sexta-feira, 3 de julho de 2009

Aliança Luso-Britânica: um benefício mútuo




"Quando somos aliados de alguém, tal pressupõe uma série de vantagens, obrigações e deveres de entreajuda e respeito mutuo. Isso tem acontecido desde que ela foi assinada em 1373? "

Esta é uma questão pertinente que no post anterior o Daniel deixa à reflexão de todos. O seu texto põe claramente em causa os resultados práticos da Aliança Luso-Britânica, mas esta terá inevitavelmente de ser analisada ao longo dos séculos de vigência. Assim e sucintamente, destacaria alguns pontos fundamentais:

1. Numa aliança entre Estados não existem por regra, motivos de índole sentimental ou filantrópica. O interesse prevalece e a aliança luso-inglesa serviu no seu início, como enquadramento de ambos os países no campo mais vasto do conflito que ocorria na Europa ocidental e que ficou conhecido como a Guerra dos Cem Anos. Dois países inevitavelmente marítimos, dada a exiguidade territorial e a situação geográfica, Portugal e a Inglaterra enfrentavam duas potências continentais, a França e uma Castela que já ambicionava unificar a Península sob a sua égide. Não podemos alhear-nos do espírito da época, onde as questões sucessórias faziam parte da chamada "grande política" internacional. Durante a Guerra da Independência, a aliança serviu plenamente os interesses portugueses, até porque não existia um desequilíbrio muito marcado entre os dois signatários. Uma população escassa que se via obrigada a encontrar nas actividades marítimas o seu sustento e a defesa da integridade política, tornou possível - senão inevitável -, o mútuo acordo.
2. Durante o período dos Descobrimentos, a Inglaterra enfrentou graves problemas internos, simultaneamente prosseguindo a rivalidade com a França, onde o poder real afirmava-se em detrimento de senhorios feudais, num processo de unificação que ameaçava a política inglesa na zona do Canal da Mancha e Aquitânia. Enquanto isso, Portugal afirmava-se no mar, conquistava posições reconhecidas de jure e de facto pela Santa Sé, a entidade suprema que sancionava a legalidade da posse de novos territórios que entravam agora na órbita de uma Cristandade em expansão. A aliança inglesa secundarizou-se, especialmente num momento em que a coroa portuguesa seguiu a prudente e necessária política de afastamento dos conflitos bélicos na Europa. Há que ter em conta a aproximação de Londres à Península, através do casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, o que tornou o monarca inglês cunhado de D. Manuel I e genro dos Reis Católicos. Temos assim, o perfeito quadro de três potências que se afirmam no mar, sendo uma delas simultaneamente, detentora de um importante património terrestre que a evolução da política interna inglesa em direcção ao protestantismo, tornaria inimiga: Castela.


3. A União Ibérica. O fecho dos portos portugueses ao comércio com as nações do norte, na sua maioria protestantes, selou definitivamente o fracasso da União de coroas entre Portugal e Espanha, pois os interesses portugueses - comerciais, políticos e sobretudo, aqueles que respeitavam ao património ultramarino -, passaram a ser gravemente prejudicados pela política continentalista e imperial de uma Espanha que se tornou inimiga de ingleses, holandeses, nórdicos e franceses. A depredação da nossa esquadra, o assalto às possessões ultramarinas, o fecho dos nossos portos que durante um século tinham fornecido as gentes do Báltico e do Mar do Norte com os apetecidos produtos exóticos africanos e orientais, criaram uma situação que tornou inevitável o regresso à situação anterior a 1580.

4. Restauração da Independência em 1640. Foi a época de ouro da Aliança, especialmente por Portugal significar um ponto de apoio importantíssimo para os ingleses e simultaneamente, a garantia do final sucesso do advento da dinastia de Bragança e da total independência do nosso reino. A luta no mar, o controlo pleno da parte mais substancial do Império, a recuperação do Brasil com a derrota da Holanda e o estabelecimento de um formal suporte diplomático após o casamento Stuart-Bragança, serviu ambos os signatários. Sem a Inglaterra, Portugal possivelmente teria sucumbido diante dos tercios de Madrid e sem Portugal, a Inglaterra não teria encontrado os portos essenciais que apoiaram a construção da sua nova hegemonia e o almejado princípio do equilíbrio continental europeu.

