segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Uma Carta para o arraial do barrete frígio, por MAnuel Alves

"Sob o título "Aos Republicanos", o historiador João Medina publicou em 2006 no Jornal de Letras, uma Carta que julgo deve merecer a atenção de todos os que, como eu, entendem que a Instituição Real é a que melhor pode servir na Suprema Magistratura de um Estado verdadeiramente republicano e português.

Pedindo perdão aos seus "compatriotas de barrete frígio", João Medina vem dizer "com franqueza e sem quaisquer intuitos de desafio ou provocação, a dois anos do centenário da data da implantação da I República", "em termos simples, cordatos e benévolos": "... não creio que valha a pena preparar, oficialmente, ou mesmo em meios académicos, a celebração dum mau defunto que foi esse regime de década e meia de vigência atarantada, e que, bem feitas as contas, teve nada menos do que 47 governos que a desgovernaram por trancos e barrancos (...) de atribuladíssima e caótica duração, com muitas bernardas castrenses de permeio, sedições várias, tumultos constantes e quase sempre mais ou menos sangrentos, de atropelos à legalidade e ditaduras disfarçadas ou às escancaras, sem falar da Ditadura das Urnas, com o 'partido democrático' do dr. Afonso Costa (aquele homem de Direito que foi uma vez ao Porto, em 1902, com uma soqueira, para agredir à traição o Sampaio Bruno), mais uma participação em tudo funesta e catastrófica nos conflitos europeu e africano, e, por fim, uma degola que nos privou da Liberdade, com certa lógica fatal depois de tanta bagunça, desassossego, insensatez política e falta de implementação mínima dum regime sério de Cidadania, Educação generalizada ou Progresso material, porquanto nem se educou o povo, nem se fez de cada português um cidadão livre, nem se melhorou a vida dos portugueses".

A concluir, João Medina lança aos correligionários algumas perguntas: "Em 2010 vamos, em suma, celebrar o quê? O começo dum erro imenso e desastroso para o país que somos? A nova versão da comédia offenbaquiana da monarquia constitucional, agora em versão sanguinolenta? (...) Não seria melhor, em vez de celebrarmos o 5 de Outubro, rezarmos-lhe um responso (laico) pela pobre alma penada que ele foi? Antes isso do que comemorar uma República sem epublicanos, como a nossa é."

Fazemos nossas as palavras citadas do seu balanço da I República, mas acrescentamos ao desalento das suas interrogações finais: se o que é nefasto não se celebra, pode no entanto ser comemorado com a História diante dos olhos, como aliás o historiador, o ensaísta, e Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, acaba de fazer nos trechos que escolhi desta Carta. Como deixou escrito D. Jerónimo Osório, nas vésperas do nefasto 1580, "A História é proveitosa para adquirir prudência, poderosa para despertar virtudes, saudável para sanear as feridas da República".

domingo, 7 de setembro de 2008

A república no seu melhor (4)

Entre 15 de Outubro de 1910 e 19 de Junho de 1911, a bandeira nacional foi alvo de acérrima contenda entre os republicanos, a chamada “Polémica das Bandeiras”. Para os revolucionários, por forma a marcar a mudança de regime, urgia mudar o mais importante símbolo nacional. Então estiveram em confronto a facção moderada representada por Guerra Junqueiro, que defendia a manutenção das cores azul e branca, e a facção radical liderada por Teófilo Braga, que defendia a adopção das cores “verde-rubra” da bandeira do Partido Republicano como nova bandeira nacional. Sobre a escolha triunfante é conhecida a opinião do poeta republicano que afirmou sem rodeios ser “uma bandeira de pretos”.

Imagem: a caricatura dos protagonistas da disputa Guerra Junqueiro e Teófilo Braga.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Agora tal como antes ...

Há cem anos, a 3 de Novembro de 1910, Afonso Costa, recém-nomeado ministro da Justiça da jovem República Portuguesa, apresentou a primeira Lei do Divórcio, completada por outras a 25 de Dezembro (que não era Natal, mas "Festa da Família Portuguesa" por decreto da presidência do Governo Provisório de 12 de Outubro). Na altura governava uma pequena elite urbana que se sentia dona do futuro e impunha as suas teorias à massa ignara. O resultado dessa governação foi a maior catástrofe social e económica do Portugal moderno.

João César das Neves
in Diàrio de Notícias, 1/9/2008

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Carta de José Lobo de Vasconcelos a D.Manuel II


Azedo Gneco


El Rei D.Manuel II consciente de que com os partidos rotativos não era possível construir um governo estável que reflectisse os desejos do povo entra em conversações com o Partido Socialista de Azedo Gneco. Fruto e testemunho da "Consciência Social" de El Rei D.Manuel II é esta carta dirigia a El Rei D.Manuel II por José Lobo de Vasconcelos depois de 1910, na resposta de El Rei D.Manuel II vê-se a preocupação do Rei expulso com a sua tão amada Pátria.
Por muito que os republicanos ofendessem a personalidade de D.Manuel II, por muito que a estória escrita com as cores verde e rubra tentasse demonstrar, D.Manuel II era uma pessoa muito mais do que se dizia. Foi o primeiro a ser chamado "Chefe de Estado" e de certeza que foi o mais brilhante de todos os que lhe sucederam ....

Chamei "estória" e não "história"ou seja de forma prejurativa porque a história que se conhecia até à pouco tempo foi fortemente mal contada de propósito pelo regime vencedor de 5 de Outubro. Sempre disseram que D.Manuel II não era um Rei capaz e sem personalidade, era comandado pela sua mãe. Esta é que é a estória, parte da História são as cartas que deixei.

Quem era José Lobo de Vasconcelos ?

  • General de Artilharia
  • Ajudante de Campo dos reis D. Carlos e D. Manuel II


  • Fontes : Dossier Regicídio, de Mendo Castro Henriques

    sábado, 16 de agosto de 2008

    A república no seu melhor (3)

    José Maria, António e Alberto Eça de Queiroz, filhos do grande romancista português tomaram parte nas incursões monárquicas de Paiva Couceiro e envolveram-se na monarquia do Norte. Como resultado, a viúva D. Emília de Castro Pamplona perdeu o direito à pensão devida pela carreira diplomática do seu marido.

    Imagem daqui, com a devida vénia ao Afonso Reis Cabral. Da esquerda para a direita: Alberto; António; José Maria; Maria; e a viúva Emília Eça de Queiroz.
    Reeditado

    quarta-feira, 13 de agosto de 2008

    A república no seu melhor (2)

    Na fotografia (daqui), a moderníssima Av. Rainha D. Amélia em 1908. Após a revolução de 5 de Outubro a conhecida artéria Lisboeta foi renomeada Almirante Reis.

    sexta-feira, 8 de agosto de 2008


    O antigo presidente do PSD decidiu não permitir  nas imediações do espaço aéreo vizinho da Vivenda Mariani, a passagem de qualquer tipo de aeroplano que incomode sua excelência. Os portugueses já há muito se habituaram ao despautério dos carros topo de gama que abrem caminho à força pelas ruas de Lisboa, precedidos de estridentes sirenes de batedores policiais.

     

    Já todos nos acostumámos a ter que esperar longos momentos dentro dos aviões acabados de aterrar, pacientemente resignando-nos às delongas deste ou daquele ministro que se demora na primeira classe, alheando-se completamente dos "passageiros vulgo" que pagam os seus bilhetes, mas que não podem sair antes da alta autoridade o fazer.

     

    Também se tornou rotina a abusiva utilização de viaturas do Estado - nossas, estas sim, de todos os portugueses -, para fins partidários ou lúdicos.

     

    O consumidor de uma dotação 16 milhões Euro/ano, não está com meias medidas e assim, prejudica as empresas de publicidade, corta cerce os voos  particulares que enxameiam os céus do Algarve e não se importa minimamente com este evidente sinal de desdém e prepotência. É isto, a república e quem a quer, que a pague.

