terça-feira, 16 de junho de 2009

As repúblicas não são eternas

Para aqueles que de forma sobranceira me perguntam quais as motivações para esta minha teimosa militância pela monarquia, que aspirações me movem para tão exótica causa, tão incómoda e excluída da “agenda politica”, eu respondo que o faço por uma questão de responsabilidade: a responsabilidade que me cabe para com a continuidade desta “utopia” no seu sentido mais nobre: o sonho dum Portugal com futuro.
Conheço alguns ilustres “compagnons de route” que optaram por “congelar” o seu ideal monárquico, imbuídos dum pseudo-realismo e embrenhados na espuma dos seus projectos pessoais, políticos ou profissionais. Tenho pena: eu sei como é difícil apregoar esta ingrata causa que não favorece carreiras ou comendas. Reconheço que a mensagem embate numa implacável “agenda mediática” que emerge do espectáculo popularucho e da mesquinha contenda política, das conveniências corporativas e interesses imediatos.
Não nego a evidência de que hoje os grandes males que Portugal padece são profundos e estão a montante da questão do regime. Como em 1910 as instituições estão descredibilizadas e não funcionam. Os portugueses, habituados ao assistencialismo e pouco atreitos a responsabilidades, parecem conformados com um medíocre destino, cuja perspectiva não passa do amanhã. E temos a merdização do debate político, com a gestão da rés pública ao nível do chão. Deste modo e dentro das minhas limitações, não prescindo de intervir de dentro do sistema em favor da minha comunidade e pelo futuro do meu país, com a liberdade que esta república me proporciona. Mas não me passa pela cabeça hipotecar as minhas mais profundas convicções.
Acredito profundamente na monarquia, na instituição real como a solução mais civilizada para a chefia dum Estado europeu e quase milenar como é o nosso. Num tempo de relativização moral, de fragmentação cultural e enfraquecimento das nacionalidades, creio mais que nunca na urgência duma sólida referência no topo da hierarquia do estado: o rei, corporização dum legado simbólico identitário nacional, garante dos equilíbrios políticos e reserva moral dum povo e dos seus ideais. O rei, primus inter pares, é verdadeiramente livre e por inerência assim será o povo.
Sou modesto: espalhar a doutrina e "fazer" mais monárquicos é o meu único objectivo. Que floresça nas mentalidades o sonho duma nação civilizada e de futuro, ciosa da sua identidade e descomplexada da sua História. De resto, o seu curso é sempre imprevisível e, quem sabe um dia, num instante tudo poderá mudar.

Grandes Obras

A aposta em infra-estruturas destas é SEMPRE política, não racional. Recordo-me dos estádios de futebol que estamos todos a pagar…

Determinadas obras, para além dos fins políticos, presuntivamente fomentadores da Economia, servem essencialmente os interesses das grandes empresas de construção civil, que ocupam um lugar relevante na economia portuguesa e no emprego de emigrantes não qualificados.

Qualquer gestor minimamente capaz sabe que um qualquer projecto obedece a várias regras de boas práticas, podendo ser suficientemente abrangente para se equacionarem interesses públicos. Em Portugal determinam-se interesses políticos, aos quais se adaptam os diferentes aspectos da realidade. Deste modo, o governo legitima-se indirectamente pelas eleições para endividar o país para muito além da legislatura sem proveito real.

Vejamos os casos gritantes, sem profunda análise:

TGV- o comboio de alta velocidade projectado reunirá Lisboa, Porto, Madrid, essencialmente. Dado que estas cidades distam de menos de uma hora de avião em “low cost” e que o tempo dispendido é aproximadamente igual (devido aos trâmites de segurança dos aeroportos), para quê ir por terra? Aliás, o TGV não é uma rota adequada ao transporte de mercadorias, devido aos custos estimados e por comparação aos reais, praticados pelos países que já os têm.

É menos poluente? Não. É mais rápido? Não. É mais expedito? Não. Assenta em infra-estruturas existentes? Não.

Fiquemos por aqui.

Novo aeroporto – As actuais estimativas projectam a capacidade plena dos nossos 3 aeroportos, nomeadamente o de Lisboa, para 2016. Isto quer dizer funcionarem a 100% da capacidade disponível. Curiosamente foram feitas obras na Portela que expandem de alguma forma esta capacidade, recentemente “inauguradas”. Países muito ricos encomendam aeroportos para serem colocados num dado lugar (exemplo: EAU), os chamados aeroportos móveis, que são operacionais em até 3 anos. Custa-me a crer que 16 anos sejam insuficientes para criar alternativas de facto em Portugal, sobretudo quando a maior parte desta tecnologia é europeia (Alemanha).

Adiante.

Auto-estradas – Adoro as auto-estradas na Alemanha, onde há limite de velocidade abaixo de, de acordo com a faixa onde se circula. No nosso país, o governo socialista andou a pavimentar inúmeros caminhos de betão, muitos com portagens excessivas (comparem o custo de ida e volta de Lisboa ao Porto, utilizando um carrito ou o comboio). Já lá vai o tempo salazarista onde se pagava a estrada a metro… Hoje paga-se ao concessionário da obra, através das portagens, recebendo o estado a devida percentagem.

De facto, estamos com um país cheio de cimento, de norte a sul e de este a oeste. Claro que os acessos às cidades, vilas e aldeias não interessa, pois são assuntos autárquicos…

Siga.

Não me vou debruçar sobre as contas, os benefícios estratégico-estruturais e outros palavrões que o Português não sabe nem quer saber.

A mensagem é simples e clara e tem sido propagada nestes últimos 100 anos: o governo republicano é basicamente incompetente, porque não atende às necessidades do povo, algo que a Monarquia sempre fez, por vezes melhor, por outras pior. Houve mais perseguição com a república e pior, do que em alguma governação monárquica (com talvez a excepção da expulsão dos judeus no séc.XVIII, mas isso é outra questão; há mais sobre isto do que se quer publicar).

João Paulo Carvalho

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Salazar e o Rei ( que não foi )

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Salazar e o Rei (que não foi) é a história secreta da relação de amor/ódio que existiu entre os monárquicos portugueses e o Estado Novo. É por isso uma obra cheia de surpresas e revelações. Quando um dia se escrever a crónica melancólica da monarquia e dos monárquicos portugueses do século XX e, mais do que isso, quando for possível descrever com verdade o que o próprio salazarismo representou, este livro de Fernando Amaro Monteiro virá decerto a constituir uma fonte fundamental para ambas as empresas. Não houve episódio significativo de que o autor não desse notícia, documento que não investigasse, intriga ou mistério que não procurasse esclarecer. E os leitores conhecerão, ao lê-lo, toda a panóplia dos sentimentos possíveis: admirar-se-ão algumas vezes, indignar-se-ão outras, acontecer-lhes-á mesmo rir ou comover-se.

A imagem de Salazar, olhada do ponto de vista da monarquia, é na verdade muito curiosa e, sob vários aspectos, devastadora. É certo que não encerra os lugares comuns do ditador facínora, culpado de todos os males passados, presentes e futuros do país, mas deixa, em pequenas pinceladas, o retrato de um homem seco, que acreditava em poucas coisas e em ainda menos pessoas, e que se dispunha a enganar uns e outros para ganhar o direito de permanecer.

Com a sua extraordinária capacidade de dar a ver algumas cenas que ficam como verdadeiros momentos simbólicos, com a sua determinação de deixar «falar» os documentos, este novo livro de Fernando Amaro Monteiro não é apenas mais um trabalho sobre uma época reconhecidamente controversa – é uma obra que permite olhar esse período a uma luz completamente nova, é em suma um livro que fará data.

MCH

domingo, 14 de junho de 2009

Um Humanista na República de Salazar - Aristides de Sousa Mendes



ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasce, na Casa do Aido, em Cabanas de Viriato, Concelho do Carregal do Sal, aos primeiros minutos do dia 19 de Julho de 1885; alguns minutos antes tinha visto a luz do dia o seu irmão gémeo, César, filhos do juiz Dr. José de Sousa Mendes, descendente de lavradores abastados da vizinha aldeia de Beijós, originários da Muxagata, e de D. Maria Angelina Paes do Amaral de Ribeiro Abranches, da nobre Família dos viscondes de Midões, senhores do velho morgadio do Aido, cujas relações familiares estreitas permitiram que aí nascessem.
Aristides pertenceu a uma família aristocrática, católica, conservadora e monárquica - (ele também católico e monárquico). Seu pai era membro do supremo tribunal.

