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quarta-feira, 21 de julho de 2010

Bernardino e o Paço Real




Numa entrevista concedida ao jornalista Luis Derouet, Bernardino deixou estas expressivas palavras:

«Lutas? Sim. Não, porém, com o Chefe do Estado, devo dizê-lo. Esse nunca me fez o menor reparo a tais actos; antes, pelo contrário, no caso dos comboios, me exprimiu o seu inteiro acordo. (...). À Sra. D. Maria Pia devi sempre, inalteravelmente,as mesmas deferências. E a Sra. D. Amélia tão pouco me parecia queixar-se do meu rigorismo ministerial (...). Mas não há dúvida que precisei de lutar tenazmente contra o trup de zéle dos defensores da doutrina do engrandecimento do poder real, que então tentava concentrar as suas forças para erguer sobre o Pais a sua ditadura».


Indepedentemente do papel salvífico que Bernardino sempre se atribuiu a si próprio - o pedagogo, o diplomata, o estadista - aqui fica bem clara a sua monumental contradição. Ou seja, a confusão - imperdoavel, em tão erudita personagem - entre a Familia Real (a Monarquia) e a classe politica instalada no aparelho de Estado ou intentando lá chegar.

Bernardino, político por excelência, teve neste trecho a maior descaidela. Confundiu-se a si mesmo. Maldice-se. Atacando a classe politica a que também pertencia, fez-se alvo das suas próprias críticas. Deixando incólume o rei e a Monarquia.

terça-feira, 20 de julho de 2010

"Só a república é a verdade", dizia Bernardino.


Tal é o nome de uma obra de Bernardino, onde se diz: «A virtude, sobretudo, se democratizou. Hoje, a moral (...) já não proclama a obediência passiva aos poderosos, mas a obediência activa, militante, à razão, ao seu imperativo categório, ao dever, e o dever manda sacrificar-nos pelos pobres, pelos mais fracos e humildes. A sagrada trilogia moderna é esta: pelo povo, pela mulher e pela criança. De todas as misérias nos cumpre defendê-los, mas sobretudo da miséria moral, que é a origem revoltante das outras».
Razão têm o PCP e o Bloco, nas suas campanhas eleitorais. E Mário Soares, quando descobriu o célebre «direito à indignação». Afinal, 100 anos depois, a República nada melhorou. Perdão: deitou abaixo o Casal Ventoso (e sobrelotou o Intendente...).

sábado, 10 de julho de 2010

O Sr. Andrade - barbeiro e socialista republicano


Era neste hotel, comido e carcomido, pelo tempo distorcido, que o Sr. Andrade tinha a sua barbearia. Num anexo, há uma duzia de anos encerrado, precisamente desde que o Sr. Andrade morreu.
Tudo se passava na Vila do Conde de antigamente. O hotel nasceu na Década de 30 do século transacto e o Sr. Andrade, então já homem e profissional de barbas e cabelos, ali se estabeleceu. Sobreviveu ao hotel, no seu pequeno nicho, com todo aquele equipamento cosmético em metal e a cadeira de palhinha, como já não há. Trabalhou até que a morte, muito repentinamente, o levou.
Os veraneantes dessa Vila do Conde vinham todos, senão do Porto ou do interior minhoto, de Lisboa ou mesmo do Ribatejo. Havia-os salazaristas rijos, havia-os muito mais liberais ou mesmo francamente oposicionistas à - então assim chamada - "Situação". Por mais que puxe pela cabeça, não me lembra os houvesse republicanos.
Todavia, o Sr. Andrade era nem mais do que - empedernidamente - socialista e adepto da República.
Nesse tempo, o dia começava, para os cavalheiros em férias, com uma ida à barbearia, a meio da manhã, operação tida por indispensável antes de qualquer investida até ao paredão da praia. A política era um tema corriqueiro, entre os jornais e a navalha ou o pincel carregado de espuma nas mãos do Sr. Andrade.
- Então, Sr. Andrade, que nos conta?
- Isto vai mal, Sr. Dr., isto vai muito mal...
- Pois vai, mas tudo se há-de...
- Olhe que não, Sr. Dr., isso pensa V. Ex.cia...
Os veraneantes tinham no Sr. Andrade um amigo verdadeiro, um confidente. E o Sr. Andrade, o homem mais educado do mundo, sabendo que tantos dos seus clientes o podiam "entalar" com uma simples denúncia, em todos confiava. Nos civis e nos militares. Falava-se abertamente de tudo na sua barbearia. Antes e depois do 25 de Abril, em que qualquer coisa podia passar pela cabeça do Sr. Andrade, tantos eram os fascistas que se tinham sentado na sua cadeira de palhinha. Mas não. Nunca. O Sr. Andrade era também um senhor.
Conheceu o meu Avô, que morreu em 1938. Ria-se com as aventuras do meu Pai e admirava-lhe a acutilância das suas observações contra o salazarismo. A mim, em 1993, já muito trémulo das mãos, ainda me aparou a barba. Lembro bem aquela navalha, pouco segura, a passear no meu pescoço. Mas não havia que temer. O Sr. Andrade republicano, sabendo-me monárquico, como já o meu Avô e o meu Pai, jamais seria capaz de me jugular.
E depediamo-nos de fortíssimo shake-hands, um abraço no final da época estival. Esse abraço que daqui lhe mando, para onde ele está de certeza, entre os justos.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