     

    Como sugestão, sugerimos às dezenas de assessores belenzeiros, que influenciem para a construção de uma bateria de mísseis Patriot nas imediações da Vivenda Mariani, ou pelo menos, que recorram a uns antigos mas comprovadamente eficazes88mm A.A.


    sexta-feira, 1 de agosto de 2008

    A crise republicana

    A guerra surda entre a república (unitária) e as autonomias regionais produziu ontem mais um episódio insólito – numa inesperada comunicação ao país Cavaco Silva queixou-se do novo estatuto dos Açores (aprovado por unanimidade) alegando que lhe estavam a reduzir os poderes presidenciais.
    Foi rápidamente secundado pelos partidos e personagens do costume e com as cambiantes conhecidas: - em romagem de saudade comunistas e centristas vieram em seu auxílio; no PSD fez-se um silêncio religioso; Sócrates pôs água na fervura; e o Bloco disfarçou com coisas mais importantes!
    Porém não adianta desvalorizar o assunto pois estamos a falar do regime e da sua incapacidade para lidar com as autonomias regionais. Agora já não é o Governo que está no centro do conflito, é o próprio órgão Presidente da República que se ergue como força de bloqueio ao aprofundamento da autonomia e ao desenvolvimento regional!
    Para um açoreano médio Cavaco Silva é a partir deste momento um ‘inimigo’ dos Açores! E pela mesma bitola serão julgados os partidos que alinharem com o Presidente da República nas restrições à autonomia do arquipélago.
    E tudo isto com eleições à porta!
    ‘Os dados estão (assim) lançados’ e não foi por acaso que esta semana o ideólogo do regime (o ex-Vital comunista) se empenhava tanto em lembrar a quinta república francesa, uma espécie de visão de um presidencialismo redentor!
    Mas que o caso é grave, é sim senhor.
    Talvez seja o fim do Interregno…

    segunda-feira, 21 de julho de 2008

    O Kaiser, D. Carlos I e os socialistas




    A propósito do post no Combustões Kaisermania, seria muito interessante conhecermos as famosas cartas trocadas antes e depois do Regicídio, entre o Paço das Necessidades e o Partido Socialista de Azedo Gneco.  Após o 5 de Outubro, foram utilizadas pelos novos ditadores do regime, para a liquidação das veleidades do PS em ir caminhando em direcção á participação no poder. Parece que esses contactos visavam o reordenamento do espectro partidário constitucional, criando verdadeiras alternativas e assim, teríamos no futuro, os Regeneradores-Liberais e os Socialistas. O prp dinamitou a possibilidade. Conhecemos o resultado: violenta repressão sindical, esmagamento do "populacho" nos cadernos eleitorais, liquidação da imprensa independente, coacção física e moral da oposição. O socialismo português - que nada tem em comum com aquilo que hoje vemos - ficou para sempre remetido à simples recordação de uma hipótese perdida. Na Alemanha, o SPD conseguiu mais, muito mais, assim como na generalidade dos países do norte da Europa. Aqui, contentámos-nos com as cartolas e os fraques do Costa e do Bernardino.

     

    *Na imagem, o Kaiser  Wilhelm II com D. Carlos I e a rainha D. Amélia (Lisboa, Março de 1905)


    quinta-feira, 17 de julho de 2008

    A república no seu melhor (1)


    Entre Outubro e Dezembro de 1910, Afonso Costa, ministro da Justiça e dos Cultos do Governo Provisório, aboliu os feriados católicos excepto o Natal, que passou a chamar-se Dia da Família. Enquanto se substituía afanosamente a ancestral toponímia das cidades com a nova nomenclatura República Cândido dos Reis, Elias Garcia e demais revolucionários, estalou uma polémica com o inconcebível bolo-rei, que passou a chamar-se "democraticamente" bolo-nacional.
    Na imagem caricatura do Thalassa parodia a censura à imprensa promovida por Afonso Costa. Saiba tudo visitando a Plataforma do Centenário.

    Frases antigas sempre actuais

    Na pesquisa que tenho vindo a efectuar para a Plataforma do Centenário deparo-me às vezes com frases de uma espantosa actualidade

    Para certos republicanos a Republica tem sido um pé de cabra com que vêem aumentando os seus haveres.

    (Boletim parlamentar do Senado Sessão de 11 junho de 1913).
    João de Freitas (Senador—Republicano Histórico).

    segunda-feira, 14 de julho de 2008

    Presos Políticos na I República

    É com prazer que inicio o meu contributo neste blog e também na Plataforma do Centenário da República, anunciando que já se encontra disponível a primeira página relativa aos presos políticos, cuja secção será actualizada ao longo dos próximos dias com mais informação.

    Restos de família

    Não procurem neste texto a verdade das ciências ou a fé das religiões, escrevo por instinto e para satisfazer algumas necessidades cartesianas – opino, logo existo. Nada mais. Hoje preciso de falar na família, no conceito que herdei, que me dá jeito, e que Sócrates (o primeiro-ministro) também parece defender!
    Foi sem querer, eu sei, serviu apenas para denunciar a opositora, definitivamente enleada na estreiteza do liberalismo.
    Manuela e Sócrates não se distinguem neste aspecto, filhos dilectos de Rousseau, ambos se conjuraram para destruir a família patriarcal, onde a comunhão e a solidariedade estavam presentes para além da procriação. Era conceito inclusivo e abrangente, não tinha que ver com os valores efémeros de cada época, consubstanciava uma realidade duradoura.
    Porém, a miragem do homem anjo, pré-familiar (!), as necessidades (comerciais) de conquista do poder pela burguesia, esvaziaram o conceito e destronaram a família real – exemplo e representação de todas as famílias. E sem representação política a família desfez-se lógicamente.
    Entre os escombros subsistem os restos do antigo agregado mas a confusão está instalada – a (avó) Manuela aprisiona a família na procriação enquanto Sócrates insinua abrangência para a contrariar. Mas não têm (não temos) sorte nenhuma, o mais certo é acabarmos a vida num lar, sem família por perto… sanguínea, ou outra.

    domingo, 13 de julho de 2008

    1808-1908-2008


    «Aberto com a fuga da família real para o Brasil, o século liberal termina com a liquidação física, se não moral, de uma monarquia a quem se fazia pagar, sobretudo, uma fragilidade nacional que era obra da nação inteira»

    (E. Lourenço, O Labirinto da Saudade, cap. 1).

    sábado, 12 de julho de 2008

    a república dos gangs e do porte de arma




    À noite, sento-me muitas vezes diante do computador e faço o clic para um programa de jogos de táctica e de estratégia, com cenários de campanha e outros, menos interessantes, de guerrilha urbana. É um passatempo como outro qualquer e oferece a vantagem de aprender qualquer coisa.

     

    Este fim de semana iniciou-se com um tiroteio como há muito não se via em Portugal. Parecia termos recuado à ominosa 1ª república dos Costas e dos Bernardinos, onde bairros e profissões gostosamente se massacravam a tiro, fazendo do lazer uma escola de partisans para o que o porvir do regime propiciasse. 

     

    Existem centos de milhar de armas "de caça" legalizadas e o governo parece disponível para estudar a hipótese de uma certa liberalização do porte de armas de fogo, ditas de defesa pessoal. Continuo a pensar que as armas devem ser privilégio exclusivo das forças policiais e de defesa da soberania, ou sejam, as forças armadas.

     

    Sou totalmente contra actividades que impliquem a chacina de animais, onde malucos e disfuncionais descarregam variadas frustrações, no abate de seres indefesos e essenciais à preservação do equilíbrio de uma natureza já muito devastada pelo bicho homem. Ilegalizava a caça, pura e simplesmente. Desarmava os pretensos "combatentes das coutadas", esvaziava os arsenais particulares. Cada rusga das forças de segurança, implica a captura de vultuoso material de guerra, onde não faltam metralhadoras ligeiras, espingardas e pistolas militares e por vezes, granadas ofensivas. Não teremos que esperar muito para surgirem os primeiros LOW ou TOW.

     

    Vivemos um período eivado de incertezas. Em cada casa as dificuldades económicas são o reflexo daquilo a que se passa na macro-economia nacional. As mentes andam turvas, o tom do vozear popular atinge já as fronteiras ida insurreição latente. O descrédito das instituições do Estado é total e do primeiro titular dos órgãos de soberania, até ao mais ínfimo subsecretário de Estado, todos são amplamente confundidos numa amalgama de desrespeitoso desprezo, sem que se vislumbre remédio para o mal.

     

    Liberalizem ainda mais o porte de arma. Verão no que dá.


    quinta-feira, 10 de julho de 2008

    História e Teologia

    Dentro de dois anos comemora-se o centenário da revolução de 5 de Outubro, que pela força, implantou o regímen dito “republicano” em Portugal.
    As comemorações de dita efeméride, tal como até agora foram apresentadas, irão se debruçar não sobre aquilo que a 1ª República foi na realidade, mas sim sobre aquilo que os alegados “herdeiros” desse regímen gostariam que tivesse sido.
    Em 2010 vai ser comemorado um regímen que nunca existiu.

    Importa por isso fazer um combate. Um combate pela reposição da verdade e nada mais que a verdade.

