terça-feira, 15 de junho de 2010

Ramalho - De monóculo atento à República (V)


«Fevereiro de 1911
(...) Reproduzindo-se tão prolificamente, por meio da fotografia e associando assim a humanidade inteira às intimidades da sua existência, é indubitável que está o Governo (...) conquistando um considerável rlevo de simpatias (...) sobretudo aos seus próprios olhos. É este (...) um dos mais relevantes serviços prestados à causa democrática, ao ressurgimento da nacionalidade pelo gabinete verde e encarnado (...).
Além das felizes inovações introduzidas nas artes decorativas e sumptuárias (...) ao gabinete cabe ainda a glória de estar, poe meio de um lavor intenso de repoertagem, enriquecendo copiosamente a cacologia nacional com preciosos neologismos, entre os quais (...) o vocábulo homenagear, verbo (...) do qual é sempre sujeito o povo (...) e complemento objectivo o Governo.
Nas cerimónias públicas a menina Deolinda Alves (doze a catorze anos de idade) vai na frente, imediatamente depois da música e oa compasso dela, ricamente fantasiada de República, em veludo, cetim e ouro, gorro frígio de veludo em zimbório sobre os longos cabelos esparsos nos ombros, meias de seda em borzeguins de cetim verde, a bandeira da República na mão esquerda, e uma espada nua com a ponta virada para baixo, na mão direita. (...)
Em outra (...) solene manifestação (...) à memória de Cândido dos Reis e Miguel Bombarda, não no cemitério (...) mas (...) no Coliseu dos Recreios (...) Deolinda Alves (...) recitou alguns versos (...):
Simbolizando aqui a Igualdade,
Em trajo despido de europeis,
Derramo uma lágrima de saudade
Por Bombarda e Almirante Reis.
Nunca (...) à memória de dois mortos vi prestar homenagem mais catita.
(...) Seria talvez mais conforme à verdade dos factos que Deolinda Alves, por exemplo, dissesse:
Simbolizando aqui a Igualdade,
Ricamente vestida de República e a troco de um grande dinheirão que gastou meu papá no Grandela,
Derramo uma lágrima, etc.
Por Bombarda e Almirante Reis
Fonte: «Últimas Farpas (1911-1914), ed. Clássica Editora.

3 comentários:

Francisco RB disse...

O Alm. Cândido dos Reis tão mal recordado pela República pela qual deu a vida...

bicho disse...

Caro João.

Veja lá a coisa pela positiva.

Pelo menos o pai da menina Deolinda não gastou 10M€ no Grandela.

Nos dias que correm, fica bem mais rico o Sr. Belmiro do Colombo a vender barretes frígios que pelo orçamento devem ser incrustados a diamantes... Isto para não falar da imponência do milhão de euros a mais os 100 metros do mastro de paredes, que pelo aspecto fálico da coisa e pelo preço que custou, pode bem ser considerado um símbolo da "encavadela" jacobina com que somos presenteados desde que o sr. Sócrates tomou o poder, digo eu...

João Afonso Machado disse...

Meus caros:
eu não sabia era dessa mascote da República, a menina Deolinda. Isto merece investigação. Tem o seu quê de canção de Lisboa, com a Beatriz Costa.