terça-feira, 27 de abril de 2010

D. António Ferreira Gomes em «uma entrevista republicana»

«O director do jornal diário República, Raúl Rego, um intrépido oposicionista ao regime que por causa da frontalidade com que manifestava as suas ideias foi várias vezes preso, tinha em alto apreço o Bispo do Porto. Visitou D. António quando este encontrava no exílio. A amizade era mútua, como, aliás, acontecia também no relacionamento de seu chefe de Redacção, João Gomes, com o prelado portuense. Nesse ano de 73, vamos ambos ao Porto para entrevistar D. António Ferreira Gomes. (...) Referindo-se ao encontro com o prelado portuense, Raúl Rego, depois de dizer que "é um diálogo entre gente de boa vontade: o do prelado e o do jornal agnóstico", acentua que "só faz avultar o seu significado o facto de ser, segundo julgamos, a primeira entrevista de um bispo no jornal republicano fundado há sessenta e dois anos por António José por António José de Almeida».
Um bispo português e um conhecido maçon encontrando-se na oposição à República autocrática.
Raúl Rego, anti-sidonista, anti-salazarista; D. António Ferreira Gomes preocupado com a liberdade, a paz, a pobreza que grassava. A passas tantos da entrevista, o prelado comenta, acerca do problema da emigração dá a seguinte explicação: a «miséria imerecida que nos anos cinquenta provocou a explosão migratória foi sobretudo a dos rurais».
Então, como agora, a República eram palavras. Só palavras. Com um ou outro bem-intencionado a tentar passar à prática, logo trucidado pela maldicência, pela intriga, pela estupidez.
Fonte: Pacheco de Andrade, «O Bispo controverso - D. António Ferreira Gomes, percurso de um homem livre», ed. Multinova, pág. 228.

9 comentários:

bicho disse...

O respeito mutuo entre dois homens tão diferentes só prova que o ser-se estadista está acima da constitução.

Os homens medem-se por aquilo que são, não por serem maçons, clérigos, republicanos ou monárquicos.

Já dizia o Medina Carreira que é tudo uma questão de educação, de responsabilidade e isso não nasce com as pessoas. cultiva-se de pequenino.

Esse é o problema de Portugal, gente pouco séria e mal intencionada sempre nos lugares certos.

Não sei até que ponto se pode transformar isto numa questão de regime, será contudo, como prova a circularidade da nossa história, motivo bastante para a nossa (mais uma) ruína.

Já cantava o Dylan :

"How many roads must a man walk down,
before you call him a man?
How many seas must a white dove fly,
before she sleeps in the sand?
And how many times must a cannon ball fly,
before they're forever banned?

The answer my friend is blowing in the wind,
the answer is blowing in the wind.
"

João Afonso Machado disse...

O meu amigo hoje vem com Dylan e eu respondo com Joan Baez:
«I dream, I saw
Joe Hill
last night
But Joe I said
You ten years die...

I never die said him...
To San Diego up to Maine
Where working man
defends your rights
is there you find Joe Hill.


Isto foi cantado no Woodstoch (o original é de outro), eu não tinha ainda idade para a viagem, senão também lá tinha estado e, comigo, a bandeira nacional, cosida na capa da mochila.
Não custa mesmo nada ser idealista.

bicho disse...

Mal de nós quando um simples pedir por gente séria é ser-se idealista.

Mal de nós quando um pedir por humanismo é ser-se idealista.

Não foi isso que estamparam na "revolução de Abril" ? Liberdade, justiça, progresso, iguais oportunidades ?

Não foi com isso que ludibriaram o povo durante séculos com promessas de constituições, liberalismo, reformismo,setembrismo,Cabralismo, regeneração, fontismo, progressismo, republicanismo, sidonismo, salazarismo, caetanismo, comunismo, soarismo, cavaquismo, guterrismo, barrosismo e agora socretinismo ?!!!!

Já pouco falta para experimentar meu amigo, a gente espera sempre mas é como se diz na gíria, só saem duques !!