    E a verdade combate-se com FACTOS, factos esses prudentemente arrumados no fundo das gavetas da história, pelos “Historiadores” que nos últimos 50 anos escrevem a versão oficial da História, que na realidade nada mais são que teólogos que buscam apenas a confirmação dos seus dogmas.

    Este trabalho de grupo que agora começa a dar os seus primeiros passos, não pretende ser uma obra teológica a qual, contra os dogmas da história republicana, procura contrapor os seus próprios dogmas. Os factos falam por si. Basta contá-los.

    Tal como escreveu Ernest Renan na introdução ao 4º volume da História das origens do cristianismo – O Anti-Cristo […] Porque a história é a análise duma vida que se desenvolve, dum germe que se expande e a teologia é o inverso da própria vida. Atento apenas ao que confirma ou infirma os seus dogmas, o teólogo, até o mais liberal, é sempre, mesmo sem se aperceber, um apologista; o seu fim é defender ou refutar. O historiador não tem por missão senão contar […].

    É norteado por esta visão de Renan, que inicio aqui e na plataforma a minha colaboração, tal como tenho vindo a fazer desde há três anos e meio no meu blogue Cartas Portuguesas.

    terça-feira, 8 de julho de 2008

    A condição feminina e a república


    Sabia que, com o advento da república o direito de voto das mulheres foi restringido relativamente à lei do deposto liberalismo? Sobre o assunto encontra-se muito mais no site Centenário da República.

    Na imagem: convite para a sessão inaugural da assembleia constituinte onde se pode ler: “Admissão para Homem”.

    O Marabuntismo


    Consta por aí, que o chefe do Estado promulgou uma controversa lei proposta pela maioria parlamentar, que legaliza em definitivo, a acumulação de reformas de detentores de cargos públicos. Assim, quem tenha sido deputado, ministro, primeiro-ministro, director de empresa e ..., pode, chegando a "retraite", auferir de um pecúlio em nada desdenhável. Os republicanos sabem como fazer as coisas. Importam-se de nos ensinar?

    Chagas da república: Paris dos prazeres.


    Quando da ocorrência do golpe de Estado de 1910, a Europa vivia os derradeiros momentos da Belle Époque, sem suspeitar que poucos anos depois, todo um mundo desapareceria, vítima da voragem da Grande Guerra. Até ao verão de 1914, as notícias divulgavam o carnet mondain parisiense, as visitas de Estado dos monarcas europeus, o escândalo Calmette-Caillaux e inevitavelmente, a desastrosa situação social, política e económica em Portugal. As correrias nas ruas de Lisboa, as bombas, assassínios e as consecutivas quedas de governos, ofereciam aos leitores interessados, a imagem de toda uma sociedade em conturbada crise identitária, onde uma república fora imposta violentamente pela vontade de associações secretas e de um partido considerado minoritário no arco constitucional português. Com as prisões abarrotando de presos políticos, à Europa chegavam informações de tortura, atropelo aos direitos, ilegalidades e arbitrariedades das autoridades que coagiam uma justiça, que condicionada por grupos de rufiões a soldo dos caciques políticos, desprestigiava os tribunais.

     

    Num cenário de catastrófica anarquia, a imagem que os europeus tinham dePortugal, era negativa, pois ainda estava presente no espírito de muitos, o regicídio de 1908, onde a autoria moral e material dos republicanos, não oferecia dúvidas a ninguém. Curiosamente, a imprensa francesa era uma das mais críticas e virulentas na análise da situação portuguesa, surpreendendo desagradavelmente os incondicionais francófilos do prp que na França viam o modelo a copiar pelo regime instaurado a tiro na Rotunda.

     

    João Chagas é um homem típico da sua época. Medianamente culto, seguidor dos princípios do politicamente correcto do quotidiano, enfastiava-se facilmente quando era obrigado a prescindir dos círculos aristocráticos ou da alta burguesia parisiense que assiduamente frequentava. Os seus diários são eloquentes quanto ao turbilhão social em que mergulhou durante a sua estadia na capital francesa. Festas, bailes, chás, jogos de sociedade, beija mãos a condessas e princesas, ou tráfico de influências junto ao poder político e da imprensa. Pouco nos diz acerca da sua visão - segundo um programa criteriosamente estabelecido - de um Portugal que pretende inserir-se no século XX das maravilhas técnicas, do progresso social e da liberdade. Não. Entre 1914 e 1921, escreve centenas de entradas que relatam a sua preocupação pelas aparências, as suas dogmáticas e sebastianistas certezas na etérea visão de uma república que é república formalmente e apenas isso. Espanta-se pela revolta latente em Portugal, indigna-se pela pressão das hostes monárquicas e corrobora na necessidade de perseguição às vozes discordantes da situação. Parece que se esquecera dos trinta anos que antecederam o 5 de Outubro, durante os quais o seu partido de tudo se serviu para destruir o regime constitucional - um dos mais livres da época - legalmente estabelecido.

     

    O que se torna paradoxal nesta obra, consiste na falta de um projecto, na perfeita inconsciência da realidade, negativa para todos, em que Portugal se encontrava. A sua exclusiva preocupação, resumia-se a uma indisfarçável vanglória, na ânsia de se ver equiparado aos seus colegas diplomatas das potências europeias e, claro está, numa furiosa e constante diatribe contra os seus correligionários do regime, neles vendo a causa do insucesso da sua mirífica ilusão de uma república restauradora de glórias passadas. O resto do texto, é um longo rol de preconceitos, dichotes, intrigas, boatos e campanhas difamatórias - onde uma vez mais a rainha D. Amélia se torna um alvo apetecível - e, finalmente uma exaustiva e interessante informação acerca das casas da alta sociedade parisiense, onde a gastronomia, o luxo e a trivialidade dosfait-divers senhoriais o impressionaram fortemente.

     

    A opinião que tem do regime dos seus, é má,  pois "...a República...dá-me a impressão de uma desordem que cada vez mais se agrava, em que já há facadas, em que já corre o sangue, e a que eu assisto de longe, com o coração aos pulos, mas de braços cruzados". Entre um jantar de gala onde brilhavam senhoras altas, bem vestidas e ostentando portentosos decotes e uma amena charutada com homens públicos, Chagas encontra palavras de incontornável desprezo relativo aos representantes de nações extra-europeias "... à minha direita uma grande mulata que não sabe uma palavra de francês, mulher do ministro de San Domingos... a pobre mulher acha muito boa la comida del palacio e bebe todos os vinhos que o criado lhe serve". Tudo o mais consiste na enumeração dos convivas para os habituais ágapes, onde pontificavam príncipes, condes, duques e alguns homens do Estado francês, zelando de forma obsessiva a sua aparência, onde o bem vestir era, segundo facilmente se depreende, uma condição incontornável para se ser considerado.

     

