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terça-feira, 2 de agosto de 2011

Nós os monárquicos temos um azar... somos uns tipos mais passivos, mais simpáticos, mais bonacheirões, portanto não gostamos de revoluções...

Ser monárquico é uma maneira diferente de ver o país, e sobretudo de estar no país. Mudando o regime pode-se mudar qualquer coisa, sobretudo a mentalidade das pessoas. (...) Não há nenhum país monárquico que tenha pedido ajuda ao FMI, todos os países que recorreram à ajuda financeira são repúblicas.

Rodrigo Moita de Deus, numa luminosa entrevista ao Jornal i em parceria com o Canal Q na integra aqui.

domingo, 10 de outubro de 2010

A monarquia e o futuro do país

No rescaldo das comemorações de 5 de Outubro, João Távora concedeu uma breve entrevista a Henrique Raposo. Algumas breves considerações sobre esta e sobre o crescendo do movimento monárquico no país impõem-se.

Em primeiro lugar, a constatação de que não se podem repetir os erros dos republicanos de 1910. Várias vezes, em diversos debates, tenho alertado para esta mesma situação que o João Távora muito bem assinala: "Concordo que há esse perigo: não nego a evidência de que os grandes males de que Portugal padece são profundos, e estão a montante da forma do regime. Os portugueses continuam viciados no assistencialismo e pouco atreitos a responsabilidades, parecem conformados com um medíocre destino cuja perspetiva não passa do amanhã. Cabe aos monárquicos, dentro das instituições existentes do sistema, estar a favor da mudança e do futuro do país, usando a liberdade que esta república, apesar de tudo, proporciona."

Não é porque se mude o regime, não é apenas porque passemos a ter um Rei como Chefe de Estado, que a situação do país vai melhorar automaticamente. É preciso ter cuidado com esta crença apocalíptica (no sentido de revelação) no progresso automático do país com a mudança de regime. A gestão de expectativas assume-se como uma vertente que os monárquicos necessitam de cuidar, para que não aconteça um fenómeno semelhante ao que aconteceu aos republicanos de 1910, ou seja, para que a teoria e os ideais não sejam, depois, completamente contrariados pela realidade e pela prática. Prometer uma melhoria automática das condições de vida e do desenvolvimento do país, fundada numa crença quanto à mudança de regime é uma utopia. Não acontecerá, e não é justo colocar sobre o futuro Rei esse peso, mas no fim deste texto deixarei mais alguns considerandos sobre isto.

Em segundo lugar, mais uma vez, João Távora assinala o longo trabalho que há a fazer, em termos de comunicação, particularmente pertinente no que concerne a misturar a religião Católica com o regime monárquico, um perigo que urge minorar: "Mas ainda há outro perigo: os monárquicos para quem a Causa não faz sentido sem uma colagem a uma ideologia política, normalmente ultraconservadora e que mistura outras vertentes como a religião e valores existenciais. Isso reduziria o sonho a um nicho de patuscos. São planos que urge separar!"

Já muitas vezes o tenho escrito ou dito mas nunca é demais salientar este ponto. Não é possível nem desejável misturar a religião e a Igreja Católica com a Chefia de Estado monárquica. Ainda que para alguns seja o que faça mais sentido, de um ponto de vista realista, independentemente das crenças de cada um - para mim, as crenças religiosas dizem respeito a cada indivíduo e a mais ninguém, sendo cada um livre de professar o credo que bem entende, mas não de o impôr aos outros por meio do monopólio da força legítima, ou seja, do controlo do aparelho estatal -, não é possível forçar esta combinação. Deitaria tudo por terra ao despertar um forte espírito anti-clerical em muitos sectores da sociedade portuguesa, daí surgindo fraquezas que os anti-monárquicos não hesitariam em explorar propagandísticamente, reeditando aquilo que fizeram no início do séc. XX. Ademais, vendo a questão por outro prisma, duvido que a própria Igreja Católica o deseje. Importa unir os portugueses e se já é difícil fazê-lo em matéria de crenças políticas, muito mais o é no campo das crenças religiosas. Há que haver um sentido prático e eficaz do que deve ser o futuro do país.

Por último, é quanto ao futuro do país que importa tecer algumas considerações. Como referi inicialmente, não é sobre os ombros do futuro Rei que deve repousar este peso, pelo menos na sua totalidade. É a toda a sociedade portuguesa. Tal como SAR D. Duarte no passado, o herdeiro ao trono já está a ser preparado para o assumir, e somos todos nós, portugueses, que temos de pensar no que queremos para o futuro do país. Isto passa, desde logo, por retirar peso ao propalado intuito de remover da Constituição da República Portuguesa (CRP) o limite material à sua revisão constituído pela alínea b) do Art.º 288.º, i.e., a forma de governo republicana. É que, o haver um Presidente da República, não implica necessariamente que haja uma forma republicana de governo, pois que república vem de res publica, que significa coisa ou causa pública. Esta foi teorizada desde os gregos e romanos, como ética a presidir aos actos da governação em qualquer regime. E essa ética, que tem no seu centro a representação dos desígnios do povo e a preocupação com a eficaz e transparente gestão da coisa pública, urge restaurar. Portanto, esta torna-se uma falsa questão, se tivermos em apreço o que recentemente referiu o Professor José Adelino Maltez no seu Facebook: "Ao contrário do que proclamam os monárquicos institucionalizados, sou capaz de demonstrar, pela hermenêutica simples de um aluno de direito constitucional, que a tal alínea b) do 288º não impede a chefia de Estado de caber a rei, que, de acordo com as leis fundamentais, desde 1385, está obrigado a "forma republicana de governo", dado que, no não-absolutismo, o rei reina, o povo é que governa."

