
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Matinais notícias da República (de hoje)

Segunda-feira para a História

No dia 04 de Outubro, às 18.30, uma hora e meia depois da inauguração da exposição “A Repressão da Imprensa na 1ª República” no Palácio da Independência, Mendo Castro Henriques, monárquico, e Fernando Rosas, republicano, apresentam na livraria Livraria Buchholz apresentam «1910 a duas vozes», onde se expõem dois distintos pontos de vista sobre Implantação da República em Portugal, a queda da Monarquia e as repercussões desse momento histórico durante o último século. A não faltar!
Cronologia da república - 2ªedição - 28 de Setembro
- 1913
Afonso Costa é atacado num comício
- 1916
A constituição é alterada
- 1918
Tentativa de derrube do governo
- 1923
Na aldeia de Ponte, tiroteio entre a GNR e opositores à Republica
Fontes
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Um artigo de opinião no entulho da propaganda republicana
O paralelismo do lixo.
Os "amigos" da República

Um dos nossos "pais" falou
Dr. Rosas sem aspas

Hoje, no Diário de Notícias, diz o Doutor-em-Chefe Fernando Rosas, que existe uma forte corrente monárquico-conservadora (sic) que vem recuperando a tese secundo-republicana da calma após o caos da 1ª República. À parte o exotismo do termo, lembre-se o Dr. Rosas, que esta geração a que se refere, foi formada posteriormente a 1974, sendo o próprio patrono da exposição, um típico produto da escola salazarista. Daí o pendor efabulador, autoritário, exclusivista e estatizante na sua forma mais concentrada.
De facto, é a própria exposição Viva a República - nem sequer sabemos se se soltam vivas!, ou se apenas querem fazer Portugal passar novamente por esse tipo de vivência - que definitivamente estabelece essa opinião. Quem a visite e se dê ao trabalho de ler um décimo das legendas que acompanham as imagens e as interactividades expostas, facilmente chegará a essa conclusão, precisamente com a preciosa ajuda dos gauleiters do Dr. Rosas. Os organizadores dessa via sacra de todas as lamentáveis misérias, punições e desastres, foram os prestimosos oficiais subalternos do deputado ex-maoísta e hoje improvável trotsquista. Lá estão as frases e as legendas que esverdeadamente encerram a exposição, surgindo o salazarismo da 2ª República, como a consequência infalível de tudo aquilo que se passou no Portugal pós-Conferências do Casino. Após rasgados elogios ao rei D. Carlos, a própria monitora de serviço, diz a alto e bom som, que ..."Salazar salvou e consolidou a forma de Estado republicana". Decididamente, é uma rapariga inteligente e com futuro garantido.
Deixando de lado a disposição de corte post mortem leninista, a feira passa com muito sucesso, a mensagem que o Doutor Rosas e respectivo staff bem vincaram: Salazar é o sumarento fruto da árvore republicana.
Um chorrilho de fruta podre

Cronologia da república - 2ªedição - 27 de Setembro
- 1920
Assalto de casas comerciais em Chaves
- 1921
O governo limita a actividade das fábricas de moagem
Fontes
domingo, 26 de setembro de 2010
Américo ganha as eleições!!!
Do JN de 09.06.1958:Os boys da República,
Cronologia da república - 2ªedição - 26 de Setembro
- 1914
É fechado o jornal "Justiça" de Braga
- 1922
O governo determina os dias para as eleições autárquicas e para as juntas de freguesia
- 1924
As cooperativas nacionais promovem um comício contra a Republica
Atentado bombista contra um hotel em Lisboa
Fontes
sábado, 25 de setembro de 2010
A frustração paga-se cara


