sábado, 1 de novembro de 2008

Monarquismo e complexo ideológico

A defesa da monarquia em Portugal é profundamente inquinada de toda a espécie de estereótipos politicamente correctos: os monárquicos são fascistas, capitalistas, autoritários, velhos do Restelo, medievos e sabe-se lá mais o quê, desde que caiba no vasto léxico abrilino da vigente censura democrática. No fundo, somos uma cambada de otários agarrados às velhas máximas que as gloriosas luzes de Rousseau fizeram rolar no cadafalso. O problema da nossa causa é, no entanto, mais vasto e profundo. Não se trata só da terminologia que nos arremessam diariamente, numa constante perturbação da paciência que ainda vamos conservando, mas de uma ruptura interna que nos martiriza sem dó na persecução do necessário esclarecimento doutrinário. O problema desta causa é, para além de tudo o resto, o problema de não termos a mesma causa, ainda que sob a mesma coroa.

Os monárquicos portugueses dividem-se em três grupos distintos que protagonizam uma separação que quase ninguém conhece. O primeiro é o dos meninos Pierre Cardin, que em nada diferem dos do Bloco: acreditam em algo pelo algo que esse algo lhes proporciona. O segundo enche-se de partidários do liberalismo, tantas vezes de um socialismo envergonhado, onde circulam parceiros do sistema, amigos das Lojas, conhecidos dos parlamentares, grande parte das famílias da "tradição" e alguns Pierre Cardin mais esclarecidos (até onde o esclarecimento os consegue levar...). O terceiro é o dos miguelistas, os tais que dão má fama à coisa, os que atraem todos os estereótipos e mancham (dizem os anteriores) qualquer tentativa de modernização da ideia monárquica. Entre todos estes, encontram-se os que sabem muito bem do que se fala quando se discute a monarquia, mas preferem acreditar numa solução vendida ao que chamam de “inevitabilidades”, em vez de apostarem na resolução dos equívocos que afectam a boa compreensão da questão civilizacional que nos devia mover.

Ser monárquico em Portugal é (ou deveria ser) remontar a causas estruturantes para um anúncio conceptual com essa lógica civilizacional. Antes de qualquer defesa de um projecto concreto, há um longo caminho a percorrer para o esclarecimento das bases que sustentam o edifício orgânico da comunidade política que queremos restaurar. É também por não existir este esforço conceptual, nem o desenvolvimento da capacidade intelectual para o realizar em maior escala, que acabamos por desembocar em sucessivas tentativas falhadas de apresentar publicamente algo que previamente sujámos com todas as influências que levaram à nossa república. A mais grave, e também a mais comum, advém da confusão entre um nacionalismo que defenda a solução monárquica para Portugal e um monarquismo que queira aplicar essa solução além fronteiras; entre o patriotismo que seja revelador de uma consciência política que ultrapasse a defesa do regime por complexo ideológico e um outro patriotismo republicanista da primeira experiência portuguesa nesse regime. O esforço para instaurar um regime, se ele qual for, deve ser causado pela vontade de alcançar o Bem-Comum, mesmo que este seja melhor servido com a república. Mas o que sucede em Portugal, quer pela história quer pela génese própria da nação lusa, é que a monarquia está inscrita no corpo genético da estrutura comunitária de tal forma que o cumprimento daquele Bem requer a Saudade do que fomos perante a desgraça do que somos.

É por isto, talvez por muito mais, que não me encaixo nem no primeiro nem no segundo grupo de que vos falei. Isso implica não ser democrata, liberal, defensor dos Direitos, do Estado laico e admirar a obra do Estado Novo? Sim, implica, pelo menos em Portugal. Pelo menos para não estar inquinado pelo estereótipo e poder escrever destes textos sem preocupações de grande monta. Pelo menos para ser livre.

7 comentários:

Rui Monteiro disse...

Precisamente pela colagem de uma certa direita ao Ideal Monárquico que as pessoas fazem os juízos de valor e metem todos no mesmo saco ... nem ser monárquico implica votar num partido que põe tudo em causa como é o caso do PPM.
Pode-se "amar" o Estado Novo mas talvez não saiba que na sua génese havia pessoas de várias sensibilidades políticas ( da esquerda à direita ) , leia os livros de Franco Nogueira para ficar mais esclarecido.
Assim como o Estado Novo foi um governo de "Salvação Nacional" a Causa Monárquica devia ser uma causa de "Salvação Ideológica", não é de ninguém e muito menos de direita ou esquerda.

Simão dos Reis Agostinho disse...

Devia ser uma causa de "Destruição Ideológica", isso sim. O cancro da política é a ideologia, e enquanto certos sectores monárquicos não se convencerem disso é doença que nos continuará a afectar em muito a eficácia do esclarecimento doutrinário. Custa-me é que, por motivos precisamente ideológicos, se continue a acusar o regime republicano pela segunda república, supostamente fascista e outras coisas que tais, ou o Estado Novo em si por ser uma república...

space_aye disse...