Recusou-se a seguir as ordens do seu governo (o regime de Salazar) e concedeu vistos a refugiados de todas as nacionalidades que desejavam fugir da França em1940, ano da invasão da França pela Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial. Aristides salvou dezenas de milhares de pessoas do Holocausto. Foi o "Oskar Schindler português" (comparação pouco reconhecedora do facto de Aristides ter salvo um número muito superior de pessoas do que Schindler).

Mais informação sobre a sua vida pode ser vista aqui

Uma proposta para uma república em festa permanente há 99 anos


Começando a avistar interessantes visões sobre a forma de regime deste pequeno país – por um lado um renovado e regenerado conceito de monarquia, livre, democrática, sem preconceitos, divisões, títulos, reposteiros ou ferro-velho e por outro um exacerbado republicanismo, "conservador", quase centenário, laico, avesso, redundante, messiânico, igualitarista mas divisionista, neste país para homens com as "quotas em dia" – eu, influenciado pelo libreto da Comissão do Centenário, envio uma achega para a festarola do centenário da república. Quando mandarem tingir os folhetos adornem um novo nome para este regime em jeito de marca e agradecimento aos seus "progenitores" e demais orientadores; que este país, como tanto parece quererem, se passe a chamar: República Centenária Carbo-Maçónica Laica Portuguesa.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Levaram as jóias...

Acabei de ler ontem «Leva-me Esta Noite», o mais recente livro da minha amiga Cristina Flora. Uma narrativa que, embora ficcional, também aborda um assunto... real: o roubo, em 2002, de parte das jóias da Coroa Portuguesa de uma exposição num museu em Haia, na Holanda.
Além, óbvia e principalmente, dos ladrões, a culpa pelo sucedido foi: das autoridades culturais e policiais dos Países Baixos – que, além de não terem implementado as mais eficazes medidas de segurança, terão mostrado pouco interesse e empenho na resolução do caso; e de quem autorizou, em Portugal, a cedência de tesouros nacionais tão valiosos sem - confirmou-se depois – estar devidamente assegurada a sua protecção. E de não muito valeu a indemnização que se recebeu e o que se fez posteriormente com ela.
Este foi mais um exemplo do desinteresse, do desleixo, da displicência com que frequentemente as instituições da república tratam as heranças da Monarquia. A não ser, claro, quando aquelas precisam destas para «comemorar» o centenário do golpe de 5 de Outubro de 1910... admitindo, implicitamente, que nada de muito importante, justificativo de ser «celebrado», aconteceu nestes últimos cem anos. O «novo» Museu dos Coches e a «renovação» da Praça do Comércio, e respectivos «cortejos» de dúvidas e de suspeições, constituem dois exemplos recentes e bem conhecidos desse abuso.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

À Espera da Liberdade

Em 1914 o governo da república portuguesa, pressionado de fora e de dentro, exposto à censura da imprensa internacional, decretou uma amnistia para os presos políticos. A campanha da imprensa estrangeira, que dedicava desveladas atenções aos presos políticos portugueses, tocara os dirigentes republicanos no seu ponto mais sensível. Se havia coisa de que se ufanavam era de serem os representantes em Portugal das ideias modernas e dos ideais humanitários dos povos mais “civilizados”. Mas em vez das palavras elogiosas que ambicionavam ler na imprensa francesa, inglesa ou alemã, o que encontravam com deprimente frequência eram denúncias de prisões injustificadas e de maus tratos aos presos políticos. (...)
Continuar a ler na Plataforma do Centenário da República

quarta-feira, 10 de junho de 2009

As tricas políticas no 10 de Junho republicano




Das comemorações oficiais do 10 de Junho, aqui deixamos algumas notas:

1. A parada.

Tal como estamos há muito habituados, um péssimo enquadramento do desfile. Mau cenário, pouco espaço e sobretudo, pouco público. A escassez de efectivos evidenciou-se uma vez mais, nestes tempos de contenção orçamental.
Notas positivas: a inédita apresentação das históricas bandeiras nacionais, com relevo especial para a última, a azul e branca. Da actual, nenhuma e ainda bem, embora tivesse surgido subrepticiamente nos estandartes das unidades. Como deve ser. Os Meninos da Luz montando belíssimos cavalos brancos, bem tratados e sempre acarinhados pelo público presente.

O novo equipamento apresentado, com viaturas flamantes de novas, desde os Pandur aos gigantescos panzer Leopard II, deveras impressionantes. Não se prevêem avarias em público, pelo menos nos anos vindouros.

Um aspecto a destacar, consiste no aspecto aguerrido e bem equipado das unidades especiais das Forças Armadas, afinal, o que verdadeiramente importa.

Notas negativas: o péssimo marchar das tropas em geral - nem sequer existindo uma uniformidade no passo, bastas vezes descoordenado - , num ritmo triste, lento, quase de aprendizes. Sugestão: contratem instrutores dos nossos "novos aliados" do leste, ou em alternativa, russos ou chineses.

Ausência da presença de um passado que aliás, as Forças Armadas agora comemoram. Mais exactamente, nota-se a falta de uniformes dos tempos da guerra de libertação contra Bonaparte. Faça-se essa justiça em 2010, ano da vitória. Este tipo de eventos deve ter um carácter didáctico e cívico.

2. A sempiterna e escusada polítiquisse.

Foi evidente o mal estar existente entre alguns órgãos de soberania, destacando-se a atitude pouco correcta do actual residente de Belém, que não conseguiu esconder o seu desdém pela figura do seu primeiro-ministro, ignorando-o ostensivamente. Pelo menos, foi o que a televisão mostrou ao país e escandalizou o meu amigo, prof. Serras Gago. No rescaldo das eleições do passado domingo, o dr. Cavaco Silva já se sente suficientemente ancho para não manifestar o mínimo sinal de cordialidade institucional que o decoro exige. Tem assim início o período de sampaízação das relações entre Belém e S. Bento. Vergonhoso.

Sabendo o que ocorre nas monarquias europeias, desde já temos a garantia que sendo rei de Portugal, D. Duarte II manteria uma perfeita relação de lealdade institucional com o seu primeiro-ministro - fosse ele quem fosse -, pois os monarcas respeitam por regra a legalidade saída do escrutínio popular. Disto não temos qualquer dúvida ou hesitação em afirmá-lo. O tempo o demonstrará, se os portugueses assim o entenderem.

3. Nota final.

O surgimento de bandeiras nacionais azuis e brancas nas varandas de Santarém. O povo começa a deixar de ser tímido e a manifestar flagrantemente o seu patriotismo Finalmente.

"Dia de Portugal"?


Tenho nojo das eminências que disfarçam o tronco e os membros só para ficar na fotografia. Portugal não se celebra num dia, não se lembra por umas horas, não se confina a limitados periodos de tempo, não se resume em condecorações de "cristianos" ou "anti-fascistas" nem a festarolas que se fazem só porque se fazem! O "Dia de Portugal" é trabalhado para a afirmação deste regime verde-tinto! Podem por as "tropas" todas a brincar na parada que este chão não vibrará enquanto a nossa Pátria for gerida como uma avença ou a nossa história compilada às 7 "maravilhas". Pobre Camões; usado mas não cantado. Como se alguém da "organização" sentisse na pele uma só estrofe dos seus versos.

