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quinta-feira, 22 de abril de 2010

"A hora tremenda do juízo final" (Raúl Brandão)

São essas as mentiras postas a correr, nas escolas, pela rua, nos espíritos menos atentos.
As histórias tremendas dos reis irancundos, cercados de concubinas e de um luxo roubado ao pouco que restava à subsistência do povo. Da tropa pronta a espezinhar quem ousasse reclamar o pão a que os filhos dos pobres tinham direito. E da Nobreza, que é como quem diz, da luxúria, da intriga e da depravação. Em tempos de centenário da nossa velha Ilda, tais são as intrujices que correm por aí, na blogosfera, nos jornais, em conferências de alguns insígnes "democratas".

Há pouco dei com este texto de Raul Brandão (in «Vale de Josafat», 1933), que não consta fosse esclavagista e expressa os desabafos do Autor com os seus próprios leitores. Ora vejam, senhores iluminado-republicanos e éticos:

«A vida modificou-se nos últimos vinte anos (...). Ninguém pensa hoje como ontem (...) Eu sou do tempo em que ser rico não era uma afronta para os pobres. (...) hoje só se é pobre com desespero. Na provincia que conheço, as palavras senhorio e fidalgo tinham quase a mesma significação. Muitos senhorios viviam com os caseiros e quase como eles. Estou a ver daqui as casas antigas que mal se distinguem das da lavoura - as mesmas pedras denegridas, as mesmas janelas sem vidros o mesmo lar enfumado, o mesmo celeiro escuro para guardar o pão.
As classes não estavam tão divididas. Hoje o rico desconhece o pobre (...). O que se acentua na vida actual é o egoísmo e a febre de gozar. (...)
Só uma directriz se marca cada vez mais fundo - enriquecer e gozar. Enriquecer seja como for e gastar à larga, venha de onde vier. (...)
Todos caminhamos com febre - a febre de quem não confia no dia de amanhã. O dia de amanhã talvez não exista; o que existe são as grandes oligarquias políticas, económicas e finaceiras; os grandes negócios, as grandes casas bancárias (...)
De resto, o exemplo vem de cima, vem das classes chamadas superiores, que enriqueceram sabe Deus como. (...)
Pede-se um governo, um plano, uma força - homens implorando aos manequins que os salvem! São os políticos muitas vezes que pregam contra o jogo no parlamento que vão à noite deitar os dados na roleta. (...) aquele médico de provincia pobre, e com uma família pobre, ganha hoje (1920) sessenta contos por ano como comissário do governo em qualquer banco. O filho deste republicano histórico fez uma fortuna nas colónias, de tal maneira escandalosa que não pode lá voltar. Apontam-se a dedo políticos que ganharam muitas centenas de contos com negócios de arroz e de açucar. (...)
Aqui há tempos, as galerias atiraram moedas de cobre sobre os deputados, gritando-lhes: - Parasitas! parasitas! (...)
Tenho uma certa pena, uma certa saudade do passado, mas caminho com decisão para o futuro. Tu e eu, leitor, reclamamos a hora tremenda do juizo final».
Estou a pensar em pedir ao Dr. António Reis e aos outros matemáticos do GOL que, de esquadro e compasso na mão, me dêem uma ajuda nestes meus cálculos. Sou fraco em contas, mas um texto publicado em 1933 com memórias de 20 anos antes, leva-nos no tempo até 1913... Não, não sou eu - quem se enganou foi Raul Brandão. Ou, quando muito, de 1913 para 2010 nada mudou. Cuidado, República - está para chegar a "hora tremenda do juizo final".

