quinta-feira, 9 de julho de 2009

Perderam a vergonha



Durante as últimas décadas de vigência do regime da Monarquia Constitucional, a liberdade de expressão consagrada pela Lei, acostumou os agentes políticos - nos quais se inclui a imprensa - a uma total irresponsabilização daquilo que era dito ou escrito. A censura apenas existia a posteriori e as consequências eram praticamente nulas. Esta situação de perigosa lacuna quanto à defesa do bom nome - a honra, qualidade que se confundia com a credibilidade de qualquer homem público - desencadeou um sem número de episódios que minaram mortalmente o regime. A difamação e o arrastar pelo lodaçal da infâmia de um ou outro político, conduziu ao constante aumento da parada, num jogo onde as instituições acabaram por soçobrar às mãos de uma ínfima minoria que fez da violência e ousada ilegalidade, uma arma contra a qual o articulado legal pouco ou nada podia. A Coroa acabou fatalmente por se transformar no alvo mais apetecido, porque a sua situação de total exposição que a Carta consagrava, fazia o pleno nas manobras estratégicas enveredadas pelos partidos rotativos que se digladiavam pelo poder. Se a Monarquia parlamentar praticamente foi liquidada pelo Regícídio de 1908, o processo que desembocou no crime foi longo, feroz, sem tréguas. Não existiam regras claras, nem limites e o prp de tudo se serviu para destruir o regime que em derradeira instância era garantido pela Coroa, obviamente consubstanciada na figura do monarca.

Jamais ousando enfrentar a proverbial coragem física de D. Carlos, os republicanos optaram pelo dedicado e imaginativo serviço de sapa a cargo dos chamados "publicistas", fazendo circular milhares de folhetos e literatura de cordel com claras alusões a membros da Casa de Bragança, num laborioso processo que mais tarde seria imitado por Lenine. Num outro nível, o dos geralmente estrangeirados intelectuais dos círculos literários lisboetas, as afrontas somavam-se em textos mais cuidados, sem que por isso se perdesse o sentido de uma violência inaudita, que provindo de certa gente ganhava auras de maior respeitabilidade e perigo. Nada de estranho nesta nossa sociedade da "informação a todo o custo".

Sabemos o que uma inextricável situação de abuso de imprensa, impunidade pelo apelo à subversão da Lei pela violência verbal e física, fez desabar sobre a sociedade portuguesa: um sangrento golpe de Estado que liquidou o regime e conduziu a um infindo rol de brutalidades, volatilização de liberdades pessoais e colectivas, ruína económica e esmorecimento de um espírito cívico que lentamente se consolidava ao longo de décadas de normalização de um regime constitucional perfeitamente adequado à Europa daquela época. A final reacção ao estado de coisas - à chamada Demagogia que transformara Portugal num lugarejo idêntico à Albânia dos nossos dias -, mais tarde impôs um regime que se prolongou pela maior parte do século XX e cujo percurso e consequências todos conhecemos.

Está a tornar-se normal o recurso ao enxovalho público da gente do poder. Seja em qualquer inauguração num espaço aberto ou nos jornais, os epítetos dirigidos aos homens do regime vai subindo de tom e a falta de formal respeito parece volatilizar-se no éter de todos os descontentamentos. O que se torna incompreensível, é este afã na promoção de um espírito de esterqueira geral em que a situação se transformou, exactamente pelo constante acicate dos agentes políticos de serviço e dos seus óbvios satélites e assalariados da comunicação social. Há uns poucos anos, assistimos ao deprimente espectáculo do "Chefe do Estado dos republicanos" insultar publicamente um elemento da sua própria segurança, desfaçatez logo imitada pelo seu sofrível sucessor no cargo. O mau exemplo perfeitamente explícito por aqueles que deviam guardar ciosamente aquela certa distância que sacraliza as instituições, conduz a situações que de tão repetidas, são já encaradas com uma certa normalidade. Da rua ou do cortejo de carros do Estado, passou-se facilmente ao Parlamento, onde as sessões demonstram a um público atónito, a baixíssima categoria dos actuais poderosos, que pedra a pedra vão capciosamente demolindo demolindo o regime. E este facto torna-se tão mais estranho, porque é da total responsabilidade daqueles que dele têm vivido e à sua sombra prosperado. O ..."afinal eles não valem nada!", torna-se cada vez mais numa frase que soa a perfeito figurino de futuro epitáfio.

Perdeu-se a vergonha e hoje vale tudo. Sabemos o que se segue e confiando na lição que uma breve leitura num qualquer sucinto manual de História aconselha, ainda irão a tempo de corrigir o desastroso caminho que conscientemente desbravaram. É que todos temos a consciência que o regime da 3ª república - que parece chegar a um inglório fim -, é aquele que mais similitudes tem com aquele outro da Monarquia Constitucional, trucidado à mão de um punhado de sanguinolentos aventureiros.


Eles andam aí!!!

Esta manhã fui alertado por um amigo que estava no ar no Rádio Clube Português uma entrevista à Professora Fernanda Rolo a respeito das actividades da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República (uff!) pelo locutor de serviço Nuno Domingues. Tenho a dizer que me impressionou a subserviência manifestada pelo entrevistador: ignorando o regime terrorista a que deu origem a revolução de 5 de Outubro, e que a maior parte dos países evoluídos da Europa são monarquias, o pivot limitou-se a estender o tapete à Senhora Doutora para uns valentes minutos de publicidade gratuita. Ficámos a saber alguma coisa sobre o novo portal da Comissão de festas na Internet e sobre o ambicioso programa que a Comissão está a delinear para as escolas: publico com o qual a Comissão nutre um particular carinho (sic). Protejam bem os vossos filhos então, pois a velha estratégia da mentira mil vezes repetida continua em voga.

Resta-nos a satisfação de verificar que sempre que a Comissão das Comemorações se manifesta publicamente nos grandes meios de comunicação a respeito do seu Portal, o numero de visitas à nossa modesta plataforma na Internet disparam.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Perguntas Proibidas 2 de Julho - Centenário da República, programa para ouvir

Perguntas Proibidas 2 de Julho - 1ª Parte

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Vasco Pulido Valente escreveu recentemente sobre o Centenário da República: «Não devia haver comemorações nenhumas. É um episódio triste da história portuguesa e não devia haver comemorações nenhumas. Para todos os efeitos foi uma ditadura. A ditadura não nasceu do vácuo, nasceu da República!» Tomando por mote esta ideia, Ricardo Gomes da Silva conversou com Carlos Bobone e João Távora, sobre a face oculta da I República e os esforços actuais para dourar a pílula de um regime amargo que, no domínio social e económico, foi uma "passadeira vermelha" para o Salazarismo!

Perguntas Proibidas 2 de Julho - 2ª Parte

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Vasco Pulido Valente escreveu recentemente sobre o Centenário da República: «Não devia haver comemorações nenhumas. É um episódio triste da história portuguesa e não devia haver comemorações nenhumas. Para todos os efeitos foi uma ditadura. A ditadura não nasceu do vácuo, nasceu da República!» Tomando por mote esta ideia, Ricardo Gomes da Silva conversou com Carlos Bobone e João Távora, sobre a face oculta da I República e os esforços actuais para dourar a pílula de um regime amargo que, no domínio social e económico, foi uma "passadeira vermelha" para o Salazarismo!

"Não discutimos a Nação!"