*Imagem picada em Idi@s

terça-feira, 9 de junho de 2009

Tempos e Costumes


in "O Homem, a Ladeira e o Calhau", de Agostinho de Campos, 1915

Um jornal republicano (O Mundo de 24 de Março de 1915) diz a respeito daditadura do conselheiro João Franco: "Tendo tomado uma feição revolucionária etendo sido violentamente combatido, não demitiu um só funcionário do Estado que exercesse lugar vitalício. Muitos dos seus mais intransigentes adversários, monárquicos e republicanos, eram funcionários públicos, mas nenhum foi por esse motivo destituído".
Isto é perfeitamente exacto e eu posso confirmá-lo como testemunha presencial, por ter tido a meu cargo durante aquela época a administração da Instrução Pública, que era uma das mais importantes e das mais minadas pela oposição revolucionária. Mas convém acrescentar a esta verdade outras não menos dignas da atenção dos filósofos e do registo da História. (...)

Continuar a ler no site Plataforma do Centenário da Républica

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Ainda bem?


Mas este político sabe o que quer dizer Monarquia? E porque diz: "ainda bem" (que acaba a monarquia [no sporting!])? Não sabia que as "monarquias" eram nocivas mas ainda bem que indivíduos como este bloquista, tão defensor das "minorias", nos lembra que afinal não vivemos com "péssimos hábitos"...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A república em 1910 e as restrições ao culto religioso


Com o 5 de Outubro de 1910 inicia-se um período de violenta perseguição religiosa em Portugal. A Igreja vive por esses dias um período de semi-clandestinidade durante o qual diversos membros do clero foram sujeitos à prisão, a maus tratos e à morte.
A seguir transcrevermos uma curiosa carta (reproduzida na imagem) escrita por Maria Júlia Carvalho Prostes pela altura das festas natalícias à sua filha:

Mª querida Maria Thereza,

Lisboa, 31-12-1910

Obrigada pelas tuas boas-festas, desejamos eu mtº do coração a ti, teu Marido, Sogra e Cunhada, as maiores felicidades, e o anno nôvo mtº prospero.
Aqui houve algumas Missas da meia noute, entre ellas S. Luiz, onde a Mª das Dôres foi com as Mendonças sendo por bilhetes e à porta fechada. Eu, como havia difficuldade nos bilhetes, fiz como costumo aos Sábados, jantei em casa Mª Archangela, e ali passei a noute. (...)


Agradeço à Conceição Mascarenhas a cedência da carta.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Chapeladas obrigatórias?


No Público de hoje, Pedro Magalhães informa-nos acerca do cariz perfeitamente democrático da obrigatoriedade do voto - como na Bélgica, por exemplo -, argumentando com a existência de vinte e nove democracias onde tal se pratica.

Discordo. No nosso país, cuja praxis de democracia parlamentar foi entrecortada por um longo hiato de 65 anos, a obrigatoriedade do voto, surge como um abuso ou prepotência de poder. A ausência de credibilidade das organizações partidárias que se criaram subitamente de forma vertical, deve-se antes de tudo, ao seu contínuo confinamento a redutos de defesa de interesses pouco coincidentes com o da generalidade da população. Simplesmente, o povo não se revê nos dirigentes e pior ainda, nem sequer reconhece um verdadeiro valor aos partidos. A culpa cabe inteiramente a estes últimos que encaram a população como mera serviçal, quando deveria acontecer exactamente o contrário.



Em países onde a democracia é uma forma de organização social que se tornou natural pela educação - espírito cívico - e necessidade de afirmação dos múltiplos sectores que alicerçando-se em ideologias, esperanças e interesses a tornaram querida e possível, a obrigatoriedade do voto tem uma plena correspondência com a defesa da própria coisa pública que entendemos ser A Democracia.

Em Portugal, o artifício da obrigatoriedade de ir às urnas, nada mais é senão isso mesmo. Uma forma de suprir por decreto, a clara ilegitimidade que muitos portugueses decidem atribuir ao sistema, simplesmente não comparecendo à chamada que forçosamente significaria o reconhecer legal de situações impossíveis. Hoje o poder tem medo da flagrante ilegitimidade decorrente de uma brutal falta de quorum eleitoral.

Não! O direito à abstenção faz parte do nosso património de gente livre. Enquanto não existir uma verdadeira democracia - aquela que a república impediu de definitivamente se implantar em Portugal -, a obrigatoriedade do voto é uma vergonha, ou seja, uma outra forma de chapelada eleitoral e de subversão da vontade popular.

domingo, 31 de maio de 2009

Vasco Pulido Valente e o "regime terrorista"

Não devia haver comemorações nenhumas. É um episódio triste da história portuguesa e não devia haver comemorações nenhumas. Para todos os efeitos foi uma ditadura. A ditadura não nasceu do vácuo, nasceu da República!


Vasco Pulido Valente em entrevista ao Correio da Manhã e à Rádio Comercial sobre as comemorações do centenário da república:


ARF - Vamos comemorar os 100 anos da República. No livro que lançou, sobre no período de 1910 a 1917, é muito contundente com a I República. Diz que foi um regime terrorista. Vamos andar um ano a chamar heróis a cidadãos que usaram o terrorismo?

VPV - Criaram essa República e que conseguiram a partir de 1913 governar em partido único. Esse partido governou sempre, excepto numas interrupções provocadas por golpes militares, pronunciamentos militares, em que usaram, para se manter, métodos terroristas. E que viveu sempre em guerra com o País, guerra aberta com o País.

ARF - E porque é que se comemoram os 100 anos?

VPV - Eu sei porque é que se vai comemorar isso. Porque a República teve uma reabilitação póstuma, que foi a reabilitação salazarista. Como os republicanos eram contra o Salazar e havia muita gente que era contra o Salazar começou-se a achar que a República era boa porque era antisalazarista. Porque os republicanos, certos republicanos, eram antisalazaristas e começou a criar-se a lenda de que se a ditadura salazarista era má a ditadura republicana, a que ninguém chamava ditadura, era boa. Hoje em dia passa por ter sido um regime muito meritório que não foi. Ainda por cima, o nome oficial da República era República Democrática Portuguesa. Tinha lá aquela coisa, mas aquele democrático estava ali como estava nos países comunistas.

ARF - Coreia do Norte e outros.

VPV - Quase a Coreia do Norte. Não era tanto.

ARF - Vai participar nessas comemorações, já foi contactado?

VPV - Não.

ARF - Não foi porque tem essas opiniões?

VPV - Não.

ARF - Não convém às comemorações dos 100 anos?

VPV - Não sei se convém ou não convém. Mas compreendo que pessoas que queiram comemorar não me queiram. Mas houve uma senhora deputada que me veio falar em nome do senhor presidente da Assembleia da República. E eu expliquei à senhora deputada que já não tinha idade para receber recados por interposta pessoa do doutor Jaime Gama, que eu conheço desde os 18 anos. Portanto, se o doutor Jaime Gama me quiser falar não tinha mais que agarrar num telefone e telefonar-me. Não telefonou mais. E foi o único contacto que eu tive. Lembrei-me agora.

LC - Na sua opinião não devia haver comemorações?

VPV - Não devia haver comemorações nenhumas. É um episódio triste da história portuguesa e não devia haver comemorações nenhumas. Para todos os efeitos foi uma ditadura. A ditadura não nasceu do vácuo, nasceu da República.

sábado, 30 de maio de 2009

A onda


Parece que os "surfistas" deste regime se preparam para fazerem grandes "hit's". A ideia é levar tudo na mesma molhada e curtir a onda (que está  a ser criada por uma comissão que ondula com o dinheiro do Estado). A previsão, para o dia 5 de Outubro, e seguintes, aponta para vento forte de belémoeste com mar de grande vaga, enrolado no imaginário revolucionário, favorável a bons túneis de propaganda republicana. A surtrip engloba uma viagem por uma farsa de virtudes que se estendem ao longo da nossa costa, infelizmente suja vai para 100 anos. Apesar da comissão de festas não o dizer, intencionalmente, este blogge sugere que cada um se previna com índice elevado de "protecção" pois o sol desta república promete queimar (com mentiras) mais neurónios. Bora.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Entrevista a Vasco Pulido Valente

No próximo Domingo o programa "Grande Entrevista" no Rádio Clube Português entrevistará Vasco Pulido Valente.
Na pequena amostra que a estação está a passar, VPV não é nada meigo com as "Comemorações oficiais do Centenário".
Um entrevista a não perder!

