domingo, 14 de setembro de 2008

A I Republica e o crime organizado

É ambígua a relação da República com o submundo do crime. Os marginais aproveitam as constantes crises de autoridade para expandir actividades. Muitos integram as tropas de choque dos partidos. A GNR afirma-se mais como guarda pretoriana do regime (ou até força de intervenção política) do que como dissuasora da criminalidade (que para o fim da década atinge proporções nunca vistas).


A GNR ,antiga guarda municipal da Monarquia, afirma-se mais como guarda pretoriana do regime, do que como dissuasora da criminalidade Um dos seus comandantes, Liberato Pinto, chega mesmo a primeiro-ministro, em Novembro de 1920.

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Durante a I Republica, crescem à margem da lei as casas de jogo ou tavolagem, às quais as autoridades fecham os olhos. «Em frente do Coliseu, o Clube dos Patos, com jogatina e mulheres», testemunha Raul Brandão. «Toda a noite se joga. Automóveis à porta. Vai-se para lá de casaca. Um amador de estatística afirma que as casas de tavolagem, em Lisboa, são quarenta e quatro.» Uma actividade tão conspícua leva André Brun a falar dela pela boca de uma personagem de A Maluquinha de Arroios: «O tal meu amigo explicou-me que, devido ao notável incremento que vem tomando a indústria batotífera, precisava fazer uma chamada de capitais. Eu aceitei. É capital garantido. Aquilo vem a ser o mesmo que uma pessoa ter inscrições de quatrocentos e meio por cento.»

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Nomeiam-se comissões para erradicar o mal das grandes cidades e Sidónio chega a proibir o jogo em Lisboa e Porto. Mas poderosos interesses movem-se nos bastidores para que tudo fique na mesma. Calcula-se que em 1918 estejam empregadas nos casinos de Lisboa quatro mil pessoas, podendo a clientela chegar às 30 mil pessoas (um quinto da população activa da cidade). Com os casinos cresce a vida nocturna na capital, através de uma dúzia de night-clubs, novidade surgida também durante a guerra.

Em 1920, após uma campanha de O Século, encerram diversos casinos lisboetas. Mas as forças ocultas têm outros planos, revelados pelo porteiro de um desses estabelecimentos, citado por Brun em crónica escrita nesse ano: «As batotas estão fechadas por uns dias. Tanto que vai haver três revoluções por causa disso.»

Ricardo Silva

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

República - Crónicas de um regime falhado

Ascensão

Proclamada a República, o P. R. P. (o partido!) dedica-se a ocupar o aparelho de Estado, enquanto grupos de civis armados, carbonários e republicanos, tomam de assalto de Lisboa.

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Noticia de "O Seculo"

Não surpreende que estes grupos concentrem os seus esforços sobre os que mais proximamente representavam as odiadas estruturas repressivas, a Polícia, a Guarda Municipal e a Igreja Católica. Assim, a caça ao «guarda e ao polícia» resulta em prisões efectuadas por populares de forma aleatória e indiscriminada.

Frequentemente estas prisões realizavam-se após espancamento, consoante a natureza antipática dos detidos ou o ódio pessoal de quem instigava ou a notícia de se tratar de «ferozes inimigos da República». Todavia, a sanha reparadora «das injustiças sofridas» dirigiu-se principalmente contra a Igreja.




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O clero regular foi severamente atingido. Escolas, conventos, recolhimentos e hospitais religiosos foram cercados, invadidos, por vezes pilhados, sendo expulsos e presos os padres e freiras que os ocupavam. Os batalhões de voluntários organizavam paradas com as «levas» de religiosos presos. Alguns dias após a Revolução, encontravam-se presos 130 padres e 233 freiras.



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religiosas numa "leva"

Em todos os conventos foram efectuadas buscas á procura de armamento escondido para uma "possivel" contra-revolução.Havia-se instalado a ideia e existiam ordens especificas nesse sentido, as buscas incluiam poços e subterrâneos




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-Sargento, acho que vejo dois gnomos armados lá em baixo!

Declarada em Lisboa, da varanda da Câmara Municipal, a implantação da República e anunciado o Governo Provisório do novo regime, o País adere e torna-se republicano por via telegráfica.



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Sala do Trono no Palácio das Necessidades

Os governos civis provinciais, avisados por telegrama da mudança política do regime, tal como faziam antes, acatam sem discussão as ordens emanadas do "Governo" (provisório) central. Os mesmos governadores que até à data tinham servido a monarquia fazem a sua declaração de princípios e de adesão à nova República.

Da província tornada republicana acorrem a Lisboa representações de municípios onde se incorporam ex-figurantes da política monárquica, agora ferverosos defensores dos princípios republicanos. O número de aderentes — «adesivos», como lhes chamavam — asseguram ao regime o alargamento das ideias republicanas às mais recônditas regiões do continente.
Portugal era todo republicano. Realmente, na nova República entrava toda a monarquia.

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Limpeza das ruas de Lisboa após o 5 de Outubro

Em Lisboa, as massas populares dominantes julgavam-se senhoras do Poder. À República redentora tudo se deve. E, diz-se: «O feijão desde que isto mudou, já baixou um tostão em litro.»



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À capital chegam notícias que «em tal ou tal sítio» a República era «como se não tivesse chegado», uma vez que «nada mudara», e que o «padre ou o cacique» continuavam a mandar como dantes.
De Lisboa e do Porto partem excursões que se espalham pelo interior a dar a conhecer a «boa nova» e a catequizar os descrentes.
Começam a publicar-se obras sobre a Revolução. Surgem litografias com os retratos dos «heróis» da República, dos grandes republicanos e de membros do Governo Provisório fazem-se peditórios para ajuda das vitimas (vitimas republicanas, obviamente).

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Peditório pelas vitimas da revolução...o dinheiro recolhido seria entregue á tesouraria da Câmara Municipal

Igualmente são vendidos, em barro cozido e policromado, bustos da República e bonecos ridicularizando os «grandes» do antigo regime.




O fim do "Éden"...antes de começar!


Um dos grandes activos e principal motor da sustentação da revolução eram as massas operárias.O movimento sindical, comum a toda a Europa, era uma realidade, tal como as greves e manifestações.Lisboa e arredores detinham na sua população 40% de operários ligados á industria e comércio, a maioria era alfabetizada e possuia uma especialização profissional.De facto a Capital de um Pais onde a maioria da população permanecia rural e não-alfabetizada, estava rodeada de fábricas e detinha no seu centro uma população consciente dos seus direitos, em claro contraste com o resto do País

As greves eram uma constante, como a dos corticeiros em Setembro de 1910 que agregou 13 000 pessoas, a dos tanoeiros e garrafeiros,
Mas o facto é que as greves até 1910 nunca degeneraram em batalhas campais entre as forças da ordem e os civis,nem os metodos utilizados nas greves incluiram descarrilamento de comboios ou o assalto a bens e pessoas

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As últimas greves em Monarquia

Após o advento da Republica tudo mudou. Os trabalhadores, confiantes nas promessas dos republicanos e conscientes da sua importância como força capaz de alterar regimes levou á letra as promessas expressas pelo PRP ,quando dos seus ataques aos modos de exploração capitalista do antigo regime na defesa de uma nova ordem baseada no trabalho e na justiça social, iniciam um forte movimento grevista em que se envolvem o campesinato, o proletariado urbano e os serviços. Assim, em menos de dois meses após a Revolução, declaram-se 69 greves até fins de Novembro, a mais importante das quais foi a do pessoal da Carris.

Em menos de dois meses foram 69 greves!... mais 26 até final do ano

Em Dezembro, o Governo Provisório,é forçado a satisfazer algumas das promessas feitas, decreta a lei conhecida por «direito à greve» numa altura em que o movimento grevista tinha adquirido grande élan. O Art.° 1.° do decreto, da autoria de Brito Camacho e popularmente chamado «decreto-burla», diz: «É garantido aos operários, bem como aos patrões, o direito de se coligarem para a cessação simultânea do trabalho.»

