domingo, 2 de maio de 2010

Carta de um republicano desesperado a um monárquico bem-intencionado


«Meu caro Pimenta de Castro. Vejo-me violentado a intervir novamente nesta amaldiçoada barafunda política, em que as paixões sectaristas e a intolerância dos velhos costumes têm envolvido esta nossa querida Pátria. Se não se acode desde já com firmeza e prontidão ao incêndio em que as facções estão ardendo há muito tempo, como desejando reduzir tudo à podridão e à miséria, estamos perdidos. Isto não são frases; é uma inevitável realidade!
Careço de ti e de forma que sem ti poderá caducar para sempre o remédio a dar-se ao grande mal.
Em duas palavras: preciso de um governo extra-partidário, com o acordo, se não de todos os partidos (e talvez se consiga), ao menos por quase unanimidade para atalhar ao antagonismo que pretendem introduzir entre a República e o Exército.
Deste governo serás o presidente e ministro do interior e será ministro dos estrangeiros o Freire de Andrade, ou ouro de igual valor. Os mais serão escolhidos pelos três partidos militantes, conforme ajustassem entre si, quanddo se possa conseguir, com a cláusula expressa de ficar interdito entre eles a politica partidária até às eleições gerais. O teu austero e belo nome servirá para garantir a genuidade do sufrágio, a conciliação e a paz na república e no Exército.
Esta ideia que, há um mês atrás, era repelida pelos políticos militantes, hoje dizem-me, e eu creio, será aceite pela força das circunstâncias.
Eu que ansiava por me ir embora, conservo-me no teu lado até ao fim da chefatura (e que grande sacrifício não faço em ficar?!). É necessário que outro tanto te suceda.
Tem paciência: somos dois velhos que nos vemos obrigados a dar alento aos novos. Por tudo, te peço que neste momento, tão angustioso para mim e tão grave para a Nação, não te esquives; não venhas com evasivas.
Peço-te, em nome da República e da Pátria, que não me abandones. Será curto o nosso cativeiro, e, ao fim dele, seemos compensados com a paz da nossa consciência, por havermos servido de algum bem à Pátira gloriosa onde nascemos.
Belém, 23 de Janeiro de 1915. Manuel de Arriaga».
Desta carta do 1º Presidente da República ao Gen. Pimenta de Castro, seu amigo, surgiria aquilo a que os "democráticos" de Afonso Costa chamaram a "ditadura Pimenta de Castro". E logo a 15 de Maio seguinte, uma sangrenta revolução (200 mortos e 1000 em Lisboa), põe permo ao Governo formado de acordo com os ditâmes de Manuel de Arriaga.
Este é vitíma de uma tentativa de assassinato e salva-o a intervenção do Ministro inglês «não se metam com o Velho», terá dito!), ameaçando com o não reconhecimento da República pela Sociedade das Nações. Ainda assim, é obrigado a resignar ao cargo, e de Arriaga nunca mais a política portuguesa soube nada.
Pimenta de Castro foi preso, na sequência da revolta, e deportado para os Açores.

Cronologia da república - 2 de Maio

  • 1912
    Desacatos numa fábrica no Porto
  • 1917
    É fechado o jornal “A Lanterna” do Porto
  • 1919
    Greve dos funcionários da companhia de águas de Lisboa
    Greve dos funcionários da Carris

Fontes: aqui

Fontes: aqui

sábado, 1 de maio de 2010

Comemorações da república


Já não as vemos, porque aquilo tornou-se historicamente discreto a partir do momento em que se percebeu que a I República não tinha nada que ver com a democracia e isso cortou as pernas à comemoração que está reduzida a actividades académicas, mas em termos públicos creio que passou. O regime percebeu que não se pode identificar com um regime repressivo, antidemocrático, anti-feminista, colonialista e, por outro lado, a crise actual não dá para grandes festejos. E essa comemoração está muito longe... ninguém está a reparar. Neste momento são só os historiadores que falam nisso e ainda bem.

Estranhas comemorações

Dedicado ao Nuno Castelo Branco:
«Daqui a pouco, nós e os nossos centenários, e a estéril inanidade das nossas solicitações ruidosas ao Futuro, iremos na ressaca da mesma onda que virá colher o cisco da nossa Babel, e bem pode ser que o jesuíta, renascido do seio de outra civilização, surja depois para se rir de nós. Se os ultraliberais de 1882 estão com o Marquês de Pombal, quem nos afirma que as confederações republicanas e ateístas de 1982 não hão-de estar com os jesuítas. As situações parecem-me equivalentes nas paralelas do absurdo»
(in proémio do «Perfil do Marquês de Pombal», de Camilo Castelo Branco)