... - dizia o Senhor Presidente do Conselho da II República Portuguesa, António de Oliveira Salazar. E dizem os organizadores das festividades que comemorarão, em 2010, os 100 anos sobre a instauração do regime republicano. Não discutem a Nação que lhes passou um cheque de 10 milhões de euros em tempo de crise, nem discutem o regime que os amamenta com o saudável leite da ideologia burguesa. Ou não fosse o cabecilha desta organização um banqueiro. Artur Santos Silva preparou, aliás, um programa muito interessante para estas lautas festas que fazem lembrar, em muitos aspectos, as comemorações do Estado Novo: República e Lusofonia, Arte e Espectáculos, Jogos do Centenário, República nos Media, Edições e Exposições do Centenário, Portal Centenário da República e Georeferenciação e Fluxos de Comunicação. Se substituirmos a Lusofonia por Império, o Portal pelas luxuosas publicações editadas pelo Secretariado Nacional de Propaganda, de resto tudo, ou quase, tudo é decalcado de cérebros muito semelhantes aos da Revolução Nacional. Aliás, a formatação ideológica a partir das escolas parece ser um ponto assente no programa desta Comissão: rever, revisitar e reformatar a imagem da República de forma a servir um Estado moderno é o objectivo principal. («As actividades previstas incluem exposições, encontros científicos, roteiros municipais, jogos e concursos e actividades nas escolas», Público, 08-07-09). Num país onde a Escola já quase não tem contacto com a História do seu país, onde os estudantes não saber situar cronologicamente os acontecimentos e as figuras que o antecederam; num país onde os museus não têm orçamento para quase nada, nem para conteúdos educativos, gastar 10 milhões em propaganda republicana é imoral e muito pouco ético. Incorrendo no risco de parecer imparcial, diria que é um crime. Mas estas coisas, que vão sendo hábito numa sociedade pouco transparente e habituada à impunidade, não espantam saindo da boca, mãos e cabeça de banqueiros. Fico realmente admirado que uma pessoa de consciência, saber e intelectualidade como a Dr. Raquel Henriques da Silva (que, mais do que ninguém, conhece o Estado da Cultura em Portugal) assine por baixo desta fantochada.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

È, também, pela tolerância que a monarquia se deve distinguir da república



João César das Neves
DN 6 de Julho de 2009

No passado dia 22 de Junho, pela primeira vez desde 1875 um presidente francês discursou no Parlamento. Nicolas Sarkozy aproveitou a oportunidade para uma intervenção inteligente e inspirada sobre o momento político (www.elysee. fr/documents) . Admitindo a gravidade e a incerteza que nos rodeia, deu uma visão positiva, garantindo que "nada será como dantes (...), a crise torna-nos mais livres para imaginar um novo futuro". Está convencido de que "o mundo depois da crise será um mundo onde a mensagem da França será mais bem ouvida e mais bem compreendida (...). O modelo francês tem de novo a sua hipótese".

Que mensagem e modelo são esses? Pouco adiante, Sarkozy mostrou que se trata da mais tacanha intolerância e incompreensão. Muito aplaudido, o Presidente afirmou: "A burka não é um símbolo religioso, é um símbolo de servidão, é um símbolo de abaixamento. Quero dizer solenemente, ela não será bem-vinda no território da República."

A tolerância só tem significado quando enfrenta algo intolerável. Para aceitar o que consideramos admissível não é preciso esforço. Claro que a tolerância tem limites e há muita coisa que não devemos permitir: crime, abuso, injustiça. A discriminação das mulheres e, pior ainda, a sua servidão e abaixamento são evidentemente intoleráveis. Mas o Parlamento e Presidente franceses não estão a tratar da opressão feminina. Aliás, parecem bastante indiferentes aos efeitos que as suas palavras e acções poderão ter sobre as pobres mulheres que dizem defender. Como passarão a viver as raparigas muçulmanas se a burka for proibida em França? Certamente Sarkozy não sabe a resposta.

Aquilo que tem vindo a ocupar os legisladores franceses é um símbolo, como admitiu o Presidente. Um símbolo que ele afirma não ser religioso mas ter um significado particular. Evidentemente, esse não é o significado que o mesmo sinal tem para quem o usa. Existe escravidão explícita no mundo muçulmano, mas esses não usam burka. Para um árabe a escravidão tem outros símbolos.

O mais curioso na posição de Sarkozy e dos deputados é não entenderem que a sua é precisamente a mesma posição que fez nascer a burka. Se substituirmos "dignidade da mulher" por "decência feminina" e "abaixamento" por "deboche", é fácil imaginar um qualquer responsável afegão a justificar literalmente nos mesmos termos a recusa do traje ocidental. Evidentemente que não concordamos com essa conclusão, mas tolerância é aceitar aquilo com que não concordamos. As autoridades muçulmanas ao imporem a burka mostram falta de tolerância. Tal como as autoridades francesas o farão se vierem a proibir a burka.

Mais irónico é este debate realizar-se à volta de uma questão de vestuário, precisamente o tema onde a liberdade de costumes se começou a expressar na contemporânea. Há cem anos não passava pela cabeça de ninguém que um homem sério saísse à rua sem chapéu e bengala ou que as damas mostrassem o tornozelo. Fardas e uniformes eram omnipresentes em todas as classes. Os filhos dessa geração afirmaram a sua autonomia precisamente pela sua aparência exterior. Cabelos compridos, roupa desalinhada, calças de ganga, minissaias pareceram como combates importantes no caminho da liberdade. Agora os franceses, ao proibirem a burka, pensam estar no mesmo combate. Mas as batalhas antigas eram contra as proibições, não pela imposição de novas proibições.

O problema é mais vasto do que parece. Como Sarkozy com a burka, o Parlamento Europeu e o Governo português estão empenhados há anos em limitar a vida a fumadores, automobilistas, pais e cidadãos com as melhores intenções. Esquecem que todas as ditaduras, mesmo ferozes, sempre se justificaram com o bem dos cidadãos. Salazar, Franco, Mugabe, Chávez e até Hitler, Estaline, Mao e Pol Pot sempre disseram estar empenhados numa sociedade melhor. O mal deles não era cinismo e hipocrisia, nem estava tanto nas finalidades, mas na arrogância e tacanhez que o seu caminho implicava. As tais sociedades ideais nunca apareceram. Só ficou o sacrifício da liberdade.

João César das Neves

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Aliança Luso-Britânica: um benefício mútuo




"Quando somos aliados de alguém, tal pressupõe uma série de vantagens, obrigações e deveres de entreajuda e respeito mutuo. Isso tem acontecido desde que ela foi assinada em 1373? "

Esta é uma questão pertinente que no post anterior o Daniel deixa à reflexão de todos. O seu texto põe claramente em causa os resultados práticos da Aliança Luso-Britânica, mas esta terá inevitavelmente de ser analisada ao longo dos séculos de vigência. Assim e sucintamente, destacaria alguns pontos fundamentais:

1. Numa aliança entre Estados não existem por regra, motivos de índole sentimental ou filantrópica. O interesse prevalece e a aliança luso-inglesa serviu no seu início, como enquadramento de ambos os países no campo mais vasto do conflito que ocorria na Europa ocidental e que ficou conhecido como a Guerra dos Cem Anos. Dois países inevitavelmente marítimos, dada a exiguidade territorial e a situação geográfica, Portugal e a Inglaterra enfrentavam duas potências continentais, a França e uma Castela que já ambicionava unificar a Península sob a sua égide. Não podemos alhear-nos do espírito da época, onde as questões sucessórias faziam parte da chamada "grande política" internacional. Durante a Guerra da Independência, a aliança serviu plenamente os interesses portugueses, até porque não existia um desequilíbrio muito marcado entre os dois signatários. Uma população escassa que se via obrigada a encontrar nas actividades marítimas o seu sustento e a defesa da integridade política, tornou possível - senão inevitável -, o mútuo acordo.
2. Durante o período dos Descobrimentos, a Inglaterra enfrentou graves problemas internos, simultaneamente prosseguindo a rivalidade com a França, onde o poder real afirmava-se em detrimento de senhorios feudais, num processo de unificação que ameaçava a política inglesa na zona do Canal da Mancha e Aquitânia. Enquanto isso, Portugal afirmava-se no mar, conquistava posições reconhecidas de jure e de facto pela Santa Sé, a entidade suprema que sancionava a legalidade da posse de novos territórios que entravam agora na órbita de uma Cristandade em expansão. A aliança inglesa secundarizou-se, especialmente num momento em que a coroa portuguesa seguiu a prudente e necessária política de afastamento dos conflitos bélicos na Europa. Há que ter em conta a aproximação de Londres à Península, através do casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, o que tornou o monarca inglês cunhado de D. Manuel I e genro dos Reis Católicos. Temos assim, o perfeito quadro de três potências que se afirmam no mar, sendo uma delas simultaneamente, detentora de um importante património terrestre que a evolução da política interna inglesa em direcção ao protestantismo, tornaria inimiga: Castela.


3. A União Ibérica. O fecho dos portos portugueses ao comércio com as nações do norte, na sua maioria protestantes, selou definitivamente o fracasso da União de coroas entre Portugal e Espanha, pois os interesses portugueses - comerciais, políticos e sobretudo, aqueles que respeitavam ao património ultramarino -, passaram a ser gravemente prejudicados pela política continentalista e imperial de uma Espanha que se tornou inimiga de ingleses, holandeses, nórdicos e franceses. A depredação da nossa esquadra, o assalto às possessões ultramarinas, o fecho dos nossos portos que durante um século tinham fornecido as gentes do Báltico e do Mar do Norte com os apetecidos produtos exóticos africanos e orientais, criaram uma situação que tornou inevitável o regresso à situação anterior a 1580.