5. O século XVIII. Uma vez mais, a Aliança funcionou num sentido benéfico para ambos os países. Se o tratado de Methuen garantiu a penetração dos lanifícios britânicos em Portugal e tornou bastante clara a prevalência inglesa no nosso país, possibilitou a segurança da soberania nacional no brasil, África e no que restava no oriente. Portugal jamais foi obrigado a participar activamente nos conflitos que devastaram a Europa durante o século - Sucessão da Áustria, da Polónia, Guerra dos Sete Anos, etc - e apenas tivemos uma curta e episódica intervenção durante a chamada Guerra Fantástica, durante a qual a Inglaterra não deixou de assistir as necessidades portuguesas com a segurança da Royal Navy e o envio de competentes chefes militares que reorganizaram o exército português (Conde de Lippe).

6. 1789-1815. Um período longo e difícil, durante o qual Portugal foi obrigado a intervir, devido sobretudo à política absorcionista de Madrid, que inicialmente hostil à revolução, acabou por regressar à órbita francesa. O génio de Napoleão consistiu no principal problema que os ingleses tiveram de enfrentar no Continente e a única possibilidade portuguesa, consistia - como se verificou - na manutenção da Aliança. Significava isto, a manutenção do essencial que era a independência política e com ela, a guarda e garantia do Império. Portugal foi de facto um aliado fiável a partir de 1808, embora no período imediatamente anterior, tivesse sido obrigado a uma política aparentemente hesitante, dado o esmagador poderio terrestre de uma França que contava ainda com o concurso espanhol em terra - na nossa fronteira - e no mar (a terceira frota a nível mundial).

É certo que nesta época, já a Aliança não podia ser encarada num pé de igualdade, dada a enorme distância que separava Portugal de uma Inglaterra que vivia o pleno arranque da 1ª Revolução Industrial e cuja frota dominava todos os mares, quantitativa e qualitativamente. Na época, a Inglaterra já era de facto uma potência global, numa escala que apenas poderá ser comparada aos EUA dos nossos dias.

7. 1815. Contra todas as probabilidades, Portugal sentou-se na Grande Mesa do Congresso de Viena, com uma categoria que a posse do Brasil lhe garantia. A transferência da Corte para o Rio, sob os auspícios e protecção dos ingleses; cobertura da política nacional na firme delimitação de umas já muito alargadas fronteiras do Brasil; a vitória total sobre a França, com a plena participação de um reorganizado, numeroso e pujante exército português, são alguns dos aspectos a considerar como essenciais para a natural consagração de uma independência que bem poderia ter sofrido as vicissitudes de outros pequenos Estados retalhados ou anexados por mais poderosos vizinhos. A Aliança serviu-nos plenamente e a contento de ambas as partes.

8. O Ultimatum. Consiste no sempiterno argumento republicano para atacar a Monarquia Portuguesa. De facto, viviam-se já em pleno as consequências decorrentes do estipulado pelo Congresso de Berlim que como sabemos, estabeleciam o primado da ocupação que firmava a Soberania, em detrimento dos já vagos e materialmente caducos "direitos históricos", que aliás Portugal jamais cumpriria no Brasil (Tratado de Tordesilhas, por exemplo). Neste momento, temos a presença perturbadora do PRP que acicata demagogicamente as gentes urbanas, num sentido claramente radical e de um nacionalismo próprio do século XIX, prenhe das consequências da revolução francesa de 1789 e que transformaria o mapa da Europa com o nascimento de Estados unificados. Uma vez mais pesou a ameaça da União Ibérica, artificiosamente gizada em Madrid e que pretendeu aliciar D. Luís I e D. Fernando II com a hipótese de uma formal "unificação inversa", com um protagonismo dinástico português que muito mal disfarçava o evidente beneficiário final: a Espanha.
A política partidária sofria a pressão de uma exaltada - embora muito minoritária - opinião pública, ciosa de prerrogativas, mas totalmente irrealista quanto às reais possibilidades do firmar da soberania nacional sobre vastíssimos territórios em África (o Mapa Cor de Rosa). A prudente política de D. Carlos I que muito bem via na Inglaterra a exclusiva garantia da manutenção de um Império certamente mais reduzido - e que acabou por se tornar no 3º mais vasto Império colonial europeu -, reencaminhou Portugal no sentido da Aliança que antes de tudo, servia para manter em "mãos amigas da Inglaterra", preciosos territórios que pela vastidão e situação geográfica, inevitavelmente eram pretendidos por alemães e franceses. Paradoxalmente, o fracasso dos sonhos de Barros Gomes, acabou por permitir o importante conjunto territorial que hoje forma os PALOP. Neste aspecto, há que reconhecer o essencial papel desempenhado pelo rei. É uma verdade histórica que se torna hoje impossível menosprezar.