Entre o Lirismo e a Ferocidade

Descobri o livro de Fernando Honrado "Os Fuzilados de Outubro de 1921" há 15 anos. Li-o e arrumei-o, até hoje. O capítulo acima referenciado prendeu-me agora a atenção:
«Acontecimentos como os Fuzilamentos de 19 de Outubro de 1921 são previsiveis em sociedades como era a de Lisboa, naquele tempo. O Estado era fraco, os poderes à margem deste eram vários e, naturalmente, sem coordenação. A ânsia do Individualismo tocava a loucura, a Democracia era um valor de que a maior parte não se sabia servir.
Não havia uma Polícia ao serviço da comunidade, verdadeiramente. Aquela sobrepunha, a maior parte das vezes, os seus interesses de qualquer ordem, aos interesses comuns, ao dever de prevenir e reprimir o crime. Foi fácil ir a casa buscar as vítimas e, em seguida, assassiná-las.
(...) a "Noite Sangrenta" foi obra de um grupo de bandidos, marinheiros e praças da Guarda Republicana, ou fazendo-se passar por tal, que resolveram "ir à caça". Todavia, as peças não eram coelhos ou perdizes, mas homens.
Bandidos sim, mas bandidos organizados, com raiz política indiscutivelmente. Organizações deste tipo eram vulgares, e a distinção entre bandidos - chamados criminosos de direito comum - e certos indivíduos chamados políticos, não era nenhuma.
(...)
Mas afinal como foi possivel suceder a Noite Sangrenta? (...) O "Dente de Ouro", Abel Olímpio, o principal "brigadeirista" julgado e condenado duramente, por um Tribunal Militar que tinha por Promotor - seria por acaso? - um homem que foi mais de vinte anos Presidente da República Portuguesa [Marechal Óscar Carmona], devia saber tudo o que era essencial, mas nada disse de importante. Também ele, talvez, tivesse medo que o matassem. Porque não?
Criou-se uma ideia (...) de que Portugal é um País de brandos costumes. Será? Sem falar em Camarate (...) nós temos no "activo" além da Noite Sangrenta, o Regicídio e o assassinato de Sidónio em escassos treze anos. É de admitir que quem tem razão é Oliveira Martins que diz que Portugal tem vivido entre um lirismo bucólico e uma ferocidade africana».

Cronologia da república - 1 de Maio

  • 1912
    Um grupo de intelectuais radicados em Paris procura erguer uma estátua a Camões
  • 1914
    Manifestações em Lisboa
    Duelo à espada entre Leote do Rego e Álvaro Nunes Ribeiro
  • 1919
    Protestos em Lisboa contra o embarque de presos políticos para a Madeira
  • 1920
    Manifestações sindicalistas contra a ditadura
  • 1924
    Greve dos corticeiros
  • 1925
    Por lei, é concedido um empréstimo ao governo para a manutenção de edifícios públicos
  • 1926
    Nacionalização das fábricas de tabacos de Lisboa e Porto
    A população invade o parlamento

Fontes: aqui

sexta-feira, 30 de abril de 2010

O " Borges das Bombas"

"Para a História de um Regime" é um livro que visa, sobretudo, combater a candidatura do Gen. Norton de Matos à Presidência da República. O seu autor, Costa Brochado é, pois, um homem que se identifica coma II República, vulgo "Estado Novo". Daí a critica severa à sua abandalhada antecessora - não obstante, retratada com todo o rigor. Como se verá:
«O primeiro Chefe do Estado que o regime republicano parlamentar elegeu foi o Dr. Manuel de Arriaga. Claro que não foi eleito pela Nação nem sequer por todos os republicanos. Apresentaram-se ao sufrágio diversos candidatos, mas o partido democrático, que tinha a maioria no Parlamento, escolheu o Dr. Manuel de Arriaga. Desta maneira, o Chefe do Estado começava por ser o Presidente da maior partido do regime e não da República. Quanto à Nação, essa, rigorosamente, ficava estranha, numa proporção de 90% dos seus filhos, è eleição do Chefe do Estado.
(...) como este velho romântico era um homem sério, logo que viu o regime divorciado da Nação, graças à miserável política do partido que o elegera, começou a sentir o terrivel drama de consciência que veio a acometer todos os republicanos honestos daquela época.
(...)
Três anos após a sua eleição, o País estava mergulhado num clima de guerra civil permanente, de tal forma que a formiga branca já não hesitava em insultar e agredir oficiais do exército nas ruas da capital. Nos fins do ano de 1914, um grupo de carbonários, chefiados pelo célebre Borges das Bombas, assaltava e agredia, em plena baixa, o general Jaime de Castro. Depois de o terem agredido à bengalada, cuspindo-lhe na farda, conduziram-no, sob escolta, a pé, para o Governo Civil».
Estavamos já a meses da chamada ditadura de Pimenta de Castro. Um bom tema para prosseguirmos amanhã.

Cronologia da república - 31 de Abril

  • 1925

O governo dá como desertor o tenente Óscar Monteiro Torres

Fontes: aqui

Cronologia da república - 30 de Abril

  • 1912

Prisão de dois funcionários públicos

Encerramento de uma fábrica em Lisboa

  • 1913

Prisão de vários soldados

Prevenção na marinha e em vários quartéis

  • 1914

Tentativa de assalto a um quartel em Amarante

  • 1915

É fechado o jornal “A Tarde” do Porto

Dissolução de várias câmaras municipais

  • 1916

Greve dos ferroviários

  • 1918

É fechado o jornal açoriano “A república”

  • 1924

Greve dos motoristas

É decretado o estado de sítio em Lisboa, com a suspensão da constituição

Fontes: aqui

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Conferência

Amanha, dia 30 as 13h, conferência com Padre João Seabra e Rui Ramos sobre a I República no anfiteatro 5 da Faculdade de Direito de Lisboa

O travestismo dos republicanos e da República Portuguesa


«[...] é importante frisar que a maior parte dos intelectuais e/ou políticos portugueses, do sexo masculino, que prepararam de alguma forma a República, eram assumidamente anti-feministas, entre os quais se encontram Teófilo Braga, Sampaio Bruno, Antero de Quental, João Chagas, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, Basílio Telles, Trindade Coelho, Antero de Figueiredo e Heliodoro Salgado. O influente escritor e político Raul Proença, escreveu em 1909: «Que tenham voto, está bem. Que tenham direitos políticos, é justo (…) mas mais importante que Mulher Livre é Mulher Honesta. A igualdade de direitos deveria respeitar a ‘diversidade de missões’», o que exprimia sucintamente a opinião da maior parte dos homens republicanos. [...] § Antes do 5 de Outubro os republicanos fizeram crer que essa seria uma medida a promulgar sem problema de maior. O que se passou foi uma história trágico-cómica, ilustrado pelo episódio em que se viu envolvida Carolina Beatriz Angelo em 1911. Como viúva e mãe considerou que era ‘chefe de família’ e portanto com capacidade para votar, pois o Código Administrativo vigente não especificava o sexo dos chefes de família. Pediu o seu recenseamento. Foi-lhe negado pelo Ministro António José de Almeida. Interpôs recurso. O juiz que apreciou o caso, João Batista de Castro, era pai de Ana de Castro Osório. Ganhou. Apresentou-se no dia das eleições, a 28 de Maio de 1911 e votou. Em 1913, o Código Eleitoral aprovado especifica que apenas têm direito a votar os cidadãos do sexo masculino que saibam ler e escrever. Temia-se o alegado conservadorismo das mulheres (e dos homens analfabetos que também perderem o direito ao voto).» Ler o resto aqui.
Pintura de Rodrigo Costa, Paula Cabral | Galeria de Arte