4. Restauração da Independência em 1640. Foi a época de ouro da Aliança, especialmente por Portugal significar um ponto de apoio importantíssimo para os ingleses e simultaneamente, a garantia do final sucesso do advento da dinastia de Bragança e da total independência do nosso reino. A luta no mar, o controlo pleno da parte mais substancial do Império, a recuperação do Brasil com a derrota da Holanda e o estabelecimento de um formal suporte diplomático após o casamento Stuart-Bragança, serviu ambos os signatários. Sem a Inglaterra, Portugal possivelmente teria sucumbido diante dos tercios de Madrid e sem Portugal, a Inglaterra não teria encontrado os portos essenciais que apoiaram a construção da sua nova hegemonia e o almejado princípio do equilíbrio continental europeu.

5. O século XVIII. Uma vez mais, a Aliança funcionou num sentido benéfico para ambos os países. Se o tratado de Methuen garantiu a penetração dos lanifícios britânicos em Portugal e tornou bastante clara a prevalência inglesa no nosso país, possibilitou a segurança da soberania nacional no brasil, África e no que restava no oriente. Portugal jamais foi obrigado a participar activamente nos conflitos que devastaram a Europa durante o século - Sucessão da Áustria, da Polónia, Guerra dos Sete Anos, etc - e apenas tivemos uma curta e episódica intervenção durante a chamada Guerra Fantástica, durante a qual a Inglaterra não deixou de assistir as necessidades portuguesas com a segurança da Royal Navy e o envio de competentes chefes militares que reorganizaram o exército português (Conde de Lippe).

6. 1789-1815. Um período longo e difícil, durante o qual Portugal foi obrigado a intervir, devido sobretudo à política absorcionista de Madrid, que inicialmente hostil à revolução, acabou por regressar à órbita francesa. O génio de Napoleão consistiu no principal problema que os ingleses tiveram de enfrentar no Continente e a única possibilidade portuguesa, consistia - como se verificou - na manutenção da Aliança. Significava isto, a manutenção do essencial que era a independência política e com ela, a guarda e garantia do Império. Portugal foi de facto um aliado fiável a partir de 1808, embora no período imediatamente anterior, tivesse sido obrigado a uma política aparentemente hesitante, dado o esmagador poderio terrestre de uma França que contava ainda com o concurso espanhol em terra - na nossa fronteira - e no mar (a terceira frota a nível mundial).

É certo que nesta época, já a Aliança não podia ser encarada num pé de igualdade, dada a enorme distância que separava Portugal de uma Inglaterra que vivia o pleno arranque da 1ª Revolução Industrial e cuja frota dominava todos os mares, quantitativa e qualitativamente. Na época, a Inglaterra já era de facto uma potência global, numa escala que apenas poderá ser comparada aos EUA dos nossos dias.

7. 1815. Contra todas as probabilidades, Portugal sentou-se na Grande Mesa do Congresso de Viena, com uma categoria que a posse do Brasil lhe garantia. A transferência da Corte para o Rio, sob os auspícios e protecção dos ingleses; cobertura da política nacional na firme delimitação de umas já muito alargadas fronteiras do Brasil; a vitória total sobre a França, com a plena participação de um reorganizado, numeroso e pujante exército português, são alguns dos aspectos a considerar como essenciais para a natural consagração de uma independência que bem poderia ter sofrido as vicissitudes de outros pequenos Estados retalhados ou anexados por mais poderosos vizinhos. A Aliança serviu-nos plenamente e a contento de ambas as partes.

8. O Ultimatum. Consiste no sempiterno argumento republicano para atacar a Monarquia Portuguesa. De facto, viviam-se já em pleno as consequências decorrentes do estipulado pelo Congresso de Berlim que como sabemos, estabeleciam o primado da ocupação que firmava a Soberania, em detrimento dos já vagos e materialmente caducos "direitos históricos", que aliás Portugal jamais cumpriria no Brasil (Tratado de Tordesilhas, por exemplo). Neste momento, temos a presença perturbadora do PRP que acicata demagogicamente as gentes urbanas, num sentido claramente radical e de um nacionalismo próprio do século XIX, prenhe das consequências da revolução francesa de 1789 e que transformaria o mapa da Europa com o nascimento de Estados unificados. Uma vez mais pesou a ameaça da União Ibérica, artificiosamente gizada em Madrid e que pretendeu aliciar D. Luís I e D. Fernando II com a hipótese de uma formal "unificação inversa", com um protagonismo dinástico português que muito mal disfarçava o evidente beneficiário final: a Espanha.
A política partidária sofria a pressão de uma exaltada - embora muito minoritária - opinião pública, ciosa de prerrogativas, mas totalmente irrealista quanto às reais possibilidades do firmar da soberania nacional sobre vastíssimos territórios em África (o Mapa Cor de Rosa). A prudente política de D. Carlos I que muito bem via na Inglaterra a exclusiva garantia da manutenção de um Império certamente mais reduzido - e que acabou por se tornar no 3º mais vasto Império colonial europeu -, reencaminhou Portugal no sentido da Aliança que antes de tudo, servia para manter em "mãos amigas da Inglaterra", preciosos territórios que pela vastidão e situação geográfica, inevitavelmente eram pretendidos por alemães e franceses. Paradoxalmente, o fracasso dos sonhos de Barros Gomes, acabou por permitir o importante conjunto territorial que hoje forma os PALOP. Neste aspecto, há que reconhecer o essencial papel desempenhado pelo rei. É uma verdade histórica que se torna hoje impossível menosprezar.

9. As Guerras Mundiais. Se a IGM parece ter apenas servido para um muito desejado reconhecimento internacional de uma república portuguesa bastante desprestigiada pelos acontecimentos de 1908, 1910 e consequentes conturbados anos de violência, cerceamento de liberdades e garantias constitucionais e ruína económica, há que reconhecer que uma vez mais, a colocação de Portugal ao lado da Inglaterra, acabou por consagrar por algum tempo, a intangibilidade do património colonial. Isto, apesar da estrondosa e inapelável derrota da república em todas as frentes de batalha.

A II GM demonstrou uma vez mais, o pleno benefício mútuo de uma Aliança que desta vez, jamais pretendeu exigir de Portugal qualquer sacrifício de sangue. A neutralidade serviu para manter aberta uma preciosa via de comunicação marítima que ligava a Grã-Bretanha ao Ultramar, EUA e sobretudo, à crucial frente mediterrânica, essencial para a manutenção do esforço de guerra britânico. Portugal não foi invadido e arrastou a Espanha para uma neutralidade que em última análise, impediu uma vitória total do Eixo no Atlântico.

Nestas curtas linhas e de forma muito simplista, é esta a visão a reter da Aliança luso-britânica. Portugal é independente, não existe qualquer potência hegemónica no continente europeu e mais importante que tudo, temos hoje uma importante CPLP, facto histórico e bem real que pode ser considerado quase como um milagre na política internacional, dada a reduzidíssima dimensão territorial, política e económica da chamada pátria-mãe.

Como nota final, creio que o Daniel deve ter sido bastante influenciado pela Aliança Peninsular de António Sardinha, obra muito interessante mas totalmente desfasada das realidades que então e agora condicionam a política externa portuguesa. Termino com aquela frase usada por D. Carlos para enquadrar a actividade do Ministério dos Negócios Estrangeiros:

"Podemos estar de mal com todo o mundo, menos com a Inglaterra e o Brasil".

Hoje, o grande rei a isto acrescentaria os Estados Unidos e os países da CPLP.

Aliança Luso-Britânica o que temos lucrado?

Esta reflexão exprime unicamente o meu ponto de vista pessoal, sobre a mais antiga aliança do mundo ainda em vigor.
Quando somos aliados de alguém, tal pressupõe uma série de vantagens, obrigações e deveres de entreajuda e respeito mutuo. Isso tem acontecido desde que ela foi assinada em 1373? A meu ver, a aliança tem beneficiado mais os ingleses em detrimento dos Portugueses. Até atrevo-me a dizer, que a Inglaterra só invocou a aliança, sempre, para a satisfação dos seus próprios interesses. E quando não lhe convinha, traia-nos descaradamente. Ou não foi isso que aconteceu no ultimato inglês?
Hoje pergunto-me o que ganhamos em aliar-nos a um povo tão mesquinho, falso e interesseiro como são os Bretões? Para além do escárnio, poucas vantagens. Não nos esqueçamos que nos sujeitámos a ser invadidos pelos franceses por causa dos ingleses, participamos na 1ªGuerra Mundial, porque os ingleses permitiram, saímos a perder do tratado de Methuen, sem falar de outros factos históricos em que a aliança nunca nos beneficiou em nada, actualmente com o caso Maddie, em que os Ingleses tentam passar mais um atestado de incompetência à nossa Policia Judiciaria.
O que os Ingleses têm, que nós não temos? Estruturas politico- administrativas eficientes, porque, fora disso a superioridade dos Ingleses face aos Portugueses é questionável e debativel em termos culturais e civilizacionais.
Acho que devíamos repensar a quem devemos aliar. Alianças com a Espanha, ou com o Brasil poderiam ser mais proveitoso e vantajoso.