terça-feira, 20 de abril de 2010

Os disparates da História de Portugal

Luís de Mascarenhas Gaivão, professor de História, durante anos compilou as maiores calinadas que ouviu da boca dos alunos, ou extraiu dos seus brilhantes testes escritos . É conhecida a conflituosa relação que a III República sempre manteve com o Ensino, daí não sendo de admirar os prodígios reproduzidos na «História de Portugal em disparates» por M. Gaivão.
A obra foi realizada «para pais modernos, professores catedráticos, avozinhas saudosistas, políticos, deputados, ratos de biblioteca, ministros da Educação, netinhos aplicados, historiadores, intelectuais de gabarito, repetentes militantes..
A sua leitura constitui uma necessidade de primeiro grau. Sirva de exemplo o que nela se regista acerca de «O que foi o 25 de Abril?»:
- Foi a revulsão dos melitares.
- Foi a revolução e o reconhecimento da independência da Guiné e Cabo Verde.
- Foi o soldado português que se revoltou contra a República.
- Foi uma revolta em que as tropas novas deitaram o governo salazarista abaixo.
- Foi uma revolta que o povo fez contra a República.
Que eles, os alunos de M. Gaivão, era cabulões, isso eram. Mas a um ou outro, mesmo assim, sempre seria de lhes dar uma boa nota. Pelo que provávelmente têm de premonitório. Ou de bom gosto e de boas intenções, pese embora reprimidas...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ramalho: de monóculo atento à República(III)

«Ora sucede que, abolida a Monarquia, e achando-nos nós no mês 5 do ano I da República, nenhum pão de pataco dos oitocentos mil que ingeria o rei, foi por enquanto distribuido ao povo, e que o mesmo povo, outra vez transferido de "Povo Soberano" a "Zé Povinho", com indício de estar mudado o Governo da Nação não logrou ainda o regozijo gratuito de ver passar em dia de gala, dos paços do Governo para o paço da Ajuda, em vez do rei antigo, o presidente novo (...)
É certo que nunca as classes dirigentes se divertiram tanto em excursões de recreio, nem se banquetearam tão repetidamente, como hoje em dia.. No caso, porém de cada cidadão, nem o imposto diminuiu nem o passadio embarateceu. (...) durante os dois primeiros meses da era republicana a dívida flutuante aumentou, regular e consoladoramente, para o nosso crédito em 1163 contos».
in «Últimas Farpas (1911-1914)», Clássica Editora, pág. 35.

sábado, 10 de abril de 2010

Ainda a bandeira...

«A questão da bandeira vinha também na sequência de um debate, que reflectia duas concepções da República. A antiga bandeira do Partido Republicano era verde-rubra (...). Os republicanos do quadrante radical entendiam que, triunfante o partido, a bandeira dele devia ser assumida pela nação. Este ponto de vista foi fortemente contestado. As pátrias não mudam com a forma dos governos, e por isso as cores nacionais deviam continuar a ser o azul e o branco, eliminada a coroa monárquica. Muitas propostas tinham sido apresentadas nesse sentido, e era esse o projecto do poeta Guerra Junqueiro.. Por detrás do problema quase fútil das cores da insígnia punha-se a questão de fundo, que já então ameaçava dividir o regime: se a República pertencia aos republicanos, se a todos os portugueses».
in «História de Portugal», coordenação de José Hermano Saraiva, vol 8, Quidnovi, 2004, pág. 72.

terça-feira, 6 de abril de 2010

RAMALHO: DE MONÓCULO ATENTO À REPÚBLICA (II)

«Dois dias depois de aclamado o Governo Provisório, achando-me ausente de Lisboa, na quinta de uma das minhas filhas, em Linda-a-Pastora, fui distinguido com uma busca policial na casa do meu domicílio na capital. Sob o anúncio formal de que a minha casa seria arrombada, a pessoa depositária da chave abriu obedientemente a casa, acompanhando na sua visita os oito cidadãos encarregados dessa diligência por expressa determinação de S. Ex.ª o Sr. Eusébio Leão, digníssimo governador civil. Eram oito cavalheiros vestidos à paisana e armados de revólver, sob o comando de um bravo e honesto sapateiro, meu conhecido da antiga Rua de S. Roque, hoje do Mundo. Não sei se todos os outros eram igualmente artistas de sapataria (...) todos me deixaram penhoradíssimo pela afabilidade das suas maneiras, pela benigna lhaneza do seu trato. Vindo por ordem do Sr. governador com a missão especial de averiguar se nos meus aposentos havia jesuitas armados e escondidos, S. Ex.ªs teceram tocantes elogios ao estilo da minha mobília, à escolha das minhas obras de arte e à perfeita ordem em que se encontravam as minhas camisas, as minhas gravatas, as minhas luvas, os meus papeis e os meus livros. Mexendo conscienciosamente em tudo não destruiram nem desarrumaram nada».
in Ramalho Ortigão, «Últimas Farpas (1911-1914)», Clássica Editora, pág. 19.