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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Bernardino na 2ª República


Estou muitas vezes em contacto com o Museu Bernardino Machado, em V. N. de Famalicão. Acompanhando as suas actividades e as suas edições, participando nas suas iniciativas. Sempre com o cuidado enorme de, alto e bom som, avisar os que ainda possa não conhecer - «eu não sou nada ao Bernardino, é simples coincidência de nomes». E o meu excelente Amigo Amadeu Gonçalves, um colaborador do Museu, de imediato a corroborar o meu dito, «é verdade, simples coincidência, apenas».
Em Famalicão há monárquicos e há republicanos, mas todos nos entendemos.
Recentemente, fui ao Museu Bernardino, em busca de uma documentação que importa a um estudo que ando fazendo, e topei com duas novas publicações: umas "Memórias" da autoria de um neto seu e um catálogo da exposição permanente do Museu. Algo que me interessou.
Ambas me foram oferecidas.
De modo que hoje não sinto inspiração para bernardinar a pessoa do Bernardino. Quase me parece menos condenável, o seu percurso político. Há, nessa exposição, uma fotografia do homem, já em final de vida, que impressiona. Muito velho, desfigurado - mas de pé, conversando com Gago Coutinho, parecendo ainda capaz de maquinar a derradeira politiquice.
Enfim, fico-me apenas pelo seu exílio, após o alicerçar da 2ª República. Bernardino partiu para França, mas em breve se acomodou na Galiza. Era um exílio sui generis - passava as férias de verão em Moledo. E mantinha opiniões políticas, por exemplo, a propósito da obra de Salazar:
«... a imprensa e a tribuna encontravam-se garrotadas, a eleição para a presidência da república fora um ludíbrio; os partidos populares achavam-se imobilizados; os poderes do estado, autarquias locais, tudo falsificado, as colónias subalternizadas. Sobressaindo por aviltamento das instituições, figuravam a Assembleia Nacional e a Câmara Corporativa. Estas últimas, desprestigiadas mandatárias da ditadura, e não da Nação, cumplices da usurpação da autoridade pública, não mereciam, sequer, a confiança dos seus chefes...».
É claro que, lendo isto, fico sempre na dúvida sobre quem foi o mestre e o discípulo: Afonso Costa ou Oliveira Salazar... Ambos bufavam e perseguiam as pessoas, ambos nadavam nas mesmas águas republicanas.