Centenário da república: o que celebramos?

Segundo um estudo a apresentar mais logo pela SEDES sobre a qualidade da democracia portuguesa, mais de dois em cada três eleitores consideram que não existe igualdade de tratamento dos cidadãos perante a justiça, enquanto 51% dos inquiridos afirmam-se insatisfeitos com a qualidade da democracia. Do Público.

Mais luz


É já amanhã Sábado 4 de Julho, pelas 16h30 a apresentação do romance "Espíritos das Luzes" do nosso Octávio dos Santos que decorrerá no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Penamacor. Por não me ser possível (uma vez mais) comparecer à festa, aqui antecipo um abraço de parabéns ao autor.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

E se cada um de nós pudesse colaborar na elaboração de uma nova Constituição?

Sob os auspícios do Concelho de Fóruns do Instituto da Democracia Portuguesa (IDP), decorrerá no Museu das Comunicações, Átrio da Casa do Futuro, no próximo dia 11 de Julho o entre as 10.00hs e as 18.00hs o debate de lançamento do Constituição 2.0.
Esta iniciativa tem como objectivo a construção participada, através de ferramentas colaborativas e interactivas ao dispor dos utilizadores da Internet (twitter, blogue, facebook), de uma nova Constituição para Portugal.

Participe! Para inscrições e esclarecimentos visite Constituição 2.0 ou contacte a organização pelo endereço electrónico: democraciaportuguesa@gmail.com

Custos

  • O custo da MONARQUIA em ESPANHA é 0,19 dezanove centimos por espanhol.

  • O custo da REPUBLICA em PORTUGAL é 1,58 um euro e cinquenta e oito centimos por português.

  • Governo espanhol transfere para a CASA REAL ESPANHOLA 9.000.000 de Euros

  • Governo português transfere para a PRESIDÊNCIA DA REPUBLICA PORTUGUESA 16.000.000 de Euros

segunda-feira, 29 de junho de 2009

A não perder

O Carlos Bobone, o Ricardo Gomes da Silva e eu próprio conversamos sobre o Centenário da República, Quinta feira dia 2 de Julho entre as 18.05 e as 18.55 no programa Perguntas Proibidas na Rádio Europa em FM 90.4.

domingo, 28 de junho de 2009

A bandeira da ignorância e do fanatismo.

"Tomemos um outro exemplo, não mediterrânico, mas pertencente, também a ele, à Europa Meridional, o de Portugal. Até 1910 as armas e a bandeira articulam-se, também aqui, à volta do azul e do branco, cores heráldicas dos reis de Portugal desde o século XII. Sobrevém a Revolução, e põe-se a questão da bandeira do regime republicano. Que cores escolher? O azul e o branco, que fariam recordar excessivamente a monarquia derrubada, são excluídos. Ao amarelo acontece o mesmo, pois evoca de maneira excessivamente o poderoso e temido inimigo espanhol. Restam portanto o verde, o vermelho e o preto. Em 1911, em circunstâncias mal elucidadas, e por motivos que ainda se discutem, a jovem república portuguesa adopta uma bandeira verde e vermelha, divida a meio. Essa é, ainda hoje, a bandeira de Portugal, e é uma das raras bandeiras europeias que infringe a regra das cores heráldicas: o verde (sinople) e o vermelho (goles) tocam-se, o que é estritamente contrário aos princípios da heráldica (de resto, a escolha do preto, justaposto ao verde ou ao vermelho, não teria laterado nada no que diz respeito à transgressão desses princípios). Depois da adopção desta bandeira, de algum modo por dedução, pois escolheram-se as cores "que restavam", foram avançadas diferentes explicações de ordem histórica ou simbólica, para justificar a escolha destas cores. O verde, cor da Marinha portuguesa, sublinharia o papel desta no derrube do Antigo Regime. (Avançou-se mesmo que a nova bandeira retomava totalmente o pavilhão verde e vermelho, dividido a meio, do navio Adamastor, que tinha tido um papel decisivo no sinal de partida da Revolução.) Ou então, o verde seria a cor da Liberdade e o vermelho proclamaria a maneira como ela tinha sido conquistada: pelo sangue. Banal simbólica de cores, solicitada fora de tempo e que evidentemente nada explica. (...)
[verbete "BANDEIRA"]. PASTOREAU, Michel - Dicionário das cores do nosso tempo: simbólica e sociedade. Lisboa: editorial Estampa, 1997, pp. 34-35


Numa análise sucinta, mas extremamente bem documentada, o medievalista e especialista em simbologia Michel Pastoreau, caracteriza a bandeira forjada na revolução portuguesa de 1910 «à pressa e na confusão» (p. 35). Ela é, sem dúvida, um dos grandes exemplos de como os republicanos temiam a força histórica presente do simbolismo das instituições monárquicas. Não bastava arrancar do pano a coroa, havia que tingi-lo com outras cores. Os tons escolhidos evidenciam o pânico e acrescentam-lhe violência, conflito e agressividade. Vermelho de sangue (sangue do antes e do devir, sangue do regicídio, de La Lys, da noite sangrenta) que empurra um verde cínico, seiva nova da nova aristocracia: os políticos de carreira, ociosos comendadores e ditadores de oportunidade. A República não desejava apenas um novo regime. Queria um novo país e a bandeira positivista, assimilada graças ao futebol (que é, como sabemos, a melhor maneira de electrizar as massas), auxiliou essa refundação.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Desníveis, elevações e losangos no deserto empedrado



A reformulação do projecto para o Terreiro do Paço, limitou-se a limar algumas das mais agrestes e contestadas arestas do anterior. O arquitecto nomeado sem concurso público, decidiu que os aspectos fundamentais previamente apresentados, permanecerão mesmo que esbatidos. Os losangos que todos perceberam ser uma alegoria muito evidente, as raias alegadamente "evocativas de cartas de marear" e sobretudo as várias e ainda incompreensíveis variações que sobre-elevam ou desnivelam a praça na sua placa central e no torreão ocidental (poente), lá estão no projecto reapresentado. Da estátua equestre, não há notícia do seu pleno restauro em tudo o que isto implica.

A edilidade deve saber que os lisboetas gostariam de possuir uma praça mais aprazível e próxima da natureza, com a plantação de árvores* criteriosamente escolhidas. Mais importante que a simples exibição de uma muito contestada obra feita, a praça deve ser devolvida à gente de Lisboa. Esta clara necessidade que foi apercebida pela CML de meados do século XIX, é hoje desprezada pela persistência do vincar do espírito de uma carcomida autoridade, num deserto de pedra sem império. Para comemorar a república.

Eles não têm emenda e quando reconhecerem o erro será tarde demais.

* Se estiverem interessados, leiam a caixa de comentários do Público. Confirma o que aqui se diz.

Logótipos

A Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República adjudicou o seu logótipo dois jovens designers, que segundo os próprios "procura reinventar graficamente o conceito de República, entretecendo visualmente noções como as de "democracia" e "parlamentarismo"... Como se a democracia e o parlamentarismo fossem conquistas da republica: referem-se aos primeiros anos de ditadura revolucionaria? Referem-se aos 48 anos do Estado Novo? Referem-se ao modelo democrático da III republica, aquele que mais se aproxima qualitativamente da monarquia constitucional? Como podemos observar (em cima) a solução gráfica representa bem o inevitável vazio da sua mensagem: um balão cheio de nada, nas cores carbonárias: o encarnado do sangue que (os republicanos) derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito natural, (os republicanos) devem alimentar-se. (Fernando Pessoa)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Do norte, para "fazer História"...

