sexta-feira, 30 de abril de 2010

O " Borges das Bombas"

"Para a História de um Regime" é um livro que visa, sobretudo, combater a candidatura do Gen. Norton de Matos à Presidência da República. O seu autor, Costa Brochado é, pois, um homem que se identifica coma II República, vulgo "Estado Novo". Daí a critica severa à sua abandalhada antecessora - não obstante, retratada com todo o rigor. Como se verá:
«O primeiro Chefe do Estado que o regime republicano parlamentar elegeu foi o Dr. Manuel de Arriaga. Claro que não foi eleito pela Nação nem sequer por todos os republicanos. Apresentaram-se ao sufrágio diversos candidatos, mas o partido democrático, que tinha a maioria no Parlamento, escolheu o Dr. Manuel de Arriaga. Desta maneira, o Chefe do Estado começava por ser o Presidente da maior partido do regime e não da República. Quanto à Nação, essa, rigorosamente, ficava estranha, numa proporção de 90% dos seus filhos, è eleição do Chefe do Estado.
(...) como este velho romântico era um homem sério, logo que viu o regime divorciado da Nação, graças à miserável política do partido que o elegera, começou a sentir o terrivel drama de consciência que veio a acometer todos os republicanos honestos daquela época.
(...)
Três anos após a sua eleição, o País estava mergulhado num clima de guerra civil permanente, de tal forma que a formiga branca já não hesitava em insultar e agredir oficiais do exército nas ruas da capital. Nos fins do ano de 1914, um grupo de carbonários, chefiados pelo célebre Borges das Bombas, assaltava e agredia, em plena baixa, o general Jaime de Castro. Depois de o terem agredido à bengalada, cuspindo-lhe na farda, conduziram-no, sob escolta, a pé, para o Governo Civil».
Estavamos já a meses da chamada ditadura de Pimenta de Castro. Um bom tema para prosseguirmos amanhã.

5 comentários:

Francisco RB disse...

O verdadeiro nome da I República deveria ser traulitânia... mas o que esperar de um regime de que o líder era apelidado de "Racha sindicalistas"

João Afonso Machado disse...

Mas o emu Amigo já viu o que era andar por aí um "Rocha das Bombas" à solta? Já o Zé do Telhado quando foi apanhado - degredo com ele. Aquilo era pior que a «noite portuense» e os gangs da Lapa e da Ribeira a matarem-se uns aos outros.

bicho disse...

Caro Francisco, olhe que para a "traulitânia" tivemos um "reino" por uns dias no Porto, pelo menos foi assim que o batizaram as crónicas...

foram 16 anos de confusão é verdade, pelo meio lá andaram o Pimenta de Castro e o Sidónio como "contra revolucionários", o primeiro sem o apoio do parlamento caiu, o segundo já foi mais à força da bala; à terceira foi de vez com o Salazar.

Mas também não deixa de ser verdade que o lendário Henrique Mitchell por três vezes lá desceu pela Galiza abaixo de arma em punho para decidir "democraticamente" a contenda...

Na minha humilde opinião; e falo do período de 1807 a 1926, mandou mais a fome e a miséria que a monarquia ou o Costa, daí vieram as guerras e a mudança de regime.

O meu amigo João Afonso sabe falar, e bem, de carbonárias e formigas brancas, mas tem também de falar de setembrismos, marias da fonte e patuleias...

Eu como não sou anti-monárquico gosto de explorar os cantos todos à coisa, e mais que isso interessa-me a história, o mais isenta possível, sem carbonários... nem talassas !

Um abraço para todos.

João Afonso Machado disse...