    Chagas sente um nítido desdém pela qualidade intelectual e moral dos seus pares e acalentou ódios que duraram até ao fim dos seus dias. António José de Almeida, Brito Camacho, Bernardino Machado, entre muitos outros - afinal o essencial do regime republicano -, são crismados com epítetos que fazem empalidecer aqueles outrora outorgados à classe política da monarquia. De resto, a imprensa francesa não lhe dá tréguas, relatando detalhadamente as greves, levas de presos, perseguições e abusos de poder em Portugal, o que perturbava a sua ronda pelos bailes do Eliseu, as visitas ao fotógrafo Nadar, as idas ao teatro ou furtivas espreitadelas aos roliços colos das damas do corpo diplomático. Facto espantoso, é a sua surpresa perante o estilhaçar do serviço diplomático português, queixando-se amargamente da falta de contacto com o Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa, do qual raramente recebia notícias ou directivas, dependendo totalmente da imprensa internacional. De facto, o novo regime não podia prescindir dos quadros oriundos do seu predecessor, pois a imensa maioria dos membros do prp, não era gente capaz ou idónea para preencher os requisitos para a normal gestão do Estado, nem se encontrava inserida na vital rede de contactos e relações pessoais da diplomacia internacional. Os jornais estrangeiros são a constante preocupação de Chagas que por todos os meios tenta mitigar a opinião desfavorável que tinham da república, pois o relato das constantes ocorrências em Portugal, destruíam a imagem ideal e propagandeada de um país renovado e aberto ao futuro. Estava em causa, afinal, a sua própria reputação em Paris. No entanto, como o autor expressamente declara, a maioria das publicações trazem "...artigos tremendos contra a República. Em appoio das suas affirmações esses jornaes reproduzem opiniões de republicanos portugueses". A imprensa lisboeta vai divulgando as "tumultuosas e escandalosas sessões na Camara. O senador João de Freitas disse ao Alexandre Braga: v. Exa. é um miserável apache. O Braga não se mostrou sensível à affronta. O João de Menezes pegou-se ao socco com o presidente da Camara. Foi preciso separá-los. Um horror". Estes episódios eram recorrentes e assim, Chagas vai reproduzindo aquilo que a imprensa publica, como os escândalos de corrupção "...a crise (...) provocada pela questão da concessão das águas do Rodam, feita em favor de António Maria da Silva, deputado (...) que chamou canalha a um deputado. Este por sua vez chamou-lhe tolerado (...) as galerias intervieram na contenda e deram morras a Affonso Costa. Nos Passos Perdidos houve bofetões. Toda a gente andava armada" (17 de Junho de 1914). Um mês depois, a 15 de Julho, Chagas escrevia que "...em Portugal novos acontecimentos anormaes de que a imprensa de Paris esta manhã se occupa. Os amigos de António José d'Almeida, reunidos aos anarchistas, promoveram em Lisboa um comício durante o qual se comparou o Affonso Costa ao Diogo Alves e ao José do Telhado. À noite desordens no Rocio. O Café da Brazileira foi assaltado por um grupo (...) aos gritos de - Abaixo a formiga branca! Dispararam-se muitos tiros de revólver. Parte do café ficou em estilhas". Os pequenos compadrios e situações de nepotismo, mereceram inúmeras referências "...o António Bandeira (...) vai (...) occupar finalmente o seu logar de ministro em Berne, que conquistou sem grande esforço. Apenas o trabalho de ser primo do Bernardino Machado". Na necessidade premente de encontrar quadros afectos ao novo regime "... fui eu o primeiro homem que em Portugal lembrou este Teixeira Gomes (...) um pouco poseur (...) e que não se arranjava mal (...) Bernardino Machado (...) não gostou d'elle, por lhe parecer impertinente, ou desrespeitoso. O amor próprio de B. Machado não suporta aparencias altivas (...) como sempre, porém, fez uma tolice e em vez de o collocar em Madrid, onde elle não estaria muito fora do seu logar, no meio um pouco cigano da Hespanha, colocou-o em Londres, onde está inteiramente deplacé. Teixeira Gomes é uma especie de Oscar Wilde, com alguns vícios d'este e sem o seu talento (...) não é feio homem, mas falta-lhe nobreza (...) parece um clown enfarinhado".Brito Camacho é outro dos ódios pessoais de Chagas, chamando-lhe "...estúpido até à torpeza".

     

    Os relatos do seu diário dos primeiros sete meses de 1914, focam genericamente os mesmos temas: a imprensa estrangeira, bastante cáustica em relação ao desvario político, económico e social imposto pelo novo regime em Portugal; a imprensa portuguesa, uma preciosa fonte de informação - e de aflição -, para um diplomata que carecia das mais elementares directivas para a prossecução da defesa dos interesses nacionais em Paris; e uma infinidade de almoços, jantares, visitas a teatros, clubes privados, casas da nobreza, ao palácio presidencial, além de uma vertiginosa agenda de festas bailes, soirées lúdicas e apreciação da moda feminina. A profunda antipatia para com os menos bafejados pela fortuna denota o seu carácter, preocupado em alcandroar-se a um lugar cimeiro, de onde julgava impiedosamente o valor de outrém, disso dependendo a sua apresentação física, os seus gostos, modos e maneira de vestir. João Chagas era um impenitente dandy, mais impressionado pelos roçagantes fru-frús das sedas e rendas das merveilleuses da época, que com aquilo que verdadeiramente interessava: a procura de um rumo e de um projecto paraPortugal. Tal como o regime implantado com o tiroteio na Rotunda, dava mais relevo ao acessório, porque de facto, o essencial desvanecera-se na meramente virtual demagogia dos seus pares. Nunca compreendeu que era parte integrante de um sistema e de uma forma despreocupada e irresponsável de conduzir os destinos de um país. Portugal pagaria bem caro esta incompetência e neste centenário da república, urge desvendar factos que ao longo das décadas foram sendo esquecidos ou habilidosamente adulterados pela propaganda oficial.

     

    (continua).

    segunda-feira, 7 de julho de 2008

    Uma marca de sobriedade

    Foi publicado no Portal do Governo no passado dia 16 de Maio a composição da Comissão Nacional para as comemorações do Centenário da República acordada entre o Chefe do Estado e o Governo. Sob a presidência do Dr. Artur Santos Silva, a comissão integra como vogais executivos a Doutora Fernanda Rolo e o Prof. Doutor João Serra e como vogais o Dr. Francisco Sarsfield Cabral e a Prof. Doutora Raquel Henriques da Silva.
    Com estas nomeações, que serão oportunamente empossadas pelo Sr. Dr. Cavaco Silva, espera-se uma marca moderação e sobriedade para as comemorações oficiais que decorrerão entre 31 de Janeiro e 5 de Outubro de 2010.
    Festejar o regime chancela de quase cem anos de instabilidade politica, incompetência, iletracia e atraso económico, exige de facto bastante comedimento. A Plataforma do Centenário da República tudo fará para colocar um pouco de verdade e esclarecimento na rememoração dos acontecimentos que há quase cem anos condicionaram irremediavelmente o curso da nossa história.

    quinta-feira, 26 de junho de 2008

    A república vista pelos republicanos

    Na noite de 19 foram assassinados em Lisboa, o António Granjo, presidente do conselho, o Machado dos Santos, o Carlos da Maia e outros. O Manuel Coelho preside a um governo, de quem ninguem quer fazer parte. O António José d' Almeida fala em ir-se embora. Os partidos desappareceram. Os chefes, como o António Maria da Silva, a quem tambem quizeram matar, andam escondidos. Em Lisboa, estão trez barcos de guerra e já o corpo diplomatico esboçou o primeiro gesto de uma intervenção, fazendo votos, numa nota ao governo, por que os criminosos sejam punidos. Se aquillo não pára, é como acaba: pela intervenção."

    João Chagas, Diário, entrada de 30 de Outubro (Paris)

    "O Almeida fica. As enormidades, as tolices, os desconchavos que este homem tem dito e escripto! Ninguem no entanto parece dar por isso, pois o seu prestigio cresce! O antigo tribuno da plebe, como elle proprio se intitulava, pede ordem. A ninguem no entanto occorre que elle foi um dos maiores fautores de anarchisação da republica. Ás suas manobras subterraneas, ás suas carbonarias, aos seus pamphletos, aos seus jornaes aggresivos, á sua occa phraseologia revolucionaria deve ella o estado em que se encontra, a braços com o povo que elle desencadeou".

    João Chagas, Diário, entrada de 4 de Novembro (Paris)