Lembra-se do que dizia Garret; "foge cão que te fazem varão..." de nós fizeram um pouco de tudo, a minha geração paga ainda hoje as regalias da sua, as famosas "conquista de Abril", claro que você não tem a culpa nem eu me posso queixar muito.

A mim disseram-me um dia estuda, e eu estudei sou Engº; disseram-me trabalha e trabalho, sou director comercial de uma empresa e bom naquilo que faço; disseram-me poupa e poupo; para quê ?

Já viu se no meio desta confusão toda perdemos o Euro ? O que será de nós ? Emigramos ? O que temos, passa a valer nada ?

É um Rei que resolve isto, se for pode crer que viro monárquico e dos da linha dura !

João Afonso Machado disse...

Meu caro:
É, o euro parece que está a fugir. E vai a correr. Depois, nem seuqer temos os recursos da Grécia, somos muito mais populosos...
Vai ser bonito.
Esta questão da Monarquia, não é nada que eu lhe possa demonstrar (ainda por cima a um eng.!) por a+b.
É um sentimento. Penso sempre no título de um ensaio de A. Sardinha, «O Sentido Nacional de uma Existência». Não sei se já reparou, mas fujo do chamado «patriotismo» (esse discurso inflamado e apocalíptico) como o diabo da cruz. Era o discurso dos salazarentos.

Mas acredito que, acreditando num destino, numa meta, vem o orgulho de sermos e a vontade de continuarmos. Isto é: o espírito de sacríficio coletivo, algum comedimento no nosso egóísmo.
É o que não temos e só por isso estamos como estamos. À necessidade de «apertar o cinto» respondemos com uma greve e já está.
Como disse, não posso demonstrar o que sinto. Mas sinto que um Rei é um símbolo. De permanência e de justiça para todos, alguém sempre acima das questõezinhas politicas.
E enquanto vou acreditando nisto não vou desesperando, nem fazendo as malas, e creio que sou apenas razoavelmente maçador nas minhas pregações.

João Afonso Machado disse...

Já me ia esquecendo de dizer: claro que nem quero saber do credo dos poucos homens de valia que descubro neste País: VPV, Antº Barreto, M. Carreira. Curiosamente, situam-se todos à esquerda mas são criticos implacáveis das imbecilidades que se vão cometendo por aí, seja lá quem as cometa. Assim gosto!

bicho disse...

Se você é maçador se calhar já somos 2, sendo que me tenho sentido um pouco apocalíptico nestes últimos tempos, talvez seja pelos hossanas que se vão entoando às criaturas mais improváveis...

A procissão de fé de acreditar em alguém que possa ser superior a partidos como uma espécie de pai da pátria não é um exercício fácil é realmente uma questão de fé; a uma coisa lhe tiro o meu chapéu, não entra pelo caminho lamacento do argumento abstruzo da genética e da superior educação, para si a figura do Rei é bem mais simples e humilde, uma espécie de grande sacrifício e nisso tem a minha admiração, por vezes quase me convence.

Você toca num ponto crucial, a nacional imbecilidade, mas porém também é importante manter as coisas simples; veja o exemplo de Cavaco, o paradoxo dos nossos políticos. Pacheco Pereira, Pulido Valente e muitos outros quando falam nele entram sempre em contradição, e o Pulido Valente é honesto o bastante para o reconhecer; se por um lado é "shallow" como ele diz ou seja, com pouca substância, não é um político idealista; por outro lado cumpre, é um tecnocrata, é o que se espera dele, sério e seco; tenho a mesma impressão do Rui Rio é por isso que gosto dele.

Na história já tivemos dissabores com gente "shallow" como Salazar por exemplo, o que é certo é que cumpriu o que dele se esperava em 1926, Caetano que era um ilustre académico falhou redondamente e a substância estava lá.

Gostamos de complicar o que é simples e a solução por vezes está mesmo à frente do nosso nariz, acho que nós Portugueses no fundo somos um pouco cobardes para mudar o que tem de ser mudado, sabendo que isso implica reformas profundas, mas acho que estamos a fugir ao tema do blogue.

