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quinta-feira, 1 de julho de 2010

A República vista pelos seus contemporâneos: Almada Negreiros.

Este pequeno texto, publicado no Diário de Lisboa, em 1921, é uma pertinente incursão literária de Almada Negreiros sobre os 11 anos imediatamente anteriores à sua redacção. A sala encarnada é, no fundo, um país chamado Portugal, à deriva entre regimes.


O Que Se Passou Numa Sala Encarnada

Era uma vez uma grande sala que parecia uma sala de visitas, mas que, reparando melhor, era mais do que uma sala de visitas. O chão era de veludo encarnado de gala, o tecto cheio de doirados às voltas e aos caprichos, com anjinhos e fitas de boa seda a óleo, as paredes cobertas de damascos luzidios e grandes retratos de homens e senhoras salientes. Ao fundo havia uma grande janela rasgada sobre a melhor praça da cidade. Os móveis resumiam-se a oito belos fauteuils, um dos quais valia mais do que os outros e estava em cima de um estrado com degraus virado para os outros sete fauteuils.

Das duas, uma: ou esta sala servia para alguma coisa, ou já não servia para nada. Em todo o caso via-se perfeitamente que a idade daquela casa vinha de há muito atrás.

Ora naquele dia eu não tinha nada combinado, de modo que podia ficar ali à espreita.

Na rua, os que passavam tinham exactamente para onde ir, estava tudo ocupado, tanto melhor para mim, para espreitar mais à vontade. Vi os retratos um por um, e os fauteuils e os tecidos pelas cortinas e paredes. A certa altura pareceu-me ouvir qualquer coisa; depois ouvi passos com certeza e fui pôr-me por detrás dos veludos que guardavam o fauteuil que estava em cima do estrado. O que então eu vi não é vulgar, e por isso mesmo terei prazer de vo-lo contar, mas previno que o quarto de hora que estive no meu esconderijo pode parecer desmentir a quantidade de séculos que os meus olhos estiveram a ver passar. Tanto se me dá que me acreditem ou não, eu também já fui daqueles que julgam que não há nada de novo neste mundo, e que tudo quanto existe é só o que se vê com os olhos da cara.

Passo a contar:

O ruído começou na praça que se via através a janela. Muito povo, carros puxados a muitas parelhas, muita tropa, muita música e um carro especial com mais parelhas do que os outros e em oiro. Depois abriu-se uma porta da sala por onde entraram muitas mulheres especiais e homens vestidos de todas as cores, até de encarnado e meias brancas, como no teatro. A sala encheu-se depressa. Depois abriram alas para deixarem passar uma pessoa que parecia ainda nova e masculina, com uma coroa pesada à cabeça e uma faixa muito bem passada a ferro.

Todos se ajoelharam quando ele passava. Abriram a janela. Lá em baixo estava o povo guarnecido com tropa e cavalos. Ele tirou a pesada coroa da cabeça e mostrou-a ao povo. Foi um delírio. E indescritível a alegria de todos naquele momento, alguns choravam. Depois fecharam a janela e ficaram sós na sala o rapaz que levava a coroa e mais sete homens escolhidos e de muito mais idade que ele. Este sentou-se no fauteuil que estava em cima do estrado e os sete sentaram-se em cada um dos sete fauteuils. Falavam baixinho e medido. Um deles pôs-se de pé e confessou que não estava nada bem-disposto hoje. Foi aprovado por aclamação.

De repente, sem ninguém esperar, ouviu-se grande ruído de cavalos e muita gente na praça, depois tiros e detonações várias, e quase ao mesmo tempo foi arrombada a porta da sala por onde entrou toda a gente que quis lançar da janela à praça os sete homens de idade e o rapaz da coroa pesada. No meio da praça já estavam oito forcas à espera deles. Depois a sala ficou vazia e com a janela escancarada, por onde se viam oito enforcados. Ao lado das forcas o movimento era parecido com o que já tinha havido antes de terem entrado na sala pela primeira vez: muito povo, carros puxados a muitas parelhas, muita tropa, muita música e um carro especial com mais parelhas do que os outros e em oiro. A seguir, a porta abriu-se de novo de par em par. Entrou muita gente que, se não era a mesma de ainda há pouco, estava, porém, vestida com os mesmos fatos. A sala encheu-se depressa. Depois abriram alas para deixarem passar um velhinho sentado numa cadeira de rodas, com uma faixa muito bem passada a ferro. Não tinha coroa pesada na cabeça.

Abriram a janela. Lá em baixo estava o povo guarnecido com tropa e cavalos. O velhinho levantou com custo uma mão e foi o delírio entre o povo. E indescritível a alegria de todos naquele momento; alguns choravam. Depois fecharam a janela e ficaram sós na sala o velhinho e mais sete homens escolhidos. Sentaram-se nos respectivos fauteuil. Um deles confessou que não estava nada bem-disposto hoje. Foi aprovado por aclamação.

De repente, sem ninguém esperar, ouviu-se grande ruído de cavalos e muita gente na praça, depois tiros e detonações várias, e quase ao mesmo tempo foi arrombada a porta da sala por onde entrou toda a gente que quis lançar da janela à praça o velhinho e os sete homens escolhidos. No meio da praça ainda estavam oito forcas de ainda há pouco, e em cada uma delas foram enforcados com os outros, o que já fazia dois em cada forca.

Mas na praça, apesar do aspecto lúgubre dos enforcados, reinava franca alegria. Soldados e povo abraçavam-se comovidos e cantavam hinos em coro. Em seguida entraram todos à uma, povo e soldados, pela sala dentro, sem distinções; uns chegavam primeiro do que outros e sentavam-se aos magotes em cada fauteuil ao calhar, à vez. A dado momento, quando era cientificamente impossível a sala e os fauteuils meterem mais gente, houve alguém que num grande gesto impôs o silêncio a todos. Todos se calaram. Era para dizer que não estava nada bem-disposto hoje. Foi aprovado por aclamação.

Estes factos davam-se exclusivamente na capital, e a província apenas tinha conhecimento deles pelos jornais.

José de Almada Negreiros, 1921

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Poesia de intervenção.



A intervenção contra a I República surgiu de vários quadrantes da sociedade, nomeadamente dos artistas. O Movimento Modernista, de que destacamos Fernando Pessoa e Almada Negreiros, foi bastante crítico em relação ao novo regime. Um dos mais famosos e severos manifestos contra a República surgiu pela mão de Almada Negreiros. Intitulava-se "A Cena do Ódio" e, como o autor refere, foi escrita durante o clima de rebelião que se instalou nas vésperas do 15 de Maio de 1915 (Ditadura de Pimenta de Castro). Nesse longo poema, A.N. expõe o carácter burguês da revolução e dos seus agentes, criticando o laxismo da sociedade de Lisboa, o oportunismo político e a falta de oportunidade das revoluções («aprende a ler corações, que há muito mais que fazer do que fazer revoluções»):

[...]
Eu creio na transmigração das almas
por isto de Eu viver aqui em Portugal.
Mas eu não me lembro o mal que fiz
durante o Meu avatar de burguês.
Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
[...]

O poema integral pode ser lido aqui, e ouvido aqui, pela boca de Mário Viegas