    sábado, 21 de junho de 2008

    A verdade do Ultimatum de 1890

    Um dos temas recorrentes dos detractores da Monarquia Constitucional, é invariavelmente, o chamado Ultimatum de britânico de 1890. Apresentam a resolução do conflito, como uma inadmissível cedência perante a prepotência da Pérfida Albion, não procurando uma explicação para a difícil situação criada pela cedência à megalomania da incipiente opinião pública dos cafés e tascas de Lisboa.
    Nos finais do século XIX e apesar do seu apogeu imperial, a Grã-Bretanha, via despontar na cena internacional um perigoso contendor - o Império Alemão -, que mercê da ocupação de um espaço territorial central na Europa e de um arranque industrial sem precedentes, ascendia à condição de grande potência continental com legítimas pretensões à obtenção de um lugar ao sol na partilha colonial. A nova realidade que a abertura de mercados propiciou às sociedades industrializadas na Inglaterra, Alemanha, França ouBélgica, impeliu à criação de uma miríade de sociedades e companhias de índole comercial e colonial, que passaram a encarar o continente negro como uma clara possibilidade de expansão e obtenção de vultosos lucros propiciados pela extracção de matérias-primas e estabelecimento de entrepostos europeus. As próprias inovações tecnológicas - a electricidade, as armas automáticas, os caminhos de ferro ou os avanços da medicina - , aliavam-se ao espírito positivista da época que via o homem branco, como o promotor da civilização de gentes entregues ao primitivismo tribal e a incompreendidas formas de organização social, política e económica.
    No período de consolidação do sistema liberal-parlamentar - aRegeneração -, deu-se em Portugal um relevante arranque na modernização de infra-estruturas que abriu o país às novidades materiais do século. Simultaneamente, entravam também as obras de cariz científico que entusiasmaram leitores de uma geração que ansiava pela restauração do prestígio e poder, obras essas onde o espírito de aventura, o denodo dos valorosos e a consagração de novos heróis, era susceptível de estimular ímpetos que prolongassem uma vez mais no ultramar, o já longínquo destino aberto pela epopeia dos Descobrimentos.
    Após a criação da Sociedade Livre do Congo, Portugal teve a necessidade de negociar com poderes imperiais que almejavam ao rápido estabelecimento de zonas de influência em África e sendo o aliado preferencial da Inglaterra, conseguiu, no difícil jogo de equilíbrio, uma inicial benevolência britânica quanto ao domínio da desembocadura do rio Congo. Sendo este a principal via de penetração na África Central, a pretensão portuguesa - baseada no argumento dos direitos históricos -, foi de imediato contestada por franceses, belgas e alemães que pretendiam a partilha da bacia do Congo em áreas de influência. Os ingleses, pretendendo o reconhecimento internacional dos seus interesses na África do Sul - onde as repúblicas boéres consistiam num permanente ponto de contestação aos desígnios expansionistas de Londres -, viram-se obrigados a contemporizar com os seus concorrentes e deixaram de apoiar as desmedidas pretensões portuguesas ao total domínio da zona. Reagindo, Portugal solicitou a realização de uma conferência internacional - o Congresso de Berlim - que viria afinal, a reconhecer o princípio da ocupação de facto de territórios, em detrimento de direitos históricos jamais formalmente aceites por todos.
    A propósito das possibilidades portuguesas no momento da "corrida a África", Andrade Corvo escrevia: ..."a este propósito parece-nos oportuno - embora seja mal visto para os que sonham com impérios sem limites, não pensando um instante em melhorar o que é realmente nosso, nem na força que é necessária para dominar e defender territórios vastíssimos-, lembrar quanto é perigosa a fantasia, quanto é pouco prudente a pretensão de supormos nossa toda a África Central e Austral, de um a outro mar" (1)... Segundo este ministro, a estratégia portuguesa devia consistir em ..."abrir largamente as portas ao comércio, às actividades de todos os géneros, seja qual for a sua procedência; atrair por todos os meios de sedução a emigração nacional ou estrangeira, europeia ou asiática; varrer todos os monopólios, seja qual for a marca com que se disfarcem, ou os pretextos por que busquem justificar-se; fazer, especialmente, concessões aconselhadas pela prudência, que não tolham em caso algum a livre concorrência; são regras que a razão e a experiência, nossa e estranha, estão aconselhando por numerosos exemplos e prósperos resultados"... Consciente dos perigos decorrentes do envolvimento de Portugal nos complicados e perigosos jogos de alianças na Europa, Andrade Corvosalientava ainda, que ..."as tradições da nossa política e os importantes e valiosos interesses que nos unem à Inglaterra são poderosas razões, para que não deixemos afrouxar os vínculos de aliança que nos unem àquela potência"... e que Portugal, sendo uma potência de segunda ordem, ..."além de bom governo, boa política e boa administração, precisa de boas alianças"..., no nosso caso, o poder marítimo dominante: o Reino Unido.
    Na década de oitenta do século XIX, a generalidade dos políticos e da opinião pública portuguesa, apoiava ansiosamente qualquer projecto que visasse o mitigar a influência britânica e entusiasticamente, passou a ver nos reivindicadores da criação de um novo Brasil em África - o Mapa Cor de Rosa -, os firmes esteios da libertação daquela tutela. Contudo, as forças em confrontos eram ainda poderosamente favoráveis à Inglaterra. Derrotada pelos alemães em 1870-71, a França era uma potência continental que necessitava da Rússia como contraponto à hegemonia militar da aliança germano-austríaca das Potências Centrais, na qual participava ainda a também recentemente unificada Itália. A Royal Navy era ainda o poder marítimo supremo em todos os oceanos do planeta, manifestando uma esmagadora superioridade de efectivos e de argumentos técnicos em presença. Qualquer pretensão de domínio colonial, teria que forçosamente contar com o beneplácito britânico.
    Seguindo alguns indicadores económicos e a nova mas enganadora relação de forças apresentada pelo grande bloco que se constituíra na Europa Central, o ministro Barros Gomes julgou azado o momento, para uma aproximação ao poder continental dominante - a Alemanha -, que manifestava interesse em contestar aos ingleses o seu predomínio em amplas zonas da África Austral. A existência de o sempre latente conflito anglo-boer, seria paraBarros Gomes, outro motivo para aquela aproximação, criando dificuldades às reivindicações britânicas na área e propiciando a possível criação de uma grande colónia portuguesa que servisse de "Estado tampão" entre os poderes imperialistas em disputa. Contudo, o estado de acelerado desenvolvimento e organização das companhias majestáticas britânicas na África do Sul, conduziu ao alinhamento da política do governo britânico com as pretensões daquelas, onde pontificava o aventureiro Cecil Rhodes, talvez o protótipo do empresário aventureiro dos finais do século XIX ao serviço de um desígnio imperial.
    O efervescer e radicalizar dos centros de opinião lisboetas - as sedes partidárias, os cafés do Rossio e a Sociedade de Geografia- , também condicionados pela demagogia do minoritário partido republicano, impeliu o governo à formal apresentação das reivindicações portuguesas sobre o hinterland austral, seguindo-se o envio de ordens para a apressada celebração de tratados com os potentados locais que colocassem amplos territórios sobre nominal soberania portuguesa. Conhecedor da realidade no terreno e do perigo que representava para a Inglaterra o ruir do seu projectoCabo-Cairo - e cerceamento das veleidades independentistas das repúlicas boéres -, o governo britânico reagiu. O Ultimatum de 1890 deixou o país numa situação muito difícil, pois o projecto deAndrade Corvo teria sido susceptível de tranquilizar a posição britânica, obtendo mais vantagens territoriais e até uma prevista ligação fluvial entre Angola e Moçambique. Nos meses imediatos à nota de Londres, o Parlamento rejeitou um acordo que previa essa ligação pelo Zambeze e ainda assim, os britânicos cederam uma parte do planalto de Manica, permanecendo sob soberania portuguesa, amplos territórios que o país custosamente ocuparia, dada a exiguidade de possibilidades demográficas e económicas. O que o Ultimatum deixou a Portugal, consistiu afinal numa extensíssima propriedade imperial, de uma dimensão absolutamente desproporcionada para o real poder de um país que beneficiou de uma situação colonial muito privilegiada, se a compararmos com as rivais Alemanha e Itália. Se à época não aconteceu o definitivo ocaso da aventura ultramarina nacional, tal deveu-se exactamente ao desejo britânico de não entregar importantes parcelas africanas a rivais, mantendo-os assim, na sua esfera de influência. O perigo da perturbação do equilíbrio europeu, a moderação aconselhada pela rainha Vitória e o desejo da obtenção de um modus vivendi com o tradicional aliado português - onde D. Carlos I iniciava o seu reinado -, conduziram directamente à possibilidade das campanhas de ocupação, onde efectivamente,Portugal procedeu a um esforço sem precedentes e perfeitamente consagrado pelo êxito militar que espantou as potências. Não se limitando à zona central de Moçambique, as campanhas de pacificação estenderam-se a Angola e ao Estado da Índia,criando novos sonhos de grandeza numa população urbana que aguardava ansiosamente a chegada das expedições, como uma prova do valor e pujança da Pátria. Foi a época de todas as ilusões e de todas as esperanças. A baixa política, a demagogia infrene e a violência iconoclasta daquele tempo, em breve conduziriam Portugal a uma situação de desesperada anarquia, ruína económica, prepotência partidária e ao século XX que bem conhecemos.

    sexta-feira, 30 de maio de 2008

    O parlamento, vítima da propaganda republicana

    Um dos grandes e mais repetidos equívocos que há sobre o significado e as consequências da propaganda republicana em Portugal (1860-1910) é que esta teria atacado essencialmente a monarquia, querendo preservar grande parte do edifício liberal. Ora, a propaganda republicana fez-se contra todas as instituições do regime: a monarquia, as Cortes (não só a Câmara dos Pares), o sistema judicial, a Universidade, a Igreja estabelecida, etc. As Cortes e, em particular, a Câmara dos Deputados, eram a instituição mais visada pela imprensa republicana, que tudo fez para as desacreditar junto da opinião pública, criando uma percepção generalizada da política parlamentar e dos seus naturais conflitos como uma "nojice" e um "escândalo sedicioso" que impedia a unidade nacional. Essa atitude era necessária para menorizar a ampla liberdade política que se vivia no País, incompatível com a suposta necessidade de uma revolução republicana para a conquistar.