Nuno Resende, autor do texto em baixo que eu tive o privilegio de encontrar aqui é a mais recente aquisição na Plataforma do Centenário. É historiador e possui uma diversificada formação académica em Turismo, Antropologia, Museologia e História. Mais um Homem do Norte que se nos junta, Nuno Resende domina com singularidade a técnica da Comunicação, pelo que constituirá certamente uma preciosa ajuda para os nossos objectivos: desmontar a propaganda do regime e conceder um pouco de verdade histórica durante as inacreditáveis comemorações do Centenário da República que se aproximam.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Psicografia do Dr. Afonso Costa

Ocorreu, recentemente, em Lisboa, uma iniciativa que visava reflectir sobre Afonso Costa, o Robespierre português que a Comissão para as Comemorações para o Centénio da República não tardará em converter num santo cívico, modelado ao serviço de um regime puro e casto. § A propósito desta figura cimeira do republicanismo português, não posso deixar de recomendar a leitura de "Psicografia do Dr. Afonso Costa", escrita por Carlos Malheiro Dias na sua imparcialidade de homem livre (foi regenerador, monárquico liberal admirado pelos republicanos e simpatizante do salazarismo). Neste ensaio CMD disseca o temperamento do deputado que gizou a Lei da Separação, plano último para abate "do maior poder espiritual da terra: a Igreja Católica". Prossegue Malheiro Dias: "A grandeza do adversário engrandecia-o. De esta vez não era com pequenos magistrados intrigantes, com débeis e pálidos inimigos, com uma magistratura humilde ou com preconceitos pusilânimes que se batia. Na sua frente erguia-se o vulto branco, coroado pela teara pontifícia, do Papa, rodeado pela sumptuosidade escarlate dos príncipes cardinalícios do sacro Colégio. Era ao próprio sucessor de S. Pedro que ele, o jacobino saído das forças obscuras da plebe, lançava o repto da sua lei fulminatória, como um Anti-Cristo. Diante de essa colisão decorativa, espectaculosa, a sua ambição frenética deliciava-se, naquele lance espantoso, maior do que Pombal maior do que Cavour. Não podendo, como Napoleão, oferecer-se o embriagador triunfo de aprisionar um pontífice, ele dá-se ao luxo supremo de chamar a sua casa um bispo, depois de expô-lo à conspurcação da plebe demagógica, e em sua casa o interroga, o censura e o condena - não como um esbirro colérico e grosseiro, mas com a calculada gentileza, com a sardónica amabilidade dos tiranos inteligentes, no íntimo grato àquele prelado venerável por lhe haver prestado um ensejo com a sua rebeldia à representação teatral de aquela cena histórica, em que tanto se exaltava o seu orgulho e que tão sensacionalmente patenteava a sua omnipotência.". Nestas brilhantes linhas Carlos Malheiro Dias retrata o clima político da república, dos seus paladinos e das suas ambições - longe dos ideais de fraternidade e igualdade. Em primeiro estava a conquista do poder. Ninguém melhor do que um obscuro, mas ambicioso Afonso Costa para liderar este movimento de batalha e ódio. Um leão que não se satisfaz com as migalhas, como o descreve CMD. Vale a pena ler este texto, escrito em 1911. É uma janela para a República que se vai comemorar em 2010 - durante cem anos preparada, gerida e glorificada por notáveis homens sem escrúpulos como Afonso Costa. - DIAS, Carlos Malheiro - «Psicografia do Dr. Afonso Costa», in DIAS, Carlos Malheiro / Introd. de Mário Mesquita, Lisboa: Vega, 1982, pp. 84-88.


In Obliviário 31 de Maio de 2009

sábado, 20 de junho de 2009

“Rei” de táxi do Chiado ao Camões

Título de uma crónica publicada no Correio da Manhã de 19.06.2009, no âmbito da rubrica Correio Indiscreto de António Ribeiro Ferreira. O conteúdo da notícia visa um desaire do senhor Duque de Bragança, em que, ao entrar num táxi rumo a sua casa, teve de alterar a trajectória do seu destino por 3 vezes, por diversas chamadas telefónicas. E por variadas razões teve de retornar ao seu destino de partida.
Pode acontecer a qualquer um num dia menos auspicioso. Não é por se ser Duque que não se está livre destes imprevistos, pelas mais variadíssimas razões. E se o Duque de Bragança, teve de dar o desprazer ao taxista deste não lucrar uma boa corrida, com tão ilustre cliente, penso que foi por uma boa razão, porque, ao privar com o senhor Duque uma vez, fiquei com a impressão de ser uma pessoa bem-educada.
Que os taxistas têm uma má reputação, é pelas mais óbvias razões. Porque tal como este, e como já comprovei, os taxistas tem uma péssima conduta. Não me admira nada, que o taxista em questão tenha vendido a história ao Correio da Manhã, por uma boa quantia. E o correio da manhã, fértil das melhores notícias de homicídios, roubos e mexericos, não perdeu a oportunidade de dar a António Ribeiro Ferreira, a oportunidade de escrever mais um conteúdo noticioso, que mesmo sendo uma crónica, o autor teve a infelicidade de usar expressões mal escolhidas.
Muitos dos leitores podem pensar que estou a perder tempo a escrever, sobre algo que não interessa. Que a melhor arma é o desprezo, que somos superiores a esse tipo de crónicas e afins. Até é verdade.
Mas esta chamou-me a atenção. E procuro fazer evidenciar, como derivado a estes pormenores, a imagem da monarquia é degradada aos olhos da opinião pública, injustamente. A começar o móbil infantil, que deu a origem a crónica do senhor António Ribeiro Ferreira. O título chamativo. As primeiras linhas, em que o autor diz que por estas histórias os portugueses continuam a ser republicanos e ligam muito pouco a monarquia. As primeiras linhas são a conclusão do autor, o resto é o sucedido em si. Perante a leitura, fiquei parvo a pensar, como é que um jornal, um autor com tantos assuntos na baila do dia, mais importantes, perde tempo a escrever um conteúdo jornalístico acerca de um imprevisto do Duque de Bragança, e usa esse imprevisto para mais um mexerico, mais uma história insólita.
Com que objectivo? E a conclusão forte a que chega? Como pode afirmar isso categoricamente? Será tem a ver com o facto do perigo do centenário da Republica ser a oportunidade de a verdade vir ao de cima, e as pessoas perceberem quem os anda a enganar, a começar pela imprensa? Perante casos, desde compra de viaturas de serviço de luxo para os senhores deputados, fortunas gastas em motoristas e viaturas para altos cargos governativos e altas patentes militares, sem que estes paguem um tostão, como é possível vir num jornal um conteúdo desta natureza tão mesquinho.
Isso mostra uma coisa, é por estes pormenores que a imagem da monarquia tem a conotação que tem, sem razão nenhuma. Mas há uma conclusão boa que se pode tirar, se falam dos monárquicos, é porque existimos e temos algum valor, nem que seja pela nossa existência incomodar.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Quando um elogio funebre precisa de ser justificado....

O elogio fúnebre proferido a 25 de Abril de 1908, no Mosteiro dos Jerónimos ,a El-Rei D. Carlos e ao Principe Real D. Luís Filipe está disponivel porque foi publicado à época , mas não para divulgação ...foi publicado porque a isso se viu obrigado o autor do elogio, o conego António Aires pacheco

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António Ayres Pacheco


«Publicando este discurso, tenho principalmente em vista satisfazer a opinião do paiz, que reclama essa publicação, e evitar que me sejam attribuidas coisas que eu não disse e que circularam com applauso em alguns jornaes. O discurso vae exactamente, com escrúpulo inexcedivel, como foi pronunciado. Podia corrigir-lhe um ou outro defeito, mas preferi a isso poder conscienciosamente affirmar que é, sem a minima alteração, precisamente o mesmo que pronunciei no templo de Belém.
Como todos podem ver, para ninguém foi offensiva a minha palavra. Não ha n'ella a minima individualisacão, ha sim a evidente intencionalidade de não querer magoar ninguém, nem mesmo ferir a memória dos dois regicidas, d'esses desgraçados, que devem compartilhar, não dos nossos ódios, mas da caridade das nossas orações.
Reservo, pois, para mim a responsabilidade das minhas palavras, deixando para os outros a responsabilidade da interpretação que lhes queiram dar.