Cronologia da república - 2ªedição - 25 de Setembro
- 1917
O governo restabelece a ordem militar de S. Bento de Avis
O governo restabelece a ordem militar da torre e espada
- 1920
As classes marítimas entram em greve
- 1922
É fechado o jornal "O Lidador" de Beja
- 1925
Início do discurso do promotor de justiça, o futuro marechal António Óscar Carmona no julgamento dos revoltosos de 18 de Abril
Fontes
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Paço Ducal
Debaixo do buço da República
Em 1938, a Infanta D. Filipa (tia d'El Rei D. Duarte) cheia de saudades do se Portugal, não quis mais saber dos impedimentos colocados pelo regime republicano. Visitaria a sua Pátria, assim decidiu. E assim procedeu.Todos a Guimarães Centenário da República
A Causa Real promove no próximo dia 5 de Outubro no Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães pelas às 15,00 horas, uma Proclamação de Lealdade para com S.A.R. O Senhor D. Duarte, Duque de Bragança, que juntará membros de todas as Reais Associações existentes no território nacional, simpatizantes da Causa Monárquica e cidadãos que não se revêem na actual forma de regime.
Apela-se à participação e presença de todos nesta acção em que terão ocasião de escutar uma relevante alocução ao país do Chefe da Casa Real. Para tanto a Real Associação de Lisboa disponibiliza transporte em autocarro com preços especiais, incluindo para jovens com 50% de desconto.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Aqui del Rei! em tempo de república.
(Sublinhados nossos)
A vós me dirijo senhor, como chefe desta nação bem digna de melhor sorte!
Fez ontem um ano que existe neste país a República e de então para cá só desenganos! Que dirão aqueles (como eu) que julgavam que em se mudando o regime, que haveria honestidade e liberdade! Puro engano!! Quem foi republicano convicto deve corar de vergonha e decerto não julgava que houvesse tanto heroi republicano de barriga. Se há ainda quem defenda a república é por capricho porque come à mesa do orçamento.
Mas comei lobos famintos!
Houve na verdade nos últimos anos da monarquia cenas escandalosas, mas decerto com o decorrer do tempo ao passo que a República com um ano de existência está ainda muito pior nos exemplos de administração.
Para onde caminhamos?
Pelas ruas não há respeito entre os elementos da classe civil. As autoridades não são respeitadas tudo é carbonários e voluntários!!! No exército não há disciplina e na marinha ainda pior; a organização do exército foi um saque à nação; só assim se explica como se promoveram capitães, com 2 anos de subalterno, como se o país necessitasse de tanto oficial que só serve para receber o salário e passear; como se não se soubesse que tudo isto é um cancro para o país e como a organização obedeceu simplesmente para promoções escandalosas etc etc.
Haveria ordem se houvesse respeito.
Haveria trabalho se o exemplo viesse de cima e os próprios ministros (do governo provisório) dessem o exemplo e não anexassem em altos cargos toda a Ex.ma família.
Haveria Liberdade se cada um dicesse [sic] o que sente. O povo não estava convocado para a república e os grandes republicanos só tinham era inveja de não comer. Não tenho habilitações para melhor me exprimir, mas no intanto [sic] dá vor de gritar: aqui del-Rei!!
Lisboa, 6/10/911
MATOS, Sérgio Campos, introd. e FREITAS, Joana Gaspar, colab. - Correspondência política de Manuel de Arriaga, volume I. Lisboa: Livros Horizonte, 2004, p. 371.
Cronologia da república - 2ªedição - 23 de Setembro
- 1911
Protesto estudantil da escola politécnica
- 1912
Os oficiais têm um prazo de 30 dias para reconhecerem a Republica
- 1918
Nacionalização de bancos estrangeiros
É fechado pela polícia o jornal "O mundo"
Fontes
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
A república em produção fictícia

Imaginemos algumas situações que hoje, qualquer bípede julgaria caricata:
1. Estando vivo até uns anos depois de 1974, o governo português convida António Lopes Ribeiro, para a realização de uma mini-série sobre a tomada do poder pelos militares e a consolidação da 2ª República sob a direcção de António de Oliveira Salazar.
2. Em 1955 e decorrida uma década após o desaparecimento do III Reich, a recentemente constituída República Federal da Alemanha, contrata Leni Riefenstahl e Wolfgang Liebeneiner, com o fim de passarem ao cinema, a tomada do poder por parte do NSDAP de Adolfo Hitler.
3. Em 1950, Rossellini é convidado para a execução de um grande documentário laudatório da tomada do poder por Mussolini, apresentando a Marcha sobre Roma como ..."uma imperiosa necessidade, ditada pelo estado de profunda decadência institucional que o país vivia". Teria consistido numa tarefa fácil, no seguimento da Trilogia Fascista que Rossellini passaria ao celulóide, com La nave bianca (1941), Un pilota ritorna (1942) e o Uomo della croce (1943).
4. Decidindo comemorar o golpe de Estado protagonizado pelo subversivo PRP + Carbonária e respectiva direcção de meia-noite, o governo português incumbe a televisão oficial do Estado, a RTP, para realizar uma mini-série alusiva aos dias 3, 4 e 5 de Outubro de 1910. Muito concretamente, estabelece-se um acordo com as "Produções Fictícias" - melhor nome não podia ser escolhido -, com a supervisão histórico-científica de António Reis, coincidentemente grão-mestre do Grande Oriente Lusitano.
Estas possibilidades parecem-vos simples idiotias? São. Parecem-vos extemporâneas, anacrónicas e abusivas da imparcialidade que o tratamento de temas da História deverá sempre merecer? Evidentemente. Sente-se roubado, insultado e desprezado? Decerto.
Apenas uma nota: a 4ª hipótese, mais uma "à portuguesa", é verdadeira! Vivemos uma época de todos e mais alguns incríveis, pagos por si, por exemplo. Da próxima vez que tomar um café, pense nos 21% de imposto que desembolsará e para onde irá esse dinheiro.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Terapias republicanas contra a "loucura".

