segunda-feira, 6 de julho de 2009

È, também, pela tolerância que a monarquia se deve distinguir da república



João César das Neves
DN 6 de Julho de 2009

No passado dia 22 de Junho, pela primeira vez desde 1875 um presidente francês discursou no Parlamento. Nicolas Sarkozy aproveitou a oportunidade para uma intervenção inteligente e inspirada sobre o momento político (www.elysee. fr/documents) . Admitindo a gravidade e a incerteza que nos rodeia, deu uma visão positiva, garantindo que "nada será como dantes (...), a crise torna-nos mais livres para imaginar um novo futuro". Está convencido de que "o mundo depois da crise será um mundo onde a mensagem da França será mais bem ouvida e mais bem compreendida (...). O modelo francês tem de novo a sua hipótese".

Que mensagem e modelo são esses? Pouco adiante, Sarkozy mostrou que se trata da mais tacanha intolerância e incompreensão. Muito aplaudido, o Presidente afirmou: "A burka não é um símbolo religioso, é um símbolo de servidão, é um símbolo de abaixamento. Quero dizer solenemente, ela não será bem-vinda no território da República."

A tolerância só tem significado quando enfrenta algo intolerável. Para aceitar o que consideramos admissível não é preciso esforço. Claro que a tolerância tem limites e há muita coisa que não devemos permitir: crime, abuso, injustiça. A discriminação das mulheres e, pior ainda, a sua servidão e abaixamento são evidentemente intoleráveis. Mas o Parlamento e Presidente franceses não estão a tratar da opressão feminina. Aliás, parecem bastante indiferentes aos efeitos que as suas palavras e acções poderão ter sobre as pobres mulheres que dizem defender. Como passarão a viver as raparigas muçulmanas se a burka for proibida em França? Certamente Sarkozy não sabe a resposta.

Aquilo que tem vindo a ocupar os legisladores franceses é um símbolo, como admitiu o Presidente. Um símbolo que ele afirma não ser religioso mas ter um significado particular. Evidentemente, esse não é o significado que o mesmo sinal tem para quem o usa. Existe escravidão explícita no mundo muçulmano, mas esses não usam burka. Para um árabe a escravidão tem outros símbolos.

O mais curioso na posição de Sarkozy e dos deputados é não entenderem que a sua é precisamente a mesma posição que fez nascer a burka. Se substituirmos "dignidade da mulher" por "decência feminina" e "abaixamento" por "deboche", é fácil imaginar um qualquer responsável afegão a justificar literalmente nos mesmos termos a recusa do traje ocidental. Evidentemente que não concordamos com essa conclusão, mas tolerância é aceitar aquilo com que não concordamos. As autoridades muçulmanas ao imporem a burka mostram falta de tolerância. Tal como as autoridades francesas o farão se vierem a proibir a burka.

Mais irónico é este debate realizar-se à volta de uma questão de vestuário, precisamente o tema onde a liberdade de costumes se começou a expressar na contemporânea. Há cem anos não passava pela cabeça de ninguém que um homem sério saísse à rua sem chapéu e bengala ou que as damas mostrassem o tornozelo. Fardas e uniformes eram omnipresentes em todas as classes. Os filhos dessa geração afirmaram a sua autonomia precisamente pela sua aparência exterior. Cabelos compridos, roupa desalinhada, calças de ganga, minissaias pareceram como combates importantes no caminho da liberdade. Agora os franceses, ao proibirem a burka, pensam estar no mesmo combate. Mas as batalhas antigas eram contra as proibições, não pela imposição de novas proibições.

O problema é mais vasto do que parece. Como Sarkozy com a burka, o Parlamento Europeu e o Governo português estão empenhados há anos em limitar a vida a fumadores, automobilistas, pais e cidadãos com as melhores intenções. Esquecem que todas as ditaduras, mesmo ferozes, sempre se justificaram com o bem dos cidadãos. Salazar, Franco, Mugabe, Chávez e até Hitler, Estaline, Mao e Pol Pot sempre disseram estar empenhados numa sociedade melhor. O mal deles não era cinismo e hipocrisia, nem estava tanto nas finalidades, mas na arrogância e tacanhez que o seu caminho implicava. As tais sociedades ideais nunca apareceram. Só ficou o sacrifício da liberdade.

João César das Neves

9 comentários:

JOAN ANTONI disse...

No asunto "burka" o senhor presidente da Republica francesa Nicolas Sarkozy tem raçâo.
" Burka" bem no Algeria o Marruecos nâo bem Francia, Espanha e Portugal.
Pessoalment nâo molesta a min mais no forma parte da nossa cultura europèia.
TOLERANCIA NÂO E DIZER SIM A CASAMENTOS DO GAYS E LESBIANAS
TOLERANCIA NÂO E DIZER QUE AVORTO E UM DIREITO DA MULHER.
TOLERANCIA E RESPEITO DA OPINIÂO DE TUDOS MAIS NÀO APROVAÇÀO DE TUDOS

Nuno Castelo-Branco disse...

Também me parece que o cabotiníssimo "Sarkas", nisto da burka tem razão. Porque em França, onde o imã de Paris tem o desplante de dizer:
- a nossa primeira lei é o islão,
- a nossa segunda lei é a do nosso país de origem e
- a nossa terceira lei é a francesa SE estivermos de acordo com ela!,

faz-me logo estar de acordo com a proibição, porque de facto a coisa tem um claro significado político. O sr. César das Neves que vá passear para Riade e de preferência co um crucifixo á lapela. Fica logo a saber como é. N-Ã-O , NÃO e N Ã O!