Meu caro:
V. é incorrigivel. Eu até acho que tenho argumentos para falar de 1807-1826.
Em palavras rápidas: 1807 foi azar do tipo 1939-45. Só se pode culpar o Napoleão. Depois há tantos aspectos... Se ler «As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares», de Antero, talvez chegue a conclusões que eu acho acertadas: os Descobrimentos, o «Catolicismo», a ausência de uma revolução industrial.

o »Catolicismo» é que não fica bem preciso. Deveria ser o Concílio de Trento. Ou então esquecemos o papelo dos missionários jesuitas no Brasil e a fogueira em que ardeu o Padre Malagrida...
Sem dúvida, vivemos 2 séculos à sombra do ouro do Brasil. E não nos instruimos.
Mas a História complica-se: o carrasco dos Jesuítas foi Pombal. Deles e de tanta gente, a começar pelos portuenses que protestaram contra o monopólio dos vinhos do Douro. Afinal, a maçonaria endeusou-o, com estátua ímpar em Lx. As ideias jacobinas permeabilizou-as ele. Etc, etc, etc. E enquanto Luis XVI era guilhotinado (como o inglês Carlos I fora antes decapitado), os nossos reis permaneceram. Portugal é mais monárquico que todos os outros. O extremo da ignorância portuguesa em 1820 prejudicou o movimento constitucionalista, muito pertinente. Há uma reedição recente de Luis de Magalhães, homem de uma fidelidade só (ministro de Franco e da Monarquia do Norte) em que a Carta Constitucional é equiparada a um «foral colectivo». O meu amigo sabe o que é um foral - por isso, alcança também o fabuloso da analogia.
Não há sistemas perfeitos. Só há os melhores do que os outros e, sobretudo, os que nos dizem mais à alma. Até porque esses é que são, exactamente, os melhores.
Fico por aqui. A escolha será sempre dos portugueses. estão eles satisfeitos com o que vivem? Quem ganha com o status quo?

bicho disse...

O Livro do Antero não li mas concordo que D João III, penso que seja o Rei a que se refere, teve o condão de ser demasiado ambicioso e, como diz o ditado, de tudo ter perdido, inclusive os filhos, um deles em Alcacér Quibir como V. bem sabe.

Falamos é claro de um período negro da história, fome, guerra, inquisição e claro... Filipes !

O Alexandre Herculano considerou-o o pior dos reis, mas a questão não se centra nos descobrimentos em si, a questão centra-se nas perseguições aos Judeus que comandavam a indústria e o comércio, curiosamente, e parafraseando-o a si João Afonso "foi azar do tipo 1939-45".

Como as minha palavras valem pouco, ficam as de um grande historiador, António Sérgio em Breve Interpretação da História de Portugal :

"Aos problemas económicos e financeiros nacionais anda ligada a questão dos Judeus. Estes, e os Maometanos, eram um elemento importante da nossa vida social[...] os Judeus primavam nos ofícios manuais, nos tratos mercantis, nas agências lucrativas; e os "mouros", por seu lado, salientavam-se nas profissões liberais e no granjeio das propriedades.[...] A situação próspera do Judeu excitava a inveja, o despeito, a cobiça dos cristãos.[...] Percebe-se pois de certo modo que o Rei D João III, durante vinte anos, combatesse com o papado para lhe arrancar o estabelecimento do Santo Ofício em Portugal, como maneira de canalizar, sujeitando-a, enfim, a formulas de legalidade, a inimizade anárquica do vulgo."

Mas diz o mesmo historiador que de certa forma, o próprio Herculano estaria a ser injusto, pois já D João II tinha mostrado igual "amor" por judeus e mouros "mandando Judeus para África e os filhos para S Tomé"

É por aqui segundo me parece que acredita o meu amigo que estarão as raízes do fim da monarquia; vou aprofundar a questão e rever uns textos, poderá o meu amigo ter a sua cota parte de razão.

Para mim o período da monarquia constitucional marca o fim da monarquia em si não tanto pela fome ou pelas guerras, mas sim pela mudança do pensamento político da época com a revolução Francesa e o iluminismo; e com a consciência que o povo ganhou do poder que representava com as revoltas de 1808 "Vasco Pulido Valente- Ir Para o Maneta"; as vitórias contra Loison permitiram ao povo acreditar que teria força para mudar e decidir.

E poderemos falar ainda da questão Coimbrã, o dia em que a universidade de Coimbra ganhou consciência política...

Fica para amanhã em mais uma polémica Soirée.

Um abraço João.