A história desconhecida....

Um livro de capa dura, distribuído em fascículos, a que se juntam ainda 6 medalhas com banho de ouro velho mate dos rostos da República, de Afonso Costa, a Pinheiro Chagas, de Ana de Castro Osório a Manuel de Arriaga. Imprescindível para pais, professores e alunos e todos aqueles que gostam de História.
Um século depois, Cavaco imita D. Carlos

Diz ele, que ..."espanta muitos, dada a importância estratégica dos nossos portos, que possamos discutir meses e anos a fio o TGV ou o novo aeroporto de Lisboa sem que paremos um pouco para pensar nos portos do futuro”. Refere-se ao mar a que jamais votou qualquer interesse quando foi primeiro-ministro. Aliás, nos anos 80-90, assistiu-se a um recuo sem precedentes nas actividades relacionadas com este sector. Cavaco Silva escandaliza-se agora, com o abandono a que tem sido votado este património e desfia um imenso rosário de possibilidades, desde auto-estradas marítimas - a obsessão pelo termo é sintomática -, onde os transportes rivalizariam com aqueles outros que ajudou a incentivar, quando decidiu betonar o país de norte a sul. A isto, acrescenta a necessidade de modernização dos portos e uma nova política de taxas portuárias e procedimentos administrativos.
Cavaco junta-se a Sampaio, o outro imitador profissional com mais de cem anos de atraso, das actividades anti-tuberculose da rainha D. Amélia.
Cavaco também chega atrasado mais de um século, pois tudo aquilo que oportunamente diz para eleitor ouvir, foi dito e repetido por D. Carlos. O grande rei pagou bem cara a sua visão, pois disso se serviram os seus inimigos, para inventar as mais torpes alarvidades acerca dos seus afazeres marítimos. Desde bacanais a bordo do iate Amélia, até ao plágio do trabalho de outrem e passando pela negligência dos seus deveres de Estado, tudo foi apontado a D. Carlos. O motivo? O excessivo interesse pelo mar.
Quão atrasado anda, este neo-entusiasta naval. Ou leu a recente biografia de D. Carlos que Rui Ramos deu à estampa, ou andam uns monárquicos a assoprar-lhe ao ouvido. Se assim for, que compre um iate para estudos oceanográficos e ponha-se à faina. Até lhe sugerimos um nome, Mariani I. Com um século de atraso, mas mais vale tarde que nunca.
A mulher e a república
De 04 a 15 de Outubro em Lisboa no Palácio da Independência
Não falte, a entrada é gratuita com oferta do catálogo
Cronologia da república - 2ªedição - 21 de Setembro
- 1913
Conflitos entre Populares e a Polícia em Lisboa
- 1915
A assembleia especifica os crimes de alta traição
- 1921
A assembleia autoriza um empréstimo para pagar as comemorações do centenário de Fernão de Magalhães
- 1922
Criação do chamado “imposto de vida cara”
Fontes
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Uma «admirável conferência sobre a educação da mulher»

Cronologia da república - 2ªedição - 20 de Setembro
- 1914
É fechado o jornal "O operário" de Beja
É fechado o jornal "A cidade" de Portalegre
- 1920
Tentativa de derrube do governo
A estação do Barreiro é ocupada pelo exército face a hipótese de uma greve
Explosão de linhas ferroviárias
Os grevistas detidos são atados a frente dos comboios
- 1921
O governo cria 3 tipos de pão
Fontes
domingo, 19 de setembro de 2010
O parto republicano.
Cronologia da república - 2ªedição - 19 de Setembro
- 1911
40 Presos políticos
- 1914
Adiamento das eleições
- 1924
Entram em greve os armadores pesqueiros
A associação industrial do Porto reúne-se para debater o estado da nação
Fontes
sábado, 18 de setembro de 2010
Novo livro de Jaime Nogueira Pinto
Intitula-se "Nobre Povo - os Anos da República", pelo que o tema fica bem à vista. Em entrevista à Notícias Sábado, de hoje, o Autor explica o livro e a época a que este respeita. Vai ser, com certeza uma obra isenta, logo proveitosa. Quando se diz que em 1910 os republicanos eram uma minoria, embora activa e radicada nas classes médias e baixas patentes militares; ou que os nossos «brandos costumes» vêm do Estado Novo, como resposta à selvajaria da 1ª República, garantem-se, seguramente, caminhos de uma boa e esclarecedora leitura.Cronologia da república - 2ªedição - 18 de Setembro
- 1912
Conflitos populacionais em São João da Pesqueira
- 1914
Assaltos a armazéns de alimentos no Porto
- 1915
Dificuldade de abastecimento de produtos alimentares
- 1922
Greve dos operários da indústria de conservas de Setúbal
Fontes
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Domingo arruada em Lisboa (PUB)