Ayres pacheco»



ler o elogio, clicar aqui


bem haja

Uma Constituição interactiva

Encontra-se em preparação pelo Instituto da Democracia Portuguesa (IDP), o Constituição 2.0, cujo evento de lançamento e debate está previsto para o próximo dia 11 de Julho em local a confirmar. Esta iniciativa tem como objectivo a construção participada, através de ferramentas colaborativas e interactivas ao dispor dos utilizadores da Internet (twitter, blogue, facebook), de uma nova Constituição para Portugal.
Aberta a quem queira participar, a Constituição2.0 terá uma estrutura base. Os participantes serão convidados a reflectir e contribuir com sugestões, alterações ou adições em torno de um blogue Constituição 2.0 e de uma página Wiki (Constituição 2.0 Wiki) permitirá aos participantes dar o seu contributo através de comentários e propostas para a página Wiki da Constituição2.0 e, por último, através da intervenção no debate de lançamento.

Voltaremos em breve ao assunto: não basta dizer mal, para mudar é preciso participar!

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Centenário da expulsão das ordens religiosas


2 a 4 de Novembro de 2010

É um congresso que "não pretende reproduzir um acontecimento polémico", mas "assinalar cientificamente" o I Centenário da Expulsão das Ordens e Congregações durante a I República. Na conferência deimprensa, realizada hoje (16 de Junho), Eduardo Franco, coordenador geral da organização do Congresso Internacional «Ordens e Congregações Religiosas em Portugal - Memória, Presença e Diásporas» sublinha que a"perspectiva de diálogos com todas as instituições está presente nestaactividade".
A dimensão histórica está presente, mas muitas outras áreas serãocontempladas: "espiritualidade, cultura, economia, arquitectura, escultura, pintura, assistencial". Um congresso "pluridimensional" que demonstrará que as "ordens e congregações estão vivas" - disse LuisMachado de Abreu, Presidente da Comissão Científica do Congresso, iniciativa a que a Agência ECCLESIA se associa.
A realizar dos dias 2 a 4 de Novembro de 2010, na Fundação CalousteGulbenkian, este congresso pretende chamar "os diferentes actores que estiveram envolvidos" na efeméride. Eduardo Franco salienta que"procuramos envolver instituições de várias identidades ideológicas"com seminários, mostras gastronómicas e exposição de indumentária religiosa.


(Luís Filipe Santos In Ecclesia)

Para mais informações visite o site: http://www.congressoordens2010.net/

Imparcialidade...

...é um nome pomposo para indiferença, que por sua vez é um nome elegante para ignorância

G. K. Chesterton, tirado daqui

Os deputados da 1ª República Portuguesa: Inquérito prosopográfico

No intervalo de mais uma tarde de pesquisa na biblioteca nacional, para cumprir com a elaboração de um trabalho académico, encontrei o que considero ser um achado: De Pedro Tavares de Almeida, Paulo Jorge Fernandes e Marta Carvalho dos Santos, o artigo: Os deputados da 1ªRépublica Portuguesa inquérito prosopográfico está integrado na separata da revista de História das ideias, vol 27. Foi editado pela faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 2006.
Este artigo apresenta os resultados do 1ºinquérito prosopográfico, que incide sobre o conjunto dos deputados da 1ªRépublica Portuguesa, realizado no âmbito de um projecto de investigação ainda em curso: O Recrutamento Parlamentar em Portugal, 1834-1926, dirigido por Pedro Tavares de Almeida. Este artigo tem como fonte principal a obra: Parlamentares e Ministros da 1ªRépublica (1910-1926) coordenada por AH de Oliveira Marques e co-editada pela Assembleia da Republica e edições afrontamento em 2000.
A mudança abrupta de regime ocorrida em 1910, implicou uma profunda depuração e substituição da “classe politica”, mormente a nível parlamentar. Globalmente apenas 48 deputados (6,4% do total) da Republica tinham frequentado os lugares institucionais do poder no regime anterior. Na sua maioria, estavam na oposição republicana. Apenas na legislatura sidonista (1918-19) em que Monarquicos e Católicos ocuparam mais de ¼ dos lugares do hemiciclo, se observou um retorno de um numero expressivo de políticos do regime deposto, ascendendo a 17% a proporção daqueles que tinham ocupado cargos públicos antes de 1910.
Independentemente dos ADESIVOS (da minha autoria) de monárquicos ao regime, presente na História Politica da 1ªRépublica de David Ferreira (isto a meu ver), a renovação da elite politica foi profunda, implicando mudanças significativas no perfil social. O resto do artigo dá-nos importantes informações, que, procurarei sintetizar. A maioria da classe politica a nível ministerial e parlamentar nasceu na província, em meios pequenos. A maioria dos deputados da 1ªRépublica fez a sua iniciação na vida parlamentar quando tinha menos de 41 anos. A esmagadora maioria dos deputados tinha uma elevada formação académica. Relativamente as profissões os juristas ocuparam grande destaque. Relativamente ao cursus honorum politico dos deputados, a esmagadora maioria dos deputados fez a sua estreia parlamentar sem ter qualquer experiencia no poder, ao contrario do que se sucedia na maioria dos outros países europeus. Relativamente a carreira parlamentar era precária e de curta duração. Conclusão durante a 1ªRépublica as carreiras parlamentares foram curtas e instáveis, porem, a analise espacial de representação politica nesse período revela um elevado grau de solidez e estabilidade dos vínculos territoriais dos deputados. Ampla maioria dos seus membros tinha uma ligação ao circulo por onde foram eleitos. A mobilidade dos mandatos parlamentares foi relativamente fraca.

terça-feira, 16 de junho de 2009

As repúblicas não são eternas

Para aqueles que de forma sobranceira me perguntam quais as motivações para esta minha teimosa militância pela monarquia, que aspirações me movem para tão exótica causa, tão incómoda e excluída da “agenda politica”, eu respondo que o faço por uma questão de responsabilidade: a responsabilidade que me cabe para com a continuidade desta “utopia” no seu sentido mais nobre: o sonho dum Portugal com futuro.
Conheço alguns ilustres “compagnons de route” que optaram por “congelar” o seu ideal monárquico, imbuídos dum pseudo-realismo e embrenhados na espuma dos seus projectos pessoais, políticos ou profissionais. Tenho pena: eu sei como é difícil apregoar esta ingrata causa que não favorece carreiras ou comendas. Reconheço que a mensagem embate numa implacável “agenda mediática” que emerge do espectáculo popularucho e da mesquinha contenda política, das conveniências corporativas e interesses imediatos.
Não nego a evidência de que hoje os grandes males que Portugal padece são profundos e estão a montante da questão do regime. Como em 1910 as instituições estão descredibilizadas e não funcionam. Os portugueses, habituados ao assistencialismo e pouco atreitos a responsabilidades, parecem conformados com um medíocre destino, cuja perspectiva não passa do amanhã. E temos a merdização do debate político, com a gestão da rés pública ao nível do chão. Deste modo e dentro das minhas limitações, não prescindo de intervir de dentro do sistema em favor da minha comunidade e pelo futuro do meu país, com a liberdade que esta república me proporciona. Mas não me passa pela cabeça hipotecar as minhas mais profundas convicções.
Acredito profundamente na monarquia, na instituição real como a solução mais civilizada para a chefia dum Estado europeu e quase milenar como é o nosso. Num tempo de relativização moral, de fragmentação cultural e enfraquecimento das nacionalidades, creio mais que nunca na urgência duma sólida referência no topo da hierarquia do estado: o rei, corporização dum legado simbólico identitário nacional, garante dos equilíbrios políticos e reserva moral dum povo e dos seus ideais. O rei, primus inter pares, é verdadeiramente livre e por inerência assim será o povo.
Sou modesto: espalhar a doutrina e "fazer" mais monárquicos é o meu único objectivo. Que floresça nas mentalidades o sonho duma nação civilizada e de futuro, ciosa da sua identidade e descomplexada da sua História. De resto, o seu curso é sempre imprevisível e, quem sabe um dia, num instante tudo poderá mudar.

Grandes Obras

A aposta em infra-estruturas destas é SEMPRE política, não racional. Recordo-me dos estádios de futebol que estamos todos a pagar…

Determinadas obras, para além dos fins políticos, presuntivamente fomentadores da Economia, servem essencialmente os interesses das grandes empresas de construção civil, que ocupam um lugar relevante na economia portuguesa e no emprego de emigrantes não qualificados.

Qualquer gestor minimamente capaz sabe que um qualquer projecto obedece a várias regras de boas práticas, podendo ser suficientemente abrangente para se equacionarem interesses públicos. Em Portugal determinam-se interesses políticos, aos quais se adaptam os diferentes aspectos da realidade. Deste modo, o governo legitima-se indirectamente pelas eleições para endividar o país para muito além da legislatura sem proveito real.