9. As Guerras Mundiais. Se a IGM parece ter apenas servido para um muito desejado reconhecimento internacional de uma república portuguesa bastante desprestigiada pelos acontecimentos de 1908, 1910 e consequentes conturbados anos de violência, cerceamento de liberdades e garantias constitucionais e ruína económica, há que reconhecer que uma vez mais, a colocação de Portugal ao lado da Inglaterra, acabou por consagrar por algum tempo, a intangibilidade do património colonial. Isto, apesar da estrondosa e inapelável derrota da república em todas as frentes de batalha.

A II GM demonstrou uma vez mais, o pleno benefício mútuo de uma Aliança que desta vez, jamais pretendeu exigir de Portugal qualquer sacrifício de sangue. A neutralidade serviu para manter aberta uma preciosa via de comunicação marítima que ligava a Grã-Bretanha ao Ultramar, EUA e sobretudo, à crucial frente mediterrânica, essencial para a manutenção do esforço de guerra britânico. Portugal não foi invadido e arrastou a Espanha para uma neutralidade que em última análise, impediu uma vitória total do Eixo no Atlântico.

Nestas curtas linhas e de forma muito simplista, é esta a visão a reter da Aliança luso-britânica. Portugal é independente, não existe qualquer potência hegemónica no continente europeu e mais importante que tudo, temos hoje uma importante CPLP, facto histórico e bem real que pode ser considerado quase como um milagre na política internacional, dada a reduzidíssima dimensão territorial, política e económica da chamada pátria-mãe.

Como nota final, creio que o Daniel deve ter sido bastante influenciado pela Aliança Peninsular de António Sardinha, obra muito interessante mas totalmente desfasada das realidades que então e agora condicionam a política externa portuguesa. Termino com aquela frase usada por D. Carlos para enquadrar a actividade do Ministério dos Negócios Estrangeiros:

"Podemos estar de mal com todo o mundo, menos com a Inglaterra e o Brasil".

Hoje, o grande rei a isto acrescentaria os Estados Unidos e os países da CPLP.

15 comentários:

Daniel Nunes Mateus disse...

Está lançada a discussão :) Não deixa de ser um assunto pertinente para reflectir-se.

Nuno Castelo-Branco disse...

Bom, já fiz algumas correcções ao texto. Muito mais há para dizer, mas são estas as linhas gerais que pretendia expor.

José Lopes da Silva disse...

Com o devido respeito, parece-me uma omissão grave a ocupação prolongada do território português por autênticas forças de ocupação entre a saída de Massena e 1820.

João Távora disse...

Penso que o Nuno elaborou aqui uma boa réplica. Mas sinceramente, acho que nos devemos concentrar no confronto com o republicanismo, que é esse o único objectivo do nosso projecto: quem não conhece deverá ler o nosso manifesto. De resto, como sabemos, há muitas mais coisas que nos dividem do que as nos unem. Por isso temos que ser pragmáticos.

Com amizade, subscrevo-me

Cartas de Londres disse...

Caro Nuno Castelo-Branco:
Felicito-o por este seu contributo +devidamente contextualizado.

Member Executive Cttee.
Anglo-Portuguese Society, London/UK

Daniel Nunes Mateus disse...

Devemos ser pragmáticos. Mas, a meu ver, não deixa de estar relacionado com o confronto ao republicanismo. Eu penso que para o leitor comum, um certo encruzilhar de assuntos, numa ligação passado/presente, eleva a discussão, a um nivel que a Republica não tem. Este assunto a que me referi, tem a sua polémica, pois, mexe com a identidade nacional.
E é de lembrar, que, no confronto com o Republicanismo o Ultimatum, está na ordem do dia, o que leva a aliança luso-britanica. Isto, porque a apologia republicana usa o Ultimatum, como ferimento no orgulho nacional, que, levou ao apoio em massas a Republica. E por isso, o Nuno fez uma exelente sintese, que é esclarecedora. Assim, ao escrever apenas o meu ponto de vista, lancei para a discussão um assunto, que, torna-se pertinente. Nem que seja para a compreensão do passado recente de Portugal.