Grande estreia em televisão… “Anthero – O Palácio da Ventura”, dia 1 de Junho às 21h45

Um trabalho com a assinatura do realizador José Medeiros
Uma equipa de televisão roda em várias localidades do país (S. Miguel, Coimbra, Vila do Conde, Lisboa) um filme inspirado na vida e obra do Poeta e Filósofo Anthero de Quental.

Para Pedro K, o Realizador, a vida e a morte do Poeta serão encenadas pelo olhar de um Grupo de Saltimbancos e pelo testemunho de algumas das personalidades que o conheceram melhor: Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Teófilo Braga e sua irmã Ana Quental, cujos pontos de vista, por vezes contraditórios tentarão desvendar alguns dos enigmas que assombraram a atormentada existência de Athero e as completas razões que o levaram ao banco onde, sob a âncora da Esperança, o Poeta descreveu na vida e se suicidou.

A rodagem decorre com as dificuldades inerentes a uma produção de baixo orçamento, mas sem grandes sobressaltos. No entanto para Pedro K este trabalho é mais do que um filme, é uma viagem aos “misteriosos sinais do seu código genético”…

“Anthero – O Palácio da Ventura”, uma obra com argumento de José Medeiros e André Medeiros Palmeiro, baseado num esboço de Vasco Pereira da Costa, imagem de José Fontes, edição de Bruno Correia, direcção de fotografia de Carlos Azevedo, produção de Emanuel Macedo e música e realização de José Medeiros.

Fonte : http://ww1.rtp.pt/acores/?article=8686&visual=14

quarta-feira, 27 de maio de 2009

A República das Bananas e dos Cavaquinhos


Neste momento o nosso país está a sofrer as consequências de ser uma república, um presidente que foi primeiro ministro tem neste momento a sua credibilidade política fragilizada graças aos seus laços políticos com gestores e administradores do BPN. Jamais isto poderia acontecer numa Monarquia, em tempos ouviu-se :

AFONSO COSTA – Por muito menos rolou no cadafalso a cabeça de, Luís XVI

Ups quem devia ir a seguir ?

O nosso Rei não !

Este desaconselhável Conselho de Estado...




O Conselho de Estado não é um qualquer órgão decorativo, sem importância real e de escasso valor constitucional. De facto, consiste no derradeiro elo institucional com um passado histórico que fez e consolidou Portugal, tendo surgido no alvorecer da luta pela Restauração da independência. Num momento em que eram escassas as hipóteses de sobrevivência de uma soberania reconquistada pela revolução do 1º de Dezembro, o Conselho de Estado foi instituído por D. João IV, para apoiar e aconselhar o monarca nas grandes e urgentes decisões necessárias para o sucesso na guerra, na reorganização da administração metropolitana e colonial e o gizar do sistema de alianças internacionais necessárias para enfrentar o poderio espanhol. Após o desaparecimento da Coroa em 1910, o Conselho de Estado permaneceu como um núcleo fundamental ao qual têm sido atribuídas as funções que a evolução dos tempos e as novas necessidades de enquadramento no ordenamento constitucional tornaram necessárias.

É um órgão de prestígio e isto, porque uma parte deste advém exactamente do facto de não obedecer à lógica dos confrontos político-partidários, sempre saídos de uma electividade que bastas vezes não é razão suficiente para uma nomeação criteriosa de personalidades capazes e inatacáveis naquilo que é essencial: prova insofismável de serviço público, probidade pessoal e patriotismo.

O Conselho de Estado não beneficia há muito tempo, do antigo lustro que concitava o geral respeito da população que durante séculos aprendeu a encará-lo como um extraordinário organismo onde os grandes interesses da nação estavam a cima de questiúnculas pessoais, partidismos ou defesa de interesses pouco claros. A actual situação é bem diferente e os últimos acontecimentos demonstram-no à saciedade.

Se o presidente não tem poderes para demitir um Conselheiro, pode contudo manifestar a sua posição pública e inequívoca de desagrado perante uma situação de descrédito que mancha a respeitabilidade do órgão, hoje enxovalhado aos olhos da opinião pública. Em reflexo, o dito Conselheiro que é alvo de suspeita, deverá por sua iniciativa solicitar a suspensão do mandato, evitando a insustentável situação de envolvimento de terceiros em conluios, acobertamento de ilegalidades e pior que tudo, comprometimento generalizado de todos os titulares dos órgãos de soberania em episódios onde a sordidez anda companheira do crime. Assim sendo, qualquer atitude no sentido da clarificação é imprescindível, embora tardia.

A república portuguesa ao espelho

É no mínimo confrangedor o espectáculo do Dr. Oliveira e Costa na comissão parlamentar. É a imagem do regime em frangalhos na psicanálise à descoberta de si próprio.
Portugal não se liberta: pequenino, é um pátio de comadres, de conivências, jeitinhos, pingas de azeite e tachinhos de arroz.
Imolado o cordeiro, o processo BPN esvaziar-se-á por conta do tempo e do cansaço, com a promoção de uma série de arguidos, que como tantos outros lentamente assimilarão o estatuto como uma segunda pele. Na medida do possível, o presidente desta triste república deveria demarcar-se de toda a confusão: para beneficio da sua imagem, que a do regime verdadeiramente ninguém leva a sério.

"Jobs for the boys"

Substituam o refrão do Hino Nacional de "contra os canhões marchar marchar" para "jobs for the boys, we want we want" e deixará de haver qualquer confusão de entendimento entre o Povo e os orgãos de soberania.

etica republicana


Lembrando ainda a recente apresentação do projecto arquitectónico para a Praça do Comércio (vulgo Terreiro do Paço) vieram agora os colegas de profissão do Sr. Arquitecto Bruno Soares (o autor do projecto) dar a sua opinião:
"Não foi uma noite fácil aquela que o autor do projecto de remodelação do Terreiro do Paço viveu na terça-feira na Ordem dos Arquitectos. A apresentação do seu trabalho foi brindada com uma chuva de críticas por parte dos seus pares, que não gostaram nem dos losangos que desenhou para a placa central nem dos degraus que ele quer fazer a separá-la do rio." escreve o Publico hoje

Eles realmente não gostaram..mas não foi do desenho (que apenas se trata de uma questão de gosto) mas sim de:
“O projecto ainda está aquém do que desejávamos. E isso causa-me tristeza e mágoa”. Mesmo não tendo encerrado o debate, as palavras de Carrilho da Graça exprimiram a desilusão dos arquitectos que também gostavam de ter sido convidados a redesenhar o Terreiro do Paço.

Gostavam de ter sido convidados!?
As criticas resumiram-se aquilo que foi mais duramente criticado na blogosfera..os losangos (com uma achegas do carácter fascizante do projecto em geral...a fazer recordar o Estado Novo).
Mas nada foi dito sobre a utilidade em si do projecto para os lisboetas ou para os 4 milhões de pessoas que diáriamente atravessam Lisboa e lá habitam durante 10 horas...o que interessa é todos partilharem o "bolo" "tacho" ou "gamela" como o povo tão justamente afirma



E assim vai a ética republicana à frente dos destinos do bem comum.

Não é de admirar que uma das principais criticas dos contemporâneos de D. Carlos tenham incidido na restrição da atribuição de honrarias (medalhinhas e comendas) e cargos politicos aos mais capazes (que eram escassos) e com critérios rigidos.
Na verdade já em finais do sec XIX a classe politica havia-se habituado a dividir entre si o Bem Comum em deterimento do Povo, sem que o Rei pudesse fazer algo para o impedir e evitar.
Tentou estoicamente D. Carlos, com o custo da própria vida, corrigir o mal instalado.Mas a ética republicana já se havia instalado nos corredores do Poder.
Longe de se ter inaugurado em 1910 , a Republica era já uma senhora velha quando se deu a revolução de 5 de Outubro.
Com 1910 não se diminuiram as honrarias ou atribuição de comendas e ordens (que ainda se fazem com as mesmas denominações do tempo da monarquia), não diminuiu a despesa pública (o Presidente Português gasta mais 60% do que a Rainha de Inglaterra), não diminuiu os vários abusos de Poder por parte de quem é eleito, não se diminuiu a influência temporal de quem exerce o Poder (muitas vezes ilegitimamente vai dando "dicas" e promovendo a instabilidade)) ,não se aumentou a riqueza nacional em termos absolutos (o aumento que tivemos foi importado do resto da europa , Portugal não é uma ilha isolada),não se diminuiu a quantidade daqueles que vivem directamente do érario publico...