Após a publicação do decreto de Brito Camacho, os movimentos grevistas criam as maiores dificuldades à República, que sofre os ataques da extrema esquerda, desejosa de ganhar o maior número de regalias de carácter económico e social; e da extrema direita, que procurava opor-se e contrariar as reformas da República que beneficiassem as classes trabalhadoras. Desta forma, ao longo de Dezembro assinalam-se mais 26 greves.

A agitação social cresce com o PRP a não conseguir conter os vários movimentos radicais que havia alimentado e cumprir as faraónicas promessas feitas. Geram-se conflitos. Registam-se casos de mortes de trabalhadores em acções repressivas da Polícia. Do lado dos trabalhadores também há a assinalar actos de violência cometidos contra as autoridades. E neste clima termina o ano de 1910 ano "de liberdade, igualdade e fraternidade" em que se implantou a República.


O PRP retoma a propaganda do tempo da monarquia...como se o Rei ainda governasse

O ano de 1911 começa de forma auspiciosa.O PRP que entretanto havia tomado a totalidade do aparelho de Estado não abre mão do uso exclusivo desse poder .Retoma ,então ,uma velha practica...a propaganda

Nas esquinas de Lisboa, dirigidos ao povo português e aos eleitores, surgem os cartazes de propaganda onde se apresentam extractos comparativos das obras dos monárquicos e dos republicanos, referidos à dívida pública, à administração da Câmara Municipal, aos adiantamentos à família real, às obras nos paços reais, e outras.



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Capa do "Seculo Ilustrado" de 31 de Outubro de 1910

Nas mesmas esquinas, apregoavam-se folhetos que em verso satirizavam a monarquia, o rei, a rainha, os frades e freiras e outras figuras do regime deposto. O folheto ao Balance do Paiva Couceiro é um exemplo:

«Lá vem o Paiva Couceiro
Com sua gente aguerrida,
Quer ser herói o brejeiro
Mas já perdeu a partida!»

O estribilho dizia:

«O Balance, balance,
Balance sem ser real,
O Couceiro quer dar coices
Cá dentro de Portugal»

Tem fidalgos destemidos
Que por damas são armados
É que vêm resolvidos
A morrer santificados ...

Ó balance, balance,
O Couceiro é general,
E vem montado n´um frade
Fazer guerra a Portugal!...
O estilo chocarreiro, de sabor popular, mantém-se ao longo das vinte e oito quadras, que terminam:

Ó Paiva queres um conselho
Repara que não é peta
Fica a roer n'um chavelho
Vae despir essa fardeta.

E o último estribilho propõe:

Ó balance, balance.
Conspiradores pataratas,
Mandem o Paiva a Palmella
Vocês vão cavar batatas!...

Quando a incapacidade se mistura com a ingenuidade

Apesar da instabilidade social, o Governo Provisório dedica grande parte da sua actividade a tentar reformular e a reformar as estruturas monárquicas.




Governando em ditadura


Apesar das manobras dos anti-republicanos (que não se resumiam aos monarquicos), dos católicos e até das potências estrangeiras — principalmente a Espanha —, o Governo Provisório procura ,na maior parte das vezes forçado a partir das ruas, cumprir as promessas feitas durante a propaganda anterior a 1910.

Reorganizam-se os serviços de assistência pública; estabelece-se o descanso semanal, com a semana obrigatória de seis dias de trabalho; cria-se uma nova moeda, o escudo, equivalente a 1000 réis; reforma-se o ensino primário, estabelecendo-se a instrução oficial e livre para todas as crianças (João de Deus Ramos, filho do autor da Cartilha Maternal, prossegue a luta de reforma pedagógica iniciada por João de Deus e consegue fundar em Coimbra o primeiro jardim-escola); reforma-se o ensino técnico, o Instituto Industrial e Comercial é transformado em duas escolas de nível universitário: o Instituto Superior Técnico e o Instituto Superior de Comércio; a Escola de Agronomia e de Veterinária é desdobrada em dois institutos superiores; são criadas as Universidades de Lisboa e do Porto, em Lisboa institui-se a Faculdade de Direito e todas as faculdades de Lisboa, Porto e Coimbra são profundamente reformadas, tanto nos planos de estudo como no apetrechamento e equipamento científico e de pessoal docente.

A maioria não teria aplicação práctica e as razões são fornecidas pelos próprios republicanos

«A morte prematura dos chefes da revolução criou um grande vasio pois não havia nas fileiras revolucionárias quem, em seguida à vitória militar, assumisse o encargo de orientar e governar o País, nem havia outras personalidades que tivessem alcançado o prestígio e autoridade do almirante Reis e de Miguel Bombarda, cujos funerais nacionais constituíram imponente manifestação de pesar.

O Governo Provisório, proclamado na manhã de 5 de Outubro de 1910 das janelas da Câmara Municipal, por ser produto de uma improvisação não correspondia ao previsto nas vésperas da revolução, e que devia ser presidido por Basílio Teles, que sempre se impusera para o desempenho dessa tarefa à quaí consagrara toda a sua vida de estudioso. Basílio Teles recusou o convite que os revolucionários triunfantes lhe fizeram para ocupar a pasta das Finanças, e a presidência do governo foi confiada a Teófilo Braga, professor do Curso Superior de Letras, autor de uma obra notável sobre a história da literatura portuguesa mas incapaz, pela sua formação e ignorância dos negócios públicos, de elaborar e pôr em prática as reformas que era necessário fazer em todos os sectores da administração pública. Esta situação foi agravada pelo antagonismo pessoal de alguns membros do governo provisório, recrutados entre os tribunos, parlamentares e jornalistas que na derradeira fase da propaganda se haviam imposto à consideração e reconhecimento públicos. As pastas no Governo Provisório foram assim distribuídas, por combinações de última hora: Interior, António José de Akneida; Justiça, Afonso Costa; Finanças, José Relvas; Negócios Estrangeiros, Bernar-dino Machado; Guerra, coronel Correia Barreto; Marinha, capitão-de-mar-e-guerra Azevedo Gomes; Fomento, António Luís Gomes. (...)desenharam-se nas fileiras do Partido Republicano e entre os seus dirigentes mais escutados, duas correntes de ideias sobre a maneira de governar o País, quando a República fosse proclamada. Segundo uns, aquele partido devia exercer uma ditadura revolucionária»

"História da 1º Republica", Carlos Ferrão, pp. 29-31

Portanto, a ideia inicial para a Republica seria a implantação de um regime dictatorial de cunho revolucionário, não fosse a morte prematura de dois republicanos que deixou um enorme vazio?...
O famoso quadro de Roque Gameiro ,onde estão representadas as personalidades mais relevantes para o advento da Republica, inclui 161 personalidades...161!
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Parte do quadro de Roque gameiro

tal era a pequenez de ideias e mingua de activos que bastavam duas baixas para inviabilizar o regime, não admira que a ideia inicial fosse um regime ditatorial



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Esta ideia da "Ditadura Revolucionária foi uma hipotese muito viável no rumo de Portugal até Maio de 1911 com o afastamento voluntário de Basilio Teles.
Não deixa ,porém, de ser curiosa a consideração de Teofilo Braga como incapaz para o cargo e de Basilio Teles como o mais apto, apesar de querer impor (continuar ) uma ditadura

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Teofilo Braga...o "incapaz"

Em Abril de 1911, António José de Almeida, elabora e faz promulgar a nova lei eleitoral e, com a preocupação de preparar pela educação um corpo consciente de cidadãos e para defender esse corpo da influência do caciquismo tradicional, ....rejeita o sufrágio universal e concede o direito de voto apenas aos cidadãos maiores de vinte e um anos que saibam ler e escrever ou sejam chefes de família há mais de um ano.