    É isso que explica que, após 1910, as primeiras eleições realizadas pela I República (em 1911) tenham sido o que de mais parecido houve antes de Salazar com umas eleições de partido único: os candidatos eram todos republicanos e uns poucos de socialistas foram convidados a participar. Depois, o partido republicano partiu-se em facções, para grande pena dos saudosos do tempo da propaganda, e criou-se uma ilusão de pluripartidarismo semelhante ao que existia antes de 1910. Nesse cadinho de desiludidos da "unidade republicana" se forjou a esperança numa União Nacional que "varresse" os partidos, como o 28 de Maio de 1926 (todo feito por republicanos), veio a permitir. Os republicanos, afinal, quando lhes coube moldar o País à imagem das suas ilusões, montaram a caricatura que construíram para denegrir a monarquia constitucional e o seu parlamento. Ironias da história.
    [Publicado no L&LP em Julho de 2005.]

    Croniqueta republicana (7): Relvas estrumadas

    Da leitura em diagonal das Memórias Políticas de José Relvas, decidimos retirar mais alguns valiosos contributos para o melhor conhecimento daquilo que foi o regime saído do golpe de 1910, assim como das questíunculas, ódios e irresponsabilidade política e moral dos seus principais dirigentes.
    Sendo Relvas geralmente apontado pelos panegiristas do regime da Demagogia, como uma inatacável personalidade eivada de todo o tipo de qualidades políticas, morais e intelectuais, os seus escritos deverão ser encarados como honestos testemunhos da situação imposta pela violência a um país coagido pela coacção física e propagandista.

    Já na fase pós-sidonista, Relvas parece esquecer-se da feroz luta contra a "ditadura" administrativa de Franco (1906-08) e assim, declara em 1919 ..."como pode o Governo com o actual Parlamento que já não representa a vontade nacional, visto que o País aceitou o meu Ministério, não só sem resistências, mas até com aplauso? Foi por isso que eu fiz na entrevista um apelo ao Parlamento para nobremente votar o princípio da dissolução e uma nova lei eleitoral, elaborada com o consenso dos partidos, deixando entrever que se a vida do executivo ainda fosse possível com as actuais Cortes iríamos até ao momento em que novas eleições constituíssem uma necessidade inevitável para a formação dos dois novos e grandes partidos, base duma tranquilidade, que não conhecemos há muito tempo".

    Este parágrafo remete-nos de imediato à famosa entrevista dada pelo rei D. Carlos ao Temps, em que os pressupostos para a normalização da vida pública, tinham como ponto central a formação de dois partidos constitucionais verdadeiramente alternativos - o governo "à inglesa" - e à elaboração de um novo sistema eleitoral mais equilibrado. Mais de uma década decorrida e num cenário de indescritível desordem pública, miséria económica e clara, embora camuflada derrota militar na I Guerra Mundial,Relvas parece pretender ressuscitar o plano de João Franco, num momento em que a dissolução do regime já se tornara inevitável.

    Continuando, o autor escreve que ..."acentua-se a campanha da dissolução em termos da maior violência. Hoje, na Câmara, quando se começava a discutir o projecto a que me referi na carta de ontem, o Francisco Fernandes afirmou que tal projecto, recordando o decreto de 31 de Janeiro, de João Franco, o excedia todavia nas autorizações arbitrárias que concedia ao poder executivo. Devo dizer-lhe que não é muito grande a correcção do dr. Fernandes e o seu espírito de transigência, não hesitando em aprovar o projecto desde que ele contivesse a restrição das autorizações concedidas apenas ao actual Governo". Por outras palavras, é a "ditadura!

    A guerrilha entre os caciques republicanos, vai enrubescendo de fulgor e assim, ..."o Cunha Leal - comediante-tragediante sabendo que o Parlamento já não existia, resignou o seu mandato de deputado perante o comício. E acrescentou que, se o Governo não decretasse a dissolução, convocava desde já o povo para dissolver o Governo!" Foi esta a gente de alegados elevados princípios de rectidão moral que quis governar o país. Continuando, vai escrevendo que ..."esse farsante subiu as escadas do Ministério do Interior, acompanhado de populares, que a breve trecho entravam violentamente no meu gabinete, armados com pistolas e espingardas, invectivando-me e não me tendo morto, graças à oportuna e enérgica intervenção de Tito de Morais (...) entretanto, nas Ruas do Ouro e dos Capelistas continuava o tiroteio com a polícia, obrigada a defender-se dentro já da esquadra do banco de Portugal. Havia mortos e feridos. O primeiro polícia foi morto à porta do Ministério (...) durante a noite a Polícia, que se manifestara hostil ao Governo, teve de render-se, não sem ter manifestado num pátio da Parreirinha os seus afectos em vivas entusiásticos à Monarquia"...

    De Machado Santos, a grande figura do 5 de Outubro da Rotunda, , dizia que ..."é um sincero em tudo o que faz. Há porem entre estes dois homens diferenças fundamentais. É honestíssimo. Mas é de uma mediocridade intelectual assustadora, o que o conduz, fora da Rotunda, a todos os desaires e a todos os desastres. Está sendo cúmplice inconsciente do Cunha Leal, que não tem escrúpulos de nenhuma espécie, que é superiormente inteligente, e ilimitadamente ambicioso".

    Na sua 24ª carta, desabafa que ..."quando mataram o Sidónio - vilíssimo assassinato -, e quando o Teófilo Duarte passeava por Lisboa as suas loucas tropelias, dizia-lhe eu que tinha a impressão de presidir a um manicómio. Hoje tenho a impressão de habitar um covil de feras!" Estas palavras são absolutamente idênticas às de D. Manuel II logo após os acontecimentos de 1908-10, mas Relvas esquece-se do recurso à violência constante promovida pelos chefes do p.r.p. nos derradeiros tempos da Monarquia Constitucional.

    De Guerra Junqueiro diz que ..."o fundo irresistível da sua origem semita procura conciliar, com a mais alta e nobre visão da Pátria, os interesses da sua ambição. O que o conduz por vezes a situações lamentáveis".

    Voltando à dissolução do parlamento, Relvas escreve: "Outro acto de firmeza do governo que parece estar esquecido, e que todavia não podia ser de maior transcendência, foi a dissolução do parlamento. Por não estar incluída na Constituição a faculdade de dissolver o parlamento, atravessámos épocas políticas agitadíssimas, e viemos a dar a uma revolução." Curiosa auto-condescendência do escriba-primeiro ministro, parecendo oportunamente esquecer-se da tremenda campanha de imprensa levantada pelos republicanos durante o governo de João Franco. Assim, para Relvas a ilegalidade justifica-se, desde que seja a "sua ilegalidade".

    Não nos alongando mais no demolidor contributo do antigo primeiro ministro da 1ª república, finalizamos, como epitáfio de uma situação insolúvel, com um pequeno parágrafo:
    "Entretanto, todas as pessoas que passam pelo meu gabinete estão assombradas com o espectáculo duma política tão mesquinha. Realmente, este gabinete é agora um posto de observação, e até de estudo, para psicólogos. Nesta luta de pigmeus, a fingirem de grandes homens, é fácil distinguir os motivos que os fazem agir (...) é a indicação que leva ao terreiro do Paço outro Governo, que não pode ser, senão em outros moldes e com outras pessoas, uma reprodução do que vai desaparecer sumido nessa terrível voragem de desorientação e desprestígio em que se somem, nos últimos anos, em Portugal, umas atrás das outras, todas as situações ministeriais?"

    quarta-feira, 21 de maio de 2008


    "O Governo Provisório foi constituído à la diable e as ideias governativas da Revolução foram entregues ao arbítrio dos ministérios, donde resultou a obra desconexa do Governo provisório e a inconcebível situação dum Ministério acéfalo (...) com acção independente em cada pasta!.(...)Mas faltava a sequência de esforço, e os paladinos da república julgavam cumprir suficientemente a sua missão numa actividade de comícios e conferências (...) estéril para com ela se formar um corpo de doutrina, e dirigir um Estado. deste imenso erro veio a enfermar a vida da República....) Só muito mais tarde, passado o período revolucionário, começaram com o exemplo de Afonso Costa no Ministério da Justiça, os abusos a que ficaram tristemente ligados os nomes de alguns democráticos , e que foram a origem das terríveis campanhas no parlamento, e nos tribunais criminais, de João de Freitas e de Camilo Rodrigues".

