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segunda-feira, 28 de junho de 2010

Memórias divertidas da 3ª República


A República vista por si mesma é, por vezes, hilariante. Isto a propósito de uma exposição anunciada sobre os maçons de Ponte do Lima. Expliquemos-nos:
Nesses tempos da 1ª República, rara era a terra que não dispunha de um maçon. Invariavelmente, o médico, o advogado, o notário. Alguém que vivia desafogadamente, olhando à Bernardino, com manifesto nojo, para o rural, o campónio, e com transbordante inveja para o prestigio do senhor da paróquia, o dono daquelas «Casas Grandes de Romarigães» todas. De caminho, o Abade sofria também com a virulência dos seus dizeres e das suas intrigas.
Por tudo isso, do maçon ninguém gostava e todos tinham medo.
É o que bem se alcança da História de Portugal contada na versão socialista ortodoxa, série de 1975, de inspiração PREC. Da autoria de António do Carmo Reis. Aquilo a que poderiasmos chamar um pós-republicano. Uma voz incómoda. Eis porquê:
«(...) uma maioritária classe média, não convertida à causa da revolução socialista, esperava silenciosamente alinhar por um partido de centro que, sem ir muito além da necessária substituição do regime político moribundo, viesse garantir as liberdades burguesas a um Portugal de pequenos e modestos proprietários agrícolas, industriais e comerciantes. Em convergencia com este jogo de interesses, aparece uma elite organizada de intelectuais que doutrinam, em termos de maçonaria bem pensante e fermento de agitação carbonária, os rumos convenientes de um Portugal republicano.
(...) As medidas tomadas pelos primeiros governos republicanos encarregam-se de demonstrar que a república foi feita para as classes médias e que o operariado nada tinha a esperar dela, a não ser que se comportasse dentro da legalidade parlamentar, como queria Afonso Costa».
A terminologia deixa saudades dos velhos tempos de estudante e das RGA'S. O rigor nem por isso é de Ciência. Mas as verdades vão fluindo. Na minha terra, que eu saiba havia dois ou três maçons. Um juiz, um deputado e um conselheiro. Em Ponte, outros tantos: o Norton de Matos e o Tito de Morais. A Maçonaria nada tem a ver, de facto, com os movimentos de massas. É-lhes superior em saber e alérgica ao seu odor.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Juan Carlos de Espanha, visto por Maria Filomena Mónica


É sempre agradável a leitura de Maria Filomena Mónica, concorde-se ou não com os seus pontos de vista. A sua atenção e a sua imaginação suscitam permanentemente apreciações curiosas, e a sua independência permite a certeza de que acredita no que escreve. No seu recente «Vidas» (ed. Aletheia), conta-nos que viu o Rei de Espanha, pela primeira vez, em Cascais, em 1956. Achou-o «feio, estúpido e antipático». E seguiu en frente, até porque a sua família «nunca discutira a questão de regime, de forma que nem sequer sabia se, lá em casa, éramos monárquicos ou republicanos».

Não passou em claro o percurso de Juan Carlos pelas academias militares espanholas, nem a tensão existente entre o futuro Rei e o seu Pai, o Conde de Barcelona, mais «liberal».

Depois da morte de Franco, as Cortes proclamara Rei o já então «herdeiro da Coroa». Logo em 1981 foi a invasão da Câmara dos Deputados pelo Ten.-Coronel Tejero de Molina ("Al suelo, al suelo" e a adesão que lhe manifestou o Gen. Milan del Bosh.

«De madrugada, envergando o uniforme de capitão-general dos Exércitos, o Rei apareceu na televisão, apelando a que os insurrectos se rendessem, o que viria a acontecer». E conclui: «A forma como a Espanha passou de uma ditadura, nascida de uma guerra civil, para a democracia é um milagre. Em grande medida isso deve-se à actuação de um rei corajoso».

Há muito que ler, nestas memórias escritas de modo despretensioso, só para entreter. Desde logo, esta referência à passagem da ditadura para a democracia. Como às vezes nos esquecemos, coroada.