terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Comissão oficial do Centenário da República: um escarro na face dos portugueses


Uma das imagens do 5 de Outubro de 1910, consistiu na famosa foto do militante carbonário/PRP que de espingarda na mão, fazia a guarda ao banco. Olhava pelos valores da burguesia endinheirada que pontificava no seu partido e onde sobressaia gente de grossos cabedais como o sr. José Relvas, o Grandella e outros tantos abastados ou usurários negócios da praça lisboeta.

Sintomaticamente, temos hoje outro homem do conhecido "mundo dos negócios", um "banqueiro", muito interessado na preservação do legado de 1910. O sr. Artur Santos Silva (PSD, Banco Português de Investimento, vulgo BPI, Partex, Gulbenkian Jerónimo Martins, etc e etc)), é a cabeça visível da Comissão Oficial do centenário da república que hoje surgiu á hora do telejornal também oficial, o da RTP1 e N. São os grandes interesses em liça pela preservação do seu bastião e que encontram a mais perfeita consonância em Belém. De facto, a conquista da chefia do Estado é o marco final de uma luta pela totalitária apropriação do mesmo. Artur Santos Silva vem declarar que ..."a república representa a afirmação da liberdade e da cidadania, o combate à pobreza e a celebração do Estado de Direito". Uma frase que cristaliza toda a propaganda que oculta a mais descarada mentira, deturpação da História e todo o tipo de abusos que caracterizou o processo que conduziu à implantação de 1910, a sua tomada do poder em 1910-26 e final consolidação em 1926-74. Os acontecimentos dos últimos anos, em galopante processo de degradação do sistema, manifestam exactamente o oposto.

A república civicamente falhou quando decidiu declarar a guerra à Igreja, sendo exautorada em toda a Europa. Do estrangeiro apontaram-lhe as brutais ilegalidades, a insegurança e falta de liberdades civis, a liquidação da liberdade de imprensa e de expressão, o esmagamento do universo eleitoral - drasticamente reduzido àquele que existia antes de 1910 -, a fraude eleitoral, a violência policial, a tortura nas prisões, os assassínios políticos, a ruína económica, a paródia da Justiça, a emigração que em massa fugia de um país tornado insuportável. O falhanço material da escolarização a que durante anos se tinham proposto, odescrédito na política externa, a derrota na Grande Guerra de 1914-18, o banditismo a soldo dos facciosos de Afonso Costa - Formiga Branca, Camioneta Fantasma, a violenta cacicagem eleitoral na província, a Leva da Morte - e uma infinidade de exemplos de incompetência, nepotismo, tráfico de poder e de influências. Hoje, a manipulação da verdade vai ao ponto de evocar a emancipação feminina, como se tal tivesse acontecido com a 1ª república, colocando-se nos ecrãs dos televisores, uma ou outra senhora de serviço, completamente ignorante da verdade de uma história que desconhecem.

Já sabemos com o que contar. Ergue-se no horizonte uma estranha coligação de banqueiros, donos dos media e respectivos serviçais na política partidária e como sempre acontece, uns tantos crédulos que mesmo mantidos à distância, julgam manter-se "fiéis à memória do ideal" que jamais coisa alguma lhes deu e de tudo os despojou. São estes últimos - a maioria - as mais ostensivas vítimas de um sistema de extorsão que os relega para o esperado enquadramento popular, a garantia da segurança e arrogante desfaçatez dos senhores dos dourados salões da grande finança, agora completamente refastelados.

Esta Comissão é um escarro na face do povo português.

Anuncia agora o sr. Artur Santos Silva que o dia 5 de Outubro será vivido com centos de bandas filarmónicas a fazerem soar A Portuguesa. Muito bem, é a Marcha cuja partitura original a imagem deste post ilustra.


7 comentários:

Jerónimo Eleutério disse...

Que a comissão é fraquinha e não faz jus à importância do acontecimento estamos de acordo. Mas para quem tem tantas criticas ao sistema eleitoral republicano de 1910-1926, explique lá onde estava a democraticidade do sistema de rotativismo da monarquia do tempo de D. Carlos, com votos a serem comprados por caciques locais a um povo deixado durante séculos na ignorância.