    As Memórias Políticas* de José Relvas, são uma inesgotável fonte de conhecimento para aquilo que foi a república de 1910-26. A sua implacável análise do carácter - palavra que aparentemente ainda algo significava à época - dos seus correligionários, denuncia afinal o seu próprio envolvimento em todas as manobras de tráfico de influências e de intrigas da agremiação dos Banhos de S. Paulo. O seu entusiasmo pela Revolução como fim único da acção, pode ler-se na paradoxal análise que faz do regime monárquico constitucional que pretendia abater. Assim e referindo-se à opinião que os estrangeiros tinham da suas relações com entidades lusas, Relvas declara que ..."nas suas relações comerciais com os estrangeiros, os portugueses encontram uma grande confiança, pela fiel execução de todos os seus compromissos, recordando-se com grande louvor a honesta pontualidade com que solveram as suas obrigações durante a crise de 1891"...
    Numa nota publicada no l'Indépendence Belge, Relvas declara que ..."Et cependent le pays travaille; il veut avancer, il attend avec impatience l'avénement des institutions qui soient inspirées par des idées et des sentiments patriotiques (sic); il en a toutes les conditions pour se faire une nouvelle existence, ainsi qu'un bel avenir (sic). L'agriculture, sa principale force economique, est, malgré tout, en progrès:l'industrie prend un essor assez considèrable, confirmé par l'initiative d'entreprsies nouvelles et par l'augmentation progressive de l'importation des matières premières, son commerce crée tous les jours de nouveaux marchés, il en résultera le plus sérieux développements avec des nouveaux traités de commerce. On connait ses merveilleuses colonies en Afrique (...) assure auz interêts commerciaux, agricoles et industriels du portugal un marché exceptionnel"...
    E Relvas prossegue, tecendo sem o querer, autênticos ditirambos à acção dos sucessivos governos da Monarquia. É que todo este ridente panorama de progresso ditado pela explosão dos mercados internacionais, pressagiava a adequação da realidade política em desenvolvimento naBelle Époque nacional - reforma do sistema durante o governo de Franco -, a uma sociedade civil preocupada com os seus negócios e projectos de expansão. Aliás, a viagem de D. Carlos ao Brasil inseria-se no âmbito do claro progresso material que não deixaria de se repercutir num reforço e reforma das instituições. Era este afinal, o grande e único medo dos republicanos. Torna-se para nós - criaturas onde a racionalidade se impõe pelo constante desejo de dar importância ao que verdadeiramente interessa à res publica - um enigma o descortinar do porquê dos ódios e a pura perda de energias para o derrube de um sistema que apesar dos escolhos erguidos pela luta partidária, permitia a chegada do país ao século XX das máquinas, da ciência e dos direitos sociais alargados de uma forma jamais vista na História.
    Mesquinhez, inveja, maldade ou inconsciência? São estes alguns defeitos comuns a toda a raça humana e os republicanos do alvorecer de novecentos, ofereceram ao país uma grotesca amálgama de todos os pontos fracos de personalidade, juntando-se-lhes ainda, a simples estupidez.
    Para terminar a nossa sexta croniqueta, mais umas considerações deRelvas sobre o gabarito moral dos seus pares:
    "Em Bernardino Machado o interesse dominante foi a ambição da Presidência da República, garantida na submissão ao homem que lhe parecia ser o melhor fiador da realização do sonho que o acompanhara desde a hora em que alcançara situação de destaque entre os adversários da Monarquia. para Afonso Costa era ele o penhor seguríssimo da sua omnipotência no governo da Nação desde que o elevasse à suprema magistratura política (...) Esse mau sentimento (B. Machado), e chamo-lhe mau sentimento porque se revestiu por vezes de aspectos odiosos na sua lamentável pequenez, fora-lhe sugerido principalmente pelas palavras de excepcional favor com que João Chagas me distinguira sempre, nos comícios públicos, nos seus artigos, e ainda em reuniões particulares (...) Bernardino Machado fizera uma das suas habituais intrigas para o investir (Cunha e Costa) na representação das comissões paroquiais, certo de encontrar na sua subserviência, e na solidariedade do serventuário Ricardo Covões, espécie de factótum, e, pior ainda, de faca de mato de Bernardino machado (...) para promover na reunião extraordinária do partido, e em actos subsequentes, situações que pusessem em cheque aqueles membros do Directório que ele queria a todo o transe expulsar"...

    e continuaremos. O corta Relvas * no seu além-túmulo, prossegue na denúncia dos seus inimigos pessoais que foram afinal, os fautores do nosso miserável século XX.

    *Memórias Políticas, José Relvas, ed. Terra Livre, Lisboa, 1977

    terça-feira, 13 de maio de 2008

    Teófilo Braga descrito por José Relvas

    "Há no seu aspecto externo um desleixo miserável. Sem hábitos sociais, tendo vivido uma longa existência confinada entre quatro paredes da sua desordenada biblioteca, dotado de uma natureza fundamental e incorrigivelmente plebeia, avarento, fazendo livros sem probidade, atacando sinuosamente os homens em quem receia competidores, descendo até vis insinuações (...), ambicioso, mas de uma vulgar e baixa ambição, sem a nobreza de quem aspira a um alto destino para a realização de um alto ideal, Teófilo Braga exterioriza o tipo do adelo, coçado ao balcão, em que tem vendido a algumas gerações uma obra feita de retalhos, cheia das promiscuidades do bricabraque literário, em que as botas cambadas e rotas dos pontapés que deu a Herculano e Castilho, emparelham com a casaca do casamento, com que teve o impudor de se apresentar na primeira festa diplomática oferecida pelo ministro da Argentina ao Governo da Revolução! (...) É uma fraca inteligência e um coração insensível (...) A sua acção no Directório, como havia de ser mais tarde no governo Provisório, ou era nula (...) ou era ditada pelos seus interesses, pelas suas ambições e muitas vezes pelos seus rancores. "


    Eis o juízo que Relvas fazia daquele que era considerado como luminosa inteligência resgatadora da Nação. Foi o segundo presidente da república.

    A república vista pelos republicanos

    Um dos aspectos mais relevantes do regime saído do golpe de 3-5 de Outubro de 1910, consistiu na mais estrénue guerrilha inter-partidária jamais vista em Portugal. O embuste ganhou forma como forma de governo e o arrivismo, prepotência e boçalidade dos novos senhores, tornaram-se de imediato patentes aos olhos da atónita opinião pública citadina, que via cair a máscara dos auto-proclamados púdicos. O melhor recurso de que hoje dispomos para o julgamento, mesmo que epidérmico, do carácter daquela gente, consiste nos milhares de folhas escritas em diários, cartas a terceiros e artigos de opinião. Os "republicanos" cultivaram fraternos ódios de clube bairrista, atacaram-se violentamente, disputaram primazias, cargos e prebendas, fazendo empalidecer tudo aquilo que anteriormente diziam acerca dos derrubados rivais do tempo da "ominosa" Monarquia. A realidade da política caseira e internacional, fê-los descobrir a sua total inépcia para a gestão de simples assuntos correntes do Estado e um dos argumentos finais para o seu fracasso, consistiu na acusação de "a república não soube fazer-se porque não expulsou o funcionalismo dos tempos monárquicos". Como se tal coisa fosse possível, isto é, a demissão compulsiva de todos os detentores de cargos relevantes ou não, do aparelho do Estado. Secretários, chefes de serviço, pessoal diplomático e de todos os departamentos públicos, professorado, enfim, toda uma rede que viabilizava Portugal como país soberano e organizado politicamente. Delírios, ilusões e decepções logicamente decorrentes. Foi este o resultado obtido pelos conspiradores dos cafés e tascas da capital.
    José Relvas e as suas Memórias Políticas, fornece-nos um precioso manancial informativo, com uma precisão e perspicácia de julgamento dos seus pares que assombra pela absoluta frontalidade e desprezo. Desta forma, utilizaremos as suas palavras para a caracterização do estado de coisas criado pelo regime dos senhores dos Banhos de S. Paulo.
    Acerca de Afonso Costa e de Bernardino Machado, dizia ..."aqueles dois homens fizeram uma obra de divisão (...) e foram assim os maiores agentes da obra liberticida que veio a ser a característica da República, na sua pior fase!" De Teófilo Braga, afirmava que ..."o partido republicano teve acerca deste homem as mais funestas ilusões, funestas para a Nação e para a República (...) causa nobre e bela, daquela beleza que em rigor só existe na obra irrealizada"... Desta forma o regime transformou-se ..."num mercado ululante de ridículas ambições e pueris vaidades (...), um estado que perdeu toda a autoridade e todo o prestígio, dirigido por insensatos, anarquizado por doidos e abandonado ao seu destino por egoístas e pusilânimes (Diário de João Chagas, vol. IV, Janeiro de 1919 e vol. II, Paris, Janeiro de 1915). Já no período de desesperada desilusão e referindo-se à manhã da proclamação na Câmara Municipal de Lisboa, desabafava para a posteridade ..."Quem diria então que soma imensa de desenganos viria, não da ideia republicana, mas de outros abusos cometidos pelos republicanos!"
    José Relvas, como todos aqueles abastados descontentes profissionais, não percebeu que Portugal era de facto uma república, enfim, aquilo a queLafayette chamava "a melhor das repúblicas". A incomensurável superioridade do rei D. Carlos, a grande visão de um futuro aberto à ciência que era apanágio da rainha D. Amélia e o arreigado patriotismo das camadas populares, foram totalmente obliterados pela simples sanha destruidora, pelos ódios e desejos de ajustamento de contas velhas e pessoais. Foi o triunfo da mediocridade.
    No âmbito do centenário do Regicídio e da "república", continuaremos a abordar este tema de geral interesse, a república vista pelos republicanos.

    segunda-feira, 12 de maio de 2008

    As maluquices couraçadas do P.R.P.



