a frase de um dos principais responsáveis pela propaganda anti-monárquica que marcou o final do século XIX e preparou a chegada do golpe de 5 de Outubro. Rafael Bordalo Pinheiro devia compartir o ódio ao rei, com o desprezo ao Estado que lhe recusara uma bolsa de estudo para Roma, em 1868. De resto era um artista, como aqueles que Fialho de Almeida descreve, sempre afeitos às tais viagens de instrução e «bourses de travail». «Piolheira» faria, assim, parte do seu vocabulário quando se tratava de resumir o Portugal que conhecia. As suas caricaturas grotescas e picarescas que roçam a insulto gratuito e boçal são a versão gráfica do que ele teria ouvido dizer da boca do rei. Ele, para quem os reis eram a causa dos problemas do país.
É bem de ver que a história da piolheira se trata de um boato (2). Um boato de entre os muitos que se puseram a circular, e que advinham da proverbial inveja e do sempre actual oportunismo político. Poucos monarcas, como D. Carlos e D. Amélia sofreram tanto com o embate da opinião pública, acicatada por campanhas virulentíssimas de difamação. O escândalo era a melhor forma de propaganda republicana. Como uma franja elevada da população não sabia ler, a caricatura tomava o lugar da palavra, sem qualquer pejo ou respeito, como bem testemunham as ilustrações de Bordalo no António Maria ou na Paródia.
Obviamente que D. Carlos nunca proferiria publicamente um termo tão depreciativo como este. Mas se o tivesse feito, em privado, ou até nos seus pensamentos – algo que nunca saberemos – teria compartido com os homens da sua geração, mesmo aqueles que levantaram o dedo acusatório contra ele, do mesmo sentimento de impotência e desânimo que levou, com tanta facilidade, um pequeno grupo de indivíduos a tomar o poder a 5 de Outubro de 1910.
NOTAS
(1) – De resto a expressão veio a ser retomada, com alguma frequência, pelo neo-realismo literário, pela mão de Alves Redol, por exemplo, que a utilizava para descrever as condições precárias que a revolução burguesa da República de 1910 legara ao proletariado nacional…
(2) Miguel de Unamuno, no «Epitáfio» que «dedica» ao Rei, em 1908, escreve que D. Carlos: «Costumava dizer ao falar da pátria em que reinava: “isto aqui é uma piolheira”» (- Por terras de Portugal e de Espanha, 1989, p. 21). Ora esta afirmação deita por terra qualquer certeza em relação a quando e em que circunstância o monarca teria proferido o insulto. Fora afinal em Paris, aos ouvidos de Rafael Bordalo Pinheiro, ou frequentemente e para todos, como assevera Unamuno…?