JOSÉ LUIS NUNES - fundador do PS


A partir de 1995, e durante alguns anos, coordenei o boletim «Monarquia do Norte», da Real Associação do Porto. Entre os mais temas, havia sempre lugar para a entrevista. Em Junho de 1996 coube a vez ao Dr. José Luis Nunes, advogado e fundador do Partido Socialista. Um Senhor que cativava pela sua extrema educação, e que infelizmente já não se encontra entre nós.
A primeira questão a que respondeu foi esta, aquando do nascimento do primogénito da Casa Real Portuguesa:
«Em sua opinião, que significado tem para Portugal o nascimento do Príncipe Dom Afonso
Disse o sempre lembrado Advogado:
«Em primeiro lugar, importa salientar o facto em si, e a felicidade que o evento trouxe à família Real, o que não deve ser secundarizado.
No plano institucional, é a continuação da Dinastia que fica garantida, pondo assim termo a quaisquer querelas».
Palavras simples de um português fiel ás suas convicções ideológicas que não confundia com opções de regime. E não temia revelar o seu pensamento.

domingo, 9 de maio de 2010

Afonso Costa uma biografia fiável


É uma edição do Autor. Bom sinal!... O Autor, Eurico Carlos Esteves Large Cardoso, remata as suas "Palavras prévias" assim brilhantemente: «Nós, monárquicos por convicção, temos, porém, sempre em vista, tratar os assuntos dos nossos "adversários" políticos com a maior objectividade, veracidade e isenção, atributos de que já demos provas em anteriores trabalhos, pela simples razão do sectarismo não ser a nossa bandeira, nem a maledicência a nossa divisa»
De modo que fomos procurando dados biográficos desse que se doutorou em 1895, em Direito, com 17 valores e uma tese em que atacava violentamente a Rerum Novarum, pobre coitada! Foi o advogado mais tributado pelo Fisco, gostava de viver bem e tinha automóvel (um dos 300 então existentes em Portugal). Não obstante, preconizava o «socialismo económico na República».
Conseguiu ser eleito deputado pelo Porto. em 1899, aproveitando o descontentamento gerado nas populações pelas medidas recomendadas pelo insígne Ricardo Jorge (que abandonou a cidade sob ameaças de morte) aquando de um surto de peste bubónica.
Sobre ele escreveu Sampaio Bruno: «pseudo-republicano, desleal republicano, que tudo faz para ser deputado, jogando com um ramo de republicanos e socialistas e outro de monárquicos, audacioso piritoso, um Dr. Alonso». Em resposta, Costa esmurrou-o em público. Esmurrou um ancião, ele que andaria pelos 30 anos.
Há muito que ler. Remato com este episódio, ocorrido em 4 de Outubro de 1910, quando Afonso Costa, que prudentemente não comparecera à Rotunda, julgou ser vitima de um atentado contra a sua pesoa. Ouviu tiros, convenceu-se que fora atingido. O médico republicano Malva do Vale, que o detestava, mandou-o despir e observou-o, após o que «declarou sarcásticamente que ele tinha no corpo um buraco de nascença e natural».