Ademais, com a mudança de regime, teria que ser elaborada uma nova constituição. Para muitos, como é o meu caso, a actual CRP tem um cariz demasiado programático e falhas quanto ao desenho do aparelho estatal. Na tradição do constitucionalismo liberal, relembrando, como Sir Karl Popper, que em democracia o que importa não é saber quem manda, mas sim como limitar o poder de quem manda, torna-se urgente centrar o debate na discussão do papel do Estado, do desenho constitucional e das implicações deste, com um sentido prático e realista quanto ao futuro do país.

domingo, 21 de março de 2010

Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

«Havia na Arábia um pequeno povo chamado Troglodita, que descendia daqueles antigos trogloditas que, se acreditarmos em historiadores, se pareciam mais com animais que com homens. Estes não eram assim não eram assim tão disformes: não eram peludos como ursos; não silvavam; tinham dois olhos; porém, eram maus e tão ferozes, que não existia entre eles um princípio algum de equidade e de justiça.

Tinham um rei de origem estrangeira, que, querendo corrigir a maldade da sua natureza, os tratava severamente. Porém, eles conjuraram contra ele, mataram-no e exterminaram toda a família real.

Tendo sido dado o golpe, reuniram-se para escolher um governo, e, depois de muitas dissensões, criaram magistrados. Porém, mal eles foram eleitos, logo se lhes tornaram insuportáveis e mais uma vez os massacraram.

Este povo, liberto deste novo jugo, já só consultou o seu natural selvagem; todos os particulares concordaram que não obedeceriam a mais ninguém; que cada um olharia apenas pelos seus interesses, sem consultar os outros.

Esta resolução unânime seduzia extremamente todos os particulares. Diziam "Para que vou eu matar-me a trabalhar para gente que não me interessa Só pensarei em mim; viverei feliz.

O que me importa que os outros o sejam? Satisfarei todas as minhas necessidades e, uma vez que as satisfaça, não me preocupa que todos os trogloditas sejam miseráveis."

Estava-se no mês em que se semeiam as terras. Todos disseram: "Só lavrarei o meu campo para que ele me forneça o trigo de que preciso para me alimentar; uma maior quantidade seria inútil para mim; não vou ter trabalho sem motivo."

As terras deste pequeno reino não eram da mesma natureza: havia terras áridas e montanhosas e outras que, num terreno baixo, eram banhadas por vários regatos. Nesse ano, a seca foi muito grande, de maneira que as terras que estavam nos locais elevados não produziam absolutamente nada, enquanto que as que puderam ser regadas foram muito férteis. Assim, os povos das montanhas pereceram quase todos de fome pela dureza dos outros, que recusaram partilhar com eles a colheita.

O ano seguinte foi muito pluvioso; os lugares elevados foram de uma fertilidade extraordinária, e as terras baixas ficaram submersas. Metade do povo passou um segunda vez fome; porém, estes miseráveis encontraram pessoas tão duras quanto eles próprios o tinham sido.»

Montesquieu, Cartas Persas

quarta-feira, 17 de março de 2010

Bernardino Machado - Retrato de um Rei feito por um Presidente

«Raras vezes tão preciosos dons pessoais esmaltaram a coroa, como hoje em Portugal. O rei dá o exemplo de estudo, de gosto pelos prazeres intelectuais, naturalista e pintor apreciável, e até o exemplo do enrijamento físico que nos não é menos necessário. Quase todos têm de aprender com ele a amar por igual os exercícios do espírito e do corpo, e a assim preparar-se cabalmente, por de uns e de outros, a bem servir a Nação. Modesto no trato íntimo, a sua palavra tem vibração, sonoridade e calor no meio das assembleias solenes. Não fraquejando nunca nas situações difíceis, a sua coragem é simpática».


(Bernardino Machado, «Notas de um pai», in Instituto, Coimbra, 1901, nº 4)

domingo, 14 de março de 2010

Porto, 19 de Janeiro de 1919

«A cidade aceitou o facto consumado, não houve perturbações da ordem, não se registou qualquer protesto violento ou sem violência, os espectáculos realizaram-se, o povo divertiu-se, as tropas marcharam em várias evoluções pelas ruas, bandeira azul e branca desfraldada ao vento, e as bandas marciais entoaram o hino da Carta. Numa palavra: manteve-se a normalidade. E se os republicanos aceitaram o facto consumado, entendendo que naquele momento nada podiam fazer, como o não haviam de aceitar monárquicos confessos?»

(palavras do advogado republicano portuense Dr. Álvaro de Vasconcelos, durante o julgamento dos membros da Junta Governativa do Reino, em Abril de 1920).

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

«Os reis nunca morrem»

«Se algum dia mandarem embora os reis vão ter de voltar a chamá-los»

Alexandre Herculano

Já foi dito que nenhuma menina sonha ser filha do presidente de uma república, e que todas as crianças brincam e imaginam príncipes e princesas. Por muito que se destronem ou assassinem reis, é difícil matar o arquétipo. Quando há pouco tempo o Palácio de Belém, em Lisboa, foi aberto ao público, uma cidadã entrevistada para a RTP exclamou o mais sinceramente possível que se ali vivesse, se sentiria uma rainha. Quem se lembraria de dizer primeira-dama?
O arquétipo rei/rainha não morre às mãos dos regicidas, nem da necessidade dos republicanos de criarem «monarquias transitórias», onde eles próprios possam ser, durante algum tempo, reis e rainhas a fingir.
A humanidade pauta-se por períodos de depauperamento simbólico, para utilizar uma expressão de Jung. Talvez o regime republicano seja um desses «momentos»; regime, aliás, que tudo faz para eliminar os símbolos régios que sabe serem muito mais poderosos que a legislação. Em Portugal, a mudança de bandeira, do centenário e velho azul para a arrepiante combinação verde/rubra foi o seu mais profundo golpe na memória dos portugueses.
Mas dificilmente conseguirá arredar do inconsciente colectivo as imagens do rei/pai e da rainha/mãe.
Basta percorrer o nosso adagiário:

Casa de Rei nunca anda a pedir;
El-Rei tem costas;
Mulher que assobia e galinha que de galo canta, manda el-Rei que lhe corte a garganta;
Na terra dos cegos, quem tem um olho é rei;
O rei manda marchar, não manda chover;
Onde não há, rei perde;
Palavra de Rei não volta atrás;
Rei morto, rei posto;
Sem rei nem roque;
Amor e reino não querem parceiro;
Minha casa, minha casinha, eu para rei e tua para rainha;
Bom rei, se quereis que vos sirva, dai-me de comer;
Rogos de rei, mandados são;
Conselho de amigo, vale um reino;
Antes bom rei, que boa lei;
Um rei é uma coisa que obedece;
Os reis nunca morrem;
A teu rei nunca ofendas, nem lances em suas rendas;
Fraco rei faz fraca gente;
Qual o rei, qual a grei;
Ter rei é ter renda;
Um rei injusto é a calamidade de um povo;
Onde está o rei, está a corte;
Do rei, ou muito perto ou muito longe;
Nunca falta rei que nos governe, nem Papa que nos excomungue;
Rei por natureza, Papa por ventura, rei das abelhas não tem aguilhão;
Vão as leis onde querem os reis;
Não peques na lei, não temerás rei;
Palavra de rei é escritura;
Soldado doente não serve el-rei;
O rei deve ser teriaga contra a mentira;
Os reis, quanto mais perdoam, mais reis são;
Rei se nomeie, quem não teme;
Ninguém é rei na sua terra;
O rei faz fidalgos mas não dá fidalguia;
Trunfo e rei, é compra de lei;
Os maus são os camaleões do rei;
Vontade de rei não conhece lei;
Rei desarmado não tem seguro o seu Estado;
Em almas, não há rei que mande;
A cabo de cem anos, os reis são vilões; e a cabo de cento e dez, os vilões são reis;
A História é o livro dos reis;

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"tudo pode e deve ser debatido" - Manuel Alegre sobre a monarquia

É verdade, a frase é mesmo de Manuel Alegre sobre a hipótese de restauração da monarquia em Portugal, e foi dita ao O Diabo, que saiu ontem (dia 18 de Agosto). Existe um mito enorme, criado pelos republicanos, de que a monarquia é de direita e a república é de esquerda - mais do que um mito estamos perante um dogma. Basta termos bom senso e lermos um pouco da História do nosso país, para percebermos que isto é mentira. A monarquia só pode existir, como o Sr. D. Duarte está farto de referir, em democracia - e a democracia não é da esquerda nem da direita, é de todos e para todos, como o Rei.
Pouca gente sabe e poucos foram os historiadores que se deram ao trabalho de investigar o assunto, mas o primeiro partido socialista a existir em Portugal (o Partido Socialista Português) tinha imensos monárquicos (a maioria dos militantes) e existem relatos da época que compravam que o mesmo foi apoiado pelo Rei D. Manuel II. Os socialistas tinham na época por certo de que o regime era uma questão secundária e que as condições de vida dos operários iriam piorar se a república fosse implantada. Não é que tiveram razão?
Mas podemos ir mais longe. Quantas pessoas é que se deram ao trabalho de investigar e estudar os imensos monárquicos que foram oposicionistas do Estado Novo? Querem exemplos? Que tal o Henrique Barrilaro Ruas, que no I Congresso da Oposição Democrática foi o primeiro orador a exigir "a entrega imediata das colónias aos seus povos"? Ou então o advogado João Camossa, que num processo em que defendia oposicionistas ao regime salazarista foi o primeiro e único caso em que um advogado passou da sua condição a arguído. Confrontado com o problema foi até à casa de banho e apresentou-se perante o juíz fascista a dizer que por baixo da toga estava completamente nu e que se fosse constituído arguído a teria que despir - o juíz fascista não teve coragem de o constituir arguído.
Então e o Francisco Sousa Tavares e a Sophia de Mello Breyner? E o pai de Sottomayor Cardia? E o pai de Jaime Gama? E o Gonçalo Ribeiro Teles? E o Sá Carneiro? E o Henrique de Paiva Couceiro? E a Amália Rodrigues? E os outros, tantos outros que eram de esquerda uns, de direita os outros, mas que tiveram como marca comum a luta, de peito aberto ou na clandestinidade, pela democracia em Portugal? Só os republicanos são herdeiros da resistência ao Estado Novo? Só? Chega de demagogia. A Liberdade quando nasceu foi fruto de todos e nasceu para todos.
Se perguntarmos a qualquer socialista ou pessoa de esquerda quais são os líderes políticos em que mais se revêm, as repostas vão ser óbvias e vão aparecer de certeza estes quatro nomes: Olof Palme, Felipe Gonzales, Tony Blair e José Luís Zapatero. O que têm em comum? Todos governaram em monarquia e nunca a contestaram.
Então e não será óbvio que qualquer militante do Bloco de Esquerda se revê no modelo social liberal do Reino da Holanda? E o afamado modelo económico escândinavo defendido à boca cheia pelo PS? Os países escandinavos também são monarquias.
É por estes motivos que Manuel Alegre tem razão, "tudo pode e deve ser debatido". Por isso está na hora da esquerda abandonar os dogmas. Por isso está na hora de passarem a palavra ao povo, que eu acredito ainda é quem mais ordena.