Teste: O que é o presidente da República?

Tenta responder a estas questões, sem copiar e sem filmar com o telemóvel.
1) O que é o presidente da república na I República?
2) O que é o presidente da república na II República?
3) O que é o presidente da república nesta "última" República?
4) Achas que devia haver um Presidente de Todas as Repúblicas universitárias (daquelas onde dormem os estudantes)?


João Paulo Freire - um jornalista atento


A I República foi uma história de voos curtos e em múltiplas direcções. De espertalhões. E da indiferença da quase totalidade da população. Só assim se percebe porque meia dúzia de fanáticos conseguiram durante 16 anos impor a sua vontade e guerrearem-se entre si na maior impunidade. Até que o descalabro atingiu os portugueses na sua vidinha e a ditatorial República seguinte por cá se deixou ficar durante meio século.
João Paulo Freire (Mário) foi um jornalista dessa época. Eis o seu testemunho (in «O Livro de João Franco Sobre El-Rei D. Carlos» - 1924 - pág. 79):
«Tenho assistido há vinte e dois anos a todas as manifestações e zaragatas que se têm produzido em Lisboa. Com raras excepções, a massa anónima é quase sempre a mesma, com os mesmos excessos e os mesmos entusiasmos. Assisti por exemplo ao enterro de Sidónio Pais. Duzentas mil pessoas acompanharam o féretro. Foi um espectáculo impressionante. Numa das ruas do trajecto uma voz partindo de cima de um telhado deu um viva a Afonso Costa. Foi um momento de pavor. Havia chispas de ódio no olhar da multidão e se o entusiasta que soltou o viva fosse apanhado linchavam-no. Quarenta e oito horas depois a maioria dos manifestantes tinha-se já voltado para o sol nascente! Mas recordo-me que algumas das caras que vi no enterro de Sidónio as tinha visto já nas bárbaras e canibalescas manifestações contra aqueles eclesiásticos que em 1911 desembarcaram, presos, na estação do Rossio e que chegaram ao forte do Alto do Duque com os cabelos e as barbas arrancadas»

Cronologia da república - 29 de Abril

  • 1913

Tiroteio em Lisboa

  • 1915

Afonso Costa depõe no processo por abuso de poder contra Manuel de Arriaga e Pimenta de Castro

  • 1919

Greve dos funcionários da câmara municipal de Lisboa

  • 1921

É fechado o jornal “A Imprensa de Lisboa”

Fontes: aqui

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Tal bandeira, tal carapuça


Em ano de défice centenário e depois de três décadas a achincalhar o patriotismo e o nacionalismo o ministério da deseducação tem comissões para pôr as nossas criancinhas a amar a República. Nas escolas corre algum debate, alguns jornais dão uma ajuda. Pena que a questão seja baseada na hipocrisia – querem impingir-nos os valores da bandeira da República?


*Imagem: "inquérito" que se está a realizar no jornal Público, on-line.

Necrologia

REPÚBLICA
5 de Outubro de 1910 - 11 de Junho de 2010

Confortada com todos os sacramentos do Supremo Arquitecto do Universo, faleceu ontem na sua casa, ao Restelo, a Senhora D. República.
A finada era mãe, avó e bisavó de cavalheiros tão distintos como os membros das famílias Soares, Pinto de Sousa, Louçã, Alegre e outros reputados paladinos da ética qie lhe herdou o nome - a estimada ética republicana.
Quis o Arquitecto que nos comanda o destino o decesso se verificasse precisamente no dia em que Portugal comemora as suas glórias e o seu povo pelos quatro cantos do mundo espalhado.Já em Outubro, a extinta perfazeria 100 anos de existência conturbada, em que soube estar sempre à altura de não deixar os nacionais fazerem o que tinham por mais conveniente ao seu bem. Não, a História registará a intransigência sem limites da falecida e de quantos tiveram a felicidade de com ela lidar - além dos acima referidos, os distintos sportmen Afonso Costa, Bernardino Machado, António José de Almeida, António de Oliveira Salazar e tantos outros que, desde ontem não têm cessado de comparecer ao velório, o sofrimento estampado no rosto, um cravo vermelho na lapela.
Sempre lúcida até ao fim dos seus dias, enfrentou resignadamente a sua doença. E porque nunca virasse a cara ao combate, dispôs-se já no fim da vida a gastar 10 milhões de euros, na esperança de que a Ciência pudesse ainda fazer algo por si. Era já, porém, demasiado tarde.
O funeral realiza-se amanhã, logo à alvorada, com cerimónias fúnebres no salão nobre do Grande Oriente Lusitano, seguindo depois os seus restos mortais para o cemitério do Alto de S. Jão onde, por vontad eexpressa da finada, será dada jazida aos seus restos mortais entre as campas do Buiça e do Costa.

Excertos de «Memórias de Um Átomo» uma inestimável colaboração do nosso comentador Ega.

