segunda-feira, 3 de maio de 2010

Afonso Costa e a separação de poderes

Podia ser mais um escandalo dos nossos dias. Mas não. A tradição é a tradição: nada de regras. Por isso, na sequência da sangrenta revolta de 15 de Maio de 1915, que, aliás, instigou, o deputado Afonso Costa não se resignava com um destino benigno para o Presidente Arriaga e o 1º Ministro Pimenta de Castro.
Pior - ditava ordens para o tribunal que os havia de julgar. Conforme narrou o Gen. Pimenta de Castro:
«O dr. Afonso Costa, no seu primeiro discurso depois da revolta, feito no centro democrático aos seus súbditos e correlegionários, ameaçava os juizes que não pronunciassem o dr. Manuel de Arriaga e o general Pimenta de Castro, presidente do Ministério. Depois, sofreado, sem dúvida, pela razão tesa do "não se metam com o velho" (do Ministro inglês!!!) vozeava somente contra o general Pimenta de Castro. E o facto é que o dr. Manuel de Arriaga, contra o qual era profundo o ódio dos democráticos, foi para sua casa em Lisboa (...). Eu fui preso para o "Vasco da Gama", onde me enxovalharam com chufas encomendadas, e ao cabo de 27 dias era deportado para a Ilha de S. Miguel»
«A 6 de Junho de 1915, falando do directório do partido democrático, exprimia-se deste modo: "Resta agora que os tribunais se não reservem o triste papel de se recusarem ao pronunciamento dos srs. Pimenta de Castro e Manuel de Arriaga. Isto não acontecerá. Seria preferível ver absolvidos todos os réus acusados de crimes comuns a ter de assistir à absolvição pelo mais grave delito dos homens públicos, que cometeram».
EM QUE CONSISTIRIA PARA AFONSO COSTA O ESTADO DE DIREITO?
Fonte: Costa Brochado, «Para a História de um Regime», Editorial Império, 1949, pág. 15.

20 comentários:

bicho disse...

NOTAS SOBRE AFONSO COSTA

Em Novembro de 1912, Afonso Costa proferiu o famoso "discurso de Santarém" onde tacitamente referiu a necessidade de uma "ditadura do PRP".

Face à ameaça monárquica, os "democratas" não admitiam "correntes diversas de ideias e princípios", os outros partidos republicanos eram reduzidos a "clubes de província" e "grupelhos"

"a ditadura tinha uma regra "ou crês ou morres"", "prenderam-se trabalhadores e dirigentes, fecharam-se associações de classe, suspenderam-se jornais, proibiram-se conferências, comícios e simples reuniões.
Por seu lado, a "formiga branca", novo nome dos terroristas, espancava, torturava e avulsamente perseguia os "mariolas" que, por acaso ou prudência, escapavam às atenções do Estado."

"Reduzidos à defensiva ou postos provisoriamente em fuga os monárquicos, os católicos e os sindicalistas, faltava destruir, se possível em definitivo, a oposição republicana, odiada com fraterna intensidade. A 3 de Julho saiu uma nova lei eleitoral, que estabelecia os fundamentos jurídicos da ditadura democrática. [...] Afonso Costa tirou, pura e simplesmente, o voto a todos os analfabetos. Em 5 de Outubro de 1910 existiam cerca de 700.000 eleitores; em 1911 850.000; em 1913 o número baixou para 600.000 pouco mais que em 1871 (já tinham sido lembre-se 950.000 em 1890)."

VPV - Ensaios de história e política, cap. II

bicho disse...

O SURGIMENTO DE PIMENTA DE CASTRO

Bernardino Machado à imagem do seu mentor Fontes Pereira de Melo, tentou no seu governo de união "desorganizar facções" e "dissolver antagonismos" mas como 1914 não era 1871, essa acalmia era de todo impossível.
"Deputados e senadores insistiam em esmurrar-se nas câmaras e, para o que desse e viesse, muitos deles tinham passado a comparecer armados às perigosas sessões da representação nacional."

Viviam-se claramente tempos de "paz podre" com Bernardino a tentar agradar a "Gregos" e a "Troianos", enquanto os mesmos na penumbra engrossavam as suas fileiras e contavam espingardas.

Chegada a guerra, continuaram as indefinições e respirou-se uma falsa unanimidade; os monárquicos não se atreviam a ser abertamente germanófilos e os democráticos abertamente intervencionistas.

Brito camacho mantinha-se com uma posição neutra, e com a desculpa da necessidade de enviar tropas para defender as colónias, houveram focos de tensão por parte dos monárquicos, foram acusados de terrorismo, o que só veio a dar força aos democráticos de Costa.

