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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Fialho de Almeida - de «Os Gatos» até 1911...


Em vésperas da subida ao trono d'El-Rei D. Carlos, Fialho escreveu um longo texto satírico - pretensamente uma carta dirigida a Sua Magestade - à qual foi dada a devida publicidade, ou não fosse a Monarquia um regime de liberdade de expressão. Nela ironizava Fialho, em certo passo:
«Porque enfim V. M. não tem agora tão grandes coisas no seu reinado que possa prescindir assim de um regicídio. (...) é pois V. M. o único que intenta penetrar os umbrais da História sem bagagem (...) Como há-de o reinado de V. M. fazer fumo, se ninguém contra ele ainda fez fogo?»
Sobreveio a República.
Em 1911, Fialho de Almeida dá ao prelo o seu livro Saibam Quantos... do qual consta o capítulo «A Morte do Rei»:
«Em plena rua, numa chacina que visava exterminar toda a família, D. Carlos pagou com a vida os crimes do seu povo, crimes já seculares de bestificação, de ignorância, de antipatia pelo progresso, de desamor pelo trabalho, de corruptela, de ambição pessoal, de irrespeito às leis e de indiferença ou burla pelas ideias substanciais de pátria e de nação.
A sua morte pela barbárie sanguinária e cafrealmente besta em que se envolve, e pelas apoteoses abjectas que a seguiram, lança um labéu na terra portuguesa, porque nenhuma obra neste século já se cimenta com sangue, e os que assassinam não podem ser beneméritos da história, por mais que a demagogia o escreva em folhas e ouse insinuar em discurseiras.
Foi a tragédia da Sérvia com as orgias populacho de Paris quando o Terror; e sem o advento de uma vida nova, administrativa e social, que ainda lhe atenuaria a virulência... Mas não! O rei assassinado a 1, e ainda não recluído à sepultura, se ressuscitasse, poderia ver a 2, no governo os mesmos homens, a mesma graxa nas almas, mesma passividade nas ruas, mesmo palavreado nos comícios, e nos jornais os mesmos artigos sem fundo e as mesmas relas palavradas.
Pobre, pobre D. Carlos! Quando se pensa que afinal era mais inteligente, e teve talvez virtudes superiores às dos seus adversários - e por não dizer - às dos seus cúmplices...».
Fialho teve de ver, para comparar e crer. Como S. Tomé. E percebeu, finalmente que era o Rei quem melhor faria o contrapeso entre a Nação e a classe política. Essa que ainda hoje nos atazana e da qual o Presidente da República faz parte.