A república em falência

Se a situação não fosse trágica até dava para rir: como era previsível há muito tempo a república prepara a festa do seu Centenário em falência e a pregar as suas abstractas virtudes. Rife-se a república salve-se a Nação.

"Aqui quem manda é o PRP!" (antes e depois do Natal de 1915)


«Na República Portuguesa, começou por vigorar o princípio de que "o país é para todos, mas o Estado é para os republicanos". Mais do que o caracter electivo dos cargos de direcção política do Estado, o que defeniu a ideia de república, em Portugal depois de 1910, foi a reserva desses cargos e dos empregos públicos para os republicanos - e estes foram quase sempre, entre 1910 e 1926, os de um partido, o Partido Repúblicano Português (PRP).
(...)
A Constituição de 1911 reduzira ao mínimo o presidente da República, de modo que nunca desempenhasse o papel político que o rei tivera: era eleito no parlamento, para quatro anos, sem direito a reeleição, e não podia dissolver o parlamento. Mas competia-lhe nomear o chefe do governo. (...) Arriaga aproveitou essa prerrogativa constitucional para confiar o governo a um velho general, Joaquim Pimenta de Castro. (...) Pimenta de que Castro manteve o parlamento encerrado e convocou eleições para Junho de 1915. Fora do governo, o PRP temeu desaparecer eleitoralmente. Os outros partidos tomaram alento. Surgiram até, sobretudo no Norte, centros monárquicos (cerca de 55), porque Pimenta fez saber que, com ele, a "república é para todos os portugueses". Pensou mesmo em instituir o sufrágio universal, o que acabou por também inquietar a direita republicana. António José de Almeida lembrou logo: "só republicanos verdadeiros podem conservar e defender a república». O PRP resolveu então tratar Pimenta de Castro como tratara João Franco em 1907: chamou-lhe "ditador" e tramou uma insurreição, usando civis armados e os seus partidários na marinha e na Guarda Republicana. O golpe de 14 de Maio foi muito mais sangrento do que o 5 de Outubro. O exército não mostrou zelo, mas os grupos armados de Machado dos Santos, ao lado do Governo, deram luta. Poderá ter havido (...) 200 mortos e 1000 feridos. Pimenta de Castro e Machado Santos foram presos, e Arriaga forçado a resignar. A violência anticlerical agravou-se: em Loures, foram assaltadas três igrejas, que tiveram as imagens queimadas na rua».
É um excerto da História de Portugal coordenada por Rui Ramos, e da lavra de Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, também. Vinda a público em finais do transacto 2009. Talvez o futuro de Portugal esteja muito nas mãos desta geração de historiadores isentos e, por isso, desmistificadores. De leitura fácil, capaz de contrariar as mentiras oficiais e abrir os olhos aos incautos. Ou seja, de fazer da História aquilo para que ela deve servir: de exemplo.

Cronologia da república - 28 de Abril

  • 1912

Tumultos em Timor-Leste

  • 1913

Machado Santos ao responder a acusação de bandido de Brito Camacho, diz que os deputados devem os lugares aos revoltosos da federação radical republicana

  • 1915

É fechado o jornal “O Rebate” de Castelo-Branco

  • 1917

Salazar toma posse como assistente na faculdade de Direito de Coimbra

  • 1918

É fechado o jornal “O Intrépido” da Covilhã

  • 1919

Greve dos metalúrgicos

Greve dos funcionários da carris

  • 1922

Prisão de 200 operários

  • 1926

Protestos contra o governo

Fontes: aqui

terça-feira, 27 de abril de 2010

D. António Ferreira Gomes em «uma entrevista republicana»

«O director do jornal diário República, Raúl Rego, um intrépido oposicionista ao regime que por causa da frontalidade com que manifestava as suas ideias foi várias vezes preso, tinha em alto apreço o Bispo do Porto. Visitou D. António quando este encontrava no exílio. A amizade era mútua, como, aliás, acontecia também no relacionamento de seu chefe de Redacção, João Gomes, com o prelado portuense. Nesse ano de 73, vamos ambos ao Porto para entrevistar D. António Ferreira Gomes. (...) Referindo-se ao encontro com o prelado portuense, Raúl Rego, depois de dizer que "é um diálogo entre gente de boa vontade: o do prelado e o do jornal agnóstico", acentua que "só faz avultar o seu significado o facto de ser, segundo julgamos, a primeira entrevista de um bispo no jornal republicano fundado há sessenta e dois anos por António José por António José de Almeida».
Um bispo português e um conhecido maçon encontrando-se na oposição à República autocrática.
Raúl Rego, anti-sidonista, anti-salazarista; D. António Ferreira Gomes preocupado com a liberdade, a paz, a pobreza que grassava. A passas tantos da entrevista, o prelado comenta, acerca do problema da emigração dá a seguinte explicação: a «miséria imerecida que nos anos cinquenta provocou a explosão migratória foi sobretudo a dos rurais».
Então, como agora, a República eram palavras. Só palavras. Com um ou outro bem-intencionado a tentar passar à prática, logo trucidado pela maldicência, pela intriga, pela estupidez.
Fonte: Pacheco de Andrade, «O Bispo controverso - D. António Ferreira Gomes, percurso de um homem livre», ed. Multinova, pág. 228.

Cronologia da república - 27 de Abril

  • 1913

É fechado o jornal “O Dia” de Lisboa

É fechado o jornal “A Nação” de Lisboa

É fechado o jornal “O Intransigente” de Lisboa

É fechado o jornal “O Socialista” de Lisboa

É fechado o jornal “O Sindicalista” de Lisboa

O jornal o mundo culpa os monárquicos pelo golpe da federação radical republicana

É encerrada a casa sindical

  • 1923

Atentados bombistas em Lisboa

Greve dos corticeiros

Greve dos trabalhadores das moagens

Greve dos trabalhadores dos têxteis

  • 1924

Movimento revolucionário contra o governo

Fontes: aqui

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Aos primeiros raios-de-centenário

Os primeiros raios de sol, consistente, deste ano de centenário prometem um "povo republicano" muito, muito, participativo nas comemorações... ... ...