..ou seja apenas Lisboa elege o Poder

Em Abril de 1911 o Pais que até 5 de Outubro de 1910 constituia um vasto Reino ficou reduzido á sua capital..palco da ascenção e queda da I e II Republicas

(continua)

Ricardo Silva

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A questão do atraso económico Português

Um dos erros frequentes na analise da evolução do nível de vida em Portugal, é considerar todo o período de 1852 até 1914 como um único e indissociável ciclo… fruto da recorrência a autores estrangeiros (a queda da monarquia portuguesa é um facto único na história da Europa do sec XIX ate á I grande guerra, dai ser desconsiderado na analise que estrangeiros fazem). O facto é que existe não um mas dois períodos: o da a monarquia constitucional e o da I republica, sendo que isso não permite que digamos que se em 1852 o PIB per capita a preços constante era de 109 escudos e em 1914 de 142 escudos, que a evolução foi fraca… Falso! Em 1896 esse valor foi de 169, em plena monarquia! Ou seja, mistura-se a ascensão económica do período monárquico com a queda estrutural da I republica para dizer que no período de D. Carlos e D. Manuel não houve qualquer evolução e que as pessoas viviam na mais absoluta pobreza, sendo que a Republica foi a salvação da pátria.
Entre meados do séc. XIX e o inicio da I grande guerra, a Europa conheceu um crescimento rápido da produção. O arranque desta nova estrutura económica começa em 1780-1800 na Inglaterra; 1820-1860 na França (idêntico a Portugal); 1870-1890 na Suécia; 1890-1917 na Rússia.
Se na Inglaterra demora-se 50 anos a atingir a maturidade económica, na França o mesmo tempo, na Suécia 30 anos, na Alemanha 40 anos, no Japão 40 anos, nos EUA 50 anos e para outros países como a Turquia, Argentina, México nunca a maturidade foi atingida e só agora a China e a Índia começam a dar tais sinais, 57 anos depois do “arranque”.
Podemo-nos questionar se efectivamente Portugal estava atrasado em 1900! De acordo com P. Bairoch ("europe´s Gross Natonal Product 1800-1975") um Português em 1860 tinha 77% da riqueza de um alemão, 93% da de um Dinamarquês (imagine-se!!!), 75% da de um Francês, 47 % da de um Inglês… em 1913 cada português tinha 76,4% da riqueza que tinha em 1910 (apenas 3 anos o rendimento cai 23 % !!!). Isso quer dizer que, muito provavelmente (faltam-me dados) em 1910 o rendimento de cada Português poderia ser equivalente ao dum francês, superior ao dum alemão e á dum dinamarquês. Dá vontade de sonhar onde poderíamos estar se não tivesse havido a I republica e toda a propaganda de instabilidade social desde 1890.
Bom; em 1913 cada Português tinha 37% do rendimento de um alemão, 34% da de um Dinamarquês 42% da de um Francês e 29 % da de um Inglês… Em 1975 34% de um alemão, 36% de um dinamarquês 32% da de um francês e 44% da de um Inglês.
Ou seja mais uma vez se prova que entre Portugal e a Europa continuam a faltar o 16 anos de instabilidade da I republica e os 10 anos de propaganda caluniosa irresponsável e homicida que viria a terminar no homicídio do Chefe de Estado e consequente dessensibilização de Portugal no meio internacional.

A situação econónima antes e depois de 1910


A regeneração foi na verdade um “boom” económico que poderia ter adiantado os actuais níveis de vida em 30 anos, não tivesse sido a revolução de 1910 as crises económicas de 1890 e a implantação da republica no Brasil…


A linha azul mostra a evolução do rendimento “per capita” durante a monarquia, no período de 1855 ate 1910

A linha vermelha mostra a evolução do nível de rendimento durante a I República

A linha vermelha fina mostra a “tendência” (trend) que o ciclo económico poderia ter levado se não tivesse havido aqueles 16 anos ,entre 1910 e 1926

1- O 1910

Em 1855 o PIB era de 248.000 contos de reis, para uma população de 3.901.000 indivíduos, tal significava um rendimento per capita de 82 escudos (escudos de 1914). Esse rendimento viria a subir até 176 escudos (escudos de 1914), ou seja 114 % em 33 anos. A manter-se esse ritmo , o rendimento real per capita em 1921 teria sido de 189 escudos e não 90 como efectivamente foi (um hiato de 110%), sendo que era um valor inferior ao auferido em 1799.
Não podemos dizer que o nível de vida em 1799 fosse melhor do que em 1921, embora os dados indiquem nesse caminho, mas podemo-nos questionar onde foram parar os 110% de rendimento per capita, ou mesmo como foi possível a um país com um PIB real de um milhão de escudos em 1910 regredir para metade desse valor em 11 anos (555 000 contos em 1921). Para um país com seis milhões de almas e um rendimento per capita de 90 escudos… pode dizer-se que em 11 anos (1910-1921) Portugal efectivamente regrediu mais de 60 anos, anulando todo o desenvolvimento que a regeneração havia feito, condenando o país a um eterno atraso de uma a três décadas.

2- A REPUBLICA DO BRASIL E AS CRISES DA DECADA DE 90

Que ocorreu então entre 1890 e 1910 ?. A economia quase estagnou, mesmo apesar de em 1910 ter atingido o maior valor para o Rendimento Interno até então conseguido (1.007.000 contos a preços constantes de 1914). Mesmo apesar da enorme dívida que todos os anos crescia 11.000 contos, o país crescia… não havia uma tendência no sentido da descida, como se veio a verificar desde 1910 até 1921.
Para cumprir os programas de fomento necessários Portugal tinha obrigatoriamente de recorrer ao crédito internacional, e para isso era obrigatória a entrada no sistema do “livre câmbio”, através do sistema “padrão ouro” (cada moeda valia efectivamente uma quantidade fixa de ouro).
Esta abertura ao exterior era um enorme risco para uma economia ainda agrícola e a prová-lo estão as pautas aduaneiras portuguesas, que eram à altura as mais elevadas da Europa (o Estado cobrava em média 30% sobre as importações) o que no fundo reflecte o carácter proteccionista sobre a industria nacional.
Mas não se pode dizer que Portugal fosse efectivamente uma economia aberta, pois o peso das importações e exportações nunca ultrapassou os 7% (em Inglaterra a média era de aproximadamente 20%). Só com advento da República é que esta fasquia foi ultrapassada tendo a Balança comercial registrado desvios de 21 pontos percentuais com as importações a representarem 28% do PIB (1921) face aos 7% das exportações.
A real abertura da economia não advinha da balança comercial mas da exportação de trabalhadores (emigração - modelo idêntico ao italiano, com as mesmas consequências). Portugal exportava os trabalhadores, que enviavam remessas sob a forma de letras de câmbio sobre a praça de Londres (porque o Brasil tinha mais relações económicas com Inglaterra) permitindo aos nacionais e ao Estado ter crédito para contrair empréstimos.
Então tudo o que se passava no Brasil tinha reflexos imediatos no valor da moeda face á libra. Isto foi verdade na guerra do Paraguai (1868-71) e particularmente grave na implantação da republica do Brasil (1890-1907).
A desvalorização da moeda face ao exterior provocava o imediato aumento da Divida Pública e de facto o crescente endividamento que se verifica desde 1890 não advém de um endividamento real, mas do seu menor valor. Na altura todos queriam ver culpados no Fontes Pereira de Melo ou numa conspiração inglesa. Foi num estudo de 1915 ( “O Ágio”, Salazar) por um académico de nome Oliveira Salazar, que se provou o que já era sugerido por alguns… Foi o câmbio da moeda brasileira que determinou o câmbio da moeda nacional até 1907.
Tudo estava bem se tudo estivesse bem no Brasil (e D. Carlos sabia-o), mas desde Novembro de 1889, com o fim da monarquia no Brasil que este pais descambou num Carnaval de golpes de Estado, sendo que em 1891 já as praças internacionais previam a bancarrota, com o cambio da moeda portuguesa a cair 25 % e as transferências do Brasil a passarem de 4355 contos (1888) para 800 contos em 1891, uma queda de 80%
Portanto foi uma consequência da conjuntura internacional, o que determinou a fraca performance económica (1890-1907), sendo que o PIB per capita de 1909 só seria igualado em 1928…19 anos de diferença! e a prova do fracasso da I republica
De facto a I república foi um fracasso, não só ideológico como social. O Liberalismo assentava grande parte do seu pensamento no equilíbrio do Poder pela sua divisão. Ao monarca, o poder moderador contrapunha o poder executivo do governo e das assembleias. Mas a implantação da República apenas veio vincar o acrescido gosto pelo poder que as “elites” vinham vindo a adquirir e o quanto era incomoda a presença de um poder moderador. A enorme liberdade de movimento financeiro e executivo dos sucessivos governos veio provar que a independência orçamental tinha sido subestimada e que esta era de facto mais forte do que os poderes consignados na Constituição…mas seria de facto mais eficiente?
A República implanta-se muito devido ao escândalo dos tabacos, que em 1926 ainda não tinha sido resolvido.
O aumento do nível de vida foi uma mentira escabrosa… as diferenças sociais aumentaram, e se em 1910 não se vivia muito bem, em 1921 nem pão havia para comer, o que diz muito da igualdade entre os homens!
A dívida pública aumentou e não se construíram quaisquer estruturas. É legitimo perguntar-se para que serviu a republica ou se a monarquia era assim tão desnecessária.
Bom entre a linha azul e a vermelha a única diferença (do gráfico) é o Rei porque o resto estava lá tudo: as estruturas, os políticos, as mentiras e omissões!
…afinal a monarquia fez falta!

