segunda-feira, 14 de junho de 2010

A Lei da Separação - falemos do que interessa.


Eis a estátua de D. António Barroso, Bispo do Porto e, sobretudo, um grande missionário português. Pergunta-se: em 1910, o Prelado era monárquico ou republicano? A resposta só pode ser dúbia e, aliás, absolutamente desinteressante. D. António Barroso era o que sempre foi, e como tal viveu: um missionário, em tudo quanto isso significa de entrega, pobreza, amor ao próximo. Logo em 1910, ante os vorazes propósitos da República jacobina, os Bispos portugueses elaboraram uma pastoral que pretendiam fosse lida por todo o País. Tal não consentiu o "democrata" Afonso Costa. E porque D. António Barroso insistisse em que, Igreja adentro, o Estado não entra - suportou a reclusão, interrogatórios humilhantes (conduzidos pelo próprio Costa) e o exílio.
Tudo isto a propósito da Lei de Separação do Estado e da Igreja a que ainda hoje se fez abordagem, no Jugular, não percebi exactamente para demonstrar o quê.
Claro ficou, sim, que, não obstante a dita lei, Afonso Costa entrou na Diocese do Porto e prendeu o Bispo...
Tentemos, por isso, colocar a questão no sitio que lhe é devido. A lei em si mesma, não era o pior. As Ordens religiosas vinham conhecendo, há quase um século (e não falando agora de Pombal...) a antipatia da classe politica.
Não, o problema não foi a Lei. Foi o legislador. Foram os seus capangas. Os que mediam o crâneo dos clérigos, os humilharam, espancaram, mataram. Os que proibiram o culto. O problema, em suma, foi Afonso Costa ter pretendido acabar com o Catolicismo "em duas ou três gerações".
Era essa a sua intenção. Ninguém o poderá negar.
Relembrem-se os acontecimentos de Fátima, em 1917, a repressão exercida pelas autoridades republicanas, o silêncio com que se quis ocultar a Fé, o formigar dos crentes. Um dos momentos em que a República manifestamente perdeu para os portugueses que nunca respeitou.
No mais: será assim tão importante que o Catolicismo fosse a religião oficial portuguesa? Tenho o meu pensamento no século XIX, claro. Não agora. Agora, só se quisesse debruçar-me sobre o anglicanismo, o islâmismo...
Não, escusa o Jugular de citar preceitos do Código Penal de 1886 que sabemos eram letra morta já então. Melhor lhe ficaria enaltecer a Monarquia portuguesa - nos humaníssimos momentos em que, pioneira, aboliu a escravatura e a pena de morte. Muito cedo. No século XIX.

11 comentários:

Anónimo disse...

A Monarquia fez muitissimo mal. Os politicos de agora deviam ser todos condenados a remar nas galés. Como já não há galés, marchavam no alcatrão nas auto-estradas, cumprindo as scuts.

M. Figueira

Filipa V. Jardim disse...

João Afonso,

Li o seu texto, publicado como comentário, no Jugular.
Confesso que esperava um bocadinho mais. Quer na argumentação, quer no cuidado da escrita, na resposta que lhe foi dada, por parte da jornalista que assina o texto. (Fernanda Câncio).
Tratando-se de uma profissional da escrita, julgo ter, além da responsabiliade de estar devidamente documentada em relação aos assuntos que aborda, responsabilidade acrescida, parece-me, relativamente à forma de expressão.
Lapsos de teclado, ou de concordância, todos temos. Mas escrever daquele modo é desleixo.
Eu sei que agora se usa essa forma "técnica" de escrever português. Com a qual, discordo absolutamente. Sobretudo, se utilizada por aqueles a quem compete rigor. Nomedamente jornalistas e, num local público, como é o caso.

Nuno Resende disse...

Com a fernanda câncio e maioria dos comentadores ou postadores de serviço ou a serviço do Jugular, infelizmente, não há diálogo possível. É como diz F. Savater, uma das mais antigas formas de totalitarismo é decretar o outro como um doente social, um alienado. Para f. câncio, quem não está com ela, está contra a verdade.

João Afonso Machado disse...

Na resposta que Fernanda Cãncio apresentou ao meu comentário foi correcta, lhana, sem agressividade.
Eu também, creio, comentei nos estrictos limites da cordialidade, manifestando uma opinião que, aliás, fundamentei com depoimentos insuspeitos.
Realmente, não me senti respondido na sua «réplica». Mas nem sequer valia a pena invocar isso. F.C. disse o que quis dizer.

bicho disse...