    O antigo e defunto prp, usou de todo o tipo de expedientes propagandisticos para atingir os seus fins. As promessas de redenção abrangeram os mais diversos sectores, e sendo arautos do nacionalismo mais exacerbado, naturalmente as forças armadas surgiam como um alvo primordial. Eram um dos sustentáculos da legalidade constitucional e num país onde a escassez de meios financeiros sempre foi um problema, os reduzidos efectivos do Exército e da Marinha Real tornaram-se fonte de discussão.

    O prp alegava o desperdício de fundos ou o seu desaparecimento nos bolsos da classe política dirigente e chamava a si a exclusividade da probidade, decência administrativa e justiça na distribuição da riqueza nacional.

    Tal como na imprensa que lhes era afecta, os senhores Almeida, Costa eBernardino, entre outros, urravam nos comícios, contra o alegado "abandono" das forças armadas que tinham que defender o vasto património colonial. Em plena Belle Époque e já delineado o sistema de alianças que se confrontariam em 1914, a corrida aos armamentos incendiou a Europa, os Estados Unidos, o Japão e alguns países sul-americanos.

    A corrida aos armamentos navais foi um dos aspectos mais relevantes, particularmente quando a Grã-Bretanha apresentou o HMS Dreadnought, o "all big gun ship" que revolucionaria a construção naval.

    Sempre utilizando pretensos desvios de dinheiros públicos como causa do nosso atraso, os "republicanos" prometiam na aurora do novo regime, uma drástica modificação da situação da armada portuguesa, pretendendo equipará-la, pelo menos, à congénere espanhola. O conto de reis diário que desde 1822 (D. João VI) era atribuído à Casa Real para cobrir todas as despesas inerentes à representação, viagens de Estado, pessoal, residências, etc., era, segundo se gritava nos comícios, o maior óbice ao progresso. O lisboeta que acorria a ouvir os arautos da demagogia, queria acreditar e avidamente discutia as possibilidades de um Portugal imperial e poderoso que ombrearia com os maiores. Era uma outra versão do prometido "bacalhau a pataco" que viria jocosamente a colar-se à imagem da 1ª república. Este pequeno texto que se segue, é um precioso testemunho da ligeireza e desfaçatez com que os aspirantes a restauradores da pátria, tratavam de assuntos queridos à opinião pública de que dependiam:

    "A estas horas, o problema da marinha de guerra portuguesa está virtualmente resolvido nas suas linhas geraes, e o programma naval elaborado só espera pela sancção das próximas constituintes para entrar em plena execução. Este programma, considerado pelos competentes como um documento notável de ponderação e de previsão, dota a esquadra nacional com os primeiros couraçados que figuram na armada portugueza - onde o Vasco da Gama não era, com todos os seus concertos, senão uma caricatura de couraçado".

    Seguindo-se a estas linhas, apresentavam-se inúmeras possibilidades e modelos desejáveis, desde a classe Minas Gerais, construída na Inglaterra e em serviço na marinha brasileira, até a elaboradas apreciações acerca de modelos mais recentes. O caricato da situação, reside no constante aumento das exigências quanto à dimensão e poder de fogo dos navios a encomendar, assim como - claro está, era fatal -, às ajudas pecuniárias a prestar pela fiel aliada, a odiada Pérfida Albion do Ultimatum.

    Visitando os diversos estaleiros britânicos, as luminárias do prp iam perorando sabiamente acerca das conveniências e provas dadas das casas Vickers e Armstrong, possíveis construtoras da marinha da república.

    O alegadamente modesto, razoável e ponderado programa, era de facto, um colossal projecto de impossível realização e desde a primeira discussão parlamentar, deixou de ser levado a sério pelos hipotéticos construtores. Se os doutos destronadores da "ominosa" começaram por se contentar com a classe Minas Gerais, pouco depois já discutiam a nova classe Orion, mais pesada e melhor armada, acabando finalmente por cobiçar a classe "Queen Elizabeth" (na imagem), os super-dreadnought com os quais o Reino Unido combateria na I e II Guerra Mundial. Nada mais, nada menos.

    Quando na imprensa europeia foi revelada a intenção inglesa de iniciar a construção de super-dreadnoughts (drédenós, como de forma hilariante lhes chamavam as sumidades que entre o café Gelo e o palácio de S. Bento discutiam o porvir da nação), logo se escutou grande vozear de protesto: se a Inglaterra já planeava melhor, eram esses super-drédenósque interessavam à magnífica república portuguesa! E nada menos.

    Muito a sério, seguia-se a lista do pretendido programa naval:

    3 couraçados (60.000 toneladas, no caso da classe escolhida ser a Minas Gerais)
    3 cruzadores (10.500 toneladas, da classe Almirante Spaun, da marinha austro-húngara)
    12 contratorpedeiros (9.900 toneladas, do tipo HMS Cossack)
    6 submarinos (2.160 toneladas)
    1 navio de apoio aos submersíveis
    ...

    e tudo isto, sem contar com unidades menores para uso nas colónias, assim como a construção de infraesturas de manutenção, bases logísticas e um grande arsenal - o " nosso Pozzuoli", como eles diziam -, em Cacilhas. Nada mais fácil! Eram apenas necessários 45.000 contos da época (só para construir os navios), preço pelo qual se manteria a "ominosa Monarquia" durante mais de cem anos!

    Como pérola de remate, mais este naco de demagogia parlamentar:

    "O governo e o parlamento não vão hesitar e dentro em pouco no Tejo, vinte e cinco navios com a nossa bandeira mostrarão quanto, com o novo regimen, se pensa em remodelar tudo, em reconstruir, com um entusiasmo a que a realidade ha de corresponder da mais bela maneira!."

    E para descobrir o filão aurífero de onde sairia a módica soma apresentada ao cãndido português, alvitrava-se, claro está, um empréstimo a vinte anos. O problema consistia no total desinteresse dos potenciais financiadores, assustados com este enorme rol de patetices debitadas por senhores de lustrosa cartola copiada à moda parisiense.

    Como nota final, desde já podemos informar que apesar da pretensa "vitória" da república em 1916-18, ainda não seria o momento azado para satisfazer as loucuras couraçadas daquela gente proba e de elevados princípios morais, os pudicos, como abertamente se chamavam entre si. O auto afundamento da esquadra do kaiser Guilherme II em Scapa Flow, privou o senhor Afonso Costa de tentar convencer os ingleses a oferecer-lhe como despojo, um couraçado que fosse. Quem tem a agradecer por mais este - entre muitos outros - insucessos, é a cidade de Lisboa. É que a marinha republicana, tinha o péssimo hábito de utilizar a sua artilharia contra o casario, martelando impiedosamente os seus oponentes políticos e não olhando a civis ou combatentes: era o que então se chamava a "Fróternidade" (sic). Só como curiosidade, informo que a almejada classe Queen Elizabeth possuía oito canhões de 385mm de boca e cada uma das suas granadas produzia uma cratera equivalente à queda de um pequeno meteoro, esmagando tudo o que se encontrasse numa área circular de sessenta metros.

    O epílogo de toda esta lamentável comédia, foi o esperado. Até à década de trinta - e se excluirmos uns poucos navios de pequena tonelagem saqueados à liquidada marinha austríaca em 1919-, os marinheiros nacionais tiveram que se contentar com as unidades herdadas da Marinha Real Portuguesa, ou sejam, o Vasco da Gama, o D. Carlos I, o D. Amélia, o S. Rafael, o Adamastor e alguns outros que ignomínia monárquica lhes deixou.