terça-feira, 16 de junho de 2009

As repúblicas não são eternas

Para aqueles que de forma sobranceira me perguntam quais as motivações para esta minha teimosa militância pela monarquia, que aspirações me movem para tão exótica causa, tão incómoda e excluída da “agenda politica”, eu respondo que o faço por uma questão de responsabilidade: a responsabilidade que me cabe para com a continuidade desta “utopia” no seu sentido mais nobre: o sonho dum Portugal com futuro.
Conheço alguns ilustres “compagnons de route” que optaram por “congelar” o seu ideal monárquico, imbuídos dum pseudo-realismo e embrenhados na espuma dos seus projectos pessoais, políticos ou profissionais. Tenho pena: eu sei como é difícil apregoar esta ingrata causa que não favorece carreiras ou comendas. Reconheço que a mensagem embate numa implacável “agenda mediática” que emerge do espectáculo popularucho e da mesquinha contenda política, das conveniências corporativas e interesses imediatos.
Não nego a evidência de que hoje os grandes males que Portugal padece são profundos e estão a montante da questão do regime. Como em 1910 as instituições estão descredibilizadas e não funcionam. Os portugueses, habituados ao assistencialismo e pouco atreitos a responsabilidades, parecem conformados com um medíocre destino, cuja perspectiva não passa do amanhã. E temos a merdização do debate político, com a gestão da rés pública ao nível do chão. Deste modo e dentro das minhas limitações, não prescindo de intervir de dentro do sistema em favor da minha comunidade e pelo futuro do meu país, com a liberdade que esta república me proporciona. Mas não me passa pela cabeça hipotecar as minhas mais profundas convicções.
Acredito profundamente na monarquia, na instituição real como a solução mais civilizada para a chefia dum Estado europeu e quase milenar como é o nosso. Num tempo de relativização moral, de fragmentação cultural e enfraquecimento das nacionalidades, creio mais que nunca na urgência duma sólida referência no topo da hierarquia do estado: o rei, corporização dum legado simbólico identitário nacional, garante dos equilíbrios políticos e reserva moral dum povo e dos seus ideais. O rei, primus inter pares, é verdadeiramente livre e por inerência assim será o povo.
Sou modesto: espalhar a doutrina e "fazer" mais monárquicos é o meu único objectivo. Que floresça nas mentalidades o sonho duma nação civilizada e de futuro, ciosa da sua identidade e descomplexada da sua História. De resto, o seu curso é sempre imprevisível e, quem sabe um dia, num instante tudo poderá mudar.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Republica comemora centenário com novo "regicidio"

Já aqui foi lançado o aviso sobre as fortes ligações entre a Sociedade Frente Tejo e a Comissão do Centenário da Republica, na gestão de mais de 155 milhões de euros para fazer uma "expo" sobre o centenário da Republica.

Pois que a festa comece na Praça do Rei: o projecto para a Praça do Comércio foi "finalmente " apresentado, depois de ter sido mantido em segredo durante mais de um mês. Inclui um substancial alargamento dos passeios e grandes restrições à circulação automóvel. A calçada à portuguesa desaparece do local, enquanto o Cais das Colunas surge transformado numa plataforma circular.

Pois... leram bem... a duas das maiores referências da cultura portuguesa vão seguir o caminho do Rei D. Carlos e do Pricipe D.Luís Filipe e desaparecer debaixo da ignorância iluminada dos republicanos!



atentado
No desenho não se percebe mas a placa central está elevada

O rigor histórico é tanto que o arquitecto Bruno Soares escolheu a cor térrea para vincar a ideia de que até ao final do sec XIX a Praça não estava calcetada.
"A remodelação do Terreiro do Paço tem de ficar pronta a tempo das comemorações do centenário da República, que se realizam em Outubro do ano que vem. E embora o projecto ontem apresentado seja aquele que, em princípio, irá por diante, ele poderá vir incorporar sugestões ou alterações sugeridas por todos aqueles que quiserem participar neste debate.

Os desenhos serão colocados no site da Sociedade Frente Tejo a partir do próximo dia 12. O presidente desta entidade, o arquitecto Biencard Cruz, comprometeu-se ontem a “promover o envolvimento dos cidadãos” - “porque a praça é de todos, e não apenas dos especialistas” em urbanismo e arquitectura. "


Quem olhar para a imagem vê linhas cruzadas no pavimento junto às arcadas. Ali, o pavimento será de lioz e terá desenhadas umas linhas desencontradas que correspondem às rotas de navegação dos portugueses no séc. XVI tal como aparecem nas cartas da época... será?
Para outra interpretação podem até simular as trajectórias das balas dos vários regicidas que a República tão urgentemente quer comemorar... é que da Praça do Comércio não partiam as naus para as Descobertas pois sempre foi uma "Praça de poder" por estar junto ao Paço Real, forte simbolo do poder régio.
Mesmo quando esta era o Terreiro do Paço não se encontrava na trajectória de ser arrebatada da utilidade publica ao ser transformada num enorme espaço sem qualquer utilidade exactamente no eixo viário central de Lisboa.
Mais uma vez a república toma de assalto Lisboa para tomar para si o que é de todos e as reacções na blogoesfera foram várias e unânimes, trata-se de um atentado: Do Blogue Carmo e a Trindade" com o titulo "ACUDAM-NOS... que isto magoa a alma lusitana!!"
"Sr. Arqº Bruno Soares, tem V. Exa. toda a legitimidade de defender a sua dama, e tanto quanto me é dado a entender e respeitar, elaborar os projectos mais sui generis - e que menos me agradem - que entenda, contudo gostaria de requerer à autarquia que não permita o assassinato da calçada portuguesa naquele local.(...)
Agora vem o Sr. Arqº arruinar a calçada portuguesa tentando transformar o Terreiro do Paço em terra e losangos.
De facto, já não estamos no Séc. XIX para termos terra no terreiro, e não estamos no Séc. XXIII para termos losangos... Haja muita calma e paciência para aturar todas estas violências."


Já o blogue "Andarilho" disserta:"quer-me parecer que qualquer que fosse a solução encontrada para modernizar tão importante local, valioso património da cidade, a calçada portuguesa não deveria desaparecer. Conquistar os lisboetas também passa por respeitar a identidade e tradição da cidade."