Nuno Castelo-Branco disse...

Caros amigos,
Sinceramente não penso que este breve resumo tenha algo de novo e é apenas isso: uma súmula das linhas mestras que traçaram a política externa portuguesa,devido à necessidade óbvia de garantir a independência.

O José Lopes da Silva frisou muito bem o desagradável "período de ocupação" entre o fim das invasões e a revolução de 1820. No entanto, creio que as fraquezas ou melhor, as aparentes faltas de consideração pela Aliança, não podem unicamente ser imputadas aos ingleses. Nós, portugueses, continuamos na nossa velhíssima tradição do "deixa andar" e é sempre bom termos algo ou alguém que zele pela nossa vidinha. Assim foi após Alcácer Quibir, em 1810 e com o estado Novo. Uma das aliciantes da adesão à CEE foi uma variante do mesmo baú de promessas tranquilizadoras. E o que dizer da forma como olhamos para o Estado?

João Távora disse...

Muito gosto em a ter por cá Cartas de Londres! :-)

Carou disse...

"É certo que nesta época, já a Aliança não podia ser encarada num pé de igualdade, dada a enorme distância que separava Portugal de uma Inglaterra que vivia o pleno arranque da 1ª Revolução Industrial e cuja frota dominava todos os mares, quantitativa e qualitativamente. Na época, a Inglaterra já era de facto uma potência global, numa escala que apenas poderá ser comparada aos EUA dos nossos dias."
Pois foi o começo do desiquilibrio, da Aliança...
"A transferência da Corte para o Rio, sob os auspícios e protecção dos ingleses..."???
"...pujante exército português..."???
"...mas totalmente irrealista quanto às reais possibilidades do firmar da soberania nacional sobre vastíssimos territórios em África (o Mapa Cor de Rosa)"... Read More
Mas o irrealismo inglês,que se opunha ao português, de unir o Cairo ao Cabo, não é o mesmo?
"A prudente política de D. Carlos I" subjugação... "que muito bem via na Inglaterra a exclusiva garantia da manutenção de um Império certamente mais reduzido - e que acabou por se tornar no 3º mais vasto Império colonial europeu..."
"Neste aspecto, há que reconhecer o essencial papel desempenhado pelo rei." Que provocou a revolta popular, dando força aos repúblicanos, e provocando a queda da monarquia.
" A II GM demonstrou uma vez mais, o pleno benefício mútuo de uma Aliança que desta vez, jamais pretendeu exigir de Portugal qualquer sacrifício de sangue." Que irónico..., não EXIGIU...???
Mas, os Açores, estiveram quase para ser invadidos,pelos ingleses ou americanos, sem que tivessemos nada a dizer...
E foi a persuasão de Salazar, que evitou essa consumação.... Read More
"Portugal não foi invadido e arrastou a Espanha para uma neutralidade que em última análise, impediu uma vitória total do Eixo no Atlântico." Isso é muito polémico...
Nós não fomos invadidos por uma série de razões...
1. Salazar fez uma politica ambivalente.
2. Franco declarou-se aliado de Hitler, mas incapaz de participar no esforço de guerra, pois tinha o país arrazado pela guerra civil. E declarou que Portugal estava controlado.
3. Que interesse tinha Hitler, em invadir um território tão pequeno, consumindo meios e deslocando homens...?
"...o grande rei..." Só se for no apêndice abdominal e na basófia, pois foi por ali que a corda partiu, pelo lado mais fraco...
Fracos reis, fraca nação...

Nuno Castelo-Branco disse...

Caro Carou.

Não deixei de ler com atenção o seu comentário e assim, aqui lhe deixo uma sucinta resposta:

1. De facto, se se der ao trablaho de consultar as fontes, verificará que o governo britânico instou fortemente junto do Príncipe Regente, para que a sede da monarquia se deslocasse para o Rio. Mais, a esquadra real saiu das águas nacionais devidamente protegida pela Royal Navy. Esta é a verdade.

2. Pujante exército português. Sim, é uma verdade tão clara, como o testemunho do seu próprio comandante-em-chefe, nada mais nada menos que o próprio duque de Wellington, para nem sequer referirmos a generalidade do oficialato inglês destacado para a Guerra Peninsular. Numeroso, aguerrido e bem treinado, o nosso exército foi fundamental e apenas não participou em Waterloo - como Wellington quis -, porque a rapidez de movimento do grande militar que foi Napoleão, não permitiu o moroso embarque em Lisboa. Informe-se.

