segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Liberdade & fraternidade na República Portuguesa (1914-1916)

«De 1914 a 1916 andamos com a vida por um fio, insultado em tôda a parte onde aparecíamos: no Parlamento, na rua, nos cafés e nos carros "eléctricos". Raro era o dia em que não recebíamos aviso de que fôra deliberado, num comité de patriotas, coserem-nos de facadas ou queimarem-nos nos miolos, alguns dêsses avisos dimanando da Polícia que, todavia, nunca prendeu tão beneméritos cavalheiros, sabendo quem êles eram e onde se reuniam concertando o patriótico intento.
Uma noite na Brasileira do Rossio, apareceu um grupo à minha procura, um grupo de patriotas, está bem de ver, um dêles mal disfarçando debaixo do capote um machado. Propunham-se abrir-me a cabeça, como aconselhara o Mundo, para ver o que eu tinha dentro dela. Por acaso não jantara em casa, nesse dia, e por isso não fôra, como de costume, depois de jantar, tomar café à Brasileira, sem nenhum aviso do que se planeava.
Pagou as favas o Dr. António José de Almeida, insultado e zurzido pelos bons patriotas que me tinha procurado no café, e provàvelmente êle teria sido vítima duma machadada, se não o empurrassem para a loja dum armeiro, o Heitor, que, por um feliz acaso, ainda não tinha fechado.
No Parlamento, mais duma vez, êsses executores da alta justiça social se instalaram, armados de bombas e pistolas, na galeria que dominava o sector unionista, dispostos a cumprirem o seu mandato a um sinal convencionado

Brito Camacho, «Portugal na Guerra»

2 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Nada que não merecessem...

Daniel Nunes Mateus disse...

Atenção: Palavras de Brito Camacho! E não de um qualquer opositor.