O falhado "25 de Abril" de Janeiro de 1912 ?

Há 98 anos, o proletariado contra a República

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«O dia 13 de Março é, pois, uma data que marca o divórcio da República com o proletariado », in Terra Livre, n.°6, 20 de Março de 1913



O mês de Janeiro contráriamente ao mês de Abril tem, em Portugal, a especialidade de forjar insurreições derrotadas?

Não sabemos. Sabemos, sim, que foi a 31 de Janeiro de 1891 que, no Porto, os republicanos, apesar de contrariados pelo Directório vêm para a rua, para morrerem ao rubro como mártires de uma causa minoritária; a 18 de Janeiro de 1934, o operariado de diversas localidades, com destaque para a Marinha Grande, Silves, Setúbal e Almada, levanta-se em «armas» contra a manipulação das suas associações de classe e, mais uma vez, sai derrotado!

Janeiro parece funcionar como um mês fatídico para o operariado, e como um mês propício ao ensaio de firmeza do Poder, espécie de «pano da amostra», para as suscessivas «classes dirigentes». Assim aconteceu também em Janeiro de 1912.

A república do centro comercial

Grandes Armazéns
do Chiado abriram as portas


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comemoração integrada nas comemorações do centenário da República


Coimbra recria a inauguração , à 100 anos , de um espaço comercial detido por um dos principais financiadores do movimento republicano.
Ontem como hoje a economia mistura-se com a politica e o resultado raras vezes é o bem comum.
Facto curioso é ser , a abertura de um centro comercial, ponto alto das comemorações do centenário da República. Prova de que as acções do partido republicano resumiam-se à capital, não tendo a única cidade com universidade um facto relevante para comemorar ou elemento digno de nota naquela que foi sempre considerada como uma "revolução esperada"
O Edifício Chiado foi inaugurado, a 24 de Abril de 1910, como filial dos Grandes Armazéns do Chiado lisboetas. "Expandiram-se por todo o país. Chegaram a ter mais de 20 sucursais. A de Coimbra foi das primeiras". É Berta Duarte, directora do Museu Municipal (cuja sede é ali), quem o afirma. Também ela saiu à rua de chapéu e vestido a rasar o chão.

"Achámos que devíamos fazer uma programação condigna, para celebrar o centenário do Edifício", explica Berta Duarte, numa pausa. O arranque remonta há, precisamente, um ano, quando foi publicado o primeiro volume do catálogo "Telo de Morais - Colecção", com parte do espólio fixo do Museu Municipal - Edifício Chiado.

talvez daqui a 100 anos comemorem a entrada de Portugal na UE com os festejos do aniversário da abertura do Colombo, demonstrando que no interior de Portugal o provincianismo ainda é regra

A república do centro comercial

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Ontem, como em 1910, damas e cavalheiros, republicanos
e monárquicos assistiram à inauguração do espaço comercial, assim afirma o "Diário de Coimbra" na edição de hoje.
«As nossas 18 agências espalhadas pelo país permitem fazer chegar às mais remotas localidades produtos do máximo requinte e qualidade, pelos mesmos preços e regalias de Lisboa ou do Porto, longe de qualquer charlatanismo comercial». Depois das boas-vindas ao novo espaço comercial de Coimbra, o proprietário dos Armazéns do Chiado, Abílio Nunes dos Santos, apresentava o novo gerente da sucursal de Coimbra, Joaquim Sal Júnior. Os dois representados por actores, vestidos à época e rodeados de personagens também retiradas do dia 25 de Abril de 1910.
«Servir bem o público, ganhando pouco», era, no entender o gerente, o lema adoptado pelos Armazéns do Chiado, que vendiam desde produtos de mercearia aos mais finos tecidos e adornos, vestidos chiques e fatos talhados à medida, perfumes, louças, vidros e móveis.
Damas e cavalheiros, o senhor presidente da Câmara, vereadores e, em especial, as senhoras vereadoras foram saudados, mas o ambiente de festa não ocultou a tensão vivida entre republicanos e monárquicos. Este é «um exemplo de arrojo e de grandeza de vista dos proprietários, pese embora os tempos difíceis e perturbados que vivemos», alertava Joaquim Sal Júnior, lembrando escândalos económicos envolvendo a corte ou a dissolução do Parlamento pedida dias antes por D. Manuel.

fonte:SomosPortugueses

A República de Abril


Foi, sobretudo, o recordar do saudoso "Passeio dos Alegres". Ontem, na RTP1, com Júlio Isidro no seu melhor, e uma apreciável lote de artistas então (há trinta anos) no auge das suas carreiras.
Mas "República de Abril", porquê? Por malandrice, apenas. Ou por razões de contenção de despesas, em tempos de crise. A tentar de uma cajadada acertar nos dois coelhos: as exéquias do "Centenário" e os festejos do "25/A".
O programa enfatizava o lugar da Mulher na sociedade portuguesa. Imparável, Júlio Isidro, lá teceu louvaminhas ao 5 de Outubro "libertador", para logo de seguir acrescentar: "foi preciso esperar 60 anos" para que às mulheres fosse reconhecido o estatuto de igualdade face aos homens. Já em plena República de Abril, portanto. A que emendou a mão aos lapsos e atavismos da República de Outubro e da República de Maio.
Certo, certo, é que, cada República, cada asneira. Maldizendo-se sempre, umas às outras. No programa da transacta noite esteve na berlinda a de Maio. Quase cinco décadas de República ditatorial, a que formalmente a Lei nº 1 de 25 de Abril de 1974, da Junta de Salvação Nacional pôs termo, destituindo o presidente da República e o Governo e dissolvendo a Assembleia Nacional e o Conselho de Estado.
Depois foi o que foi - dos excessos revolucionários aos actuais excessos de corrupção e inoperância. Em 1 de Maio de 1974, escrevia em Coimbra Miguel Torga:
«Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quarteis.
- Mais bonito do que a Raínha Santa... - dizia um popular.
Segui o caudal humano, calado, a ouvir vivas e morras, travado por não sei que incerteza, sem poder vibrar com o entusiasmo que me rodeava, na recôndita e vã esperança de ser contagiado. Há horas que são de todos. Porque não havia aquela de ser também minha? Mas não. Dentro de mim ressoava apenas uma pergunta: Em que oceano de bom senso iria desaguar aquele delírio? Que oculta e avisada abnegação estaria pronta para guiar no caminho da história a cegueira daquela confiança?»

