sexta-feira, 11 de setembro de 2009

II - A (DES)EDUCAÇÃO DA REPÚBLICA PORTUGUESA

«(…) o partido republicano não soube, nem quis cerebralisar nos seus trinta anos de oposição, essa grande força popular. O partido republicano não soube, nem quis coagir os governos monárquicos, com a poderosa força de oposição de que dispunha, a decretarem uma organização escolar progressiva completa e mobilizada pelos novos critérios educativos. § Não impôs a instrução primária obrigatória, não curou da educação moral e cívica das massas, não quis transformar em cidadãos os adeptos, em força inteligente a força bruta; e isto para haver em mãos só gentes fanatizáveis, irreflexivelmente crédulas e broncas, com as quais fácil chegaria pela arruaça e pelo sangue, à conquista do mando – quando a parte nobre de tal conquista estaria simplesmente em confiá-la a uma evolução pacífica e letrada»

ALMEIDA, Fialho d’ – Saibam quantos… (cartas e artigos políticos). Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1912, pp. 11-12


Nota: este excerto, apenas, vem contradizer o discurso apologético e ciníco que se pode ler no folhetim digital intitulado Jornal do Centenário: «Se D. Carlos foi um rei culto, dado às Ciências e às Artes, a generalidade dos seus súbditos partilhava uma realidade educativa diferente: a maioria da população era analfabeta. Ainda durante a monarquia, por impulso dos republicanos foram criadas várias instituições (centros escolares republicanos, sociedades promotoras da educação, grémios de instrução) com a preocupação de alfabetizar o povo, divulgar o ideário republicano e promover o ensino laico.» (Julho 2009, p. 4). Se efectivamente havia a necessidade de divulgar e inculcar o ideário republicano (ainda hoje presente na forma pueril com que se iludem as crianças acerca dos símbolos «nacionais»), à República Portuguesa não interessava uma população letrada, instruída, culta. Seria essa população a primeira a questionar os modos pouco democráticos do novo regime. O grande arranque na modernização e na promoção escolar e educativa começou ainda durante o Antigo Regime, durante o consulado do Marquês de Pombal, sob o reinado de D. José, mas se houve período fértil em renovação e modernização do velho sistema de educação (preso aos ditames da Igreja) tal ocorreu a partir do Liberalismo, durante os reinados constitucionais de D. Maria, D. Pedro V, D. Luís e D. Carlos. Este não foi aliás, o único rei culto, que o Jornal do Centenário frisa, mastigando as Ciências e as Artes, com a mesquinhez da inveja e do ódio, mas praticamente todos os monarcas que o antecederam nesse século. E a eles se deveu muito do que hoje é Cultura e Legado educacional que vive nas novas gerações que nele bebem grande parte do seu conhecimento sobre o País (basta recordar que os Museus Nacionais estão, de alguma forma, ligados à memória e intervenção desses monarcas).