O blogue "O Desproposito" lamenta o facto de não haver a hipotese de um Parque de estacionamento e da falta de "democracia" na forma como os projectos são apresentados
"triste, escrevo, triste, é o facto da proposta de desenho para a "nova" Praça do Terreiro do Paço estar (mais uma vez...) sujeita ao quase clandestino "estatuto" de segredo de estado..."
.
Comentário muito acertado sobre esta opinião, de um A.M:"vamos ser optimistas... como com isto agora do terreiro do paço (cada vez melhor...) é que vamos comemorar a "república" pode ser que ainda desistam do museu dos cochos de zoom em zoom até à vitoria final!..."

O Blogue 2711 termina com a frase lapidar: "Quando não se tem mais nada para fazer, triste ideia, luta-se contra a calçada portuguesa."

bem haja

domingo, 11 de janeiro de 2009

Ainda o debate iniciado no Corta-fitas (2)

Finalmente o caríssimo Tiago Moreira Ramalho respondeu ao meu post, cuja demora compreendo pois tomo em apreço as suas imerecidas palavras quanto à minha argumentação, que muito me cumpre agradecer. 

Porque este debate já vai longo e já foram esgrimidos os principais argumentos, e porque detesto repetir-me ou que outros se repitam, como se o número de vezes que um argumento é proferido fosse directamente proporcional à sua validade, vou apenas focar alguns pontos da resposta do Tiago, recorrendo em parte ao que já foi escrito.

 

Em primeiro lugar, assumir uma Teoria como verdade é precisamente o mesmo que todos os defensores da República fazem. Eu sou um relativista, não acredito em valores absolutos e não acredito na existência da "verdade", apesar de continuamente a buscar. 

 

Depois, não é em algumas situações que o Rei pode ter legitimidade legal caro Tiago, é a todo o momento, posto que, novamente, tal como o Miguel Castelo-Branco escreveu:

 

De facto, na constituição histórica como no liberalismo, o Rei é imputável e responsável pelos seus actos, no exercício de funções ou fora delas. Um Rei que não cumpra as suas obrigações ou não se submeta às disposições constitucionais e à herança consuetudinária é substituído através de mecanismos de substituição (vide D. Afonso VI, v. Eduardo VIII). O filho do Rei será Rei se, e apenas se, aceitar a incumbência no respeito pela constituição".

 

Em relação à legitimidade carismática, eu disse que essa está muitas vezes ligada a um elemento transcedente, e tal não é necessariamente religioso, por exemplo Elvis Presley é um líder carismático, Hitler era um líder carismático, porque para Weber esse carisma pode advir de um elemento heróico, religioso ou de características pessoais e excepcionais, quase sobrehumanas. Um Rei pode não ter legitimidade carismática, mas um Presidente desta terceira República não a tem de certeza.

 

Quanto à importância da legitmidade tradicional em termos de representar historicamente a nação que representa, para mim é importante não só na chefia de Estado, mas para que a própria nação tenha noção de onde vem e para onde vai. Porque, novamente, tal como aqui escrevi, invocando Jacques Le Goff e Aimé Césaire, é na memória que cresce a história. E um povo sem memória é um povo sem futuro. 

 

Quanto à República ser mais Democrática do que a Monarquia, não creio que se devam confundir, pois, até como o Tiago refere, uma coisa são as formas de governo e outra coisa são os sistemas. Quem trouxe a Portugal a sua primeira experiência democrática foi a Monarquia no século XIX. A 1.ª República foi tudo menos democrática, até quanto ao único argumento invocado pelos republicanos, a questão das eleições, posto que reduziram o número de eleitores. E a 2.ª República, obviamente, também foi tudo menos democrática, servindo, isso sim, para o que o Nuno aqui escreve, para consolidar o regime republicano. E mesmo que em teoria tal seja possível de argumentar, como o Tiago diz, uma teoria não corresponde necessariamente à verdade, veja-se como foram aplicados os belos ideais comunistas na União Soviética, ou mesmo os ideais maçónicos da ética republicana, cujos autores antes do 5 de Outubro de 1910 se arrogavam de paladinos da moral. Viu-se...

 

Se a teoria fosse verdade, os países mais desenvolvidos e com melhores índices de qualidade da democracia não seriam na sua maioria monarquias...

 

Mais, tal como já escrevi, eu sou um relativista, não acredito em valores absolutos, e como tal, a alegada demonstração de que existem regimes melhores do que outros é por mim recusada. Já o tinha escrito, aqui fica novamente o porquê:

 

Em primeiro lugar, a noção de que não há uma melhor forma de governo, há formas de governo que se adequam às populações, às circunstâncias, à cultura, enfim, às especificidades antropológicas dos indivíduos, comunidades e sociedades. É por isso que agarrar em modelos ocidentais e copiá-los para todo o resto do mundo resulta nas asneiras que tem resultado.

 

Quando se considera algo como "melhor" em relação a outra coisa, estamos a colocar-nos num quadro de valores morais, saindo do plano da análise politológica para entrar no da ideologia. Tal como o Tiago, também eu prezo a liberdade enquanto valor absoluto, ou não seja eu um liberal. Mas isso não quer dizer que os chineses, por exemplo, o prefiram. A forma de governo chinesa é a que melhor se adequa às especificades geográficas e demográficas do país. Aliás, com o problema da lógica relação entre crescimento económico que leva à educação e pensamento, os chineses vão ter graves crises. Os ocidentais é que têm a mania de se arrogar também em paladinos da democracia e liberdade. Nem toda a gente tem que ser como nós queremos só porque achamos algo melhor do que o que eles têm. Infelizmente, na prática a teoria é outra, e em política internacional é precisamente o que acontece. E já agora, o Tiago saberá provavelmente melhor do que eu que os próprios gregos consideravam a Democracia como um mau regime.