Octávio dos Santos disse...

Também concordo que Nicolas Sarkozy tem razão nesta questão... e demonstra, mais uma vez, que, ao contrário de Hussein dos EUA, os «tem»... e «no sítio».

RPA disse...

Agradeço as vossas opiniões. Ignoro se professam alguma religião. Eu sou católico, e não me agrada quando uns iluminados, em nome da ética republicana, me proibem de usar crucifixos (como a British Airways fez recentemente). Eu não os uso habitualmente, mas quero ter o direito a usá-los caso me apeteça.

Em França existe um problema com a população árabe, mas a resolução desse problema nada tem a ver com o uso de Burkha. Foram os próprios franceses que deixaram o problema àrabe chegar a este estado. Não controlaram a imigração, apostaram antes nas medidas fáceis e resolveram apenas adiar o problema. Agora têm de o resolver, mas não precisam de prejudicar os que professam outras religiões.

Se o imã de Paris não respeitar a lei, deve ser preso. Isso não é razão para proibir a burkha.

Porque não tenhamos dúvidas, a proibição da burkha vai, em nome do igualitarismo, levar a outras proibições religiosas.

João Távora disse...

Concordo inteiramente com o Ricardo e afirmei-o no programa Descubra as Diferenças na Rádio Europa. O Estado não tem o direito de proibir ou apoiar indumentárias. Tem só que garantir a liberdade do cidadão. Muito perigoso esse caminho.

Câmara disse...

Proibir uma roupa é ridículo, a liberdade também se vê aqui. Cada um deve ter o direito de se vestir como quer, isto é um dos valores da sociedade ocidental. Proibir vestuário/símbolos religiosos é um disparate: é um estrangular dos valores de liberdade por uma afirmação mesquinha de superioridade cultural, e toda a gente sabe o que vem a seguir a isso... Agora caso, por exemplo, um agente de autoridade necessite de identificação, aí a burka tem que ser retirada, como não poderia deixar de ser. Quem não aceitar as leis da França então que não viva lá, pois se o fizer fica sujeito às leis francesas e a ter "desgostos".

Octávio dos Santos disse...

A burka é muito mais do que uma simples indumentária; é principalmente - e antes de ser, eventualmente, um símbolo religioso - um símbolo (muito concreto!) da discriminação e opressão da mulher muçulmana, da sua «inferioridade» face aos homens. As mulheres no Islão não vestem a burka porque querem mas sim porque são obrigadas... e se não o fizerem podemos ter uma ideia do que as espera, não é verdade? Não há qualquer «liberdade» nesse trapo infame! Além disso, «do outro lado» não há respeito, também neste domínio, pelos valores e práticas ocidentais... porque, se houvesse, as nossas mulheres não teriam de andar tapadas (cobrindo o cabelo, pelo menos) sempre que vão a(quase todos)os países islâmicos. Neste aspecto, como em outros, a nossa superioridade cultural (e moral) é um facto, e assumo-o sem problemas! Porque o respeito pelas mulheres, sejam elas quais forem, não é nunca uma coisa «mesquinha».

Câmara disse...

Não concordo nada. Obviamente eu estou a falar de mulheres que, se quiserem, usam burkas. Ninguém deve ser obrigado a isso - se não quiserem usar e forem maltratadas existe uma coisa chamada lei. O outro lado não me interessa: nós não temos de pagar na mesma moeda, isso é vender a nossa cultura só por uma vingança qualquer. Além disso devemos respeitar as culturas deles lá como eles deveriam respeitar a nossa cultura cá: e a nossa cultura não é anti-burka mas sim de liberdade religiosa e de vestir. Se a burka é um símbolo religioso ou não isso não interessa: existe liberdade religiosa cá. Ser um símbolo da opressão das mulheres não nos devia interessar: as mulheres cá são (ou deviam ser) livres e portanto deviam estar acima dos "símbolos". Outro caso semelhante é o "desconforto" em torno da música tradicional "I wish I was in Dixie" que se cantava nos Estados Confederados, que por estar associada à escravatura o seu uso é hoje muito mais comedido, apesar de ser uma música tradicional. Acha que isto está correcto? Hoje a escravatura já não existe nos EUA e as pessoas negras têm igualdade total (ou deveriam ter...), qual seria o problema de cantar esta música? Por acaso traria a escravatura de volta? Uma coisa é ser um símbolo de algo que não é correspondido (seja ele escravatura ou opressão dos direitos da mulher) outra é ser algo concreto. Uma burka na Arábia Saudita é muito diferente de uma burka em Portugal: uma burka na Arábia pode ser um símbolo da opressão, porque ela existe, uma burka em Portugal deveria ser apenas uma peça de vestuário. E lá se volta às minhas 2a e 3a frases. Superioridade cultural é uma coisa subjectiva e perigosa: se acharmos que somos melhores que os outros então os outros têm o direito de se considerarem melhor que nós, e depois entra-se na selva para ver quem ganha...

Octávio dos Santos disse...

Sou eu melhor do que aqueles que acham que (todas) as mulheres devem ser mutiladas genitalmente? Sim, sou. Sou eu melhor do que aqueles que acham que se deve matar à pedrada mulheres que foram violadas? Sim, sou. E na «selva» já entrámos porque eles querem manter esses «respeitáveis costumes»... e nós não. E a razão está do nosso lado. Ponto final.