"A política converteu-se em uma vasta associação de intriga, em que os sócios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja missão é impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, até que a cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possível a vez d'entrar e sair do governo. Nos pequenos períodos que decorrem entre a chegada e a partida de cada ministério o grupo respectivo renova-se, depondo alguns dos seus membros nos cargos públicos que vagaram e recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. É este trabalho de assimilação e desassimilação dos partidos, que constitue a vida orgânica do que se chama a politica portugueza".
Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, As Farpas, Agosto-Setembro de 1877.

Ah, pois é, custa ouvir o que diziam os nossos melhores...

Nuno Castelo-Branco disse...

Mas qual é a dúvida? nunca dissemos o contrário e a reforma de João Franco e do rei iam exactamente no sentido de passarmos a sistema representativo, onde das eleições saíssem os governos (e não o contrário). Já agora, para completar o seu acertado raciocínio, compare o universo eleitoral da monarquia, com aquele, tão reduzido, que a república trouxe.

João Amorim disse...

caro Jerónimo

Deve estar a confundir as datas. A compra de votos e as contagens dos votos "por telefone" foi uma das sete maravilhas da República.O rotativismo foi fruto do Liberalismo e de uma imprópria regeneração. A politica começou a apodrecer a partir de 1891 e muito porque o partido republicano aproveitava tudo e mais alguma coisa para "incendiar" os ânimos. O que aqui, neste blogge, se discute é a actuação da república e o "maravilhoso mundo novo" prometido. Tudo melhorou, não acha? 16 anos de abandalhamento e terrorismo, acrescidos de 40 anos de ditadura, isto sem falar nos PRESIDENTES da putativa república que deviam ser eleitos pelo povo mas que nunca passaram de "nomeados"...(tem piada). Quanto ao "povo que era deixado à ignorância" (!!), prepositadamente, pressuponho nas suas palavras, acha que ficou mais literado depois da república? Sabe em que lugar estamos nas estatísticas europeias?

Paulo Selão disse...

Só a titulo de curiosidade:
Quando refere essa imagem do carbonário de espingarda a guardar um banco veio-me imediatamente à cabeça do que se tratava. Essa imagem consta do meu livro de História do 6º ano e embora eu o tivesse feito no já longinquo ano lectivo de 87/88 lembro-me como se fosse hoje da legenda por baixo dessa foto: Homem do povo guardando um banco depois da implantação da república. Assim se constroem mitos e se faz propaganda. Essa frase ficou-me na memória até aos dias de hoje. É claro que quem não tem sentido critico, não pensa um bocadinho pela sua própria cabeça e não se esforça para estudar um pouco e investigar um tanto a História procurando várias fontes e ouvindo e memorizando essas e outras chega a uma certa idade e so vê republica e só berra vivas à dita cuja. O que não é o meu caso. Já o fiz mas abri a pestana.

João Amorim disse...

Caro Paulo Selão

E ainda bem que abriu a pestana. Muitos não abrem a pestana porque estão de olho no "banco" dos "tachos" e previlégios...

Laurus nobilis disse...

Antes de 1910, os movimentos republicanos eram permitidos; depois de 1910 os movimentos monárquicos foram proibidos e perseguidos... Ainda falou o senhor, na televisão, de uma ética qualquer...

mangaru disse...

O que se vê neste blog é sempre uma comparação da monarquia com já bastantes anos de existência com uma républica acabada de nascer, que sem duvida causou bastantes solavancos, nunca se compara a monarquia que existia com a democracia + madura que temos agora ( e ainda está em fase de maturação ).
Um regime de governação que choca com os conceitos da sociedade provoca contestação e divisão na sociedade. É tal como casamento gay, aborto ou até por vezes dizer que deus não existe.
A República deve ser festejada e os seus valores discutidos e amadurecidos, a forma como foi implementada não é tão relevante na actualidade e comparativamente a sua maior justiça não é discutível.
O presidente é eleito, o rei nunca o é, será sempre mais representativo do povo que um rei.