 

Em relação à hereditariedade e a igualdade o Tiago diz que a Monarquia torna desigual o acesso ao poder e implicar a existência de uma aristrocracia. Em primeiro lugar, a confusão entre poder e autoridade, novamente recorrendo a Weber. Os Presidentes da República Portuguesa, tal como os Reis das modernas monarquias europeias, não têm poder, têm autoridade. O poder está no executivo e na casa da democracia representativa, o parlamento. De qualquer das formas, essa desigualdade e essa aristocracia já existem na actual república, tal como em qualquer país do mundo, e vão sempre existir, porque é assim que as coisas funcionam. Os ideais são muito bonitos, mas na prática a teoria é outra.

 

Por último, o Tiago pegou exactamente no ponto que eu queria que pegasse, para poder finalmente rematar o meu pensamento sobre o debate Monarquia ou República: a elegibilidade para cargos públicos. Recupero o que o Nuno já aqui escreveu:

 

Quem elege os procuradores, os Supremos, o PGR, o presidente do banco de Portugal, esse mesmo que é de sobremaneira influente na nossa vida privada, decidindo o que nos é ou não economicamente conveniente? Na verdade apenas uma ínfima parte do poder  é electivo e mesmo em certas instituições, não é anormal a sucessão hereditária, ditada pelas conveniências de clube, loja, região ou necessidade de favorecimento pessoal. É a república portuguesa que conhecemos.

 

Se levarmos a questão da eleição ao ponto fundamental que lhe dá razão de existência, teremos então de concluir que as próprias "eleições presidenciais" são nada mais que uma farsa, uma ilusão ou simples jogo de espelhos. Os próprios candidatos jamais têm qualquer hipótese de chegar à fase da campanha - após a recolha e reconhecimento de assinaturas proponentes - se não possuirem a benesse de uma organização partidária e suas lógicas ramificações financeiras no chamado "mundo dos negócios. Manuel Alegre é claramente, um exemplo que evidencia este círculo vicioso, onde a verdade surge transfigurada num basismo absolutamente inexistente e apenas em conformidade com as necessidades mediáticas. É a eleição numa feira de balofas vaidades, excelsas mentiras e  que no final, cai como espada de Dâmocles, sobre a cabeça do pobre contribuinte.

 

O Tiago, como os alegados republicanos que defendem o regime porque está e que serão os primeiros a virar a casaca, na senda da bela tradição política portuguesa, cai naquela abstração típica e que se constitui como o ÚNICO argumento dos republicanos: a possibilidade de qualquer indivíduo poder ser eleito Chefe de Estado. E como todos sabemos, na prática a teoria é outra. 

 

A abstração falaciosa é a de que se supostamente qualquer indivíduo pode ser eleito Chefe de Estado, o regime é mais democrático. Novamente, a democracia é muito mais que votar, já o escrevi aqui. Os ideais republicanos aprisionaram-nos, porque com esta ideia enganam toda uma nação, como se pelo voto se decidisse realmente alguma coisa. O Rei, não vindo do jogo dos partidos, não estando comprometido pelos interesses instalados de que a nação não se consegue ter clara percepção, é precisamente o melhor garante da Democracia.  Mas como os alegados senhores democratas deste país não gostam verdadeiramente da democracia,já que o Rei enquanto representante da nação é o melhor fiscalizador do poder executivo, vamos caminhando nesta pseudo-democracia. É que tal como escreveu o Miguel Castelo-Branco:

 

A monarquia, forma não democrática de escolha e sucessão da chefia do Estado é, assim, o melhor garante da Liberdade colectiva e de uma chefia de Estado independente e imparcial.A monarquia é caução de democracia.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Ainda o debate iniciado no Corta-fitas

É pena que o caríssimo Luís Naves não tenha notado que, para além de comentários irados, que vieram de ambos os lados em contenda (veja-se o post do caríssimo João Tordo, um primado de equívocos que genericamente preside a quem fala daquilo que desconhece e não se dá ao trabalho de se informar, como é claramente o caso, desculpe-me lá caro João - creio que será a este tipo de coisas que o Luís se refere quando fala de emoções básicas, ou estarei enganado?), também tal debate originou textos interessantíssimos e de uma rara qualidade na blogosfera lusa.

Da minha parte, continuando à espera de uma resposta por parte do Tiago Moreira Ramalho, prefiro notar que a Monarquia tem sim interesse histórico, como o Luís Naves refere, mas a História não é algo que trate apenas do passado, é que não se pode projectar o futuro sem conhecer o passado caro Luís. E como tal, aqui deixo algo escrito ontem à noite para outro âmbito:

(...) na busca da “verdade”, se é que existe tal, a academia tem um papel fundamental a desempenhar. A imparcialidade na análise histórica, se é impossível, tem que ser pelo menos um objectivo para o qual tendamos. Se em Ciências Sociais um dos primeiros ensinamentos é o da inexistência da neutralidade, pelo menos no que à História concerne há que clarificar devidamente o passado para poder projectar o futuro. 

Essa mesma falta de imparcialidade e de clarificação do passado recente português, em conjunto com a politização exagerada operada em determinadas disciplinas académicas, agravada pela demagogia, desinformação e desinteresse individual pelo cultivo do saber, tem ferido de morte o nível educacional de uma nação que desde a Revolução Liberal de 1820 não vive em paz consigo própria. As constantes dualidades e incoerências que já se tornaram características da psique lusitana, onde não faltam comunistas a defender ideais demo-liberais com os quais a prática do comunismo é incompatível, democratas do pensamento único que fazem lembrar a personagem do Fidalgo em o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, conservadores católicos que fazem lembrar a personagem do Frade dessa mesma obra, e, a mais irónica das incoerências, os republicanos laicos que não dispensam as regulares idas à Igreja, são precisamente sintomas de uma sociedade que prefere a propaganda demagógica à coerência e argumentação justificada. 

