terça-feira, 20 de julho de 2010

Turismo em Portugal na I República




Já percebemos que o Centenário da República, deixou de o ser para passar à comemoração possível sobre os primeiros 16 anos do regime. Para não parecer uma incongruência o saltar por cima da ditadura militar e da II República ou Estado Novo, a Comissão responsável pelas festividades nem se dá ao trabalho de recordar os últimos 36 anos de efectiva democracia.
Mas pior, ainda. Pela força de querer limpar a imagem da República centenária, varrendo para debaixo do tapete o período que medeia entre 1926 e 1974, formata a Memória e a História para caber neste modelo primário de análise: tudo pela I República, nada contra a I República.
Ora, no que se refere ao Turismo, vieram agora os académicos contratados para servir de libré ao regime cometer um dos maiores erros. É que, no que concerne a propaganda, à ideia de Turismo tal qual ainda o conhecemos hoje em dia, foi o Estado Novo que a gizou e não os ideólogos republicanos de 1910. De resto, o Tour oitocentista prolongou-se até às vésperas da I Grande Guerra, até aos grandes acidentes, como o do Titanic, em que a viagem se viu coarctada pelo medo e pela crise económica.
O Portugal turístico foi desenhado por António Ferro. Todos os grandes clichés folcloristas de Portugal, para o mal e para o bem, foram da sua lavra. E a sua obra não se esgotou na Propaganda ao serviço do regime. Desde as Companhias de Teatro que circularam pelo país, ao cinema e às Pousadas, aos luxuosos cartazes de promoção desenhados por Almada ou Stuart, entre outros, tudo passou pelo cunho de A. Ferro e da Sociedade de Propaganda Nacional.
A Primeira República foi um entrave à viagem turística. Sobretudo à viagem em território nacional. Entre a fuga de aristocratas e capitalistas que se seguiu a 5 de Outubro para as estâncias balneares de Espanha e França, e o êxodo da emigração, ficou um país a ferro e fogo e uma capital ameaçada por bombas quase diariamente. Seguiu-se a participação na I Grande Guerra e a pneumónica que dizimou milhares de vidas. O que há de turístico neste período? As comissárias da exposição recentemente inaugurada «Viajar. Viajantes e turistas à descoberta de Portugal no tempo da I República» concluiram que houve muita coisa e fazem-no com esta afirmação: «Se o interesse, privado e público [pelo turismo], vinha de anos anteriores – como o atestam entre outras iniciativas a criação da Sociedade de Propaganda de Portugal em 1906 e a publicação do Manual do Viajante de Portugal em 1907 – foi durante a República que se deu formalmente a sua institucionalização». Que institucionalização? A da fuga? Se se referem à fuga ou à contribuição de portugueses para o turismo internacional, como no caso de Manuel Teixeira Gomes que, cansado da política portuguesa, passou o final da sua vida em viagem, isso sim.
Mas será preciso esperar pela mão férrea do Estado Novo e pela acalmia proporcionada pela neutralidade de Portugal durante a segunda Grande Guerra, para criar a instituição Turismo, tal qual a conhecemos hoje em dia, nos seus vectores principais: Algarve e outras Costas balneares como o Estoril e a Costa de Prata, Fátima, o Minho, o Douro, etc.
Suspeito que até ao final de 2010, com tantas hipóteses de criar cultura e não propaganda ideológica, acabemos mais pobres do que quando começou o ano. Mais pobres economicamente (sem 10 milhões de euros gastos em promoção) e mais pobres mentalmente, com estas lavagens cerebrais com que nos mimoseiam.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Nuno, de facto a comemoração tem tido pouco eco. Quanto ao turismo, talvez queiram falar das viagens do Costa, do Bernardino, do Eusébio Leão e do Teixeira Gomes. O Chagas também gostava de turismo, mas à moda do Grand Tour. Nada que não se adivinhasse e naquela altura, felizmente ainda não existiam os Falcon.

João Afonso Machado disse...

Nuno Resende:
Parabens. Grande post.
Apetece perguntar: as estradas que a I Republica não construiu seriam para promover o turismo de natureza?
E como correram as coisas pelas estâncias termais? Enorme afluência de gente?
Lisboa, uma cidade sempre hospitaleira, é claro...

bicho disse...

Vocês esquecem-se do turismo promovido pelas excursões organizadas pelo CEP às margens do Lys !

Eram tão boas que metade já nem voltava...

Perdoem-me o momento de humor negro, mas não resisti, promoção de turismo na Iª república, essa foi boa !

Anónimo disse...

Vou fazer uma reserva de férias para o próximo periodo eleitoral. Se já tiver acabado a época tauromáquica ainda consigo apanhar algum banho de sangue numa revolta qualquer.

M. Figueira