Vejamos os casos gritantes, sem profunda análise:

TGV- o comboio de alta velocidade projectado reunirá Lisboa, Porto, Madrid, essencialmente. Dado que estas cidades distam de menos de uma hora de avião em “low cost” e que o tempo dispendido é aproximadamente igual (devido aos trâmites de segurança dos aeroportos), para quê ir por terra? Aliás, o TGV não é uma rota adequada ao transporte de mercadorias, devido aos custos estimados e por comparação aos reais, praticados pelos países que já os têm.

É menos poluente? Não. É mais rápido? Não. É mais expedito? Não. Assenta em infra-estruturas existentes? Não.

Fiquemos por aqui.

Novo aeroporto – As actuais estimativas projectam a capacidade plena dos nossos 3 aeroportos, nomeadamente o de Lisboa, para 2016. Isto quer dizer funcionarem a 100% da capacidade disponível. Curiosamente foram feitas obras na Portela que expandem de alguma forma esta capacidade, recentemente “inauguradas”. Países muito ricos encomendam aeroportos para serem colocados num dado lugar (exemplo: EAU), os chamados aeroportos móveis, que são operacionais em até 3 anos. Custa-me a crer que 16 anos sejam insuficientes para criar alternativas de facto em Portugal, sobretudo quando a maior parte desta tecnologia é europeia (Alemanha).

Adiante.

Auto-estradas – Adoro as auto-estradas na Alemanha, onde há limite de velocidade abaixo de, de acordo com a faixa onde se circula. No nosso país, o governo socialista andou a pavimentar inúmeros caminhos de betão, muitos com portagens excessivas (comparem o custo de ida e volta de Lisboa ao Porto, utilizando um carrito ou o comboio). Já lá vai o tempo salazarista onde se pagava a estrada a metro… Hoje paga-se ao concessionário da obra, através das portagens, recebendo o estado a devida percentagem.

De facto, estamos com um país cheio de cimento, de norte a sul e de este a oeste. Claro que os acessos às cidades, vilas e aldeias não interessa, pois são assuntos autárquicos…

Siga.

Não me vou debruçar sobre as contas, os benefícios estratégico-estruturais e outros palavrões que o Português não sabe nem quer saber.

A mensagem é simples e clara e tem sido propagada nestes últimos 100 anos: o governo republicano é basicamente incompetente, porque não atende às necessidades do povo, algo que a Monarquia sempre fez, por vezes melhor, por outras pior. Houve mais perseguição com a república e pior, do que em alguma governação monárquica (com talvez a excepção da expulsão dos judeus no séc.XVIII, mas isso é outra questão; há mais sobre isto do que se quer publicar).

João Paulo Carvalho

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Salazar e o Rei ( que não foi )

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Salazar e o Rei (que não foi) é a história secreta da relação de amor/ódio que existiu entre os monárquicos portugueses e o Estado Novo. É por isso uma obra cheia de surpresas e revelações. Quando um dia se escrever a crónica melancólica da monarquia e dos monárquicos portugueses do século XX e, mais do que isso, quando for possível descrever com verdade o que o próprio salazarismo representou, este livro de Fernando Amaro Monteiro virá decerto a constituir uma fonte fundamental para ambas as empresas. Não houve episódio significativo de que o autor não desse notícia, documento que não investigasse, intriga ou mistério que não procurasse esclarecer. E os leitores conhecerão, ao lê-lo, toda a panóplia dos sentimentos possíveis: admirar-se-ão algumas vezes, indignar-se-ão outras, acontecer-lhes-á mesmo rir ou comover-se.

A imagem de Salazar, olhada do ponto de vista da monarquia, é na verdade muito curiosa e, sob vários aspectos, devastadora. É certo que não encerra os lugares comuns do ditador facínora, culpado de todos os males passados, presentes e futuros do país, mas deixa, em pequenas pinceladas, o retrato de um homem seco, que acreditava em poucas coisas e em ainda menos pessoas, e que se dispunha a enganar uns e outros para ganhar o direito de permanecer.

Com a sua extraordinária capacidade de dar a ver algumas cenas que ficam como verdadeiros momentos simbólicos, com a sua determinação de deixar «falar» os documentos, este novo livro de Fernando Amaro Monteiro não é apenas mais um trabalho sobre uma época reconhecidamente controversa – é uma obra que permite olhar esse período a uma luz completamente nova, é em suma um livro que fará data.

MCH

domingo, 14 de junho de 2009

Um Humanista na República de Salazar - Aristides de Sousa Mendes



ARISTIDES DE SOUSA MENDES

Aristides de Sousa Mendes do Amaral e Abranches nasce, na Casa do Aido, em Cabanas de Viriato, Concelho do Carregal do Sal, aos primeiros minutos do dia 19 de Julho de 1885; alguns minutos antes tinha visto a luz do dia o seu irmão gémeo, César, filhos do juiz Dr. José de Sousa Mendes, descendente de lavradores abastados da vizinha aldeia de Beijós, originários da Muxagata, e de D. Maria Angelina Paes do Amaral de Ribeiro Abranches, da nobre Família dos viscondes de Midões, senhores do velho morgadio do Aido, cujas relações familiares estreitas permitiram que aí nascessem.
Aristides pertenceu a uma família aristocrática, católica, conservadora e monárquica - (ele também católico e monárquico). Seu pai era membro do supremo tribunal.

Recusou-se a seguir as ordens do seu governo (o regime de Salazar) e concedeu vistos a refugiados de todas as nacionalidades que desejavam fugir da França em1940, ano da invasão da França pela Alemanha Nazi na Segunda Guerra Mundial. Aristides salvou dezenas de milhares de pessoas do Holocausto. Foi o "Oskar Schindler português" (comparação pouco reconhecedora do facto de Aristides ter salvo um número muito superior de pessoas do que Schindler).

Mais informação sobre a sua vida pode ser vista aqui

Uma proposta para uma república em festa permanente há 99 anos


Começando a avistar interessantes visões sobre a forma de regime deste pequeno país – por um lado um renovado e regenerado conceito de monarquia, livre, democrática, sem preconceitos, divisões, títulos, reposteiros ou ferro-velho e por outro um exacerbado republicanismo, "conservador", quase centenário, laico, avesso, redundante, messiânico, igualitarista mas divisionista, neste país para homens com as "quotas em dia" – eu, influenciado pelo libreto da Comissão do Centenário, envio uma achega para a festarola do centenário da república. Quando mandarem tingir os folhetos adornem um novo nome para este regime em jeito de marca e agradecimento aos seus "progenitores" e demais orientadores; que este país, como tanto parece quererem, se passe a chamar: República Centenária Carbo-Maçónica Laica Portuguesa.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Levaram as jóias...

Acabei de ler ontem «Leva-me Esta Noite», o mais recente livro da minha amiga Cristina Flora. Uma narrativa que, embora ficcional, também aborda um assunto... real: o roubo, em 2002, de parte das jóias da Coroa Portuguesa de uma exposição num museu em Haia, na Holanda.
Além, óbvia e principalmente, dos ladrões, a culpa pelo sucedido foi: das autoridades culturais e policiais dos Países Baixos – que, além de não terem implementado as mais eficazes medidas de segurança, terão mostrado pouco interesse e empenho na resolução do caso; e de quem autorizou, em Portugal, a cedência de tesouros nacionais tão valiosos sem - confirmou-se depois – estar devidamente assegurada a sua protecção. E de não muito valeu a indemnização que se recebeu e o que se fez posteriormente com ela.
Este foi mais um exemplo do desinteresse, do desleixo, da displicência com que frequentemente as instituições da república tratam as heranças da Monarquia. A não ser, claro, quando aquelas precisam destas para «comemorar» o centenário do golpe de 5 de Outubro de 1910... admitindo, implicitamente, que nada de muito importante, justificativo de ser «celebrado», aconteceu nestes últimos cem anos. O «novo» Museu dos Coches e a «renovação» da Praça do Comércio, e respectivos «cortejos» de dúvidas e de suspeições, constituem dois exemplos recentes e bem conhecidos desse abuso.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

À Espera da Liberdade

Em 1914 o governo da república portuguesa, pressionado de fora e de dentro, exposto à censura da imprensa internacional, decretou uma amnistia para os presos políticos. A campanha da imprensa estrangeira, que dedicava desveladas atenções aos presos políticos portugueses, tocara os dirigentes republicanos no seu ponto mais sensível. Se havia coisa de que se ufanavam era de serem os representantes em Portugal das ideias modernas e dos ideais humanitários dos povos mais “civilizados”. Mas em vez das palavras elogiosas que ambicionavam ler na imprensa francesa, inglesa ou alemã, o que encontravam com deprimente frequência eram denúncias de prisões injustificadas e de maus tratos aos presos políticos. (...)
Continuar a ler na Plataforma do Centenário da República

quarta-feira, 10 de junho de 2009

As tricas políticas no 10 de Junho republicano




Das comemorações oficiais do 10 de Junho, aqui deixamos algumas notas:

1. A parada.

Tal como estamos há muito habituados, um péssimo enquadramento do desfile. Mau cenário, pouco espaço e sobretudo, pouco público. A escassez de efectivos evidenciou-se uma vez mais, nestes tempos de contenção orçamental.
Notas positivas: a inédita apresentação das históricas bandeiras nacionais, com relevo especial para a última, a azul e branca. Da actual, nenhuma e ainda bem, embora tivesse surgido subrepticiamente nos estandartes das unidades. Como deve ser. Os Meninos da Luz montando belíssimos cavalos brancos, bem tratados e sempre acarinhados pelo público presente.