A república falhou, ou tem falhado. 1910 foi tudo menos legítimo, Paiva Couceiro quando se insurgiu em 1919 apenas pediu que ouvissem o povo que ninguém ouviu; jacobinos e comunistas sempre acharam que sabiam melhor que o próprio povo o que bem o servia; em duas coisas estamos de acordo, é preciso mandar uma pedrada no charco e é preciso mudar a constituição; o resto, temos que esperar com uma fé tremenda.

bicho disse...

Já agora um aparte, Sá Carneiro era também um homem de esquerda, Cavaco também, aliás ser Social Democrata é ser de esquerda, a nuance deste movimento é que mistura à esquerda que representa, o humanismo da democracia cristã e algum liberalismo económico; Pacheco Pereira explica-o bem no seu "paradoxo do ornitorrinco", outro homem de esquerda.

Por alguma razão se chamou PPD, o PSD que hoje vemos é um movimento perdido entre ideologias, afastou-se do mestre.

E já agora outro recado, este para quem nos possa estar a ler, ser-se de esquerda ou direita é muito difuso, muito menos ser de direita é condição para se ser monárquico, a monarquia não pode escolher facções; o meu amigo diz que é de direita, não creio, pelo menos no meu léxico. é verdade que esquerda e direita são termos muito subjectivos, posso até chamar de centro o espectro onde me encontro; importante é ser-se honesto e legítimo, isso sim, mais importante do que os espectros políticos em que nos podemos enquadrar.

João Afonso Machado disse...

Não se ofenda, mas há muitos anos que eu digo que Cavaco é o Salazar da actualidade. Há ali uns tiques... Um deles é o medo terrível que se sente nos seus actos, uma prudência desmedida e um discurso cheio de entrelinhas e falinhas mansas. Não consigo perceber se gosto ou não da pessoa, sendo que o tenho por homem honesto, o que já é um achado nos dias que correm
A certa altura, daamos connosco a discutir o que é a Esquerda e a Direita. Realidades que vivem um patamar abaixo da Instituição Real, por razões obvias que tão bem detectamos aqui ao lado em Espanha. Mas se o meu Amigo demonstrar que Sá Carneiro ou Rui Rio são de Esquerda, eu teria muita dificuldade em me dizer de Direita.
Um bom dia de trabalho!

bicho disse...

Ora essa se me ofende. Fui eu próprio a lançar a acha com um denominador comum entre os dois.

Eram ambos tecnocratas, como o é o Rio, pelo menos eu penso assim.

O Cavaco é mesmo assim, seco, técnico se bem que nos anos da presidência tem revelado afectos algo fora do comum, em especial com as crianças, o que leva a "esquerda" a especular que é cinismo.

Cavaco é um homem de vida, de trabalho, pragmático, faz o que tem de ser feito; e quando é líder e sente que interferem no seu trabalho não tem pejo em mandar meio governo para o olho da rua, e se quer que lhe diga é assim que tem de ser, é preciso é saber o que se está a fazer ! Socrates ensaiou essa autoridade mas como é incompetente e digamos "habilidoso" nas suas negociatas com Freeports e TVI, etc. perdeu a razão e a autoridade.

Leia lá o Livro do Pacheco Pereira, aquilo é um emaranhado de crónicas ordenado alfabeticamente, lá ele fala do PSD de Sá Carneiro e da sua programática:
Social Democrata (de esquerda), humanista e liberal; acima de tudo reformista.

O ser reformista é no fundo a consequência de juntar conceitos diferentes como a social democracia e o liberalismo; no fundo para Sá Carneiro o que era importante era mudar, independentemente se virava à "esquerda" ou "direita", o interesse do cidadão está acima de "esquerdas" e "direitas".

Mas desengane-se meu amigo, esse PPD já lá vai, até há gente como Santana Lopes que acha que ser PPD é ser da ala liberal do partido, valha-me Deus...