Cronologia da república - 2ªedição - 17 de Setembro
- 1911
É fechado o jornal "O Alarme" de Angra do Heroísmo
- 1919
A assembleia extingue o Ministério dos abastecimentos e transportes
- 1921
É fechado o parlamento
- 1924
O governo contrai um empréstimo bancário
- 1925
Comício da união sindical operária no Porto contra as deportações
Fontes
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Sem palavras para a Segunda República.
A 2ª que existiu

"Em ano de centenário, os representantes dos últimos resquícios do velho republicanismo intolerante, gostam de obliterar 48 desse anos, falando apenas em 1ª e 2ª república, criando um hiato histórico seguindo a escola estalinista de obliterar o que é incomodo ou inconveniente. como consequência, centram-se mais na comemoração dos 100 da instauração da República do que nos 100 anos da República. O que não é a mesma coisa…. Aquilo que designam apenas como «Estado Novo» (e não como historicamente de facto é, a 2ª república), na verdade é uma forma de república. Da mesma forma que uma monarquia absoluta é uma forma de monarquia. Monarquias ou repúblicas, assumem formas mais ou menos democráticas ou formas mais ou menos totalitárias. O facto de não se apreciar na actualidade uma certa forma, não pode, em termos históricos, pretender-se que a mesma não fosse de facto e de direito republicana. «Ah e coisa e tal, mas os valores…». Bom, se vamos por aí, seguindo tal subjectividade, então a 1ª República não teve sequer 16 anos. Nem teria havido apenas uma 1ª República, mas várias, tantas quantos os períodos intercalados entre as suas várias ditaduras.
Simplifique-se e restrinja-se a classificação a critérios históricos/formais e não de valoração circunstancial política: uma Republica é o período de vigência de uma Constituição que tenha como sistema formal de organização política do Estado a forma republicana. Estamos portanto na 3ª."
Por Gabriel Silva, no Blasfémias
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Carta de Fernando Pessoa ao presidente da república
[Ao Presidente da República]
Com uma de duas qualidades – de duas só – se afirma um homem chefe de um povo, comanda um homem a massa indistinta e informe da nação. São elas o poder oratório e o prestígio militar – a eloquência de um António José de Almeida, a bravura de um Sidónio Pais. Às qualidades de inteligência, por grande que seja, de trabalho, por intenso que possa ser, a essas e a outras, de menor relevo público, como a honestidade, a virtude, o patriotismo, encolhe o povo os ombros, sem sequer pensar em respeitá-las; deixa-as na sombra a que naturalmente pertencem. Convém não esquecer, Senhor Presidente, que uma nação é um teatro e um governo um palco: ninguém comanda a alma de um povo se não tiver nascido, ou se não se fizer, actor. É essa a razão do prestígio orgânico da monarquia: o rei nasce no palco e é educado, desde a infância, para estar e representar nele.
Pode a eloquência ser oca, a bravura postiça: o caso é que uma se ouça e a outra se veja.
*
Quer isto dizer, Senhor Presidente, que uma nação haja sempre de ser governada por chefes acentuadamente tais, que não haja período em que possam estar no poder os inteligentes sem aura e os patriotas sem prestígio? Não é o que quer dizer. O que porém quer dizer é que esse prestígio de chefe, desnecessário muitas vezes num governo de época normal, é indispensável num governo de época anormal, imprescindível num governo de autoridade. O que porém quer dizer é que o Prof. Salazar, não tendo tal prestígio, nem maneira de o ter, se deixou investir da aparência dele. É a sua túnica de Nessus.
Ninguém pode legitimamente culpar o actual Presidente do Conselho de não ter qualidades que não tem; pode legitimamente fazer-se de, não tendo tais qualidades, pretender tê-las e ter-se colocado em situação de, não podendo tê-las, ser todavia necessário que as tenha.
Culpa-se o Prof. Salazar disto: de ser incompetente para o cargo que assumiu.
*