Fonte : Leonidas, Somos Portugueses, Forum Realistas

Eça de Queiroz sempre contemporâneo ...


Pelos vistos nada mudou com a República ... nem mesmo passado 100 anos.


“As Farpas” de Eça de Queirós

«O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: o país está perdido!»

in primeiro número de “As Farpas” 1871.

:))

Fernando Pessoa sobre a república

(...) E o regimen (a república) está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados mentais, nos serve de bandeira nacional - trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português - o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito natural, devem alimentar-se. (...)



Da República de Fernando Pessoa Editora Ática, Lisboa, 1978

terça-feira, 9 de setembro de 2008

RES PUBLICA - O anti-republicanismo de Antero de Quental

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«O pior que nos pode acontecer é sermos amanhã república .»
ANTERO DE QUENTAL, Cartas

Numa época em que se pretende enunciar os princípios republicanos e socialistas como sendo partes naturalmente integrantes do mesmo edifício político (com manifesto abuso, diga-se desde já), urge como nunca explanar em traços necessariamente céleres, condenados à aridez da simples enunciação, o que foi o desavindo percurso perpetrado por cada dessas escolas ideológicas nascidas sob o úbere pendão das ideias filosóficas posteriores ao ultimo quartel do século XVIII mas que não são - longe disso- definíveis uma pela outra. " Em Portugal» republicanismo e socialismo entram de mãos dadas, embora tardiamente,- com um século de atraso em relação à Europa. Os mais directos responsáveis pela sua introdução no tecido intelectual português, assinalaram o feito com um ciclo de conferências que ficou exactamente conhecido por Conferências do Casino ( 1871).

Antero, o maior vulto dessa novel escola política (socialista e republicana), secundado por alguns mais, cedo se aperceberia da natureza autónoma do ideal do regime e a do sistema político-económico almejado, e bem assim da necessidade de separar as águas adscritas a um e a outro.


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Teófilo Braga

Assim, a clivagem república/socialismo pode ser consubstanciada na disjunção Teófilo Braga/Antero de Quental e verifica-se «a partir do momento em que a Geração setecentista divide o seu caudal, separando-se em dois leitos distintos, o do Partido Socialista (fundado em 1875) e o do Partido Republicano (fundado um ano depois)'»

Ê assim que ainda mal nado, o socialismo português se divorcia do republicanismo e enceta uma clara aproximação ao até aí combatido regime monárquico.

Esse divórcio era ditado pelo mesmo Antero em carta dirigida a Oliveira Martins:

«A fantasia republicana está desfeita de todo o nosso grupo socialista e dou por isso graças aos deuses.É necessário, de toda a necessidade, que quebremos com os republicanos e eu estou resolvido a fazê-lo»(2).

Logo a seguir, declarava a sua «completa isenção «do movimento republicano»(3). Em 1885, o seu descrédito nos decantados benefícios da instituição republicana para suprimento das minguas económicas e sociais do País, vai mais longe:

« (...) Está iminente a bancarrota e uma tremenda crise social; a proclamação da Republica não só não remediaria esses grandes males (...), mas trazia uma complicação e elemento de desordem, como ainda em 1873 se viu em Espanha»(4)


Oliveira Martins, plumitivo de credo monárquico, infatigável teórico da conciliação da doutrina [e] robustecimento do Poder Real com um Socialismo de Estado (5) ,seria a mais bela expressão dessa nova aliança entre o ideário socialista temperado e o regime sete vezes secular. Mesmo depois de ter passado fugazmente pelas esferas do poder, onde o seu sonho de reconstrução nacional esbarrou no imobilismo de um constitucionalismo aferrado e inerte, não cedia a confusões, depois de namorado pelos republicanos para seu deputado pelo Porto:


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Oliveira Martins

- « E quem lhes disse aos senhores, que sou republicano? Não sou, sou socialista..» E acrescentava: «República,anarquia e Castela»(6).

E se assim era no plano intelectual, também na esfera da acção política se verificou a dissensão, acrescida da perseguição que os republicanos começaram a. mover aos movimentos socialistas e sindicais. Em 1885, o Partido dos Operários Socialistas de Portugal acha-se ferido de morte, e mau grado Azedo Gneco tivesse fundado o Partido Socialista Português (1895), e tendo adoptado por estratégia de sobrevivência uma aproximação aos republicanos em 1901 , depois de controvérsia (Luís Figueiredo opôs-se terminantemente e o rompimento definitivo da-se em 1907), o sucesso da táctica era impedido por «uma forte desconfiança.em relação ao Partido Republicano», como escreve António Ventura (7).

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Azedo Gneco discursa

Com a fundação do Partido dos Operários Socialistas de Portugal recrudesce e ganha contornos inauditos de animada aversão o combate aberto que o Partido Republicano move aos socialistas. Estes conhecerão um único e fervoroso coadjuvante: El-Rei-D. Manuel II.

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D. Manuel II

O trecho da carta que de seguida expomos .(dirigida pelo monarca a Venceslau de Lima cm 15.6.1909), é a esse respeito bastante esclarecedora:

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Venceslau de Lima

«(..,) o Partido Socialista encontra-se desorganizado e dividido em fracções desde 1891. O Partido Republicano tem-lhe feito uma guerra de morte e arranjou sempre coisas de maneira que o partido se encontrasse sempre em desacordo („.). O Partido Socialista encontra-se há poucos dias completamente unido: a pessoa que conseguiu isso é o Alfredo Aquiles Monteverde (...). Eu tenho-me interessado muito há já bastante tempo por essa questão, que tenho vindo seguindo e ajudando».


Feitas as diligencias régias para que o Partido Socialista ganhasse uma compleição de poder, estudado o respectivo programa enviado por Gneco. Monte verde dirige-se desta parte ao Rei: «Venho agradecer reconhecidíssimo o bilhete e a carta que V.M. houve por bem enviar-me e o interesse que V.M. continua a tomar pelos seus operários. Mal sabem eles do alto patrocínio que tão eficazmente os está auxiliando neste momento». (8)

Após o advento da República, o Partido Socialista, no seu "Manifesto", perfila-se como oposição e não tem pejo em proclamar.

«O Partido Socialista entende que deve ser lançada aos actuais dirigentes e aos elementos mais preponderantes da República Portuguesa a inteira responsabilidade por todas as perturbações de ordem ultimamente havidas e por todas as que parecem prestes a haver ...»(9).


A repressão republicana contra o operariado, revestiu-se de contornos dignos da mais acerba dás tiranias. Em 1912, na Greve Geral de Lisboa, os grevistas foram duramente reprimidos e submetidos a degradantes prisões. Um ano depois o democrático (!) «governo de Afonso Costa proibiu o cortejo e o comício do 1º de Maio...» (10)

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Afonso Costa

Meses antes, o Anti-Cristo de Seia (o epíteto é do seu ex-colega de partido Cunha e Costa) assinava no jornal "O Mundo" um artigo em que demonstrava descrer no futuro do socialismo e bem assim no movimento das cisasses operárias e sindicatos. (11)

E dando vazante à ideia de enfrear o operariado, conta Carlos Mailheiro Dias que os proletários acusaram a «república de ter mandado fuzilar os operários grevistas de Setúbal como nunca-se tinha feito rto tempo da monarquia: (...) de decretar uma lei eleitoral mais reaccionária que qualquer das que estiveram em vigor no antigo regime» (12).