Mau serviço fazem os poderes quando atribuem sem concurso público e sem critérios de eficiência a reformulação da principal praça da Capital (ainda é a Capital)a uma pessoa e mau serviço faz a Ordem dos arquitectos ao invés de apontar as ilegalidades e abusos clamar ofensa por não ter recebido a sua quota parte , tal corsário do sec XVII que apenas vive da pilhagem

...nada se diminuiu, antes se aumentou o Poder discricionário daqueles que ,advindo do povo e conhecendo as misérias e incapacidades da população, disso abusaram em proveito próprio, nem pensando duas vezes em retirar pelo assassinato o único obstáculo que conheceram nos últimos 100 anos, que foi o Rei.

Quando se fala em projecto para a Praça do Comércio, não é de desenhos que se fala.É de uma certa forma de proceder e governar o Bem comum que conhecendo as fraquezas económicas e sociais (que aumentam todos os dias) insiste em decidir unilateralmente como devem os cidadãos viver.
Tal Maria Antonieta que ás portas da morte afirmava, que se o povo não tinha pão que comesse croissants , assim são estes projectos...croissants gigantescos para um povo que já conta os cêntimos para comprar o pão de cada dia

bem haja

terça-feira, 26 de maio de 2009

Nós os modernos...

A Tralha *

A propósito ainda do pedido de demissão de Michael Martin é interessante ver como o parlamento inglês apresenta uma pobreza tecnológica e até uma falta de conforto constrangedores quando comparados, por exemplo, com o parlamento português. Nenhum daqueles parlamentares britânicos exibe computadores durante as sessões até porque, à excepção dos joelhos, não teria onde colocá-lo. Mas questionam e discutem como compete a quem tem História e presta contas ao povo. Por cá exibem computadores, sempre ligados para dar um ar de ocupação, como os funcionários das repartições.

* Helena Matos no Público e retirado daqui

segunda-feira, 25 de maio de 2009

A ética republicana

A ética republicana é como o Espírito Santo: não se consegue explicar exactamente o que é, nunca se avista mas acredita-se que opera milagres. Lembrei-me muito da ética republicana ao ver as imagens da demissão de Michael Martin, o speaker da Câmara dos Comuns. Tal como nos anos 70 era difícil explicar, em Portugal, as razões da demissão de Nixon, pois usar as polícias para espiar as campanhas dos partidos da oposição era então um direito adquirido do governo, também hoje surge como bizarro que este homem se tenha demitido não porque ele mas sim alguns deputados tenham utilizado dinheiros públicos, ainda por cima em quantias irrisórias, em benefício próprio ou mais propriamente em benefício dos seus jardins e casas. Isto é o que acontece nos países onde a ética é simplesmente ética e não uma basófia do regime.

Helena Matos no Público retirado daqui

Nota: Há uma diferença: o Espírito Santo explica-se e opera milagres, a ética republicana é comprovadamente um mito.

sábado, 23 de maio de 2009

O Anti-Republicanismo de Antero de Quental - Parte 1




A União Democrática Portuguesa nunca chegou a conhecer a luz do dia, extinguindo-se, como projecto, naquele ano de 1873, possivelmente em Abril, na sequência das divergências programáticas assinaladas. No entanto, a sua finalidade última continuará presente nas opções imediatamente posteriores do poeta, sobretudo nos seus esforços para impedir o avanço das ideias colecti vistas, para bloquear o crescimento do republicanismo e para convencer as classes laboriosas de que a mera mudança de regime não acabaria com as injustiças sociais. Assim, em Julho de 1873, voltava a defender ser urgente lançar as «bases do verdadeiro partido republicano-socialista, zurzindo entre tanto sem piedade as seitas tolas e visionárias, os declamadores chatos e a corrupção geral». E isto porque, em sua opinião, o pior que poderia acontecer era que «os declamadores e os pulhas que actualmente constituem a quase totalidade do grupo republicano» 787 lograssem conquistar o povo português.

Este anti-republicanismo não surpreende. Já em Março de 1873, isto é, na conjuntura em que se procurava lançar a União, receava que os «republicanos lunáticos» (nome por que era conhecido um grupo que, liderado por Oliveira Marreca, se reunia no Pátio do Salema) tivessem conseguido captar o apoio de Alexandre Herculano para um acto eleitoral: «Escrevo à pressa», noticiava a Martins, «por isso só sumariamente lhe direi que o Herculano, saindo da con cha agrícola [isto é, de Vale de Lobos], está entusiasmado por uma grande reforma, toda municipal, com bases democráticas (!) e, quanto posso conjec turar, a vinda dele agora a Lisboa tem talvez por fim entender-se com Marreca e c.a (que tratam de formar partido republicano) para esse fim788.»


Mas esta vigilância começou a dar um maior relevo aos movimentos da corrente federalista, onde, de um modo mais consequente, o radicalismo político se juntava ao positivismo e ao moDismo naturalista. Compreende-se. Este sector integrava Teófilo Braga e alguns antigos companheiros de Antero, e era o que tinha mais pretensões reformistas. Em 22 de Junho de 1873, criou o Centro Republicano Federal de Lisboa e lançou o jornal O Rebate, cujo primeiro número (29 de Junho) inseria o respectivo programa. O paladino da União Democrática Portuguesa reagiu imediatamente, acusando a iniciativa de querer caçar no seu próprio terreno. Daí O teor deste desabafo, feito ao amigo e confidente Oliveira Martins: «Envio-lhe o primeiro número dum jornal do Teófilo, que me mandou o [José] Fontana. É um documento! Que programa!, tiraram ao acaso frases do nosso e amalgamaram-nas com asneiras da própria lavra. Veja também o artigo de fundo, espécime Teófilo tout puro tolo e malévolo. Lá se insinua que os homens da evolução (somos nós) são meros sedentários e inactivos... Que diz a isto?, e que lhe parece duma república feita por esta boa gente?» 789
Com efeito, sob o entusiasmo da revolução espanhola e com a vis jacobina que alimentava o movimento, o articulista anónimo - Teófilo, segundo Antero - escrevia: «Temos porém um equívoco em que laboram os homens de boa-fé [referência a Antero e a Oliveira Martins], sedentários e apáticos: não poderá ser substituída a revolução pela evolução?» E a esta pergunta respondia, com os olhos postos na denúncia dos que desvalorizavam da questão do regime: «Não podemos opor às instituições anacrónicas, que ainda subsistem, a simples inércia da evolução. É preciso alguma coisa de mais forte; depois que se examinou a nau e se reconheceu que não estava capaz de navegar, em vez de deixá-la apodrecer sobre a areia meta-se-Ihe o machado e utilize-se o que tem préstimo para outros fins. É este processo lógico o que se chama revoluçã079o.»
A pedra-de-toque entre o republicanismo e o socialismo começava a tomar -se evidente. E, no terreno dos acontecimentos, Antero sentia-se aliviado com o facto de o exemplo de Castelar e de Pi y Mar~all não se ter propagado a Portugal. Mas isso não afastava os seus receios. E que, como escrevia, ainda em 1873, «o pior que nos pode acontecer é sermos amanhã república. Seria um 48, mas sem o talento, o entusiasmo, o idealismo do outro; um 48 chato»791. Saudava, por isso, a rápida passagem do «arrepio causado pela proclamação da república em Espanha»792. Mas, em sua opinião, o facto de, nos centros republicanos, não se encontrar «um homem nem uma ideia»793 tomava o movimento antidinástico ainda mais perigoso.
Este procedimento crítico foi-se definindo a um ritmo tal que, em Setembro de 1873, congratulava-se com a circunstância de a «fantasia republicana» estar «desfeita de todo no nosso grupo socialista», dando «por isso muitas graças a Deus»794. Todavia, tinha a consciência de que as suas ideias e acções passadas continuavam a suscitar equívocos quanto à questão do regime. No artigo «A República e o Socialismo» (1873)195 procurou esclarecê-las. O que não bastou, como se prova pelo desenrolar dos acontecimentos. Aquando do banquete comemorativo (25 de Março de 1876) da consolidação da III República francesa, foi convidado para participar no ágape congratulatório. «Sabe que», dizia, em evidente ironia, ao autor da Teoria do Socialismo, «há aqui grande faina de organização e reorganização de partidos: o republicano está finalmente constituído e com gente séria e tende a engrossar. Deu banquete e abriu centro [referência à fundação do Centro Republicano Democrático de Lisboa]. Ora eu fui convidado para o banquete, e não fui ao banquete; convidado para o centro, e não vou ao centro. Sou, pois, grande traidor! Como isto me aborrece e, por outro lado, estou convencido de que todo este radicalismo (os históricos e reforrninhos estão aqui estão republicanos) é absurdo, estéril, perigoso; como, ainda por outro lado, acho que é caso de consciência esclarecer sobre tudo isto os nossos amigos socialistas e preveni-]os contra a propaganda republicana que os trabalha; tomei uma resolução: boto folheto!»

