quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Contra o branqueamento do 5 de Outubro


O Historiador Rui Ramos explica ao Destak o que foi a I República e como não há razões nenhumas para celebrar a traição do verdadeiro ideal de república.

Imagine que alguém falava do Salazar mencionando apenas as barragens, o abono de família, a neutralidade na segunda guerra mundial, sem jamais referir a PIDE, a censura, a guerra colonial. Está a imaginar a gritaria que já não iria para aí? Pois é o que temos visto sobre o domínio da vida pública portuguesa pelo Partido Republicano depois de 1910: nada sobre a retirada do direito de voto à maioria da população, nada sobre a negação do direito de voto às mulheres, nada sobre o "empastelamento" e apreensão dos jornais, nada sobre a política de genocídio no sul de Angola, e o menos possível sobre a perseguição ao clero e aos sindicatos. É esse branqueamento, ao arrepio de toda a investigação histórica, que é polémico. Porque a verdade é que se voltássemos aos tempos de Afonso Costa, a maioria dos portugueses de hoje teria um choque tão grande como se voltássemos aos tempos de Salazar. Ler mais

1 comentário:

bicho disse...

É um artigo muito bom de um historiador jovem muito lúcido que tem sempre a preocupação de "unir" a história contando-a do ponto A ao Ponto B, sempre numa relação causa-consequência.

Confunde-se muito monarquia com liberalismo, e republicanismo com maçonaria, jacobinismo ou Afonso Costa; além de não serem a mesma coisa, tanto monarquia como república acolheram totalitarismos, reformas violentas, fundamentalismos, prosperidade e desenvolvimento.

O que está em questão, para mim, é sempre a forma de governo, não tanto de chefe de estado; encontramos sempre momentos de tensão antes e depois de 1910 ou se quiserem de 1908, todos conspiraram e todos trouxeram progresso num determinado momento, dependendo do primeiro ministro no poder, fosse ele Fontes Pereira de Melo ou Aníbal Cavaco Silva se procurarmos exemplos flagrantes de desenvolvimento, ou Afonso Costa e Costa Cabral se procurarmos exemplos flagrantes de conflito e tiques de ditadura, Salazar para mim é um caso distinto, foi uma solução de recurso que serviu como "tampão" à ruína e que infelizmente se prolongou no poder na era do pós Norton de Matos, embora tenha sido um regime republicano, não penso ser correcto contextualizar Salazar na maçonaria jacobina ou nos lberais ou até nos integralistas que o combateram por sinal, Salazar era diferente de todos os outros.

Falar de 5 de Outubro, como o faz o Rui Ramos, que prezo muito e do qual tenho alguns livros, embora nem sempre concorde com o que escreve; deverá ser um exercício mais filosófico que prático; a república em si não é o PRP, ou não é só o PRP, nem deve ser demonizada nem deve ser adulterada com tiques da maçonaria irregular a sua história, cabe ao leitor estudar e tirar as suas conclusões.

Um abraço.