Em 1914 é fundada a União Operária Nacional, que o governo de então logo se apressou a extinguir, sendo reorganizada em 1917. Em Maio desse ano, como protesto contra a falta de pão em Lisboa, quatro milhares de pessoas manifestaram-se no Rossio e a Guarda Nacional Republicana recebeu ordens governamentais para dispersar os civis pela violência, O confronto saldou-se em dezenas de mortos e 547 prisões. (13)
Mas o conflito entre republicanos e socialistas, não se confinaria à I República (onde de resto, nas diversas legislaturas, apenas foi eleito um máximo de dois deputados socialistas, o equivalente a deputados miguelistas). Na II República foi o que se sabe; o socialismo seria banido oficialmente do solo português e o sindicalismo decretado, tal como na I República. adverso ao Estado» Só após o 25 de Abril os socialistas se puderam organizar livremente, como queria 65 anos antes, o Rei D. Manuel II.

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Por este apontamento poderemos ver que socialismo e república, andaram desavindos durante mais de cem anos. e só muito recentemente se reconciliaram...

J. Mendes Rosa

notas
1-João Medina "Antero e Teófilo"

2- Cartas inéditas de Antero de Quental a Oliveira Martins,1, Univ. de Coimbra, Coimbra 1931, pp 17-18

3-Ibiden

4- Carta a S. Costa Botelho de 1-VIII-1885, "Cartas II", p 746


Fonte : Blog Esquerda Monarquica : http://esquerda-monarquica.blogspot.com/
Somos Portugueses

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Uma Carta para o arraial do barrete frígio, por MAnuel Alves

"Sob o título "Aos Republicanos", o historiador João Medina publicou em 2006 no Jornal de Letras, uma Carta que julgo deve merecer a atenção de todos os que, como eu, entendem que a Instituição Real é a que melhor pode servir na Suprema Magistratura de um Estado verdadeiramente republicano e português.

Pedindo perdão aos seus "compatriotas de barrete frígio", João Medina vem dizer "com franqueza e sem quaisquer intuitos de desafio ou provocação, a dois anos do centenário da data da implantação da I República", "em termos simples, cordatos e benévolos": "... não creio que valha a pena preparar, oficialmente, ou mesmo em meios académicos, a celebração dum mau defunto que foi esse regime de década e meia de vigência atarantada, e que, bem feitas as contas, teve nada menos do que 47 governos que a desgovernaram por trancos e barrancos (...) de atribuladíssima e caótica duração, com muitas bernardas castrenses de permeio, sedições várias, tumultos constantes e quase sempre mais ou menos sangrentos, de atropelos à legalidade e ditaduras disfarçadas ou às escancaras, sem falar da Ditadura das Urnas, com o 'partido democrático' do dr. Afonso Costa (aquele homem de Direito que foi uma vez ao Porto, em 1902, com uma soqueira, para agredir à traição o Sampaio Bruno), mais uma participação em tudo funesta e catastrófica nos conflitos europeu e africano, e, por fim, uma degola que nos privou da Liberdade, com certa lógica fatal depois de tanta bagunça, desassossego, insensatez política e falta de implementação mínima dum regime sério de Cidadania, Educação generalizada ou Progresso material, porquanto nem se educou o povo, nem se fez de cada português um cidadão livre, nem se melhorou a vida dos portugueses".

A concluir, João Medina lança aos correligionários algumas perguntas: "Em 2010 vamos, em suma, celebrar o quê? O começo dum erro imenso e desastroso para o país que somos? A nova versão da comédia offenbaquiana da monarquia constitucional, agora em versão sanguinolenta? (...) Não seria melhor, em vez de celebrarmos o 5 de Outubro, rezarmos-lhe um responso (laico) pela pobre alma penada que ele foi? Antes isso do que comemorar uma República sem epublicanos, como a nossa é."

Fazemos nossas as palavras citadas do seu balanço da I República, mas acrescentamos ao desalento das suas interrogações finais: se o que é nefasto não se celebra, pode no entanto ser comemorado com a História diante dos olhos, como aliás o historiador, o ensaísta, e Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, acaba de fazer nos trechos que escolhi desta Carta. Como deixou escrito D. Jerónimo Osório, nas vésperas do nefasto 1580, "A História é proveitosa para adquirir prudência, poderosa para despertar virtudes, saudável para sanear as feridas da República".

domingo, 7 de setembro de 2008

A república no seu melhor (4)

Entre 15 de Outubro de 1910 e 19 de Junho de 1911, a bandeira nacional foi alvo de acérrima contenda entre os republicanos, a chamada “Polémica das Bandeiras”. Para os revolucionários, por forma a marcar a mudança de regime, urgia mudar o mais importante símbolo nacional. Então estiveram em confronto a facção moderada representada por Guerra Junqueiro, que defendia a manutenção das cores azul e branca, e a facção radical liderada por Teófilo Braga, que defendia a adopção das cores “verde-rubra” da bandeira do Partido Republicano como nova bandeira nacional. Sobre a escolha triunfante é conhecida a opinião do poeta republicano que afirmou sem rodeios ser “uma bandeira de pretos”.

Imagem: a caricatura dos protagonistas da disputa Guerra Junqueiro e Teófilo Braga.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Agora tal como antes ...

Há cem anos, a 3 de Novembro de 1910, Afonso Costa, recém-nomeado ministro da Justiça da jovem República Portuguesa, apresentou a primeira Lei do Divórcio, completada por outras a 25 de Dezembro (que não era Natal, mas "Festa da Família Portuguesa" por decreto da presidência do Governo Provisório de 12 de Outubro). Na altura governava uma pequena elite urbana que se sentia dona do futuro e impunha as suas teorias à massa ignara. O resultado dessa governação foi a maior catástrofe social e económica do Portugal moderno.

João César das Neves
in Diàrio de Notícias, 1/9/2008

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Carta de José Lobo de Vasconcelos a D.Manuel II


Azedo Gneco


El Rei D.Manuel II consciente de que com os partidos rotativos não era possível construir um governo estável que reflectisse os desejos do povo entra em conversações com o Partido Socialista de Azedo Gneco. Fruto e testemunho da "Consciência Social" de El Rei D.Manuel II é esta carta dirigia a El Rei D.Manuel II por José Lobo de Vasconcelos depois de 1910, na resposta de El Rei D.Manuel II vê-se a preocupação do Rei expulso com a sua tão amada Pátria.
Por muito que os republicanos ofendessem a personalidade de D.Manuel II, por muito que a estória escrita com as cores verde e rubra tentasse demonstrar, D.Manuel II era uma pessoa muito mais do que se dizia. Foi o primeiro a ser chamado "Chefe de Estado" e de certeza que foi o mais brilhante de todos os que lhe sucederam ....

Chamei "estória" e não "história"ou seja de forma prejurativa porque a história que se conhecia até à pouco tempo foi fortemente mal contada de propósito pelo regime vencedor de 5 de Outubro. Sempre disseram que D.Manuel II não era um Rei capaz e sem personalidade, era comandado pela sua mãe. Esta é que é a estória, parte da História são as cartas que deixei.

Quem era José Lobo de Vasconcelos ?

  • General de Artilharia
  • Ajudante de Campo dos reis D. Carlos e D. Manuel II


  • Fontes : Dossier Regicídio, de Mendo Castro Henriques

    sábado, 16 de agosto de 2008

    A república no seu melhor (3)

    José Maria, António e Alberto Eça de Queiroz, filhos do grande romancista português tomaram parte nas incursões monárquicas de Paiva Couceiro e envolveram-se na monarquia do Norte. Como resultado, a viúva D. Emília de Castro Pamplona perdeu o direito à pensão devida pela carreira diplomática do seu marido.