Nuno Castelo-Branco disse...

3. O Carou não entendeu o que quis dizer com realista. É que para um Portugal de tão escassos meios demográficos e financeiros e onde a iniciativa priovada em tudo desde sempre se escorou no Estado, era uma pura fantasia a aventura Mapa Cor de Rosa, cuja cor idílica até correspondia plenamente aos delírios megalómanos dos republicanos. Quanto à Inglaterra, era nada mais senão a potência mundial, dominante no além-mar e de cuja boa vontade todas as demais dependiam se quisessem ter territórios ultramarinos. O caso de Fachoda é eloquente e a "grande França", tendo já oficialmente ocupado o vale do Nilo (Sudão), teve de recuar apressadamente, arriando a bandeira e retirando a tropa. Mil vezes mais humilhante que o "nosso Ultimato", mas em Paris não existiam traidores ao interesse nacional. Aqui foi o que se viu. O projecto gaulês de criar uma espécie de Mapa Cor de Rosa que unisse Dacar ao Djibuti, ruiu fragorosamente, mesmo respeitando o estipulado no Congresso de Berlim. Em suma, uma vergonha para Paris. E era a França a segunda potência continental europeia e possuía a segunda frota mundial. Viu-se!

4. A questão da IIGM. De facto, a Inglaterra não exigiu que cumpríssemos a Aliança, no sentido de activa participação no conflito. Coisa que aliás, a 2ª república não tencionava - e bem - fazer, dada a manifesta ausência de qualquer possibilidade de sucesso. Como sabe, o facto da Kriegsmarine não ter podido obter os tais portos a sul de que tanto necessitava para fechar o Atlântico Norte, consistiu num importante revés para a batalha alemã neste oceano. para não falarmos do que teria representado a chegada dos panzer a Gibraltar, a perda do mediterrâneo, a queda do Egipto e dos recursos petrolíferos do Médio Oriente. Lembre-se do golpe de Rachid Ali no Iraque (q1941), da deposição do Xá Reza I no Irão e da imediata reacção inglesa, bem consciente do que representava o mediterrâneo para o esforço de guerra e qualquer possibilidade de vitória final. A neutralidade da península foi fundamental e neste aspecto, temos de reconhecer a utilidade da acção diplomática que Londres desenvolveu em Madrid, através do governo português.
A polítia de Salazar foi ambivalente, porque não podia haver outra, dado o desastroso estado de impreparação do Reino Unido para um conflito com a Alemanha. O que queria que fiosse feito? Alinhar com o Reich e perder as colónias em duas semanas, ou alinhar com a Inglaterra logo em 1939-40, sermos invadidos pelos espanhóis - cuja Falange estava ansiosa pela união ibérica -, ocupados e termos servido de carne para canhão num futuro (?) e bastante problemático desembarque anglo-americano? Teria valido a pena?
Quanto a Franco, sabemos que a sua prosápia servia apenas para a propaganda interna e se não entrou na guerra logo após a queda da França (1940), tal se deveu a um conjunto de circunstâncias que o impeliram para os braços da "tia Prudência": as derrotas dos italianos na Líbia, o desastre italiano na Grécia, a resistência de Malta, a perdida Batalha da Inglaterra, o Cabo Matapan, etc. Há ainda que atender ao facto - contabilidade de mercearia, se assim quiser ver as coisas - dos ingleses terem feito ver a Madrid, a possibilidade de abastecimento da Espanha com bens de primeira necessidade, no caso de manter uma certa neutralidade. Já ouviu falar dos "navicerts" que a Inglaterra nos concedia, assim como por extensão, à Espanha de Franco? Muito importante. A ideologia é sempre uma bela coisa, mas pouco pode face ao "roncar das barrigas"!

Nuno Castelo-Branco disse...

Quanto à pequenez teritorial de Portugal, eis a lista de países mais pequenos e muito menos importantes que o Fuehrer invadiu: Bélgica, Luxemburgo, Dinamarca, Noruega, Grécia, países bálticos; ocupação da Holanda (cujo império colonial era tão importante quanto o nosso); e aqueles outros que sendo aliados, tinham uma forte presença militar alemã: Croácia, Hungria, Roménia, Bulgária, Eslováquia.
A importância de Portugal era estratégica para as linhas de comunicações, essas sim vitais para um país que dependia do mar para viver: a Inglaterra. Já lord Palmerston dizia que Lisboa tinha de ser sempre um porto amigo dos ingleses e sabemos bem porquê. Após a II GM, tal lógica foi determinante para incluir Portugal na NATO. Imagina uma base russa no estuário do Tejo durante a Guerra Fria? Percebe-se então o "fechar de olhos" perante o regime de Franco e até podemos comparar hoje a Espanha herdeira do fascismo, com a totalidade dos países de leste, herdeiros do leninismo. Palavras para quê?