Um homem que, tendo que presidir a uma distribuição de prémios literários, abre a sessão com um discurso em que enxovalha todos os escritores portugueses – muitos deles seus superiores intelectuais – com a fútil imposição de «directrizes» que ninguém lhe pediu nem pediria, e que, pedidas que fossem, ninguém poderia aceitar por não compreender quais sejam – esse homem, que assim, com uma inabilidade de aldeão letrado, de um só golpe afastou de si o resto da inteligência portuguesa que ainda o olhava com uma benevolência, já um pouco impaciente, e uma tolerância, já vagamente desdenhosa, não tem sequer o prestígio limitado que lhe permita governar uma república aristocrática, a aceitação de uma minoria que, ainda que praticamente inútil, fosse teoricamente inteligente.
*
Destinado assim naturalmente por Deus para executor de ideias de outrem, visto que as não tem próprias, de secretário de prestígio alheio, porque o não pode conquistar seu, o Prof. Salazar quis alçar-se, ou deixou que o quisessem alçar, a um pedestal onde mal se acomoda, a um trono onde não sabe como sentar-se. Não conseguiram os titãs, e eram titãs, escalar o Olimpo; como o conseguirão os anões, condenados, para que possam parecer grandes, ao desequilíbrio constante das andas que lhes ataram às pernas?
*
Isto não é ser mestre, nem ser chefe é: é ser exemplo. Mas igual exemplo nos dão e sempre deram as formigas e as abelhas – cujo Estado Velho está absolutamente bem organizado, e em princípios antiliberais a que ninguém desobedece –, sem que seja preciso promover a Abelha Rainha à posição, presentemente mais que régia, da Presidência do Conselho.
Realmente é um Estado Novo, porque este estado de coisas nunca antes se viu.
*
Chegámos a isto, Senhor Presidente: passou a época da desordem e da má administração; temos boa administração e ordem. E não há nenhum de nós que não tenha saudades da desordem e da má administração. Não sabíamos que a ordem nas ruas, que as estradas, as pontes e as esquadras tinham que ser compradas por tão alto preço – a da venda a retalho da alma portuguesa.
Tem todas as qualidades periféricas de chefe. Falta-lhe a principal – que é ser chefe.
Fernando Pessoa, «Contra Salazar», selecção, introdução e notas de António Apolinário Lourenço, Angelus Novus Editora, Coimbra, 2008, pp. 137-140.
Notas para uma carta, nunca enviada, que é a manifestação da indignação face ao discurso de Salazar, a 21 de Fevereiro de 1935, na cerimónia de entrega dos prémios literários do Secretariado de Propaganda Nacional, que distinguiu em exequo a obra «Mensagem». Fernando Pessoa viria a falecer a 30 de Novembro de 1935.
Esta carta não revela Fernando Pessoa no seu melhor. Apresenta uma retórica brilhante mas considerar que os "chefes" ou são "militares" ou "oratórios" e que Salazar não era uma coisa nem outra, é uma visão muito limitada dos anos 30, do que deve ser a representação nacional. Para elogiar Antonio José de Almeida como "chefe", é preciso estar muito desiludido com o regime e mesmo a vida, como comprova a morte de Fernando Pessoa por cirrose, meses depois . Almeida fora homem do PRP encarregado no Verão de 1907, de estabelecer o programa do Regicídio com os carbonarios anarquistas na LOja Montanha. Após o sucesso do 5 de Outubro tornou-se um dos mais evidentes exemplos do "patriota estúpido", cheio de oratória em prol de Portugal mas com uma ignorância completa do que o país necessitava em termos sociais e económicos, um burguês satisfeito com o seu discurso mas que não se importava que o povo passasse fome. Um exemplo típico dos "apóstolos republicanos" cujo entusiasmo ia a par com o cretinismo político, tal como Magalhães Lima. E depois Sidónio, cheio de contradições, sempre a hesitar entre apoiar os monárquicos que o ajudaram a consolidar o poder e apoiar os republicanos que o tinham incitado ao golpe de Estado, sobretudo Brito Camacho a cujo partido pertencia. É ainda de ter em conta que Almeida e Sidónio pertenciam ao Grande Oriente e nesta fase Pessoa está revoltado com a Lei de proibição das Associações secretas (vg. Maçonaria) proposta pelo deputado José de Castro e aceite pela Assembleia Nacional quando na realidade Salazar estabelecera, por detrás, um acordo com o Grande Oriente, via Albino dos Reis, para não existir senão actividade clandestina do GOL.. Malhas que o império tece... Não publicando a carta, Fernando Pessoa mostrou que não se identificava com ela. MCH