    Imagem daqui, com a devida vénia ao Afonso Reis Cabral. Da esquerda para a direita: Alberto; António; José Maria; Maria; e a viúva Emília Eça de Queiroz.
    Reeditado

    quarta-feira, 13 de agosto de 2008

    A república no seu melhor (2)

    Na fotografia (daqui), a moderníssima Av. Rainha D. Amélia em 1908. Após a revolução de 5 de Outubro a conhecida artéria Lisboeta foi renomeada Almirante Reis.

    sexta-feira, 8 de agosto de 2008


    O antigo presidente do PSD decidiu não permitir  nas imediações do espaço aéreo vizinho da Vivenda Mariani, a passagem de qualquer tipo de aeroplano que incomode sua excelência. Os portugueses já há muito se habituaram ao despautério dos carros topo de gama que abrem caminho à força pelas ruas de Lisboa, precedidos de estridentes sirenes de batedores policiais.

     

    Já todos nos acostumámos a ter que esperar longos momentos dentro dos aviões acabados de aterrar, pacientemente resignando-nos às delongas deste ou daquele ministro que se demora na primeira classe, alheando-se completamente dos "passageiros vulgo" que pagam os seus bilhetes, mas que não podem sair antes da alta autoridade o fazer.

     

    Também se tornou rotina a abusiva utilização de viaturas do Estado - nossas, estas sim, de todos os portugueses -, para fins partidários ou lúdicos.

     

    O consumidor de uma dotação 16 milhões Euro/ano, não está com meias medidas e assim, prejudica as empresas de publicidade, corta cerce os voos  particulares que enxameiam os céus do Algarve e não se importa minimamente com este evidente sinal de desdém e prepotência. É isto, a república e quem a quer, que a pague.

     

    Como sugestão, sugerimos às dezenas de assessores belenzeiros, que influenciem para a construção de uma bateria de mísseis Patriot nas imediações da Vivenda Mariani, ou pelo menos, que recorram a uns antigos mas comprovadamente eficazes88mm A.A.


    sexta-feira, 1 de agosto de 2008

    A crise republicana

    A guerra surda entre a república (unitária) e as autonomias regionais produziu ontem mais um episódio insólito – numa inesperada comunicação ao país Cavaco Silva queixou-se do novo estatuto dos Açores (aprovado por unanimidade) alegando que lhe estavam a reduzir os poderes presidenciais.
    Foi rápidamente secundado pelos partidos e personagens do costume e com as cambiantes conhecidas: - em romagem de saudade comunistas e centristas vieram em seu auxílio; no PSD fez-se um silêncio religioso; Sócrates pôs água na fervura; e o Bloco disfarçou com coisas mais importantes!
    Porém não adianta desvalorizar o assunto pois estamos a falar do regime e da sua incapacidade para lidar com as autonomias regionais. Agora já não é o Governo que está no centro do conflito, é o próprio órgão Presidente da República que se ergue como força de bloqueio ao aprofundamento da autonomia e ao desenvolvimento regional!
    Para um açoreano médio Cavaco Silva é a partir deste momento um ‘inimigo’ dos Açores! E pela mesma bitola serão julgados os partidos que alinharem com o Presidente da República nas restrições à autonomia do arquipélago.
    E tudo isto com eleições à porta!
    ‘Os dados estão (assim) lançados’ e não foi por acaso que esta semana o ideólogo do regime (o ex-Vital comunista) se empenhava tanto em lembrar a quinta república francesa, uma espécie de visão de um presidencialismo redentor!
    Mas que o caso é grave, é sim senhor.
    Talvez seja o fim do Interregno…

    segunda-feira, 21 de julho de 2008

    O Kaiser, D. Carlos I e os socialistas




    A propósito do post no Combustões Kaisermania, seria muito interessante conhecermos as famosas cartas trocadas antes e depois do Regicídio, entre o Paço das Necessidades e o Partido Socialista de Azedo Gneco.  Após o 5 de Outubro, foram utilizadas pelos novos ditadores do regime, para a liquidação das veleidades do PS em ir caminhando em direcção á participação no poder. Parece que esses contactos visavam o reordenamento do espectro partidário constitucional, criando verdadeiras alternativas e assim, teríamos no futuro, os Regeneradores-Liberais e os Socialistas. O prp dinamitou a possibilidade. Conhecemos o resultado: violenta repressão sindical, esmagamento do "populacho" nos cadernos eleitorais, liquidação da imprensa independente, coacção física e moral da oposição. O socialismo português - que nada tem em comum com aquilo que hoje vemos - ficou para sempre remetido à simples recordação de uma hipótese perdida. Na Alemanha, o SPD conseguiu mais, muito mais, assim como na generalidade dos países do norte da Europa. Aqui, contentámos-nos com as cartolas e os fraques do Costa e do Bernardino.

     

    *Na imagem, o Kaiser  Wilhelm II com D. Carlos I e a rainha D. Amélia (Lisboa, Março de 1905)


    quinta-feira, 17 de julho de 2008

    A república no seu melhor (1)


    Entre Outubro e Dezembro de 1910, Afonso Costa, ministro da Justiça e dos Cultos do Governo Provisório, aboliu os feriados católicos excepto o Natal, que passou a chamar-se Dia da Família. Enquanto se substituía afanosamente a ancestral toponímia das cidades com a nova nomenclatura República Cândido dos Reis, Elias Garcia e demais revolucionários, estalou uma polémica com o inconcebível bolo-rei, que passou a chamar-se "democraticamente" bolo-nacional.
    Na imagem caricatura do Thalassa parodia a censura à imprensa promovida por Afonso Costa. Saiba tudo visitando a Plataforma do Centenário.

    Frases antigas sempre actuais

    Na pesquisa que tenho vindo a efectuar para a Plataforma do Centenário deparo-me às vezes com frases de uma espantosa actualidade

    Para certos republicanos a Republica tem sido um pé de cabra com que vêem aumentando os seus haveres.

    (Boletim parlamentar do Senado Sessão de 11 junho de 1913).
    João de Freitas (Senador—Republicano Histórico).

    segunda-feira, 14 de julho de 2008

    Presos Políticos na I República

    É com prazer que inicio o meu contributo neste blog e também na Plataforma do Centenário da República, anunciando que já se encontra disponível a primeira página relativa aos presos políticos, cuja secção será actualizada ao longo dos próximos dias com mais informação.

    Restos de família

    Não procurem neste texto a verdade das ciências ou a fé das religiões, escrevo por instinto e para satisfazer algumas necessidades cartesianas – opino, logo existo. Nada mais. Hoje preciso de falar na família, no conceito que herdei, que me dá jeito, e que Sócrates (o primeiro-ministro) também parece defender!
    Foi sem querer, eu sei, serviu apenas para denunciar a opositora, definitivamente enleada na estreiteza do liberalismo.
    Manuela e Sócrates não se distinguem neste aspecto, filhos dilectos de Rousseau, ambos se conjuraram para destruir a família patriarcal, onde a comunhão e a solidariedade estavam presentes para além da procriação. Era conceito inclusivo e abrangente, não tinha que ver com os valores efémeros de cada época, consubstanciava uma realidade duradoura.
    Porém, a miragem do homem anjo, pré-familiar (!), as necessidades (comerciais) de conquista do poder pela burguesia, esvaziaram o conceito e destronaram a família real – exemplo e representação de todas as famílias. E sem representação política a família desfez-se lógicamente.
    Entre os escombros subsistem os restos do antigo agregado mas a confusão está instalada – a (avó) Manuela aprisiona a família na procriação enquanto Sócrates insinua abrangência para a contrariar. Mas não têm (não temos) sorte nenhuma, o mais certo é acabarmos a vida num lar, sem família por perto… sanguínea, ou outra.

    domingo, 13 de julho de 2008

    1808-1908-2008


    «Aberto com a fuga da família real para o Brasil, o século liberal termina com a liquidação física, se não moral, de uma monarquia a quem se fazia pagar, sobretudo, uma fragilidade nacional que era obra da nação inteira»

    (E. Lourenço, O Labirinto da Saudade, cap. 1).

    sábado, 12 de julho de 2008

    a república dos gangs e do porte de arma




    À noite, sento-me muitas vezes diante do computador e faço o clic para um programa de jogos de táctica e de estratégia, com cenários de campanha e outros, menos interessantes, de guerrilha urbana. É um passatempo como outro qualquer e oferece a vantagem de aprender qualquer coisa.