Apesar de, no artigo citado, ter esclarecido o que pensava sobre as diferenças entre o socialismo e a república, sentia não haver sido compreendido. E a ameaça jacobina impunha a necessidade de se quebrar «com os republicanos, e eu estou resolvido a fazê-lo em voltando a Portugal [Antero encontra-se, então, nos Açores). Já esbocei para essa execução um folheto com o título: "Os Republicanos perante a República"». E, referindo-se ao grupo União Democrática Portuguesa, precisava: «urge que ninguém nos tome nem por jacobinos nem por comunistas.» Como não cumpriu aquele desígnio, três anos depois voltou a ele, mas novamente se ficou pelas intenções. Por conseguinte, continuou a sentir a necessidade de «botar folheto», isto é, de explicar à opinião pública como era socialista e por que é que, do «ponto de vista socialista, todos os partidos são estéreis, e como o repub1icanismo hoje e aqui é uma quimera. Digo por uma vez o que penso e saio duma situação equívoca que me incomoda», Fá-lo-ia num opúsculo que se iria intitular O Socialismo e os Partidos. Por razões que se desconhecem, mas que devem estar ligadas ao agravamento do seu estado de saúde e à sua ida para Paris, este texto também nunca conheceu a luz do dia. Em 1878, voltava a reagir contra as más interpretações do seu pensamento político: um pequeno grupo republicano-federalista, ou melhor, republicano -socialista (de Alcântara), propô-lo como candidato pelo círculo 98 (sê-Io-á, no ano seguinte, mas numa candidatura socialista); obviamente que não aceitou, tendo respondido «que achava equívoca a expressão republicano-socialista, e como este equívoco praticamente me parece perigoso, só aceitaria a dita candi datura com o carácter exclusivamente socialista, com toda a reserva da questão política e em completa isenção do movimento republicano actuaL.. Não sei o que pensarão e dirão os republicanos. Talvez seja uma ocasião de me explicar sobre a delicada distinção entre socialista e republicano, e de sair de uma vez por todas dum equívoco que me pesa».

Fonte : Antero de Quental, de Fernando Catroga, Editorial Notícias

O Anti-Republicanismo de Antero Quental - Parte 2

Esse esclarecimento foi feito nas candidaturas seguintes e, em particular, através do lançamento, em 1880, de um manifesto aos eleitores do círculo 98.800 Na verdade, aproveitou a oportunidade para contestar os fundamentos do demoliberalismo, os seus postulados individualistas e as suas nefastas conse­quências, a saber: o parlamentarismo, o empolamento da questão do regime e a secundarização do problema social. Nesta perspectiva, o republicanismo era apresentado como uma ideia política radical e anacrónica, e os seus adeptos acusados de serem <~acobinos declamadores» que, com verbalismo e dema­gogia, encobriam a sua visão conservadora do mundo. Deste modo, a sua propagandeada república mais não seria que - como a III República francesa estaria a mostrar - «a república do capital, assim como a monarquia dos conservadores não é mais do que a monarquia do capital». Este criticismo explicitava posições já expostas em O que é a Interna cional?, no sentido de se ter de dar prioridade à questão social: «A todos os parti dos, a todos os governos, a todos os salvadores fazemos uma só pergunta: e a reforma social? Se nos responderem com negativas ou com evasivas, tê-Ios-emos por inimigos - pouco importa que~se chamem monarquia, constitucionalismo, ou república802.>> Como se verifica, a sua posição de fundo não se modificou com o tempo, antes se precisou e aclarou. E se, em 1871 e nos anos seguintes, o seu ideal de sociedade ainda era identificado pela expressão «república democrática e social»803, crescentemente, os termos foram sendo dissociados. O entendimento da questão do regime à luz da sobre determinação ética e social relegava a dicotomia monarquia ou república para o limbo das coisas secun dárias. Por isso, no citado manifesto, a sua mensagem culminava num apelo directo aos trabalhadores para que não se deixassem enredar na teia daquela querela: «Que temos nós, Proletariado, que ver com essa estéril questão de forma? É uma questão de fanulia entre os membros da burguesia, nada mais.» A resposta republicana não se fez esperar, fosse em livro ou na imprensa.

Por exemplo, o jornal do grupo de Teófilo Braga e Carrilho Videira escrevia (anonimamente): «O Sr. ,Antero de Quental publicou finalmente o prometido manifesto aos eleitores. E um documento curioso e que dificilmente se acreditará que fosse escrito pelo autor das Odes Modernas. Nós tributamos a mais sincera admiração pelo Sr. Antero das Odes Modernas, e por isso custa-nos a crer que o antigo poeta revolucionário escrevesse aquele monstruoso agregado de palavras e frases, com que nada prova a favor do seu socialismo. Faz diversas afirmações, confundindo todos os grupos monárquicos e republicanos, sem apresentar prova alguma do que avança, e chamando burgueses a todos os que não pensam como ele. Que entende o Sr. Antero de Quental por burgueses? Francamente não o sabemos; pois que um grande número dos republicanos é formado pelos proletários, pelos operários que vivem do rude trabalho manual.» E, fazendo uma referência concreta à origem social do poeta e dos seus proventos financeiros, rematava: os proletários republicanos, «para o Sr. Antero de Quental, são burgueses, ao passo que ele próprio, que vive dos seus rendimentos sem trabalhar, como proprietário rico, considera-se como proletário!» e acordo com este anátema, o poeta socialista havia passado de correligionário a inimigo a bater. Em 1876, Carrilho Videira - um dos mais aguerridos activistas do republicanismo federalista - já o tinha apelidado de «grande traidor». Mas, com aquela proclamação eleitoral, os vitupérios atingiram o auge. «Os federais», explicava a Martins, «a quem a existência do socialista incomoda altamente, abriram contra mim uma campanha de insinuações muito tolas, com o fim de me demolirem no conceito dos operários, persuadidos que, demolido eu, acabaria o socialista.>> E estes ataques não se limitavam a contestar o seu pensamento - Teófilo tenta-o na sua História das Ideias Republicanas em Portugal (1880)807 -, mas desciam ao terreno da injúria, pois chegaram a afirmar que, ética e psicologicamente, ele era um «céptico»,«um bocado cínico», que andava a «desfrutar os operários», para se rir «deles com os amigos». E Antero não tinha dúvidas quanto à origem da campanha: todas as atoardas saíam do «laboratório merdoso do Teófilo». Não surpreende este choque directo entre o poeta e os republicanos-federais: estes eram os que mais íntimos contactos mantinham com o associativismo popular (lisboeta) e, no plano doutrinal, eram os mais receptivos à questão social; por outro lado, alguns deles haviam militado com os socialistas. Ora se, antes de 1871, o projecto federalista, ainda que subordinado à solução do problema social, havia seduzido Antero, a sua maior consciencialização acerca dos elos existentes entre as séries (a série económica e a série política), a fundamentação organicista do seu modelo social e a própria lição que ia recolhendo dos acontecimentos fizeram-no rever o entusiasmo federalista e compreender que a questão do regime era de somenos na transformação da vida social. O radicalismo populista daquela tendência seria ainda mais perigoso do que a do republicanismo moderado. Exigia-se, por isso, uma luta sem tréguas contra todas as formas de jacobinismo, imperativo que terá aumentado com as tentativas de unificação do movimento (1876) e com o aparecimento de textos que visavam fundamentá-lo à luz dos ditames da filosofia positivista e do cientismo em geral.