Os tempos passam, os conceitos evoluem, mas a confusão permanece generalizada. Quando os fantasmas da direita e os complexos da esquerda politicamente correcta extravasam o circunscrito campo do jogo político-social e chegam até à academia, resta a tentativa de através dessa esclarecer devidamente os objectos de estudo, almejando prosseguir o mui republicano ideal da educação do povo, que, no que à disciplina da História diz respeito, significa, pelo menos, retirar ilações dos erros do passado para evitar cometê-los no futuro. 

Porque invocando Jacques Le Goff e Aimé Césaire, é na memória que cresce a história. E um povo sem memória é um povo sem futuro.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Esclarecendo brevemente alguns conceitos

Não estivesse eu atafulhado em trabalhos, curiosamente, um sobre o reconhecimento da I República pela Inglaterra, e demorar-me-ia muito mais do que apenas esta breve nota a respeito do debate iniciado pelo Tiago Moreira Ramalho, que é de tomar em apreço pois é para isto mesmo que a blogosfera mais deveria servir, o debate de ideias. Sublimes como sempre, o Miguel e o Nuno deram já as suas respostas, e aconselho ainda a ler o João Gomes e os comentários do Leonidas, Rui Monteiro e Ricardo Gomes Silva aqui e ali

Há dois conceitos que gostaria de esclarecer brevemente pois claramente carecem de uma operacionalização não efectuada pelo Tiago Moreira Ramalho ou por quaisquer outros republicanos neste debate (basta atentar no programa do Prós e Contras sobre o tema), nomeadamente os conceitos de legitimidade e democracia. 

Recorrendo aos clássicos ensinamentos de Max Weber, pode-se dividir a legitimidade em três tipos, a legal/racional, a tradicional/história e a carismática. Actos eleitorais validam apenas a legitimidade legal, enquanto os Reis possuem pelo menos dois quando não mesmo os três tipos de legitmidade, a carismática porque de certa forma ligada a um elemento transcendente, a mais das vezes religioso (veja-se o caso da Rainha de Inglaterra), a tradicional porque repousa no Rei o peso da História da nação que representa, e a legal pois tal como refere o Miguel Castelo-Branco "De facto, na constituição histórica como no liberalismo, o Rei é imputável e responsável pelos seus actos, no exercício de funções ou fora delas. Um Rei que não cumpra as suas obrigações ou não se submeta às disposições constitucionais e à herança consuetudinária é substituído através de mecanismos de substituição (vide D. Afonso VI, v. Eduardo VIII). O filho do Rei será Rei se, e apenas se, aceitar a incumbência no respeito pela constituição".

Acresce o que há mais de um ano atrás um amigo meu, na altura colaborador do Estado Sentido, escrevia sobre a evolução do conceito de legitimidade de Weber a Habermas

Habermas aponta aqui que a legitimidade legal não se baseia apenas numa virtude de correção procedimental, mesmo que esse procedimento sofra o efeito de uma tradicionalização (aceitação generalizada da legitimidade democráticas através das eleições, como se o jogo acabasse aqui). Aponta então que essa legitimidade se deve basear numa moral procedimental, que conta com outros critérios democráticos que podem funcionar como filtros, e que, por isso, nunca aceitariam o nazismo alemão como uma ordem legítima, o que o pensamento weberiano perfeitamente permite.

Para Habermas, as medidas adoptadas por Hitler a partir de 1933 não seriam válidas, pois ainda que tenham sido aprovadas pela maioria, havia uma exclusão de participantes do discurso - a democracia transformava-se em ditadura da maioria. 

Posto isto, creio que quanto à legitmidade estamos tratados, não só seria mais legítimo voltarmos a ter uma monarquia, como o facto da República nunca ter sido referendada e a própria Constituição o impedir demonstram em pleno a legitimidade de que o regime carece, que na actual III República apenas tem sido sustentada pelo anti-fascismo, isto é, a oposição ao Estado Novo, que começa também cada vez mais a não ser suficiente, ou não se oiçam tantas vozes dissidentes e divergentes, as mais audíveis sendo precisamente as dos monárquicos. 

Quanto ao conceito de democracia, recorremos aqui aos ensinamentos de Larry Diamond e de Robert Dahl. Para começar, Larry Diamond distingue entre democracia eleitoral e democracia liberal, sendo que a democracia eleitoral pode frequentemente ser chamada de democracia iliberal. Creio que o nome diz tudo, mas brevemente significa que qualquer regime onde existam eleições é uma democracia eleitoral mas pode ser uma democracia iliberal, vejam-se os casos controversos de Venezuela, Angola e Rússia na actualidade. E o que é uma democracia liberal? É o tendencialmente desejável regime que se nos apresenta nos países Europeus, Estados Unidos, Canadá e Austrália, um regime que segundo Dahl responde completamente ou quase completamente perante todos os seus cidadãos. Nesse regime todos os seus cidadãos devem ter oportunidades iguais de:

1 -  Formular as suas preferências;

2 - Explicar as suas preferências aos seus concidadãos e ao governo através de acções individuais ou colectivas;

3 - Ter as suas preferências consideradas de forma igual na conduta do governo, isto é, consideradas sem discriminação devido ao seu conteúdo ou fonte da preferência.

Estas são as três condições essenciais consideradas por Dahl para um regime ser democrático e dentro destas existem 8 critérios que são tradicionalmente considerados pelos estudos de democratização e política comparada como o "minimum procedural", os critérios mínimos para um regime ser democrático, que são:

1 - Liberdade de formar e juntar-se a organizações;

2 - Liberdade de expressão;

3 - Direito de voto;

4 - Eligibilidade para cargos públicos;

5 - Direito dos líderes políticos competirem por apoio;

6 - Fontes de informação alternativas;

7 - Eleições livres e justas;

8 - Instituições que façam as políticas do governo depender de votações e outras expressões de preferência.