Mais uma calinada:
"Pode-se "amar" o Estado Novo mas talvez não saiba que na sua génese havia pessoas de várias sensibilidades políticas (da esquerda à direita )"
O Estado Novo é apenas a aplicação do absolutismo monárquico ao séc. XXI, acrescentanto um pouco mais de nacionalismo e mentiras para convencer o proletariado.
Tirando isso são iguaizinhos.
E de facto, pelo que já pude confirmar, há alguns individuos de esquerda que são monárquicos, mas são uma minoria muito pouco significativa dentro da já minoria que são os monárquicos.
Provavelmente essa minoria de monárquicos de esquerda é tão de esquerda como eram os que assim se consideravam, no inicio do séc. XX, antes da 1ª guerra mundial.
Porque a esquerda socialista só foi verdadeiramente criada na Europa após a 1ª grande guerra.

Ricardo Gomes da Silva disse...

Embora não me reveja em nenhum dos três grupos definidos e não seja propriamente um apoiante de muitos dos movimentos socialistas do sec XX, vejo com tristeza o comentário do space_aye,pois confirma o texto do caro João Távora

Neste país tudo são modas e muito pouco é trabalho mental interno, quantos de nós não viram já um republicano passar a monarquico ou um comunista radical a beato de convento...aos poucos e poucos o principal pilar de Portugal, que é a tenacidade consciente, foi-se desgastando...talvez seja do sal do mar que tudo corroi ou dos ventos europeus que nos corroeram a identidade
Hoje ser monarquico é exactamente o mesmo que ser português...pertencer a uma minoria que luta contra a corrente à espera que os ventos da História nos salvem deste triste fado ou que a mente dos homens se lembre de que nem só de pão (que nos escraviza e prende á terra) vive o homem, mas também de horizontes e ideais (que nos libertam e fizeram de Portugal aquilo que um dia foi...um projecto e não uma jangada á deriva)

Hoje os miltares reclamam porque ganham metade do que ganha um juizou porque as armas que usam são menos brilhantes do que as dos colegas da NATO
Há 34 anos reclamavam pela democracia

Esta diferença de discurso diz muito sobre o que nos aconteceu desde há 34 anos para cá e esclarece totalmente o mal que nos fez os últimos 100 anos sem Rei nem roque
Portugal deixou de olhar para o ceu à procura de horizontes e passou a olhar para o chão á procura de migalhas


bem haja

João Távora disse...

Caro Simão: concordando só em parte com o seu pensamento, e apesar de eu considerar que este espaço deveria servir essencialmente para desmascarar a propaganda republicana, dou-lhe os parabéns pela sua coragem.

João Távora disse...

Portugal deixou de olhar para o ceu à procura de horizontes e passou a olhar para o chão á procura de migalhas.

Hoje ser monarquico é exactamente o mesmo que ser português... pertencer a uma minoria que luta contra a corrente à espera que os ventos da História nos salvem deste triste fado ou que a mente dos homens se lembre de que nem só de pão (que nos escraviza e prende á terra) vive o homem, mas também de horizontes e ideais (que nos libertam e fizeram de Portugal aquilo que um dia foi... um projecto e não uma jangada á deriva.

Caro Ricardo: sábias palavras!

Nuno Castelo-Branco disse...

O Ricardo disse o essencial e só acrescentaria umas parcas linhas. O Simão sabe muito bem que os principais causadores da divisão no campo monárquico, foi aquela gente do chamado partido legitimista que mesmo depois do 5 de Outubro redobrou a guerrilha contra a legalidade constitucional que ainda seria possível restaurar, pois o país aguardava algo que pusesse cobro aos desmandos dos Costas e restantes terroristas. Quanto ao Estado Novo (e passando sobre os delírios do ultra-americanizado space aye, que pretende ver realidades enexistentes e peca sempre por anacronismo), a colaboração de muitos com o dito, consistiu num tremendo equívoco que conduziu ao quase total desaparecimento do movimento. Esses "monárquicos" esperaram mais de três décadas e foram vergonhosamente enganados, porque serviram o Estado e não especificamente o regime que deles se aproveitou. Como lembro as palavras do prof. Jacinto Ferreira e a sua indisfarçada amargura pela manipulação a que se sujeitaram. Quanto à famosa carga ideológica - aliás bastante anacrónica -, não passava de um descarado pastiche do que se propalava em frança e na Itália. Com tudo aquilo que significou e mais exactamente, às consequências que teve nesses países. em França, a colaboração e na Itália, enfim, o que bem sabemos.
A inconsistência teórica-programática era total e para isso bastará folhear a Aliança Peninsular do sardinha. mais irrealismo que isto, só entre os comunistas!