quarta-feira, 28 de abril de 2010

"Aqui quem manda é o PRP!" (antes e depois do Natal de 1915)


«Na República Portuguesa, começou por vigorar o princípio de que "o país é para todos, mas o Estado é para os republicanos". Mais do que o caracter electivo dos cargos de direcção política do Estado, o que defeniu a ideia de república, em Portugal depois de 1910, foi a reserva desses cargos e dos empregos públicos para os republicanos - e estes foram quase sempre, entre 1910 e 1926, os de um partido, o Partido Repúblicano Português (PRP).
(...)
A Constituição de 1911 reduzira ao mínimo o presidente da República, de modo que nunca desempenhasse o papel político que o rei tivera: era eleito no parlamento, para quatro anos, sem direito a reeleição, e não podia dissolver o parlamento. Mas competia-lhe nomear o chefe do governo. (...) Arriaga aproveitou essa prerrogativa constitucional para confiar o governo a um velho general, Joaquim Pimenta de Castro. (...) Pimenta de que Castro manteve o parlamento encerrado e convocou eleições para Junho de 1915. Fora do governo, o PRP temeu desaparecer eleitoralmente. Os outros partidos tomaram alento. Surgiram até, sobretudo no Norte, centros monárquicos (cerca de 55), porque Pimenta fez saber que, com ele, a "república é para todos os portugueses". Pensou mesmo em instituir o sufrágio universal, o que acabou por também inquietar a direita republicana. António José de Almeida lembrou logo: "só republicanos verdadeiros podem conservar e defender a república». O PRP resolveu então tratar Pimenta de Castro como tratara João Franco em 1907: chamou-lhe "ditador" e tramou uma insurreição, usando civis armados e os seus partidários na marinha e na Guarda Republicana. O golpe de 14 de Maio foi muito mais sangrento do que o 5 de Outubro. O exército não mostrou zelo, mas os grupos armados de Machado dos Santos, ao lado do Governo, deram luta. Poderá ter havido (...) 200 mortos e 1000 feridos. Pimenta de Castro e Machado Santos foram presos, e Arriaga forçado a resignar. A violência anticlerical agravou-se: em Loures, foram assaltadas três igrejas, que tiveram as imagens queimadas na rua».
É um excerto da História de Portugal coordenada por Rui Ramos, e da lavra de Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalo Monteiro, também. Vinda a público em finais do transacto 2009. Talvez o futuro de Portugal esteja muito nas mãos desta geração de historiadores isentos e, por isso, desmistificadores. De leitura fácil, capaz de contrariar as mentiras oficiais e abrir os olhos aos incautos. Ou seja, de fazer da História aquilo para que ela deve servir: de exemplo.

9 comentários:

Anónimo disse...

Não, não, comigo o PRP não tinha passado do Natal de 1915.

M. Figueira

bicho disse...

A constituição de 1911 foi para controlar as incursões do mítico Paiva Couceiro que era o único foco de resistência contra o Costa.

Como os restantes partidos republicanos menos radicais ainda tinham poder, os primeiros ministros revezavam-se a um ritmo alucinante, quem pagava era o povo.

Pimenta de Castro teve a ousadia de tentar organizar a república já o Costa tinha falhado como primeiro ministro assim como o seu amigo Bernardino Machado quando ele aparece em cena; foi uma espécie de prelúdio para Sidónio Pais.

Como não tinha a maioria no parlamento era óbvio que não podia durar muito, lá vêm os golpes, as juntas, os governos de consenso até regressar o Costa ao poder, desta vez com um "presidente fantoche" Bernardino Machado, que prometeu consenso, e praticamente reduziu à insignificância os outros partidos republicanos que ansiavam em fazer sombra ao PRP.

O que veio a seguir, é para fazer tema para o amigo João Afonso escrever por mais uns dias; a I grande guerra; o sidonismo e a monarquia do norte, cá espero.

Um abraço

Francisco RB disse...

Caro amigo, como sabe, do meu ponto de vista Pimenta de Castro, como tantos outros que governaram sem parlamento são ditadores, independentemente do regime político que os sustenta, o próprio Afonso Costa teve aforismo de ditador, mas diferentemente de alguns que por aí andam, com esses mesmos aforismo e consideram que a sua vontade é a de Portugal, A. Costa ainda tinha um certo patriotismo, embora desviado do verdadeiro interesse nacional...

João Afonso Machado disse...

Caro Bicho:
Vamos continuar nos próximos dias. Eu, se não houver contratempos, terei em minhas mãos um exemplar de um livro de um jornalista portuense que é impressionante.

Li-o há muitos anos, havia um na biblioteca da minha Família. Voou de lá por algum motivo. E eu que tanto precisei dele, descobri agora um alfarrabista que tinha um, em bom estado. Reservei-o e vou buscá-lo. Amanhã está no blog.

João Afonso Machado disse...

Caro Francisco.
Como deve saber, foi o Presidente Arriaga, já muito idoso e totalmente desgostoso, que pediu a P. Castro «salvasse» a República. Há a célebre carta, já aqui transcrita. Foi o princípio da ofensiva contra a «Demagogia», que culminaria com Sidónio.
P. Castro era monárquico e caiu na asneira de pensar que faria no País conforme agia nos quarteis. A rua em Lx já não ia nessas conversas. O resultado foi o 15 Maio, a mais sangrenta revolta de toda a 1ª República. Mas é curioso notar que o «terrivel» Machado dos Santos, carbonário, fundador da República, etc, estava ao lado de P. Castro contra A. Costa.
Decerto havia algo entre eles, mais pessoal que político - A. Costa era implacável com quem o contrariasse.

Luis Ferreira disse...

Caros amigos

Penso que ao estado a que o nosso país chegou, em ano que muito pomposamente se pretende festejar os cem anos de incompetência, perda de valores e agora quase falência do País ou seja um século que por imposição de alguns senhores tivemso de viver nesta República quase dita das bananas. Acho que temos de ter uma reflexão muito profundo a médio e longo prazo para o que queremos de facto fazer a este nosso triste e perdido país. Devemos começar por uma profunda remodelação da constituição e aí também teremos a possibilidade de escolher o sistema politico pretendido. Se assim continuarmos nem perú teremos no prato no próximo Natal.

João Afonso Machado disse...

Caro Luis Ferreira:
O tempo urge. A república teve a intuição do seu fim, tentou iludi-lo. Realmente não vai haver perú no Natal. Umas codornizes, quando muito. Oxalá me engane.

Luis Ferreira disse...

Caro João

Infelizmente nem para codormizes, o tempo está mais para a sopa dos pobres e nem chegará para todos!

João Afonso Machado disse...

Caro Luis:
É tempo de voltar às courelas minhotas. A enxada, umas couves, a batatinha... Agricultura biológica e bons ares...