5. Quanto à questão de Sua Majestade D. Carlos. Enfim, aqui está o costumeiro desprezo de quem não lê para se informar. A totalidade dos historiadores nossos contemporâneos, não se preocupam minimmente com a propaganda, mas sim com a científica análise dos factos que derivam do estudo da documentação e do que se passou num determinado momento. Assim, é escusado referir-se ao Grande Rei como um mero apêndice abdominal, assim como será absolutamente injusto referir-se a Mário Soares, por exemplo, da mesma forma. Além de injusto, torna-se simplesmente indecente. A memória de D. Carlos está mais que reabilitada e só o que se passou após o seu assassinato que dentro de um ano o actual regime comemorará - pois é disso mesmo que se trata, única e exclusivamente - , justificaria por si, esta plena consciência do que representou a sua imensa vontade de mudar os ..."males que de longe vêm"..., tal como o rei costumava dizer.

Fracos reis, fraca nação, de facto. Uma fraca nação de 10 milhões que na História conseguiu alçar a sua língua à categoria de terceira europeia, levando-a À América do Sul, África e Ásia, espalhando-a de tal forma que a torna a par do inglês, naquela que mais presente está no mundo. Fracos reis, esses, que contra todas as probabilidades e expectativas, conseguiram garantir a independência nacional e legar praticamente intacto e consolidado, o importante património ultramarino que hoje forma a CPLP e que é complementado com o desejo de ingresso de países que não sendo de língua portuguesa, querem partilhar um espaço onde a história permitiu contactos que deixaram marca: Guiné Equatorial, Senegal e Indonésia. Se melhor não se fez naquele essencial período que mostrava inevitabilidade da emancipação ultramarina - como a monarquia o soube fazer quanto ao Brasil -, tal se deve aos erros do exacerbado "nacionalismo", cujo mortal bacilo foi incutido pelos republicanos e foi habilmente aproveitado pelos seus sucessores da 2ª república. É o que a história diz e comprova, sem sofismas.

É assim que se pode resumir em poucas frases, o conceito que os monárquicos têm do patriotismo.

Mas tem razão num ponto, se simplesmente modificar as palavras: fraco regime, fraca nação.

A "vergonha de ser português" é ditada pelo exemplo que de cima vem. Ouça todos os dias o telejornal e isso bastará para ter essa certeza que está nas suas mãos conjurar. É o que aqui fazemos.

Pedro Porto disse...

Portugal recebeu mais do que deu com a Aliança. Desde logo porque ela foi útil nos três momentos em que o país de bateu pela independência.

Inclusive no caso da Índia e da África Oriental, o pouco que estivemos em condições de preservar fizemo-lo com o apoio britânico, ao contrário do enfoque reverso que predomina na opinião escrita sobre estes temas.

É também habitual culpar os ingleses pelos nossos fracassos a partir do século 19. Nada mais errado. Trata-se afinal de um traço psicológico muito português, este de tentar encontrar nos outros justificação para as faltas próprias.

Porque haveriam os inglezes de cuidar de nós nos últimos 150 anos se nós próprios não o fizemos?

Nuno Castelo-Branco disse...

Pedro Porto:

Quando chegarem ao fim os famosos "Fundos Comunitários", dir-se-á exactamente o mesmo em relação à UE. Espere e verá.

Daniel Nunes Mateus disse...

Tenho reflectido neste assunto, graças ao bom texto do Nuno. Em parte, apenas a minha opinião escrita, não é mais, do que muitas vezes a visão que circula na sociedade. E penso que a apologia republicana aproveita-se muito do "ultimatum" e desta temática para a sua propaganda. Por isso, cabe-nos a nós o esclarecimento e a definição correcta dos termos. Para muitos pode parecer um assunto trivial, mas, são estes promenores a meu ver que faz a diferença para a eficaçia dos objectivos. Mas isto é o que penso