Cronologia da república - 26 de Abril

  • 1912

Tumultos no liceu Rodrigues de Freitas no Porto

  • 1913

Protesto pela falta de trigo

Manifestação da federação radical republicana

  • 1914

É fechado o jornal “O Povo” de Lisboa

  • 1915

Dissolução da câmara municipal de Évora

  • 1920

É fechado o jornal “O Democrata” dos Açores

  • 1925

É fechado o jornal “O Marão” de Vila Real

  • 1926

Cunha Leal incita o exército a salvar a república

Fontes: aqui

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril sempre...

Depois de num dia de Outubro, a minha filha de oito anos ter chegado da escola cheia de confusões na cabeça, e eu lhe ter explicado pacientemente que Liberdade, Igualdade e Fraternidade era um lema da sanguinária revolução francesa e não uma consequência da instauração república portuguesa, que a igualdade do cidadão perante a lei era uma conquista da constituição de 1826, quando em Portugal se funda o sufrágio popular que se manteve indirecto e se viu mais restrito após a república, que a liberdade de imprensa e de manifestação só foi profundamente ameaçada após o 5 de Outubro; foi a vez de ontem me ver na contingência lhe explicar as virtudes dos primeiros anos do Estado Novo e que a Primavera e as calças de ganga já existiam antes da revolução dos cravos. Esclareci-a sobre o 25 de Abril, e suas consequências imediatas: tomada de poder da esquerda radical e descolonização desastrosa. E que nesses tempos muita gente inocente teve que viver “às escondidas”. Por fim expliquei-lhe que a Liberdade prevaleceu apesar dos revolucionários. E que a Liberdade é o nosso mais precioso bem, e que nem sempre está onde parece ser mais evidente.

Os corvos


Portugal somos todos nós, portugueses, e a nossa vontade de fugir à mediocridade instalada. De rumar, enfim, ao futuro, longe da intriga, do conflitozinho, de todos os escandalos que nos ocupam, à míngua de ideais e de horizontes.
É tantas vezes junto ao mais belo do nosso património natural que o encontro surge. O encontro connosco, e com a ausência de vozes que é a eternidade das ondas desfazendo-se na falésia e a fala dos tons do sol poente. Creio não haver então quem não se depare - e saúde e converse - com o seu Deus, o Deus de cada um, ao seu modo e na sua liberdade própria, visto ninguém ser propriedade de outrém.
Por exemplo, aqui no Cabo Carvoeiro, com essa monumental rocha, a Nau dos Corvos, mesmo diante de nós e as Berlengas lá longe.
Mas jamais na "República dos Corvos" (Cardoso Pires), como claramente se percebe: «Confusão, uma porra. O Corvo, que é taberneiro por convivência com o dono, conhece todas as velhacarias do vinho e como, ainda por cima, é ateu praticante, a conversa do Santo Vicente e dos corvos de Lisboa fá-lo virar as costas, enojado. (...) Em frente, no largo do hospital, passa uma freira a levantar uma revoada de pombas. Como uma bruxa imaculada a cavalo numa vassora, pensa o corvo. E abre o bico para o ar, enfastiado. Enfastiado ou a bocejar?».

Confrontos com a GNR


Fonte Portugal Século XX (1910-1920), Joaquim Vieira, Círculo de Leitores

Cronologia da república - 25 de Abril

  • 1911

Afonso Costa considera que as religiões estão condenadas ao desaparecimento

O grão mestre da maçonaria vaticina o fim dos seminários em Portugal

Tumultos em Carrazeda

Tumultos no Porto

Manifestações de desempregados em Lisboa

Em Freixianda, propagandistas eleitorais são apedrejados

  • 1915

É fechado o jornal “Notícias do Norte” de Braga

  • 1919

Greve de corticeiros

  • 1920

Tumultos entre o exército e a população em Beja. São efectuadas 21 prisões

  • 1923

Atentado à bomba em Lisboa

Em Aljustrel, os operários abandonam o trabalho, em protesto pela falta de abastecimento de trigo