O novo equipamento apresentado, com viaturas flamantes de novas, desde os Pandur aos gigantescos panzer Leopard II, deveras impressionantes. Não se prevêem avarias em público, pelo menos nos anos vindouros.

Um aspecto a destacar, consiste no aspecto aguerrido e bem equipado das unidades especiais das Forças Armadas, afinal, o que verdadeiramente importa.

Notas negativas: o péssimo marchar das tropas em geral - nem sequer existindo uma uniformidade no passo, bastas vezes descoordenado - , num ritmo triste, lento, quase de aprendizes. Sugestão: contratem instrutores dos nossos "novos aliados" do leste, ou em alternativa, russos ou chineses.

Ausência da presença de um passado que aliás, as Forças Armadas agora comemoram. Mais exactamente, nota-se a falta de uniformes dos tempos da guerra de libertação contra Bonaparte. Faça-se essa justiça em 2010, ano da vitória. Este tipo de eventos deve ter um carácter didáctico e cívico.

2. A sempiterna e escusada polítiquisse.

Foi evidente o mal estar existente entre alguns órgãos de soberania, destacando-se a atitude pouco correcta do actual residente de Belém, que não conseguiu esconder o seu desdém pela figura do seu primeiro-ministro, ignorando-o ostensivamente. Pelo menos, foi o que a televisão mostrou ao país e escandalizou o meu amigo, prof. Serras Gago. No rescaldo das eleições do passado domingo, o dr. Cavaco Silva já se sente suficientemente ancho para não manifestar o mínimo sinal de cordialidade institucional que o decoro exige. Tem assim início o período de sampaízação das relações entre Belém e S. Bento. Vergonhoso.

Sabendo o que ocorre nas monarquias europeias, desde já temos a garantia que sendo rei de Portugal, D. Duarte II manteria uma perfeita relação de lealdade institucional com o seu primeiro-ministro - fosse ele quem fosse -, pois os monarcas respeitam por regra a legalidade saída do escrutínio popular. Disto não temos qualquer dúvida ou hesitação em afirmá-lo. O tempo o demonstrará, se os portugueses assim o entenderem.

3. Nota final.

O surgimento de bandeiras nacionais azuis e brancas nas varandas de Santarém. O povo começa a deixar de ser tímido e a manifestar flagrantemente o seu patriotismo Finalmente.

"Dia de Portugal"?


Tenho nojo das eminências que disfarçam o tronco e os membros só para ficar na fotografia. Portugal não se celebra num dia, não se lembra por umas horas, não se confina a limitados periodos de tempo, não se resume em condecorações de "cristianos" ou "anti-fascistas" nem a festarolas que se fazem só porque se fazem! O "Dia de Portugal" é trabalhado para a afirmação deste regime verde-tinto! Podem por as "tropas" todas a brincar na parada que este chão não vibrará enquanto a nossa Pátria for gerida como uma avença ou a nossa história compilada às 7 "maravilhas". Pobre Camões; usado mas não cantado. Como se alguém da "organização" sentisse na pele uma só estrofe dos seus versos.

*Imagem picada em Idi@s

terça-feira, 9 de junho de 2009

Tempos e Costumes


in "O Homem, a Ladeira e o Calhau", de Agostinho de Campos, 1915

Um jornal republicano (O Mundo de 24 de Março de 1915) diz a respeito daditadura do conselheiro João Franco: "Tendo tomado uma feição revolucionária etendo sido violentamente combatido, não demitiu um só funcionário do Estado que exercesse lugar vitalício. Muitos dos seus mais intransigentes adversários, monárquicos e republicanos, eram funcionários públicos, mas nenhum foi por esse motivo destituído".
Isto é perfeitamente exacto e eu posso confirmá-lo como testemunha presencial, por ter tido a meu cargo durante aquela época a administração da Instrução Pública, que era uma das mais importantes e das mais minadas pela oposição revolucionária. Mas convém acrescentar a esta verdade outras não menos dignas da atenção dos filósofos e do registo da História. (...)

Continuar a ler no site Plataforma do Centenário da Républica

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Ainda bem?


Mas este político sabe o que quer dizer Monarquia? E porque diz: "ainda bem" (que acaba a monarquia [no sporting!])? Não sabia que as "monarquias" eram nocivas mas ainda bem que indivíduos como este bloquista, tão defensor das "minorias", nos lembra que afinal não vivemos com "péssimos hábitos"...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A república em 1910 e as restrições ao culto religioso


Com o 5 de Outubro de 1910 inicia-se um período de violenta perseguição religiosa em Portugal. A Igreja vive por esses dias um período de semi-clandestinidade durante o qual diversos membros do clero foram sujeitos à prisão, a maus tratos e à morte.
A seguir transcrevermos uma curiosa carta (reproduzida na imagem) escrita por Maria Júlia Carvalho Prostes pela altura das festas natalícias à sua filha:

Mª querida Maria Thereza,

Lisboa, 31-12-1910

Obrigada pelas tuas boas-festas, desejamos eu mtº do coração a ti, teu Marido, Sogra e Cunhada, as maiores felicidades, e o anno nôvo mtº prospero.
Aqui houve algumas Missas da meia noute, entre ellas S. Luiz, onde a Mª das Dôres foi com as Mendonças sendo por bilhetes e à porta fechada. Eu, como havia difficuldade nos bilhetes, fiz como costumo aos Sábados, jantei em casa Mª Archangela, e ali passei a noute. (...)


Agradeço à Conceição Mascarenhas a cedência da carta.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Chapeladas obrigatórias?


No Público de hoje, Pedro Magalhães informa-nos acerca do cariz perfeitamente democrático da obrigatoriedade do voto - como na Bélgica, por exemplo -, argumentando com a existência de vinte e nove democracias onde tal se pratica.

Discordo. No nosso país, cuja praxis de democracia parlamentar foi entrecortada por um longo hiato de 65 anos, a obrigatoriedade do voto, surge como um abuso ou prepotência de poder. A ausência de credibilidade das organizações partidárias que se criaram subitamente de forma vertical, deve-se antes de tudo, ao seu contínuo confinamento a redutos de defesa de interesses pouco coincidentes com o da generalidade da população. Simplesmente, o povo não se revê nos dirigentes e pior ainda, nem sequer reconhece um verdadeiro valor aos partidos. A culpa cabe inteiramente a estes últimos que encaram a população como mera serviçal, quando deveria acontecer exactamente o contrário.



Em países onde a democracia é uma forma de organização social que se tornou natural pela educação - espírito cívico - e necessidade de afirmação dos múltiplos sectores que alicerçando-se em ideologias, esperanças e interesses a tornaram querida e possível, a obrigatoriedade do voto tem uma plena correspondência com a defesa da própria coisa pública que entendemos ser A Democracia.

Em Portugal, o artifício da obrigatoriedade de ir às urnas, nada mais é senão isso mesmo. Uma forma de suprir por decreto, a clara ilegitimidade que muitos portugueses decidem atribuir ao sistema, simplesmente não comparecendo à chamada que forçosamente significaria o reconhecer legal de situações impossíveis. Hoje o poder tem medo da flagrante ilegitimidade decorrente de uma brutal falta de quorum eleitoral.

Não! O direito à abstenção faz parte do nosso património de gente livre. Enquanto não existir uma verdadeira democracia - aquela que a república impediu de definitivamente se implantar em Portugal -, a obrigatoriedade do voto é uma vergonha, ou seja, uma outra forma de chapelada eleitoral e de subversão da vontade popular.