(Nota: Consoante o tipo de estudo que se queira realizar adicionam-se outros critérios a estes, dos quais os mais comuns serão a liberdade de imprensa e o controlo dos militares pelo poder civil)

Posto isto, o argumento de que a República é mais democrática porque se vota em quem é o Chefe de Estado é uma total falácia, eu pelo menos prefiro uma verdadeira democracia liberal e útil à nação e ao desenvolvimento do país, com a legitimidade assegurada pelo que já acima referi, do que um regime que acha que é democrático apenas porque há eleições, como referia no Prós e Contras António Reis, Grão-Mestre do GOL. A democracia é muito mais do que apenas votar. E a este respeito remeto para os índices de qualidade da democracia  e liberdade da Freedom House. Consta que as monarquias europeias são regimes mais democráticos que o nosso... Ninguém me vai dizer como alguém me disse há tempos que o Reino Unido é menos democrático que Portugal pois não? E já agora, porque é um argumento estatístico, 6 nos primeiros 10 e 12 nos primeiros 20 países mais desenvolvidos do mundo em termos do Índice de Desenvolvimento Humano são monarquias. O Tiago refere que o argumento de que serve para os outros serve para nós não é válido, com o que concordo até certa parte. Mas uma coisa é certa, é que o Tiago pretende é demonstrar que eticamente a República é um regime melhor que a Monarquia. E o que é facto é que tal como diziam uns professores numa conferência há tempos no ISCSP, não há uma ideal ou melhor forma de governo: 

Em primeiro lugar, a noção de que não há uma melhor forma de governo, há formas de governo que se adequam às populações, às circunstâncias, à cultura, enfim, às especificidades antropológicas dos indivíduos, comunidades e sociedades. É por isso que agarrar em modelos ocidentais e copiá-los para todo o resto do mundo resulta nas asneiras que tem resultado. Em segundo lugar, a essencial distinção entre a forma e a substância do poder. A substância que se está a exportar para o todo mundo é a mesma. As formas pouco interessam, posto que a substância é a de que sempre existirão oligarquias, plutocracias, primado da tecnologia e da globalização, o Estado espectáculo e o marketing político como base de legitimação do poder político. Posto isto, as formas são simbólicas, porque na essência estamos todos a caminhar para o mesmo, para uma ordem internacional que a plutocracia mundial vai ditando.

Depois há ainda dois ou três argumentos normalmente utilizados pelos republicanos, a questão da hereditariedade na monarquia que é incompatível com o propagado conceito de igualdade. Há aqui um problema que é precisamente o que o Miguel Castelo-Branco refere:

Foi o Estado codificador, legislador, centralizador e confiscador dos direitos, liberdades e privilégios, o Estado do jacobinismo, que impôs o soberanismo radical, a ideia de um ente moral distinto dos homens que Samuel Pufendorf anunciara, de um indutor da "Vontade Geral" com que Rousseau resolveu o problema da pluralidade e a antecâmara do totalitarismo, ou seja, da apropriação dos indivíduos e da sociedade por uma ideia abstracta(Amendola)

Em nome de uma construção abstracta em torno destes conceitos já referidos agrilhoou-se completamente os cidadãos empurrando-nos para um depressivo abismo sem aparente alternativa. Em relação à legitmidade e à democracia creio que já estão explicados os erros conceptuais em que os republicanos normalmente incorrem e com que têm conseguido enganar todo um povo. Em relação à igualdade remeto para um detalhado post sobre essa falácia que, resumidamente, é uma construção teórica de Rousseau que ele próprio desmontou pois é incompatível com a noção de sociedade, só há verdadeiramente igualdade no estado de natureza; e quanto à hereditariedade e igualdade retomo ainda o que na altura escrevi em rescaldo ao programa do Prós e Contras:

Em relação ao argumento da hereditariedade, o professor Maltez deve ter assustado muita gente quando perguntou se queriam que começasse a apontar quantos no parlamento são netos, bisnetos, trisnetos de longas tradições dinásticas e hereditárias. É uma daquelas propagandas demagogas do republicanismo português, o iludir o povo com a igualdade e com o francesismo de que todos somos iguais, pelo que qualquer um pode ser chefe de estado. Acreditam mesmo nisto? É que na prática a teoria é outra, como diz o professor Maltez, já que não há coincidência entre a lei escrita e a prática da lei.

Nesta República os Presidentes da República continuarão a ser "históricos" dos dois partidos do centrão (até aposto que Durão e Guterres estarão já na calha para serem Presidentes da República), e basta circular entre os meandros do poder e da sociedade lisboeta (que concentra o poder político de Portugal), para perceber que são todos "gente de bem" e de longa tradição hereditária quanto à presença na teia relacional do poder que é o actual estadão. A meritocracia há muito que se perdeu, e os canais de acesso ao poder e de mobilidade social estão praticamente vedados e restritos a uns poucos, os das castas do regime, e bem ilustrativa disto é a afirmação de Luís Coimbra de que "estamos numa Europa sem europeus, porque já quase ninguém vota, e estamos numa democracia sem povo, porque o círculo do poder está fechado"

Posto tudo isto, e porque já me demorei mais do que pretendia, finalizo apenas dizendo ao caro Tiago que prefere a legitimidade à utilidade, que é precisamente esse tipo de pensamento, novamente uma abstração que nos tornou escravos, que nos aprisionou nas teias da mediocridade e da partidocracia e tem impedido que Portugal se assuma de uma vez por todas como herdeiro da sua História e se projecte para o futuro com um projecto de verdadeiro desenvolvimento nacional.