  • 1924

Greve dos padeiros

Fontes: aqui

sábado, 24 de abril de 2010

A 1ª República na Nazaré

Hoje estarei na Nazaré. Terra lindíssima e hospitaleira. Ocorreu-me saber com que paz a Nazaré viveu os anos felizes da ditosa República. Parece que com pouca. Era feroz a disputa entre o Partido Democrático, de Afonso Costa, e o Partido Evolucionista, de António José de Almeida. Com vantagem para este, facto que aquele, como é do conhecimento geral, não costumava perdoar. Vai daí...
São noticias do semanário "A Nazareth":
- A 8 de Janeiro de 1914, a Auditoria Administrativa de Leiria anula a eleição da Junta da Paróquia da Pederneira. Os Republicanos interpuseram recurso para o Supremo Tribunal Administrativo.
- A 9 de Julho do mesmo ano, continua a querela com o Partido Evolucionista. Titulo da 1ª página: »Fantochadas»; no texto, aquele partido é acusado de «... numa ansia perfeitamente dementada de assaltar o poder, numa furia completamente doida de meter a república na algibeira...».
- A 1 de Setembro de 1914, o jornal mostra-se contrário à entrada de Portugal na Grande Guerra.
- A 10 de Outubro de 1910, refere-se que o 4º aniversário da República não foi festejado na Nazaré «por motivos ponderosos».
- A 31 de Dezembro de 1914, noticia-se a inauguração do retrato «do eminente estadista Sr. Dr. Afonso Costa».
- A 9 de Janeiro de 1915 (só para iniciar o ano), fogo intenso sobre Brito Camacho, lider do Partido Unionista: «é politicamente um imbecil, duplicado de um perverso...».
- A 1 de Março de 1915, divulga-se o "Regime de Terror" que grassa na Nazaré. E uma "tentativa de assassinato". Feitas as contas, tudo é atribuido «à vergonhosa ditadura Arriaga-Pimenta de Castro» pelo que lá fica o brado: «Viva a República! Abaixo os assassinos jesuítas!».
Enfim. Espero não me encontrar hoje na Nazaré nem com Afonso Costa nem com o reporter deste semanário democrático. Ainda acabo no xilindró.

Repressão


Fonte: Portugal Século XX (1910-1920), Joaquim Vieira, Círculo de Leitores

Cronologia da república - 24 de Abril

  • 1912

É fechado o jornal “O Diário do Porto”

  • 1915

Dissolução das câmaras municipais de Setúbal e Sobral de Monte Agraço

  • 1920

Intensa fuga de capitais

  • 1924

O presidente da associação de armadores é ferido a tiro em Lisboa

Fontes: aqui

sexta-feira, 23 de abril de 2010

NO PRESIDENT !





Leia tudo AQUI, no Combustões. Texto e muitas fotos inéditas, tiradas por Miguel Castelo-Branco. Esta tarde, em Bangkok.

"Um indivíduo acercou-se e identificou-se como professor do ensino secundário. É simpatizante de Abhisit mas deixou-me boquiaberto com a terminologia. "Sabe, 90% dos tubarões e exploradores deste povo são amigos de Thaksin. No campo democrático e daqueles que amam o Rei, a maioria são pessoas como nós, que trabalham, se levantam cedo e deitam cedo, que fazem ginástica orçamental para sobreviver". Feliz por ver que da boca de um homem que ganha duzentos Euro por mês saltam crepitantes as palavras que esperava. Disse-lhe que na Europa era o mesmo: quanto mais ricos, ociosos e metidos nas curibecas, mais pró-isto e pró-aquilo, conquanto nunca lhes metam as mãos na carteira.

A maioria trazia um grande autocolante destinado a enviar um recado para o mundo, infelizmente mal informado pelos media ditos de referência, que fazem clara campanha a favor do plutocrata Thaksin servindo-se exageros e semi-verdades misturadas com totais mentiras. Não [queremos] presidente, resume a natureza do conflito. Thaksin quer a república oligárquica e plutocrática, o poder absoluto para governar a seu bel prazer. Os tailandeses sabem que tal república, que os defensores do multimilionário crismaram já de Estado Novo, seria o fim da democracia e o fim da separação de poderes. Depois, há a repulsa profunda pelo terrorismo, pelo vandalismo e pela protecção que Thaksin tem recebido dos regimes autoritários ex-comunistas da região. Agora, para os defensores do governo, Thaksin é, apenas um traidor."

Vasco Pulido Valente, o Dalai Lama e a verdade histórica

Hoje: Vasco Pulido Valente e o 14º Dalai Lama do Tibete. Duas figuras impossivelmente conciliáveis, salvo, talvez, no respeito que manifestam pela Verdade. Neste caso pela verdade histórica. Por isso fui buscá-los, já que, de certeza, a República não os convida para festejar o seu Centenário.
(Devias ser menos intransigente, Ilda. E essa mania que apanhaste logo no berço de contar umas patranhas... só essa mania, rapariga, já é o bastante para que não vás longe na vida. Olha para trás Ilda, olha e vê quanto nos desgraçaste).
Pulido Valente, então, no seu imprescindível "O Poder e o Povo" (pág. 27):
«(...) postulado falso: o de que o país queria a República. Depois do 5 de Outubro, depressa se tornou claro que não queria. E, assim, esquecendo as suas mais solenes promessas, o PRP nunca decretou o sufrágio universal ou lutou pela descentralização eleitoral ou administrativa. A longo prazo, o democratismo republicano não podia deixar de se revelar por aquilo que era: a expressão ideológica da vontade revolucionária da pequena burguesia urbana».
O historiador não consta seja monárquico. Somente imparcial. Tal como o Dalai Lama, que na sua passagem por Portugal (2003), entre nuvens de políticos zumbidores a cercá-lo, lá se conseguiu exprimir:
«O Rei de Portugal, Dom Duarte, poderá não ser Monarca Reinante mas tem (...) a dificil tarefa de manter vivo o espírito cultural da nação e isso é mais importante do que usar uma coroa...».
Entre a «vontade revolucionária da pequena burguesia urbana» e a «dificil tarefa de manter vivo o espírito cultural da nação» - El-Rei de Portugal. Doa a quem doer.

Cronologia da república - 23 de Abril

  • 1912

Conflitos com operários em Vila Nova de Gaia resultam em prisões e feridos graves

Na greve operária do Porto há tiroteio e rebentamento de bombas

  • 1915

Dissolução de várias câmaras municipais

Fontes: aqui

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O povo protege a Coroa

"Pelas 19 horas apanhei o metro de superfície para ir ao ginásio para uma sessão de boxe. Ao abandonar a estação de Sala Deng (Silom) fui confrontado com um mar de gente que gritava palavras de ordem anti-vermelhas, vivas ao Rei e às forças armadas."