Caro amigo.

Excelente o seu texto, muito assertiva a sua análise.

O choque entre estado (maçónico) e Igreja vem já do tempo do Pombal como diz meu amigo e bem; e o excesso de zelo do legislador demonizou a lei como também diz o meu amigo e muito bem.

Com pequenos factos :

- Em 1910, republicanos eram 7% da população, ou seja, sem golpe não haveria república, a mesma haveria de ser legitimada... pela força!

- O ensino era Jesuíta, e é no ensino que se moldam as mentes, aliás é entre os estudantes que encontramos alguns dos maiores revolucionários, os Jesuítas faziam o seu trabalho... a criar a oposição do futuro.

- A Igreja era conservadora, e daí era uma grande força de bloqueio às reformas que foram instituídas no início da república; nisso a Igreja sempre foi uma força de bloqueio, aliás, contra os Cabrais, a Igreja já tinha tido o papel galvanizador em plena monarquia constitucional... era uma igreja dada à política e ao golpismo.

- A homilia do padre da aldeia era frequentemente um comício encapotado, basta ver a falange de apoio da monarquia conservadora sempre afastada dos grandes centros, menos influenciados pela religião; o Padre era a oposição foi assim que resistimos em 1808 contra Junot, foi assim a Maria da Fonte, foi assim que Sidónio chegou ao poder como foi nesse contexto que se deu o 28 de Maio.

- Aliás as aparições de Fátima são um golpe (na minha humilde opinião) contra o Afonsismo, aproveitando os ventos da I guerra mundial, o clero de Ourém patrocinou uma aparição que numa época onde não haviam meios de comunicação em pouco tempo conseguiu reunir mais de 50.000 fieis em plena Cova da Iria a ver "um sol que bailava" enquanto outros "nada viam". Sidónio Pais foi o "Messias" que viria a surgir cerca de um ano depois do "milagre" as consequências políticas do mesmo produziriam frutos, por isso a república perseguiu os "videntes", embora a perseguição tenha reforçado o sentimento da população faminta, pobre, perseguida e recrutada para a guerra... saiu o tiro pela culatra.

A moral (a minha pelo menos) é que ninguém é isento de culpa; a lei estava bem, o legislador é que fez uso político da mesma, contra uma Igreja que também era politizada quanto baste; nem demonizo a Igreja nem a República, demonizo os seus agentes que se por um lado não quiseram aceitar a nova ordem das coisas e as suas reformas; por outro foram perseguidos e humilhados de forma desumana e por pura vingança; só tenho pena que a história não os tenha julgado devidamente, como aliás fez a Salazar !

Mas o mais fundamental, que o meu amigo refere no seu brilhante texto é que estávamos entre o final do Sec. XIX e o início do sec. XX; comparar estes fenómenos aos dias de hoje é comparar o olho do traseiro... e o mês de Março !

Um abraço.

João Afonso Machado disse...

Caro Nuno: Fico satisfeito por ter gostado do texto. de um modo geral estou de acordo com os seus comentários, exceptuando o que refere sobre Fátima. Por um motivo, sobretudo, fora de polémicas pela sua própria natureza de Fé. É que acredito nas aparições. Vou com frequência a Fátima (imagine!) porque vivo ali emoções que sequer consigo explicar por outro modo que não seja todo o mistério e espiritualidade ali sempre presentes.

Francisco RB disse...

Caro bicho, está errado a Igreja até tolerou muito os sequazes da República, a Pastoral apostólica ´foi o culminar de uma tentativa de responder com tolerância aos ataques dos anti-clericais.
Há um Livro sobre o assunto chamado a Guerra Religiosa na Iª República, que analisa as questões em causa.

bicho disse...

Caros amigos.

Caro João.

Eu sou católico, educado nos Salesianos e tudo, Fátima é uma coisa que não tem de estar intrinsecamente ligado à fé; eu posso ter fé e não acreditar nas aparições, muitos dentro da igreja não acreditam e o contexto político das mesmas reforça a minha ideia.
Se eu for à procissão das velas no 13 de Maio também me comovo, apesar de achar as aparições um embuste necessário, tenho por Fátima um local sagrado, como aliás tenho por qualquer Igreja, muito em especial as mais pequenas e mais simples, que são os sítios onde sinto mais o efeito da fé por sinal.

Obviamente que abro a excepção do Vale dos Caídos, que é para mim um lugar maldito, dos templos que conheço, talvez seja o único onde sinta o efeito da fé ao contrário.