De facto, na segunda metade da década de 70, Teófilo Braga, que já gozava de grande prestígio como intelectual, lançou-se numa teorização apostada em justificar e em unificar o republicanismo português. E, se Antero era visto como o maior ideólogo da corrente socialista, não se estranha que aquele o tivesse escolhido como seu adversário principal, tanto mais que entre ambos existia uma evidente rivalidade no que respeita à liderança de um novo «poder espiri tual» emergente - o poder dos intelectuais.
Fosse em termos sociocráticos (Teófilo), fosse a partir de uma funda mentação ético-metafísica, os intelectuais, reactualizando a ideologia cívica da «república das letras», actuavam como novos deres, ao reivindicarem para si, e geralmente contra a Igreja, um novo poder espiritual, assente na razão crítica e na ciência, e que devia iluminar o poder temporaladequado às sociedades científico-industriais. Isto implicava a redução da política a uma mera arte (de aplicação), prática que, sem a luz dos grandes princípios - que só eles, qual vanguarda, poderiam fornecer -, ficaria nas mãos de uma burguesia medíocre. Porém, neste terreno, por mais antiéticas que tenha sido as suas posições, Antero e Teófilo não divergiam tanto como pensavam. E alguma da animosidade que, a partir de 1872, existiu entre ambos também não é indissociável da luta interna pela hegemonia no interior dessa «república» e do novo poder «intelectual» e «moral» (Renan). Com efeito, se o positivista e republicano criticava o poeta metafísico e socialista (que, para muitos, era o guia espiritual da geração), Antero também não poupava o «merdoso do Teófilo», aplicando -lhe, entre outros epítetos, os de «Dr. Caos»8IO e «Marat de soalheiro»

Fonte : Antero de Quental, de Fernando Catroga, Editorial Notícias

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Quando até um republicano prefere a Monarquia...

A leitura, hoje, deste post de Vasco Campilho no blog 31 da Armada conduziu-me, por sua vez, a este post de Rui Albuquerque no blog Portugal Contemporâneo. Quando até um republicano prefere a Monarquia (mesmo que mantenha alguns preconceitos em relação aos monárquicos), quando compreende, e aceita, e explica, porque é que a Monarquia é o regime mais adequado a Portugal... é um sinal (muito) positivo, é um motivo para ter esperança, é uma prova, mesmo que (muito) pequena, de que as situações só são «irreversíveis»... enquanto as pessoas quiserem.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Alguém possui um destes exemplares para mostra?


Durante os dois primeiros anos da República, continuaram a ser utilizados, por existirem stocks consideráveis, os selos de D. Carlos e de D. Manuel, com a sobrecarga REPÚBLICA em diagonal.

Curiosidade assinalada pelo meu amigo Vasco Rosa, dum livro de filatelia de António Lopes Ribeiro.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Petição - PPM fora da coligação de Pedro Santana Lopes

Apesar da vergonhosa postura do Sr. Nuno da Camara Pereira, persona non grata à instituição real que os monárquicos portugueses prezam e honram, Pedro Santana Lopes prepara-se confirmar o P.P.M. integrante na sua coligação à Camara Municipal de Lisboa.
Na expectativa de travar esta veleidade está disponível esta petição electrónica na Internet. Clique e assine.

sábado, 16 de maio de 2009

Colocar ou retirar?

Como questionou o Rui Monteiro, qual a acção ? Colocar ou retirar o retrato ? Nem uma coisa nem outra. A constituição portuguesa na boa herança de 1910 não permite tal liberdade nem outros "quadros" nem outros cromos que não as figurinhas republicanas. Referendos só para abortos até as 13 semanas. Esta república quer fazer 100 anos de clínica privada.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Auspiciosa contratação

O jovem Daniel Nunes Mateus, estudante de História na Universidade Nova de Lisboa e dinâmico pupilo do Instituto da Democracia Portuguesa juntou-se a nós para dinamizar a nossa Plataforma. Bem vindo seja o Daniel a esta casa, e aqui deixo os meus votos de que jamais lhe falte energia e inspiração.

Parabéns, Senhor D. Duarte!

terça-feira, 12 de maio de 2009

O caso das pressões

Em encontros presenciais e conversas telefónicas, o presidente do Eurojust Lopes da Mota terá dito aos dois procuradores que iriam "tramar-se", ou "sofrer represálias" - depende das versões de testemunhos - se não acabassem depressa com a investigação. Foi-lhes transmitido que o primeiro-ministro queria celeridade no processo e sublinhado o risco de perda da maioria absoluta. No I Online

Afonso Costa há mais pouco mais de cem anos deportava um grupo de juízes do Tribunal da Relação de Lisboa para a Índia como represália ao arquivamento dum processo interposto pelo seu gabinete a João Franco por causa do célebre caso dos adiantamentos. Os seus presuntivos herdeiros jamais se esqueceram dos velhos métodos. Em Portugal, na terceira república acreditar na justiça mantém-se uma miragem.

domingo, 10 de maio de 2009

A exemplo da república



SalazarGageiro

 

Qual  a acção ? colocar ou retirar o retrato ? … Dizia-se antes de 1910 que a república era a salvação da pátria, muitos cairam na armadilha. De 1910 a 1926 a economia caiu a pique, foi preciso um militar vir de Norte e colocar tudo no sítio. Em 1929 veio a Crise económica Mundial mas Portugal graças à república já tinha a sua crise, hoje estamos numa crise Mundial mas já tinhamos a nossa crise … Sócrates desculpa-se com a conjuntura mundial … Salazar colocou a economia no sítio e nunca se desculpou com a Crise Mundial … Qual é o pior ?

Sócrates e Salazar são frutos da república  … o Rei já foi morto há muito tempo  !

sábado, 9 de maio de 2009

O dinheiro traz a felicidade?

Para os republicanos, sim. E quanto mais, melhor.
A república em Portugal também se tem caracterizado invariavelmente, desde há quase 100 anos, pelo laxismo nas finanças, pelos gastos descontrolados, pelos défices excessivos, e, como consequência, pela sobrecarga de impostos. Os republicanos não sabem gerir, não sabem poupar, não sabem investir correctamente. E depois ainda costumam ter o descaramento de rezingar contra supostas «despesas supérfluas» que a existência de Casas Reais implicam, mas que na verdade representam tostões comparadas com as exorbitâncias despendidas por presidências republicanas.
No passado dia 30 de Abril deu-se mais uma demonstração de como para os descendentes de Afonso Costa (quase) não há restrições na acumulação de «vil metal»: na Assembleia da República foi votada a nova lei do financiamento dos partidos políticos, cuja principal novidade é o aumento do limite de «dinheiro vivo» que aqueles podem receber por ano – passou de pouco mais de 20 mil euros para mais de um mihão e 250 mil! E tão ou mais inquietante que a aprovação da nova lei é o facto de tal ter acontecido por unanimidade... ou quase: António José Seguro, honra lhe seja feita, foi o único deputado a votar contra.
Curiosamente, são também do PS as vozes que mais violentamente criticaram, desde a semana passada, esta alteração legislativa: João Cravinho, Henrique Neto e António Costa. Entretanto, Manuela Ferreira Leite (que, recorde-se, não é actualmente deputada) lá veio dizer que o PSD está disponível para «ajustar» a nova lei se esta vier a ter «efeitos perversos».
Porém, o mal está feito, mais desconfianças e dúvidas se levantaram, e esta foi mais uma machadada na reduzida – ou inexistente – credibilidade do regime. Que, decididamente, não é reformável.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Republica comemora centenário com novo "regicidio"

Já aqui foi lançado o aviso sobre as fortes ligações entre a Sociedade Frente Tejo e a Comissão do Centenário da Republica, na gestão de mais de 155 milhões de euros para fazer uma "expo" sobre o centenário da Republica.

