quarta-feira, 21 de julho de 2010

Bernardino e o Paço Real




Numa entrevista concedida ao jornalista Luis Derouet, Bernardino deixou estas expressivas palavras:

«Lutas? Sim. Não, porém, com o Chefe do Estado, devo dizê-lo. Esse nunca me fez o menor reparo a tais actos; antes, pelo contrário, no caso dos comboios, me exprimiu o seu inteiro acordo. (...). À Sra. D. Maria Pia devi sempre, inalteravelmente,as mesmas deferências. E a Sra. D. Amélia tão pouco me parecia queixar-se do meu rigorismo ministerial (...). Mas não há dúvida que precisei de lutar tenazmente contra o trup de zéle dos defensores da doutrina do engrandecimento do poder real, que então tentava concentrar as suas forças para erguer sobre o Pais a sua ditadura».


Indepedentemente do papel salvífico que Bernardino sempre se atribuiu a si próprio - o pedagogo, o diplomata, o estadista - aqui fica bem clara a sua monumental contradição. Ou seja, a confusão - imperdoavel, em tão erudita personagem - entre a Familia Real (a Monarquia) e a classe politica instalada no aparelho de Estado ou intentando lá chegar.

Bernardino, político por excelência, teve neste trecho a maior descaidela. Confundiu-se a si mesmo. Maldice-se. Atacando a classe politica a que também pertencia, fez-se alvo das suas próprias críticas. Deixando incólume o rei e a Monarquia.

12 comentários:

Pedro de Souza-Cardoso disse...

Bernardino era de tal forma um senhor na arte do "vira-casaquismo" que eventualmente isto teria que acontecer!

bicho disse...

Sinais do rotativismo meu caro, monárquico por sinal !

Bernardino, como sabujo que era, andava à vela...

Francisco RB disse...

Republicano em 1903... barão em 1909!!!
Como diria Herculano foge cão que te fazem barão, para onde se me fazem Bernardino!!!

bicho disse...

Caro Francisco, não foi o Herculano, foi o Garret... Visconde por sinal.

De caminho é porque não fugiu, quiçá !

Francisco RB disse...

Caro bicho tem razão!

Nuno Castelo-Branco disse...

Pois é, gosto especialmente do epíteto que os "reps" fizeram circular a respeito do "Bernas": púdico! Atédá vontade de rir, um escroque da pior espécie... e que ainda por cima tinha uma prole de fazer inveja à propaganda natalista do sr. Alfred Rosenberg.

Enfim, estes "reps" de meia tigela, ficavam todos em tremeliquentos delíquios, especialmente quando deparavam de frente com a rainha. Até existe aquela cenazita patética do Teixeira Gomes a comprar rifa após rifa numa quermesse, tendo como prémio o beijar da mão de D. Amélia. Enfim, um cavalheirismo aparente, pois a sua acção de intriga, perseguição e espionagem à Família Real, foi o que se viu. Mas isso já foi mais tarde, nos tempos de brumas londrinas e chás dançantes. Enfim, uns gajos "porreiros".

Imagine-se o que no futuro a Sra. Dª Isabel teria de aturar, da parte de certa gente que hoje vemos todos os dias no telejornal. A capacidade de vira-casaquismo à cata de comenda, ajudada pelo constante rastejar, consiste numa imutável característica. Como aquelas cobras de despem e mudam de pele.

João Afonso Machado disse...

Caro Nuno Couto:
Pois claro. O rotativismo. Também nada que eu aprecie. Mas o que ainda hoje vai permanecendo. Bernardino foi dos primeiros a rotativar para a República. Outros se seguiram.
E a República nasceu rotativa e conflituosa. Tudo roda e tudo conflitua. O presidente, o governo, os partidos, as autarquias... Só durante metade da República nada rodou, Tudo permaneceu estático.
Em suma: a República não consegue o ponto de equilibrio. E nós cá nos vamos desenrascando no dia-a-dia. Sem aspirações a muito mais.

João Afonso Machado disse...

Caro Nuno Castelo Branco:
V. tocou um ponto essencial. Um dia que a Monarquia seja restaurada ninguém duvide que toda essa malta bem-pensante está lá no «beija-mão», falando bem alto do seu passado de «luta monárquica».
Lembra-se como foi no 25/A? Daquela cantilena - «cravo vermelho ao peito, a todos fica bem: sobretudo dá jeito a muito filho-da-mãe»?

Nessa altura, nós (e tantos como nós) damos o trabalho por encerrado e voltamos para o nosso sossego. Ficam lá os «anto-republicanos» de sempre.

Foi sempre assim. O Amigo Francisco sabe-o, até por experiência própria e investigação histórica.

bicho disse...

Pois é amigo João, já estranhava ninguém mandar a boca !

E aqueles que rodaram de volta da república para a monarquia ?

Esses bulinavam, como a caravela, sinais dos tempos.

Uma coisa é certa quem não está bem muda-se, o problema dos rotativismos é como diz o outro, vira o disco e toca o mesmo.

João Afonso Machado disse...

Caro Nuno:

Quem roda de volta da República para a Monarquia ao menos escolhe o caminho mais pesado de remar contra a maré.
Não se trata de mudar de ideias, que isso é legitimo e saudável. Trata-se de, acima das ideias, defender interesses e vantagens pessoais.
A República simboliza isso mesmo. Que garantias nos dá um homem que, depois de deputado e ministro (onde terá ganho a fama e o proveito de interesseiro e rotativo), se candidata a PR.

O problema do País é que já ninguém acredita na classe politica. E o PR faz parte da classe politica.

bicho disse...

Meu amigo, pegarei então nas suas sábias palavras :

"Que garantias nos dá um homem que, depois de deputado e ministro (onde terá ganho a fama e o proveito de interesseiro e rotativo), se candidata a PR"

E acrescentaria :

Certamente um pouco mais que alguém cuja única graça consiste em ter nascido de um ventre com um desígnio messiânico.

Nem é preciso ir muito longe, dos que me lembro durante a constituição, aproveita-se o D Pedro IV que por sinal foi Rei por uns dias, mas foi herói por uns anos, quanto ao resto, alguns houveram com boas intenções, outros tantos com bom coração é certo, mas em 80 anos, se espremermos a coisa, aproveitamos a regeneração, e isso não é obra de Pedro V, é obra de Fontes Pereira de Melo ! Já uns anos antes tínhamos tido essa dicotomia com D José e o Marquês de Pombal...

João Afonso Machado disse...

Eu até tenho uma opinião diferente da sua sobre a «qualidade» dos Reis. Mas isso não interessa para a questão fundamental: DESDE que as pessoas queiram, a Monarquia funciona acima da politica e da governação.
É claro que haverá reis mais populares ou menos, mais ou menos simpáticos, inteligentes, bondosos, etc.
Mas não haverá é o desassossego permanente da chefia da Nação posta em causa e nós (aqui nos blogs) a dissecar sobre as esratégias e os objectivos deles, candidatos...
Jásei o que me vai responder: dissecaremos os «escandalos» das Casas Reais... Talvez.