Caro Francisco.

É natural que tenha razão, conheço pouco desse assunto, apenas traços gerais contextualizados no tempo por historiadores pois nunca li nada específico sobre o tema.

No entanto acho que concorda comigo no ponto em que a Igreja sempre teve uma tendência evangelizadora que em determinadas épocas descambou para a política.

A Igreja era adversa à mudança e a república era insegura quanto à sua base de apoio popular; a mistura foi explosiva e transformou-se numa guerra.

O "braço político" da Igreja, os Jesuítas, mais uma vez na história foram os que sentiram a dureza do conflito.

Um abraço.

Filipa V. Jardim disse...

Caro Nuno,

Fátima não é dogma.
Pode-se ser católico e não acreditar nas aparições de Fátima. Eu acredito. Muitos acreditam. Outros não.
Fátima,vale sobretudo pela espiritualidade, pela paz que transmite a quem lá vai. Esse é o grande milagre.
Como diz o João, as emoções que se lá vivem e que nem se conseguem explicar. São elas que fazem de Fátima um lugar especial.

Francisco RB disse...

Caro Bicho, ninguém pode ser Católico e não acreditar em Fátima, é um contra-censo, pois representa o princípio essencial da fé, que Deus (ou pelo menos os seus enviados) se aproximam dos seres humanos nos momentos de maior aflição, como fala o poema das pegadas na areia, Fátima foi a forma de Deus ajudar e proteger portugal dos disparates da república.
Fátima até é um fenómeno que vai para lá da Igreja, que até tentou impedir a sua existência, ocorreu inclusive tentativas da hierarquia impedir que a história dos pastorinhos fosse revelada.
A Igreja, por ser feita de homens, cometeu muitos erros, mas pode ter a certeza que é a primeira assumi-los.

bicho disse...

Filipa.

De acordo, partilho as suas emoções, não só em Fátima como em outros templos, em particular os mais simples que para mim é onde melhor se sente essa espiritualidade.

Francisco.

A Filipa já o disse, eu repito, não é dogma; tem um contexto político e histórico tão evidente para mim que por muito que leia sobre o "fenómeno" mais reforço a minha ideia.

Só quero que me entenda, eu não sou anti-Fátima como o é por exemplo o padre Mário da Lixa, que tem bibliografia extensa publicada sobre o tema aliás; eu não vejo Fátima como uma "aldrabice" vejo Fátima como uma reacção à república Afonsista e anticlerical, digamos que foi uma "aldrabice necessária"; Fátima produziu Sidónio Pais, ou pelo menos abriu-lhe o caminho, fez o mesmo a Salazar.

Na minha opinião, a Igreja era o único movimento verdadeiramente agregador de massas da altura com capacidade de influenciar a população contra o regime; o "exoterismo" de Fátima foi um golpe de mestre pois consigo trouxe uma mensagem de aviso, de alerta, de salvação; aliás se atentar aos segredos de Fátima, todos eles visam o comunismo e foram sendo revelados sempre que se propiciou a altura como se fossem trunfos num jogo de cartas.

Eu como católico que sou, sou-o de um ponto de vista filosófico do culto; não creio nos dogmas da Igreja, e não interpreto literalmente os Evangelhos; sempre tentei destingir a Igreja Política (a Igreja dos homens) da Igreja de Jesus, o que não quer dizer que não encontre utilidade na primeira.

O facto de ser uma entidade política não tira valor à Igreja, temos é que, como escreve o João Afonso, distinguir o que é sec. XIX e início do sec. XX dos dias que correm.

Eu não acredito em apocalipse, nem no segundo regresso de Cristo com "exércitos de anjos" a salvar quem está à direita e a condenar ao "fogo eterno" quem está à esquerda; Fátima foi uma anunciação do apocalipse e os três segredos prolongaram essa "mensagem de salvação" por todo o séc. XX.

A mim interessa a história e como já aqui escrevi tenho a mesma por circular, todos os acontecimentos da história acontecem em resposta a outros que os antecederam; não há bons nem maus, a crises seguem-se ditadores, a ditadores seguem-se revoluções e a revoluções seguem-se democracias que entram em crise...

Em tempos de desespero recorre-se com frequência ao místico e Fátima foi um desses episódios, reconhecer esse facto não é negar a minha religiosidade ou fé, para mim é uma questão de lógica.

Mas como é óbvio respeito a sua crença e não o critico por isso.