Hoje, em Bangkok. Siga todos os acontecimentos AQUI

"A hora tremenda do juízo final" (Raúl Brandão)

São essas as mentiras postas a correr, nas escolas, pela rua, nos espíritos menos atentos.
As histórias tremendas dos reis irancundos, cercados de concubinas e de um luxo roubado ao pouco que restava à subsistência do povo. Da tropa pronta a espezinhar quem ousasse reclamar o pão a que os filhos dos pobres tinham direito. E da Nobreza, que é como quem diz, da luxúria, da intriga e da depravação. Em tempos de centenário da nossa velha Ilda, tais são as intrujices que correm por aí, na blogosfera, nos jornais, em conferências de alguns insígnes "democratas".

Há pouco dei com este texto de Raul Brandão (in «Vale de Josafat», 1933), que não consta fosse esclavagista e expressa os desabafos do Autor com os seus próprios leitores. Ora vejam, senhores iluminado-republicanos e éticos:

«A vida modificou-se nos últimos vinte anos (...). Ninguém pensa hoje como ontem (...) Eu sou do tempo em que ser rico não era uma afronta para os pobres. (...) hoje só se é pobre com desespero. Na provincia que conheço, as palavras senhorio e fidalgo tinham quase a mesma significação. Muitos senhorios viviam com os caseiros e quase como eles. Estou a ver daqui as casas antigas que mal se distinguem das da lavoura - as mesmas pedras denegridas, as mesmas janelas sem vidros o mesmo lar enfumado, o mesmo celeiro escuro para guardar o pão.
As classes não estavam tão divididas. Hoje o rico desconhece o pobre (...). O que se acentua na vida actual é o egoísmo e a febre de gozar. (...)
Só uma directriz se marca cada vez mais fundo - enriquecer e gozar. Enriquecer seja como for e gastar à larga, venha de onde vier. (...)
Todos caminhamos com febre - a febre de quem não confia no dia de amanhã. O dia de amanhã talvez não exista; o que existe são as grandes oligarquias políticas, económicas e finaceiras; os grandes negócios, as grandes casas bancárias (...)
De resto, o exemplo vem de cima, vem das classes chamadas superiores, que enriqueceram sabe Deus como. (...)
Pede-se um governo, um plano, uma força - homens implorando aos manequins que os salvem! São os políticos muitas vezes que pregam contra o jogo no parlamento que vão à noite deitar os dados na roleta. (...) aquele médico de provincia pobre, e com uma família pobre, ganha hoje (1920) sessenta contos por ano como comissário do governo em qualquer banco. O filho deste republicano histórico fez uma fortuna nas colónias, de tal maneira escandalosa que não pode lá voltar. Apontam-se a dedo políticos que ganharam muitas centenas de contos com negócios de arroz e de açucar. (...)
Aqui há tempos, as galerias atiraram moedas de cobre sobre os deputados, gritando-lhes: - Parasitas! parasitas! (...)
Tenho uma certa pena, uma certa saudade do passado, mas caminho com decisão para o futuro. Tu e eu, leitor, reclamamos a hora tremenda do juizo final».
Estou a pensar em pedir ao Dr. António Reis e aos outros matemáticos do GOL que, de esquadro e compasso na mão, me dêem uma ajuda nestes meus cálculos. Sou fraco em contas, mas um texto publicado em 1933 com memórias de 20 anos antes, leva-nos no tempo até 1913... Não, não sou eu - quem se enganou foi Raul Brandão. Ou, quando muito, de 1913 para 2010 nada mudou. Cuidado, República - está para chegar a "hora tremenda do juizo final".

Quando um ex-Presidente da República o diz, em ano de centenário:

Foram necessários 64 anos para que se consumasse a eleição do "Presidente da República" – "razão" do regicídio e promessa do terrorismo republicano...
Após essa eleição, foram necessários 36 anos para ouvir alguém com responsabilidades afirmar: "Uma democracia assim não funciona bem".
A Comissão do Centenário da República devia objectivar muito bem que datas, efemérides e relevâncias anda a querer-nos obrigar a comemorar para além das teorias, demagogias e propaganda carcomida!

Laços de família.





Uma das mais frequentes críticas à ideia de Monarquia é a questão da hereditariedade. «Se ele pode ser rei, porque é que eu também não posso sê-lo?», como se qualquer um de nós, anónimos cidadãos pudesse, efectivamente, alcançar o lugar de presidente da república. É esta ilusão de igualdade, de acesso democrático e igual, que conserva a ideologia republicana naquele pedestal de superioridade onde se acolhe uma parte dos políticos. Mas quando se trata de consolidar o poder abaixo dessa alta ideia republicana, a hereditariedade dá muito jeito. De resto, a República Portuguesa está cheia de exemplos de dinastias empresariais, políticas e profissionais. Desde os Santos Silva, e os Soares, republicanos, laicos e socialistas, até aos Azevedo ou Champalimaud, sem esquecer as pequenas clientelas familiares que preenchem as vagas das Câmaras Municipais, Secretarias de Estado, Empresas Públicas, etc, onde filhos e filhas sucedem a pais, sobrinhos a tios, etc, num nepotismo facílimo de aclarar pela leitura, ainda que fastidiosa, do Diário da República. É que a ética republicana - esse hipotético estado mental em construção - sabe que o voto é apenas uma das fases do processo de obtenção do poder. Segue-se-lhe o sangue e o dinheiro, dois factores que os políticos republicanos portugueses souberam manobrar muito bem desde o século XIX.