quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Achegas para um Dicionário da República Portuguesa

É de um escritor insuspeito, porque dono de um paradoxo pouco comum ao português dos primeiros anos do século XX («que digo eu?», ao português, ponto final) que saíram das crónicas mais luminosas e vibrantes sobre os primeiros instantes da República. Não são escritos a quente, nem palavras saídas da pena ressabiada de um detractor compulsivo (embora, reconheçamo-lo, Fialho de Almeida foi, acima de tudo, um crítico). Antes o registo de um juiz para quem ambos os regimes – Monarquia ou República – tinham a marca da indiferença, gizada por um povo desinteressado, analfabeto e facilmente manipulável pela demagogia. Assim se fizera a República de 1910, morta pelo cansaço de um rotativismo mas sobretudo pelas dissensões internas, onde homens esquecidos da honra e da lealdade pleiteavam sobre o individualismo e o egoísmo das benesses e do poder, que abriram caminho a uma dúzia de demagogos oportunistas inflamados.
“Saibam quantos…” é um dos melhores retratos da revolução republicana, dos seus métodos mesquinhos e dos atalhos dos seus homens (uma pequena minoria de cabecilhas) para tomar à força um país anémico, convertendo súbditos em cidadãos como se tal fosse a solução para o arranque económico e para o desenvolvimento cultural do país – embora tais objectivos, como anota e bem Fialho, estivessem longe de constituir o programa ideológico do republicanismo. Tomado o poder, havia que reparti-lo, dá-lo a quem merecia, convertendo oportunistas em republicanos e os novos republicanos em caudilhos. Formar uma classe política para dominar o Estado e a Sociedade, assegurando que os súbditos não reclamassem o regime deposto foi, até á chegada de Salazar, o principal móbil da política republicana. Só muito atrás vinham as causas da educação, do trabalho, da saúde, etc. O frenesi legislativo mostra um temor e um nervosismo que vai minando a república, ao ponto de criar a instabilidade que se conhece para o período e longe da ideia de grandes reformas está, nada mais nada menos, do que a destruição das instituições criadas pelo Liberalismo para erguer sobre elas um aparelho ideológico – espartilho e condicionador de liberdades que os republicanos apregoavam não existirem antes de 5 de Outubro de 1910. Fialho d’Almeida descreve este processo de coacção, resistência, eliminação, em suma destruição, que os republicanos (novos e velhos) vão levando a cabo nos primeiros “minutos” da longa noite republicana. Se estas crónicas são o espelho de um “verão quente”, ou no caso, um “inverno rigoroso”? Não. Basta pensar nos 99 anos que se lhe seguiram para perceber que muito pouco mudou. Não há como a leitura integral desta obra para ganhar um conhecimento lúcido e sincero sobre a República Portuguesa. Porém, na impossibilidade de dar à estampa digital a totalidade do livro de Fialho irei publicando aqui excertos das suas crónicas sob a forma de um dicionário, correspondendo cada tema a uma transcrição e um assunto versado pelo escritor nesta obra hoje praticamente ignorada… Nota: actualizei a grafia, para uma leitura mais apurada.

I - A LIBERDADE (*)

«Um mês depois de proclamada a República, a situação política não parece tão assegurada, nem tão certa a liberdade moral dos cidadãos, como a princípio prometiam os discursos dos ministros e o porta-voz optimista das suas gazetas. (…) § É o que pelo menos se infere da prisão do antigo presidente do conselho, João Franco chefe dos thalassas, efectuada hoje na sua quinta de Sintra, e a sua trazida ao tribunal da Boa Hora, donde saiu apupado e perseguido por uma escolta daquela turba-multa das ruas que, segundo parece, é quem governa e dirige as acções do governo republicano. (…) § Seis dias antes da prisão de João Franco em Sintra, tinha-se dado a do jornalista Homem Cristo, incisivo director do Povo d’Aveiro, e a suspensão imediata deste jornal, de que se vendiam cerca de vinte mil exemplares, e que tão violentas campanhas fez contra os republicanos, fora e dentro do governo. (…) § Se conjugarmos estes actos, tão indicativos como amostra, com os das espionagens que o governo autoriza sejam feitas por alcateias de populares, sem investidura legal nem competência policial de nenhuma espécie, aos cidadãos que essas mesmas alcateias tomam de ponta; e ainda por cima destes atropelos da liberdade e da segurança pessoal, repararmos nas demissões em massa, de funcionários antigos, alguns cheios de serviços, havemos de convir que afinal o começo deste regime novo cheira diabolicamente ao fim do velho, e que os puritanos e amigos de puritanos, cunhados de puritanos e primos de puritanos, tudo afinal são roedores de apetite voraz (…)». ALMEIDA, Fialho d’ – Saibam quantos… (cartas e artigos políticos). Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1912, pp. 5-8

(*) O tema e a descrição do mesmo são, afinal, e como o leitor pode constatar, de uma actualidade flagrante.

1 comentário:

Octávio dos Santos disse...

Mais do que um escritor notável, um homem notável. No meu artigo «Keil, Fialho e Bruno» (que está no arquivo do sítio da Plataforma), também refiro, brevemente, as suas desavenças com os republicanos. E tenho orgulho em ter sido o impulsionador do único evento em Lisboa que assinalou, em 2007, os 150 anos do seu nascimento - um colóquio/mostra bibliográfica no Gabinete de Estudos Olisiponenses.