Pois que a festa comece na Praça do Rei: o projecto para a Praça do Comércio foi "finalmente " apresentado, depois de ter sido mantido em segredo durante mais de um mês. Inclui um substancial alargamento dos passeios e grandes restrições à circulação automóvel. A calçada à portuguesa desaparece do local, enquanto o Cais das Colunas surge transformado numa plataforma circular.

Pois... leram bem... a duas das maiores referências da cultura portuguesa vão seguir o caminho do Rei D. Carlos e do Pricipe D.Luís Filipe e desaparecer debaixo da ignorância iluminada dos republicanos!



atentado
No desenho não se percebe mas a placa central está elevada

O rigor histórico é tanto que o arquitecto Bruno Soares escolheu a cor térrea para vincar a ideia de que até ao final do sec XIX a Praça não estava calcetada.
"A remodelação do Terreiro do Paço tem de ficar pronta a tempo das comemorações do centenário da República, que se realizam em Outubro do ano que vem. E embora o projecto ontem apresentado seja aquele que, em princípio, irá por diante, ele poderá vir incorporar sugestões ou alterações sugeridas por todos aqueles que quiserem participar neste debate.

Os desenhos serão colocados no site da Sociedade Frente Tejo a partir do próximo dia 12. O presidente desta entidade, o arquitecto Biencard Cruz, comprometeu-se ontem a “promover o envolvimento dos cidadãos” - “porque a praça é de todos, e não apenas dos especialistas” em urbanismo e arquitectura. "


Quem olhar para a imagem vê linhas cruzadas no pavimento junto às arcadas. Ali, o pavimento será de lioz e terá desenhadas umas linhas desencontradas que correspondem às rotas de navegação dos portugueses no séc. XVI tal como aparecem nas cartas da época... será?
Para outra interpretação podem até simular as trajectórias das balas dos vários regicidas que a República tão urgentemente quer comemorar... é que da Praça do Comércio não partiam as naus para as Descobertas pois sempre foi uma "Praça de poder" por estar junto ao Paço Real, forte simbolo do poder régio.
Mesmo quando esta era o Terreiro do Paço não se encontrava na trajectória de ser arrebatada da utilidade publica ao ser transformada num enorme espaço sem qualquer utilidade exactamente no eixo viário central de Lisboa.
Mais uma vez a república toma de assalto Lisboa para tomar para si o que é de todos e as reacções na blogoesfera foram várias e unânimes, trata-se de um atentado: Do Blogue Carmo e a Trindade" com o titulo "ACUDAM-NOS... que isto magoa a alma lusitana!!"
"Sr. Arqº Bruno Soares, tem V. Exa. toda a legitimidade de defender a sua dama, e tanto quanto me é dado a entender e respeitar, elaborar os projectos mais sui generis - e que menos me agradem - que entenda, contudo gostaria de requerer à autarquia que não permita o assassinato da calçada portuguesa naquele local.(...)
Agora vem o Sr. Arqº arruinar a calçada portuguesa tentando transformar o Terreiro do Paço em terra e losangos.
De facto, já não estamos no Séc. XIX para termos terra no terreiro, e não estamos no Séc. XXIII para termos losangos... Haja muita calma e paciência para aturar todas estas violências."


Já o blogue "Andarilho" disserta:"quer-me parecer que qualquer que fosse a solução encontrada para modernizar tão importante local, valioso património da cidade, a calçada portuguesa não deveria desaparecer. Conquistar os lisboetas também passa por respeitar a identidade e tradição da cidade."

O blogue "O Desproposito" lamenta o facto de não haver a hipotese de um Parque de estacionamento e da falta de "democracia" na forma como os projectos são apresentados
"triste, escrevo, triste, é o facto da proposta de desenho para a "nova" Praça do Terreiro do Paço estar (mais uma vez...) sujeita ao quase clandestino "estatuto" de segredo de estado..."
.
Comentário muito acertado sobre esta opinião, de um A.M:"vamos ser optimistas... como com isto agora do terreiro do paço (cada vez melhor...) é que vamos comemorar a "república" pode ser que ainda desistam do museu dos cochos de zoom em zoom até à vitoria final!..."

O Blogue 2711 termina com a frase lapidar: "Quando não se tem mais nada para fazer, triste ideia, luta-se contra a calçada portuguesa."

bem haja

Winston Churchill e a revolução de 5 de Outubro


Winston Churchill, impressionou-se profundamente com o brilho do jovem rei português D. Manuel II de quem se tornou admirador e amigo. Na época, o futuro chefe do governo britânico ainda exerceu pressões junto do ministro dos negócios estrangeiros Edward Gray para o não reconhecimento do governo revolucionário de Lisboa.


Na imagem o estadista britânico com a sua mulher Clementine Hozier em 1908

terça-feira, 5 de maio de 2009

O Grande Bloqueio

Para sossego da clientela regimental e da letargia mental a que o português é tão atreito, o debate político está devidamente amestrado pela asfixiante agenda dominante. Só assim se justifica discrepância que encontramos nos temas abordados e debatidos nos meios tradicionais e na blogosfera.
Dou como exemplo a malquista “questão do regime”: a poucos meses do inicio das festividades do Centenário República, parece-me muito estranho e lamentável que esse relevante debate que encontramos amiúde em grandes blogues nacionais como o Insurgente, Portugal Contemporâneo, o Corta-fitas e o Combustões (só para mencionar os mais populares e artigos mais recentes), não transpareça minimamente nos meios de comunicação tradicionais.

sábado, 2 de maio de 2009

A arma fumegante dos republicanos

A prática de regicídio parece ser uma constante no comportamento daqueles que pretendem derrubar as monarquias. Que eu saiba, república alguma jamais foi implantada por votação impoluta. Llembro o caso italiano, em 1946, em que a contagem foi interrompida quando as regiões mais fiéis à Casa de Sabóia começaram a inclinar o prato da balança para a manutenção da chefia de Estado dinástica, ou lembro, ainda, o caso grego, em que os ditadores militares fizeram um plebiscito absolutamente viciado. Recentemente, a abolição (até ver) da monarquia nepalesa saíu de um arranjo visando oferecer aos maoístas a participação no governo daquele país dos Himalaias. Ao povo nepalês foi negado o direito de decidir. Matar reis, exterminar por atacado famílias reais, parece ser a especialidade dos inimigos das monarquias.
Ontem, um celerado quis matar a família real holandesa. Parece não haver novidade, porquanto o século XX oferece interminável sucessão de crimes de sangue contra famílias reais: Humberto I de Itália, D. Carlos I de Portugal, Jorge I da Grécia, Francisco Fernando da Áustria, Nicolau II da Rússia, Alexandre I da Jugoslávia, Faisal II do Iraque, Sisavang Vatthana do Laos, Lord Louis Mountbatten of Burma. Os inimigos da monarquia sabem-na popular e entranhada na consciência e afectos do povo, pelo que a "propaganda pelo facto" - expressão cunhada pelos anarquistas do século XIX - constitui o único meio para virar a página e impor o facto consumado irreversível. Há semanas, no último dia das barricadas vermelhas em Banguecoque, fui ao acampamento dos republicanos tailandeses e travei interessante diálogo com um seguidor de Thaksin, professor do ensino secundário e ardente defensor da república. Falou-me despreocupadamente sobre as suas convicções e, ao terminar a sua exposição, deixou cair um sintomático "até seria melhor se a família real desaparecesse". Sabemos o que isso quer dizer. Desaparecer quer dizer "assassiná-los a todos, sem excepção". Estes republicanos são uns bons safados !



Miguel Castelo-Branco, in Combustões, 2-5-2009