terça-feira, 27 de julho de 2010

Salazar por Pessoa


"No meio de um povo de incoerentes, de verbosos, de maledicentes por impotência e espirituosos por falta de assunto intelectual, o lente de Coimbra (Santo Deus!, de Coimbra!) marcou como se tivesse caído de uma Inglaterra astral. Depois dos Afonsos Costas, dos Cunhas Leais, de toda a eloquência parlamentar sem ontem nem amanhã na inteligência nem na vontade, a sua simplicidade dura e fria pareceu qualquer coisa de brônzeo e de fundamental."

Fernando Pessoa

4 comentários:

Francisco RB disse...

Caro amigo não esqueça o que escreveu posteriormente Pessoa, ao perceber que o Salazar não era fascista.

bicho disse...

Precisamente Francisco, estava para deixar o comentário a um post idêntico no Corta-Fitas mas aqui o nível da discussão é superior.

Salazar era católico integrista, na realidade Salazar e a igreja sempre viram o fascismo como uma ameaça que curiosamente quase tocava o próprio comunismo, não só por ser uma doutrina baseada em ódio, particularmente o racial, como por ser uma doutrina baseada no expansionismo não respeitando a integridade dos outros estados e por colocar o "césar" fascista acima do próprio poder papal.

A Igreja nas suas encíclicas, em particular Cerejeira quando era patriarca de Lisboa em 38 publicaram textos de crítica e apreensão em relação ao crescente aumento do poder fascista, em particular depois da anexação da Abissínia pelos Italianos e da Áustria católica pelos nazis.

O próprio Franco, que era integralista, virou ao fascismo em particular após os acontecimentos de Guernica; ao bombardear a cidade Basca, profundamente católica, Franco obteve críticas da Igreja e começou a basear o seu poder no eixo ao invés de o fazer em Roma como fazia quando a guerra civil de Espanha era ainda uma "cruzada" contra o comunismo anti-clerical.

A relação de Salazar com os totalitarismos, com a França democrata Cristã, com os Ingleses e com a Igreja revela muito do que realmente Salazar era, as próprias intervenções nos primeiros congressos da União Nacional demonstram o caminho que traçava para o país, centrada no humanismo cristão, no ultramontanismo com raízes em António Sardinha e numa sociedade estratificada, não democrática, onde a família estava acima do estado, e onde o poder do estado não se sobrepunha ao poder espiritual da Igreja a qual traçava as linhas guia para as relações entre os homens.

Não esqueçamos que a Alemanha e também a Itália (embora esta última com laivos de lirirismo) queriam anexar Angola, e os Ingleses tiveram quase a entregar a colónia aos Alemães, pois também queriam Moçambique, não só pelo Porto de Lourenço Marques como pela linha férrea, foi a habilidade diplomática de Salazar com as suas várias alianças que impediu a desagregação do império no período de entre-as-duas-guerras.

É um tema extraordinário e muito rico da nossa história, e curiosamente muito ignorado ou pouco discutido.

João Afonso Machado disse...

Meu caro Nuno:
Achei muito curiosa a sua visão de Salazar, pela isenção no aspecto do que hoje se chama «politicamente correcto».
em suma, tal como o nosso Amigo Francisco, não cai na tentação dos adjectivos pejorativos.
Depois diz imensas coisas com as quais concordo, embora (sempre) com a ressalva de que as relações entre S. e o Cardeal Cerejeira, complicadas, se mantiveram porque a amizade de juventude dos dois salvou muitos «pontos liminares». Agora envolver Franco com o Integralismo, é que não.E fazer do dito S. um prolongamento do IL também não.

O que se passou é que Salazar «copiou». Teve boa nota por ter «copiado». Como não soube pôe em prática o ensino que não aprendeu (mas copiou), além do mais valeu-lhe a oposição enérgica dos integralistas.
Que, de resto, conheceram as agruras do expatriamento e da prisão por causa disso.

bicho disse...

Ora bolas, meia hora a escrever um texto e como se diz, crashou e perdi o texto, fica para conversa do próximo jantar !

Uma coisa porém, integrismo católico não é integralismo lusitano, e ambos não são fascismo, são coisas diferentes.

Recomendo um livro fantástico sobre o tema :

Valentim Alexandre : O roubo das almas - Salazar, a Igreja e os totalitarismos (1930-1939)

400 páginas de política externa no entre-as-duas-guerras

Dá uma boa ideia do que era o salazarismo e como o mesmo era uma espécie de braço político da igreja.

Repito Salazar era integrista católico, ou neotomista (referência a S Tomás de Aquino, base da sua aprendizagem seminarista).

Os pontos comuns com o integralismo eram o nacionalismo, o ultramontanismo e a crença da impossibilidade da democracia, afastavam-se no ponto em que o Salazarismo via a igreja como modelo e colocava-a no centro do mundo, os governos eram um instrumento e o humanismo cristão e a sua noção de família eram o centro do Estado, não o contrário; além disso era um regime centralista não municipalista, são realidades diferentes.

Não se esqueça que Salazar esteve à frente do Centro Católico Português, e que a Igreja censurou a obra de Maurras.

Um abraço.