A História de uma nação apresenta momentos-chave em que o seu destino colectivo se vê perante dilemas ou aporias que é necessário resolver ou enfrentar. Foi assim com Alcácer Quibir, a Restauração de 1640 e o Ultimatum de 1890. A República nunca foi um turning point no percurso de Portugal enquanto nação, enquanto desejo colectivo ou ansiedade conjunta. É necessário que exista um Outro e que o Outro nos agrida ou nos subjugue para ocorrer no espírito colectivo (se é que ele efectivamente existe) uma "vontade de querer". Pelo contrário a República fez regredir o país em quase 100 anos, até às lutas entre Liberais e Miguelistas colocando, de novo, portugueses contra portugueses, em nome de um ideal que era de pouquíssimos. Como qualquer organismo infectado, o corpo reagiu com anticorpos e a República, aos poucos, entranhou-se, primeiro como uma constipação, depois já gripe (como a de 1918) que por pouco não matava o hospedeiro se não fossem as mezinhas salazaristas que pugnaram por um Estado Republicano forte e opressivo. Mas esta opressão não ocasionou uma reacção instintiva à doença e o corpo acomodou-se a achaques periódicos, até 1974 quando, de novo, não o país, mas o regime tentou uma refundação. Hoje, tenta-se construir a imagem laudatória e idílica da chegada do novo regime, em 1910. E o papel dos Historiadores nesse campo é fulcral. Num campo historiográfico praticamente inexplorado (quando comparado, por exemplo, com o da vizinha Espanha), sem background quanto a estudos Políticos, Económicos e Sociais do país contemporâneo, foi entrada fácil a um pequeno grupo de historiadores tendencialmente ligados a correntes ideológicas de Esquerda que tomou de assalto esta área de estudo. De facto, o nosso corpus de historiadores, voltado ora para a medievalidade e para a Expansão, ora para temas avessos à Idade Contemporânea permitiu uma manipulação muito mais vincada dos factos ocorridos nos últimos 150/100 anos. E as Comemorações do Centenário da República, ainda que incipientes na sua programação pró-populi, consagraram o estudo de poucos, com conferências e livros de toda a espécie que não escondem a sua posição nitidamente sectarista. A Primeira República deixou de ser diabolizada para constituir um modelo de virtudes onde, diga-se, até se podem encontrar pontos de ligação entre o actual regime. E esta "Segunda República" passou a regime democrático, saltando sobre o Estado Novo que foi arrumado na secção de não-República. Traçou-se assim um ponto de vista inflexível e irrefutável: antes de 1910 não existia democracia em Portugal. Esta chegou a 5 de Outubro daquele ano. Foi suspensa com o golpe de Maio de 1926 e regressou a 25 de Abril de 1974. Ao percorrer a vasta bibliografia subsidiada, em grande parte, pelo erário público, (como era a propaganda nacionalista nas décadas de 1940 a 1970), constatamos o súbito interesse pelo papel da Maçonaria na implantação da República e no Regícidio, com uma clara desculpabilização desses dois actos em detrimento de um ideal maior, a Liberdade, supostamente inexistente durante a Monarquia, ainda que esta fosse Constitucional e assegurasse, desde 1834, amplas liberdades que são hoje apanágio das maioria das democracias ocidentais. Esta refundação de Portugal pela historiografia é preocupante e recorda o movimento surgido durante a 2ª República, não tão claro na sua catequização como a cartilha estado-novista, mas nem por isso menos gritante, sobretudo quando pretensos trabalhos históricos intitulam uma obra com o título "Viva a República". Aproximando-se o dia 5 de Outubro de 2010 e conhecendo já o programa das celebrações podemos, para já, asseverar algo: a propaganda erudita é vasta mas não chega para alimentar o espírito colectivo. No último século, apenas o totalitarismo do Estado Novo conseguiu mobilizar a opinião pública para se legitimar enquanto regime intrinsecamente nacional. Embora se espalhem mensagens de participação, em que tudo, hoje em dia, gira à volta de República (até relógios...) dificilmente se verão manifestações espontâneas de Viva a República! ou marchas populosas de apoio ao regime. Como em 1910, a ideia republicana de hoje é, ainda, uma ideia de poucos, a de uma classe oligárquica que deseja manter o poder, não para servir o "Povo", mas para se servir a si mesma. A República Portuguesa é como Saturno devorando o seu filho: fá-lo ciclicamente e em 2010 ocorre apenas mais um parto.
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domingo, 19 de setembro de 2010
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Edis e historiadores de hoje

Vem esta prosa a propósito do Prof. Amadeu Carvalho Homem, de quem tenho ouvido, últimamente, desfavoráveis comentários de proselitismo, de excesso de zelo na defesa do regime republicano e no menos apurado sentido analítico dos factos históricos. Confesso que ainda não li, ou ouvi, nada do Prof. Carvalho Homem que me consinta formular opinião própria. No entanto, aqui deixo este episódio que bem dará a medida da minha admiração face ao exposto.
A Câmara Municipal de V. N. de Famalicão vem, de longa data, manifestando a sua preocupação em fazer o levantamento histórico do concelho, o que inclui, obviamente, o devido destaque aos seus conterrâneos mais ilustres.
Assim tem procedido, sem olhar a cores e credos políticos. Do lado repúblicano, aí temos o inefável Bernardino, o Dr. Rui Simões, ministro na 1ª República, desaparecido já após o 25 de Abril... Do lado que interessa, Camilo, Alberto Sampaio... e o Secretário do Rei D. Carlos, o Conde de Arnoso. Que a Câmara devidamente homenageou.
Foi num mandato do Dr. Agostinho Fernandes, durante décadas o Presidente pelo Partido Socialista. Homem por quem mantenho a maior estima, a qual, creio, é retribuida. E a cerimónia constou da inauguração de um busto e da publicação de uma biografia intitulada «O Primeiro Conde de Arnoso e o seu Tempo», cuja elaboração foi confiada ao Prof. Carvalho Homem.
Possuo um exemplar, aliás enriquecido por muito amável dedicatória do Autor.
E acrescentarei somente que este soube interpretar magnificamente o espírito e a acção do Conde de Arnoso. O´mais fiel servidor de El-Rei, o sempre inconformado opositor ao silêncio que se quis fazer no seu assassinato. Sobre Arnoso, escreveu, então, o Prof. Carvalho Homem, a finalizar aquele seu trabalho:
«Deve-se a Ramalho Ortigão a melhor síntese do seu arcaboiço espiritual e a mais conseguida caracterização do seu legado moral. Os seus amigos, mesmo os mais próximos, sabiam que os seus juizos se produziam à margem da consideração de todas as suas afeições particulares. Assim, as lapidares palavras com que defeniu Arnoso, na dedicatória das Últimas Farpas, trazem o selo da isenção (...)».
De modo que um dia destes, pego nas pernas e vou ouvir o Professor numa qualquer palestra comemorativa do Centenário. Levando comigo a excelente biografia que escreveu em 1998 para a Câmara de Famalicão.
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A República e os historiadores.
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