
O Almirante João do Canto e Castro. Inquestionávelmente, o Presidente da República mais discreto e menos recordado. Não se percebe porquê: é ponto assente ter feito o impossivel para evitar a guerra civil, conseguiu ser respeitado e admirado por todos, levou tão a sério o juramento prestado, aquando da tomada de posse na Chefia de Estado, que relegou para segundo as suas profundas convicções monárquicas e, servindo a Nação, teve de servir a República.
Pois. Só pode ter sido por esse motivo - o Presidente Canto e Castro era monárquico! E tanto consideração granjeou, no decurso do seu mandato, que falar nele há-de ser complicado para essa tal "Ética republicana".
Fica um pouco da sua história:
Foi um militar brilhante, com uma brilhante folha de serviços, sobretudo em África. Ainda pensou despir a farda, com o advento da República, mas ficou, conquanto sempre muito distante da política. Até 1917, até Sidónio Pais. Empenhado na luta contra a demagogia dos "democráticos", sobraçaria a pasta da Marinha. Depois de muito instado, porque a sua resposta ao convite em causa era sempre: «É-me impossivel aceitar, sr. Presidente. Sou monárquico e, como tal, não posso servir a república em funções de natureza política...».
"Empurrado" para ministro, "empurrado" seria também para a Presidência da República, após o assassinato de Sidónio. Eleito não já por sufrágio directo, mas pelo sistema da Constituição de 1911, com 137 votos (nunca outro Presidente atingiria, antes semelhante score - Arriaga, 121; Teófilo, 98; Bernardino, 134).
O mandato de Canto e Castro durou menos de um ano. Recusou terminantemente continuar na política, endossou o cargo a António José de Almeida e retirou-se para sempre, coberto de prestígio e com a patente honorífica de Almirante.
Mas os meses na chefia do Estado foram para Canto e Castro um verdadeiro tormento: para honrar o juramento de fidelidade à República, como seu Presidente, houve mesmo de combater a Monarquia e os seus amigos monárquicos. Nem em entrevistas admitia depois falar sobre esses tempo.
Quando morreu Canto e Castro, a familia Real portuguesa fez-se representar no seu enterro. A República ainda não a deixava pôr o pé em teritório pátrio.
Leitura que se recomenda - Maurício de Oliveira, «O Drama de Canto e Castro», Editora Marítimo-Comercial, 1944.