     

    Este fim de semana iniciou-se com um tiroteio como há muito não se via em Portugal. Parecia termos recuado à ominosa 1ª república dos Costas e dos Bernardinos, onde bairros e profissões gostosamente se massacravam a tiro, fazendo do lazer uma escola de partisans para o que o porvir do regime propiciasse. 

     

    Existem centos de milhar de armas "de caça" legalizadas e o governo parece disponível para estudar a hipótese de uma certa liberalização do porte de armas de fogo, ditas de defesa pessoal. Continuo a pensar que as armas devem ser privilégio exclusivo das forças policiais e de defesa da soberania, ou sejam, as forças armadas.

     

    Sou totalmente contra actividades que impliquem a chacina de animais, onde malucos e disfuncionais descarregam variadas frustrações, no abate de seres indefesos e essenciais à preservação do equilíbrio de uma natureza já muito devastada pelo bicho homem. Ilegalizava a caça, pura e simplesmente. Desarmava os pretensos "combatentes das coutadas", esvaziava os arsenais particulares. Cada rusga das forças de segurança, implica a captura de vultuoso material de guerra, onde não faltam metralhadoras ligeiras, espingardas e pistolas militares e por vezes, granadas ofensivas. Não teremos que esperar muito para surgirem os primeiros LOW ou TOW.

     

    Vivemos um período eivado de incertezas. Em cada casa as dificuldades económicas são o reflexo daquilo a que se passa na macro-economia nacional. As mentes andam turvas, o tom do vozear popular atinge já as fronteiras ida insurreição latente. O descrédito das instituições do Estado é total e do primeiro titular dos órgãos de soberania, até ao mais ínfimo subsecretário de Estado, todos são amplamente confundidos numa amalgama de desrespeitoso desprezo, sem que se vislumbre remédio para o mal.

     

    Liberalizem ainda mais o porte de arma. Verão no que dá.


    quinta-feira, 10 de julho de 2008

    História e Teologia

    Dentro de dois anos comemora-se o centenário da revolução de 5 de Outubro, que pela força, implantou o regímen dito “republicano” em Portugal.
    As comemorações de dita efeméride, tal como até agora foram apresentadas, irão se debruçar não sobre aquilo que a 1ª República foi na realidade, mas sim sobre aquilo que os alegados “herdeiros” desse regímen gostariam que tivesse sido.
    Em 2010 vai ser comemorado um regímen que nunca existiu.

    Importa por isso fazer um combate. Um combate pela reposição da verdade e nada mais que a verdade.

    E a verdade combate-se com FACTOS, factos esses prudentemente arrumados no fundo das gavetas da história, pelos “Historiadores” que nos últimos 50 anos escrevem a versão oficial da História, que na realidade nada mais são que teólogos que buscam apenas a confirmação dos seus dogmas.

    Este trabalho de grupo que agora começa a dar os seus primeiros passos, não pretende ser uma obra teológica a qual, contra os dogmas da história republicana, procura contrapor os seus próprios dogmas. Os factos falam por si. Basta contá-los.

    Tal como escreveu Ernest Renan na introdução ao 4º volume da História das origens do cristianismo – O Anti-Cristo […] Porque a história é a análise duma vida que se desenvolve, dum germe que se expande e a teologia é o inverso da própria vida. Atento apenas ao que confirma ou infirma os seus dogmas, o teólogo, até o mais liberal, é sempre, mesmo sem se aperceber, um apologista; o seu fim é defender ou refutar. O historiador não tem por missão senão contar […].

    É norteado por esta visão de Renan, que inicio aqui e na plataforma a minha colaboração, tal como tenho vindo a fazer desde há três anos e meio no meu blogue Cartas Portuguesas.

    terça-feira, 8 de julho de 2008

    A condição feminina e a república


    Sabia que, com o advento da república o direito de voto das mulheres foi restringido relativamente à lei do deposto liberalismo? Sobre o assunto encontra-se muito mais no site Centenário da República.

    Na imagem: convite para a sessão inaugural da assembleia constituinte onde se pode ler: “Admissão para Homem”.

    O Marabuntismo


    Consta por aí, que o chefe do Estado promulgou uma controversa lei proposta pela maioria parlamentar, que legaliza em definitivo, a acumulação de reformas de detentores de cargos públicos. Assim, quem tenha sido deputado, ministro, primeiro-ministro, director de empresa e ..., pode, chegando a "retraite", auferir de um pecúlio em nada desdenhável. Os republicanos sabem como fazer as coisas. Importam-se de nos ensinar?

    Chagas da república: Paris dos prazeres.


    Quando da ocorrência do golpe de Estado de 1910, a Europa vivia os derradeiros momentos da Belle Époque, sem suspeitar que poucos anos depois, todo um mundo desapareceria, vítima da voragem da Grande Guerra. Até ao verão de 1914, as notícias divulgavam o carnet mondain parisiense, as visitas de Estado dos monarcas europeus, o escândalo Calmette-Caillaux e inevitavelmente, a desastrosa situação social, política e económica em Portugal. As correrias nas ruas de Lisboa, as bombas, assassínios e as consecutivas quedas de governos, ofereciam aos leitores interessados, a imagem de toda uma sociedade em conturbada crise identitária, onde uma república fora imposta violentamente pela vontade de associações secretas e de um partido considerado minoritário no arco constitucional português. Com as prisões abarrotando de presos políticos, à Europa chegavam informações de tortura, atropelo aos direitos, ilegalidades e arbitrariedades das autoridades que coagiam uma justiça, que condicionada por grupos de rufiões a soldo dos caciques políticos, desprestigiava os tribunais.

     

    Num cenário de catastrófica anarquia, a imagem que os europeus tinham dePortugal, era negativa, pois ainda estava presente no espírito de muitos, o regicídio de 1908, onde a autoria moral e material dos republicanos, não oferecia dúvidas a ninguém. Curiosamente, a imprensa francesa era uma das mais críticas e virulentas na análise da situação portuguesa, surpreendendo desagradavelmente os incondicionais francófilos do prp que na França viam o modelo a copiar pelo regime instaurado a tiro na Rotunda.

     

    João Chagas é um homem típico da sua época. Medianamente culto, seguidor dos princípios do politicamente correcto do quotidiano, enfastiava-se facilmente quando era obrigado a prescindir dos círculos aristocráticos ou da alta burguesia parisiense que assiduamente frequentava. Os seus diários são eloquentes quanto ao turbilhão social em que mergulhou durante a sua estadia na capital francesa. Festas, bailes, chás, jogos de sociedade, beija mãos a condessas e princesas, ou tráfico de influências junto ao poder político e da imprensa. Pouco nos diz acerca da sua visão - segundo um programa criteriosamente estabelecido - de um Portugal que pretende inserir-se no século XX das maravilhas técnicas, do progresso social e da liberdade. Não. Entre 1914 e 1921, escreve centenas de entradas que relatam a sua preocupação pelas aparências, as suas dogmáticas e sebastianistas certezas na etérea visão de uma república que é república formalmente e apenas isso. Espanta-se pela revolta latente em Portugal, indigna-se pela pressão das hostes monárquicas e corrobora na necessidade de perseguição às vozes discordantes da situação. Parece que se esquecera dos trinta anos que antecederam o 5 de Outubro, durante os quais o seu partido de tudo se serviu para destruir o regime constitucional - um dos mais livres da época - legalmente estabelecido.

     

    O que se torna paradoxal nesta obra, consiste na falta de um projecto, na perfeita inconsciência da realidade, negativa para todos, em que Portugal se encontrava. A sua exclusiva preocupação, resumia-se a uma indisfarçável vanglória, na ânsia de se ver equiparado aos seus colegas diplomatas das potências europeias e, claro está, numa furiosa e constante diatribe contra os seus correligionários do regime, neles vendo a causa do insucesso da sua mirífica ilusão de uma república restauradora de glórias passadas. O resto do texto, é um longo rol de preconceitos, dichotes, intrigas, boatos e campanhas difamatórias - onde uma vez mais a rainha D. Amélia se torna um alvo apetecível - e, finalmente uma exaustiva e interessante informação acerca das casas da alta sociedade parisiense, onde a gastronomia, o luxo e a trivialidade dosfait-divers senhoriais o impressionaram fortemente.

