terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Uma república à revelia

(...) Afonso Costa, ministro da Justiça, ordenou a expulsão das ordens religiosas e legislou as disposições de marginalização e humilhação da Igreja Católica, antes das eleições constituintes de 1911. E, em 1913, chefiando um governo democrático, reduziu o eleitorado de 850 mil para menos de 400 mil eleitores, retirando o voto aos analfabetos e aos militares. As mulheres, consideradas conservadoras, nunca tiveram voto no tempo dos tão progressistas democráticos. Comentava um contemporâneo: "[...] os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis da família, a lei da separação da Igreja do Estado - todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais." O contemporâneo é Fernando Pessoa. (...) Ler na integra»»»»

Excerto de "Ouvir o povo é que não" por Jaime Nogueira Pinto no Jornal I

4 comentários:

Jerónimo Eleutério disse...

É verdade que a 1ª República não foi um modelo de regime democrático. Querer que o direito de voto tivesse sido dado às mulheres nessa altura talvez seja extemporâneo. Afinal nalgumas democracias consolidadas (como a Helvética) as mulheres apenas adquiriram esse direito há menos de meio século.

Sem desculpar os atropelos, teremos que colocar a 1ª República no contexto do seu tempo, num país na extremidade de uma Europa (ainda) dominada por monarquias.

Daniel Nunes Mateus disse...

Caro Jerónimo: Tenho apenas uma questão a fazer. Onde quer chegar com o seu segundo parágrafo?

Jerónimo Eleutério disse...

Caro Daniel

Boa questão, mas deixe-me tentar responder-lhe com outra questão. Dada a situação geo-estratégica vivida na altura na Europa, acha que uma revolução do tipo que implantou a república em 1910 tinha hipótese de fazer muito diferente? Não sei sinceramente, mas as experiências revolucionárias da altura na Europa não fizeram melhor.

Compare agora com o sucedido após a revolução de 1974. Estou certo que irá achar semelhanças e diferenças. Felizmente desta vez, correu um pouco melhor, mas o mundo era já também muito diferente. Acho que será bom ao longo deste ano ir reflectindo no que se passou ao longo de um século e analisar as várias perspectivas.

Cordialmente JE

Daniel Nunes Mateus disse...

A forma como foi implantada a República é questionável. Infelizmente não possuo os conceitos que permitam-me hipotecar seguramente, mas não podemos só olhar para a situação geo-estratégica, temos de pensar nos condicionalismos sócio-culturais e ai a nivel da História é uma epopeia gigantesca para dar essas respostas. Em 1974 já é diferente porque havia uma grande onda de contestação: Guerra Colonial, longevidade da repressão, etc. Espero que pelo menos este trabalho pessoal que ando a levar a cabo sirva para uma reflexão séria e honesta de 100 anos de acontecimentos.