sábado, 25 de abril de 2009

Sim, ainda é preciso outro!

Transcrevo a seguir o meu artigo «A república está morta!», publicado no jornal Semanário, Nº 881, de 5 de Outubro de 2000.

Ser republicano em Portugal é ser cúmplice, mesmo que involuntariamente, de um crime. Porque a república conseguiu impor-se no nosso país devido, principalmente, ao assassinato do Rei e do príncipe herdeiro.
Os golpistas que participaram no 5 de Outubro de 1910 representavam uma ideologia que era minoritária no parlamento e no país. Os republicanos, longe de serem proscritos, eram tolerados e podiam difundir as suas doutrinas sem muitas restrições. Depois, o que aconteceu? Os monárquicos foram perseguidos, presos e exilados. Em Portugal a república mostrou que é menos democrática que a Monarquia.
O que deu a república a Portugal? Incompetência e confusão nos primeiros 16 anos, ditadura e repressão nos 48 que se seguiram. E esta terceira república em que vivemos não pode ser considerada plenamente democrática: a actual constituição, através do seu artigo 288º, continua a condicionar a sua revisão à «forma republicana de Governo». Continua a adiar-se a decisão que os portugueses têm de tomar sobre o regime que preferem.
A questão dos símbolos nacionais ilustra bem o carácter perverso da república em Portugal. Tanto a bandeira como o hino permaneceram os mesmos nas suas três «faces». Em 1997, nas comemorações do 10 de Junho, António Alçada Baptista sugeriu, e bem, que a letra de «A Portuguesa» deveria ser mudada. Não faltaram as críticas e mesmo os insultos, e muitos «republicanos» deixaram cair as suas máscaras de democratas e tolerantes. Recorde-se que no lugar de «canhões» estava a palavra «bretões», porque a canção que depois se tornou hino foi composta em resposta ao «Ultimatum» inglês. Depois do 5 de Outubro as relações com os ingleses melhoraram e o novo hino foi alterado. E a alteração veio mesmo a calhar porque, poucos anos depois, os republicanos mandavam soldados portugueses marcharem contra canhões alemães na Primeira Guerra Mundial.
Outro dos símbolos da república portuguesa é a Guarda Nacional Republicana, criada para actuar nas zonas rurais do país, onde a adesão à república era insignificante, e para reprimir todos os que expressassem simpatias monárquicas. A GNR é, ou foi, uma polícia política. Está para a primeira república como a PIDE está para a segunda. E se, contra todas as expectativas e lógicas, ainda não se procedeu à sua fusão com a PSP, hoje que se fala tanto em racionalização de recursos, talvez seja porque os republicanos pensem que ela ainda pode ser precisa contra os monárquicos.
O 25 de Abril de 1974 acabou com o 28 de Maio de 1926. É necessário outro 25 de Abril para acabar com o 5 de Outubro de 1910. A «re(les)pública» portuguesa encontra-se em adiantado estado de decomposição, provocada por sucessivos casos mal explicados e pior resolvidos de corrupção, (má) conduta, compadrio e cumplicidade, afectando altas instâncias dos poderes político, administrativo, judicial e económico. A amnistia aprovada aquando dos 25 anos do 25 de Abril, a revelação dos agentes e das operações dos serviços secretos militares, a descoberta das «viagens-fantasmas» dos deputados, a prescrição de inúmeros processos judiciais, constituem exemplos extremos e escandalosos de uma degenerescência não conjuntural mas estrutural: o problema está mais no regime do que nas pessoas que o (/dele se) servem. O mal-estar alastra-se e são já várias as vozes que o expressam abertamente.
Em Portugal a república está morta e há que proceder rapidamente ao seu enterro.

Nove anos depois, a degradação acentuou-se ainda mais. Tal como as suas duas antecessoras, a III República tornou-se um cadáver que fede. E não é uma «IV República», como alguns ingénuos – ou imbecis? – preconizam, que iria alterar, no fundamental, o estado de coisas. Continuam a existir indivíduos e instituições que parecem ser inimputáveis, que, mesmo cometendo abusos e crimes por demais evidentes, tardam em ser acusados e afastados. Porém, lá vão assobiando para o lado... ou cantando «A Internacional» e a «Grândola, Vila Morena». A canção de José Afonso é o verdadeiro hino do regime saído da «revolução dos cravos», mas nem para torná-la no novo símbolo musical da nação estes «democratas» tiveram coragem, preferindo continuar a entoar o que os «salazarentos» e os «acostados» tocavam. 35 anos depois da «alvorada em Abril», estamos, económica, social e politicamente falando, à beira do abismo... mas esperemos que não sejam os inocentes a dar um passo em frente.

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Andas a pedi-las... ainda acabas na choldra! arranjam logo um pretexto, fabricam provas e zás!, estás aqui, estás na prisão de Lisboa. eles são "useiros e vezeiros" em truques desses.

Carlos Portugal disse...

Caro Octávio:

Parabéns pelo seu artigo, ainda mais actual neste ano da (des)Graça de 2009.

Só que a GNR (Grande Ninhada de Ratos, como é conhecida na província) foi concebida mais como uma guarda pretoriana do regime republicano e tirânico instalado do que como uma polícia política.

Brutais, estúpidos e incapazes foram sempre os GNRs da 1ª República, e os crimes do Rossio atestam-no bem. Apenas braço musculado e acéfalo do regime, incapazes para agentes de polícia política (que hoje tem nomes como SIS e por aí adiante).

Sou bisneto de um dos comandantes da Guarda Real de D. Carlos e de D. Manuel II (também ele provavelmente assassinado em Londres), e recordo bem a minha Avó contar como a GNR lhe matou o Pai, à frente dela e das irmãs e irmãos. O crime: ser um oficial fiel da Guarda Real, a quem os dois últimos Monarcas estimavam.

E ainda tenho bem presente a fotografia - que depois foi censurada - da «aclamação da respública» na Praça do Município: na dita praça apenas meia-dúzia de basbaques a ouvirem os dislates verborreicos dos barbudos e façanhudos republicanos...

Enfim, a respública é bem o sistema mais baixo de governação... ao nível de um RÉS-do-chão.

Saudações monárquicas.

Octávio dos Santos disse...

Caro Carlos,

Quando eu referi a GNR como «polícia política» foi também, e precisamente, no sentido que refere - como «guarda pretoriana» do regime republicano. A polícia política tanto podia ser «discreta» como a PIDE ou «ostensiva» como a GNR; mas ambas foram «polícias políticas», embora de modos diferentes.

E deixe-me agradecer-lhe por ter partilhado connosco o que aconteceu com o seu bisavô: e mais casos como o do seu familiar, que decerto existiram, deveriam ser revelados e divulgados.

Cumprimentos, OdS