     

    A opinião que tem do regime dos seus, é má,  pois "...a República...dá-me a impressão de uma desordem que cada vez mais se agrava, em que já há facadas, em que já corre o sangue, e a que eu assisto de longe, com o coração aos pulos, mas de braços cruzados". Entre um jantar de gala onde brilhavam senhoras altas, bem vestidas e ostentando portentosos decotes e uma amena charutada com homens públicos, Chagas encontra palavras de incontornável desprezo relativo aos representantes de nações extra-europeias "... à minha direita uma grande mulata que não sabe uma palavra de francês, mulher do ministro de San Domingos... a pobre mulher acha muito boa la comida del palacio e bebe todos os vinhos que o criado lhe serve". Tudo o mais consiste na enumeração dos convivas para os habituais ágapes, onde pontificavam príncipes, condes, duques e alguns homens do Estado francês, zelando de forma obsessiva a sua aparência, onde o bem vestir era, segundo facilmente se depreende, uma condição incontornável para se ser considerado.

     

    Chagas sente um nítido desdém pela qualidade intelectual e moral dos seus pares e acalentou ódios que duraram até ao fim dos seus dias. António José de Almeida, Brito Camacho, Bernardino Machado, entre muitos outros - afinal o essencial do regime republicano -, são crismados com epítetos que fazem empalidecer aqueles outrora outorgados à classe política da monarquia. De resto, a imprensa francesa não lhe dá tréguas, relatando detalhadamente as greves, levas de presos, perseguições e abusos de poder em Portugal, o que perturbava a sua ronda pelos bailes do Eliseu, as visitas ao fotógrafo Nadar, as idas ao teatro ou furtivas espreitadelas aos roliços colos das damas do corpo diplomático. Facto espantoso, é a sua surpresa perante o estilhaçar do serviço diplomático português, queixando-se amargamente da falta de contacto com o Ministério dos Negócios Estrangeiros em Lisboa, do qual raramente recebia notícias ou directivas, dependendo totalmente da imprensa internacional. De facto, o novo regime não podia prescindir dos quadros oriundos do seu predecessor, pois a imensa maioria dos membros do prp, não era gente capaz ou idónea para preencher os requisitos para a normal gestão do Estado, nem se encontrava inserida na vital rede de contactos e relações pessoais da diplomacia internacional. Os jornais estrangeiros são a constante preocupação de Chagas que por todos os meios tenta mitigar a opinião desfavorável que tinham da república, pois o relato das constantes ocorrências em Portugal, destruíam a imagem ideal e propagandeada de um país renovado e aberto ao futuro. Estava em causa, afinal, a sua própria reputação em Paris. No entanto, como o autor expressamente declara, a maioria das publicações trazem "...artigos tremendos contra a República. Em appoio das suas affirmações esses jornaes reproduzem opiniões de republicanos portugueses". A imprensa lisboeta vai divulgando as "tumultuosas e escandalosas sessões na Camara. O senador João de Freitas disse ao Alexandre Braga: v. Exa. é um miserável apache. O Braga não se mostrou sensível à affronta. O João de Menezes pegou-se ao socco com o presidente da Camara. Foi preciso separá-los. Um horror". Estes episódios eram recorrentes e assim, Chagas vai reproduzindo aquilo que a imprensa publica, como os escândalos de corrupção "...a crise (...) provocada pela questão da concessão das águas do Rodam, feita em favor de António Maria da Silva, deputado (...) que chamou canalha a um deputado. Este por sua vez chamou-lhe tolerado (...) as galerias intervieram na contenda e deram morras a Affonso Costa. Nos Passos Perdidos houve bofetões. Toda a gente andava armada" (17 de Junho de 1914). Um mês depois, a 15 de Julho, Chagas escrevia que "...em Portugal novos acontecimentos anormaes de que a imprensa de Paris esta manhã se occupa. Os amigos de António José d'Almeida, reunidos aos anarchistas, promoveram em Lisboa um comício durante o qual se comparou o Affonso Costa ao Diogo Alves e ao José do Telhado. À noite desordens no Rocio. O Café da Brazileira foi assaltado por um grupo (...) aos gritos de - Abaixo a formiga branca! Dispararam-se muitos tiros de revólver. Parte do café ficou em estilhas". Os pequenos compadrios e situações de nepotismo, mereceram inúmeras referências "...o António Bandeira (...) vai (...) occupar finalmente o seu logar de ministro em Berne, que conquistou sem grande esforço. Apenas o trabalho de ser primo do Bernardino Machado". Na necessidade premente de encontrar quadros afectos ao novo regime "... fui eu o primeiro homem que em Portugal lembrou este Teixeira Gomes (...) um pouco poseur (...) e que não se arranjava mal (...) Bernardino Machado (...) não gostou d'elle, por lhe parecer impertinente, ou desrespeitoso. O amor próprio de B. Machado não suporta aparencias altivas (...) como sempre, porém, fez uma tolice e em vez de o collocar em Madrid, onde elle não estaria muito fora do seu logar, no meio um pouco cigano da Hespanha, colocou-o em Londres, onde está inteiramente deplacé. Teixeira Gomes é uma especie de Oscar Wilde, com alguns vícios d'este e sem o seu talento (...) não é feio homem, mas falta-lhe nobreza (...) parece um clown enfarinhado".Brito Camacho é outro dos ódios pessoais de Chagas, chamando-lhe "...estúpido até à torpeza".

     

    Os relatos do seu diário dos primeiros sete meses de 1914, focam genericamente os mesmos temas: a imprensa estrangeira, bastante cáustica em relação ao desvario político, económico e social imposto pelo novo regime em Portugal; a imprensa portuguesa, uma preciosa fonte de informação - e de aflição -, para um diplomata que carecia das mais elementares directivas para a prossecução da defesa dos interesses nacionais em Paris; e uma infinidade de almoços, jantares, visitas a teatros, clubes privados, casas da nobreza, ao palácio presidencial, além de uma vertiginosa agenda de festas bailes, soirées lúdicas e apreciação da moda feminina. A profunda antipatia para com os menos bafejados pela fortuna denota o seu carácter, preocupado em alcandroar-se a um lugar cimeiro, de onde julgava impiedosamente o valor de outrém, disso dependendo a sua apresentação física, os seus gostos, modos e maneira de vestir. João Chagas era um impenitente dandy, mais impressionado pelos roçagantes fru-frús das sedas e rendas das merveilleuses da época, que com aquilo que verdadeiramente interessava: a procura de um rumo e de um projecto paraPortugal. Tal como o regime implantado com o tiroteio na Rotunda, dava mais relevo ao acessório, porque de facto, o essencial desvanecera-se na meramente virtual demagogia dos seus pares. Nunca compreendeu que era parte integrante de um sistema e de uma forma despreocupada e irresponsável de conduzir os destinos de um país. Portugal pagaria bem caro esta incompetência e neste centenário da república, urge desvendar factos que ao longo das décadas foram sendo esquecidos ou habilidosamente adulterados pela propaganda oficial.

     

    (continua).

    segunda-feira, 7 de julho de 2008

    Uma marca de sobriedade

    Foi publicado no Portal do Governo no passado dia 16 de Maio a composição da Comissão Nacional para as comemorações do Centenário da República acordada entre o Chefe do Estado e o Governo. Sob a presidência do Dr. Artur Santos Silva, a comissão integra como vogais executivos a Doutora Fernanda Rolo e o Prof. Doutor João Serra e como vogais o Dr. Francisco Sarsfield Cabral e a Prof. Doutora Raquel Henriques da Silva.
    Com estas nomeações, que serão oportunamente empossadas pelo Sr. Dr. Cavaco Silva, espera-se uma marca moderação e sobriedade para as comemorações oficiais que decorrerão entre 31 de Janeiro e 5 de Outubro de 2010.
    Festejar o regime chancela de quase cem anos de instabilidade politica, incompetência, iletracia e atraso económico, exige de facto bastante comedimento. A Plataforma do Centenário da República tudo fará para colocar um pouco de verdade e esclarecimento na rememoração dos acontecimentos que há quase cem anos condicionaram irremediavelmente o curso da nossa história.