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sexta-feira, 23 de julho de 2010

A República vista pelos seus contemporâneos: António Cabral

António Cabral, advogado, político, jornalista, foi um dos que a 6 de Outubro de 1910 permanecia monárquico, ao contrário das hordas de adesivos que formaram os novos gabinetes ministeriais e o funcionalismo público do novo regime. Apesar de se manter fiel à Causa, foi arguto e mesmo imparcial cronista da época que se seguiu (como republicanos houve com as mesmas qualidades). Apaixonado camilianista e cultor das artes nacionais, é um dos grandes e últimos polemistas, em cujos textos cabia a lealdade e a honra, qualidades tão esquecidas nos dias de hoje.
Os seus textos, como o que se segue, são janelas abertas sobre a época conturbada do antes e depois da República.
E as suas análises políticas e sociais são de uma flagrante contemporaneidade e serviam para o século XIX, os conturbados anos da 1.ª República, como para os dias de hoje.


«Mas, exactamente porque assim penso, é que sou pela Monarquia e não pela República. Sou por um chefe permanente e não por chefes de tirar e pôr.
A Monarquia é o governo de um só, que plana acima e fora dos partidos, é o zelo pelo interesse nacional, que é o seu próprio, é a Tradição, é a glória de de anos e anos de conquistas e descobertas. Veja-se o que sucedeu na Noruega, quando esta se separou da Suécia. A maioria dos noruegueses optou, em plebiscito, pela Monarquia e deixou de parte a República. Foi assim que o príncipe Carlos da Dinamarca se viu chamado a ocupar o trono da Noruega, com o nome de rei Haakon, ainda hoje, felizmente, reinante. Com Sua Majestade tive a honra de conversar, quando ele, ainda Príncipe, esteve em Lisboa: era afável, delicado e pareceu-me dotado de altas qualidades. Guiada pelo seu Rei, a Noruega tem sabido equilibrar-se em meio do mais que desafinado concerto das nações.
A República é o governo de muitos, é a desordem, é o sistema que tem à frente um chefe eleito, em regra, pelo partido mais numeroso, e, portanto, a este subordinado, ou, pelo menos, para ele inclinado, politicamente. Aí estão os factos a demonstrá-lo. A República ilude o povo, dizendo-lhe que é ele o soberano, que é ele que governa, quando a verdade é que o pobre povo... o soberano, é espingardeado e metralhado pelos que mandam, quando tenta protestar contra escândalos graúdos e ilegalidades revoltantes. São ainda os factos que o provam.
Vêm dizer-me que o regime, monárquico em Portugal, padecia do vício de origem e por isso caiu; mas logo surge a contradição, quando os que se encostam a tal dislate afirmam que foram as lutas dos partidos e a desagregação destes que o derrubaram! Em que ficamos?... A queda da Monarquia deve-se ao vício orgânico do regime, o que eu nego, ou às ambições e lutas dos homens, como eu afirmo?. A culpa foi do Rei, que os republicanos assassinaram, vil e covardemente, ou dos que agrediam e injuriavam o Rei, fossem de que partido fossem?»

António Cabral, As minhas memórias de jornalista, [1948], pp. 17-18.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Achegas para um Dicionário da República Portuguesa

É de um escritor insuspeito, porque dono de um paradoxo pouco comum ao português dos primeiros anos do século XX («que digo eu?», ao português, ponto final) que saíram das crónicas mais luminosas e vibrantes sobre os primeiros instantes da República. Não são escritos a quente, nem palavras saídas da pena ressabiada de um detractor compulsivo (embora, reconheçamo-lo, Fialho de Almeida foi, acima de tudo, um crítico). Antes o registo de um juiz para quem ambos os regimes – Monarquia ou República – tinham a marca da indiferença, gizada por um povo desinteressado, analfabeto e facilmente manipulável pela demagogia. Assim se fizera a República de 1910, morta pelo cansaço de um rotativismo mas sobretudo pelas dissensões internas, onde homens esquecidos da honra e da lealdade pleiteavam sobre o individualismo e o egoísmo das benesses e do poder, que abriram caminho a uma dúzia de demagogos oportunistas inflamados.
“Saibam quantos…” é um dos melhores retratos da revolução republicana, dos seus métodos mesquinhos e dos atalhos dos seus homens (uma pequena minoria de cabecilhas) para tomar à força um país anémico, convertendo súbditos em cidadãos como se tal fosse a solução para o arranque económico e para o desenvolvimento cultural do país – embora tais objectivos, como anota e bem Fialho, estivessem longe de constituir o programa ideológico do republicanismo. Tomado o poder, havia que reparti-lo, dá-lo a quem merecia, convertendo oportunistas em republicanos e os novos republicanos em caudilhos. Formar uma classe política para dominar o Estado e a Sociedade, assegurando que os súbditos não reclamassem o regime deposto foi, até á chegada de Salazar, o principal móbil da política republicana. Só muito atrás vinham as causas da educação, do trabalho, da saúde, etc. O frenesi legislativo mostra um temor e um nervosismo que vai minando a república, ao ponto de criar a instabilidade que se conhece para o período e longe da ideia de grandes reformas está, nada mais nada menos, do que a destruição das instituições criadas pelo Liberalismo para erguer sobre elas um aparelho ideológico – espartilho e condicionador de liberdades que os republicanos apregoavam não existirem antes de 5 de Outubro de 1910. Fialho d’Almeida descreve este processo de coacção, resistência, eliminação, em suma destruição, que os republicanos (novos e velhos) vão levando a cabo nos primeiros “minutos” da longa noite republicana. Se estas crónicas são o espelho de um “verão quente”, ou no caso, um “inverno rigoroso”? Não. Basta pensar nos 99 anos que se lhe seguiram para perceber que muito pouco mudou. Não há como a leitura integral desta obra para ganhar um conhecimento lúcido e sincero sobre a República Portuguesa. Porém, na impossibilidade de dar à estampa digital a totalidade do livro de Fialho irei publicando aqui excertos das suas crónicas sob a forma de um dicionário, correspondendo cada tema a uma transcrição e um assunto versado pelo escritor nesta obra hoje praticamente ignorada… Nota: actualizei a grafia, para uma leitura mais apurada.

I - A LIBERDADE (*)

«Um mês depois de proclamada a República, a situação política não parece tão assegurada, nem tão certa a liberdade moral dos cidadãos, como a princípio prometiam os discursos dos ministros e o porta-voz optimista das suas gazetas. (…) § É o que pelo menos se infere da prisão do antigo presidente do conselho, João Franco chefe dos thalassas, efectuada hoje na sua quinta de Sintra, e a sua trazida ao tribunal da Boa Hora, donde saiu apupado e perseguido por uma escolta daquela turba-multa das ruas que, segundo parece, é quem governa e dirige as acções do governo republicano. (…) § Seis dias antes da prisão de João Franco em Sintra, tinha-se dado a do jornalista Homem Cristo, incisivo director do Povo d’Aveiro, e a suspensão imediata deste jornal, de que se vendiam cerca de vinte mil exemplares, e que tão violentas campanhas fez contra os republicanos, fora e dentro do governo. (…) § Se conjugarmos estes actos, tão indicativos como amostra, com os das espionagens que o governo autoriza sejam feitas por alcateias de populares, sem investidura legal nem competência policial de nenhuma espécie, aos cidadãos que essas mesmas alcateias tomam de ponta; e ainda por cima destes atropelos da liberdade e da segurança pessoal, repararmos nas demissões em massa, de funcionários antigos, alguns cheios de serviços, havemos de convir que afinal o começo deste regime novo cheira diabolicamente ao fim do velho, e que os puritanos e amigos de puritanos, cunhados de puritanos e primos de puritanos, tudo afinal são roedores de apetite voraz (…)». ALMEIDA, Fialho d’ – Saibam quantos… (cartas e artigos políticos). Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1912, pp. 5-8

(*) O tema e a descrição do mesmo são, afinal, e como o leitor pode constatar, de uma actualidade flagrante.

terça-feira, 16 de junho de 2009

As repúblicas não são eternas

Para aqueles que de forma sobranceira me perguntam quais as motivações para esta minha teimosa militância pela monarquia, que aspirações me movem para tão exótica causa, tão incómoda e excluída da “agenda politica”, eu respondo que o faço por uma questão de responsabilidade: a responsabilidade que me cabe para com a continuidade desta “utopia” no seu sentido mais nobre: o sonho dum Portugal com futuro.
Conheço alguns ilustres “compagnons de route” que optaram por “congelar” o seu ideal monárquico, imbuídos dum pseudo-realismo e embrenhados na espuma dos seus projectos pessoais, políticos ou profissionais. Tenho pena: eu sei como é difícil apregoar esta ingrata causa que não favorece carreiras ou comendas. Reconheço que a mensagem embate numa implacável “agenda mediática” que emerge do espectáculo popularucho e da mesquinha contenda política, das conveniências corporativas e interesses imediatos.
Não nego a evidência de que hoje os grandes males que Portugal padece são profundos e estão a montante da questão do regime. Como em 1910 as instituições estão descredibilizadas e não funcionam. Os portugueses, habituados ao assistencialismo e pouco atreitos a responsabilidades, parecem conformados com um medíocre destino, cuja perspectiva não passa do amanhã. E temos a merdização do debate político, com a gestão da rés pública ao nível do chão. Deste modo e dentro das minhas limitações, não prescindo de intervir de dentro do sistema em favor da minha comunidade e pelo futuro do meu país, com a liberdade que esta república me proporciona. Mas não me passa pela cabeça hipotecar as minhas mais profundas convicções.
Acredito profundamente na monarquia, na instituição real como a solução mais civilizada para a chefia dum Estado europeu e quase milenar como é o nosso. Num tempo de relativização moral, de fragmentação cultural e enfraquecimento das nacionalidades, creio mais que nunca na urgência duma sólida referência no topo da hierarquia do estado: o rei, corporização dum legado simbólico identitário nacional, garante dos equilíbrios políticos e reserva moral dum povo e dos seus ideais. O rei, primus inter pares, é verdadeiramente livre e por inerência assim será o povo.
Sou modesto: espalhar a doutrina e "fazer" mais monárquicos é o meu único objectivo. Que floresça nas mentalidades o sonho duma nação civilizada e de futuro, ciosa da sua identidade e descomplexada da sua História. De resto, o seu curso é sempre imprevisível e, quem sabe um dia, num instante tudo poderá mudar.