Com a confusão, o congresso derrota Bernardino e elege um "roberto" de Afonso Costa, Vitor Hugo de Azevedo, num governo que ficaria conhecido pelos "miseráveis de Vitor Hugo" com as eleições à porta era uma espécie de "tudo ou nada" para os democraticos. O exército, desorganizado e com medo de uma possível e futura desastrosa campanha na Flandres (não se enganavam muito) uniu-se aos moderados contra Costa e surge o pronunciamento "d'o golpe das espadas" contra jacobinos e contra monárquicos, sem destino político concreto (muito à imagem do 25 de Abril de 1974).

Com a desculpa da transferência forçada de um capitão pelos "miseráveis" dezenas de generais em protesto entregam as espadas ao presidente da república, o governo mete-os na cadeia, o motim alastra, Machado Santos revoltado leva a Belém a "espada da rotunda" e os oficiais ofereceram as espadas ao general mais antigo, Pimenta de Castro, um republicano ex ministro de Chagas.

Demitem-se os "miseráveis" e Arriaga chama Pimenta de Castro para assumir os destinos da pátria.

Resumo da minha autoria adaptado de : VPV - Ensaios de história e política, cap. II

João Afonso Machado disse...

Caro Bicho:
Muito obrigado pela sua colaboração, de inquestionável valor, até porque a fonte é fidedigna acima de todas as mais.
Mas não posso deixar ainda de frisar bem a isenção e liberdade do seu espírito e de realçar os seus conhecimentos adquiridos à margem de qualquer compromisso politico.
É da maior importância que outras pessoas (independentemente de preferirem a Monarquia ou a República) conheçam os factos históricos no absoluto rigor da sua verdade.
Um abraço

bicho disse...

NOTAS SOBRE PIMENTA DE CASTRO

Pimenta de Castro, militar de carreira, com noções limitadas de política, acha que a solução para o país é mais do mesmo, ou seja unionismo.

Forma governo com 8 militares e dois civis (uma espécie de Spínola e de MFA pré-histórico) supostamente apartidário, toda a gente tinha direitos comuns e sobretudo direito à vida política, atente nas notas acima no clima político e "democrático" da época...

O problema era que naquele tempo, república e PRP eram uma entidade una, não havia pluripartidarismo efectivo e a alternativa era a monarquia; a "visão política" de Pimenta de Castro era uma miragem, o homem não conhecia o país que tinha, era efectivamente um militar.

Como consequência demitiram-se em massa os militares democráticos.

Fez aprovar uma nova lei eleitoral que devolvia o voto aos militares e que ampliava largamente o direito de voto à província, fora da alçada do PRP; em reacção os democráticos convocam um congresso para não serem destruídos, Pimenta de castro alega inconstitucionalidade pois o congresso já não estava em funções, a criatividade com que se interpretava a constituição era surrealista... A GNR chegou a barrar a entrada aos deputados e senadores democráticos do congresso, as semelhanças com o futuro 25 de Abril de 1974 são enormes...

Com este episódio, reúnem-se os deputados e senadores "expulsos" no palácio da Mitra onde proclamam a ilegalidade do governo; Afonso Costa apregoou que a "ditadura de Pimenta de Castro" era pior que a "ditadura de João Franco", o alcance destas palavras era claro, pois foi precisamente contra João Franco que foi feito o golpe de estado que viria mais tarde a derrubar a monarquia.

Vira-se o governo para o exército mas para acudir a quem ? Os moderados não existiam, os oficiais ou eram monárquicos ou democraticos ! Sem saída a 20 de Abril Pimenta de Castro amnistia Paiva Couceiro e cria-se uma ideia de restauração da monrquia que só não vai mais a avante pelo receio de D Manuel II numa guerra civil.

O unionismo de Pimenta de Castro exigia uma forte presença de unionistas e evolucionistas no sentido de voto do povo o que não existia, o povo dividia-se entre monárquicos e democráticos, Pimenta de Castro corria o risco de ter de optar por uma facção entre estas duas sendo que ambas não eram de todo conciliáveis.

Perante este dilema, a 14 de Maio rebenta a revolução; 200 mortos e mil feridos para três dias de confrontos, a "formiga" saiu à rua; roubou, assaltou e matou; o exército não reagiu.

Não reagiu e não podia; os monárquicos estavam concentrados na província, longe da capital onde se deu o golpe, e o exército sabia que se interviesse iriam morrer milhares e tudo para quê ? Para se fazer mais um "arranjo" unionista do estilo bomba relógio à imagem deste que se finava ?

Sem Lisboa os monárquicos sabiam que era impossível a restauração, o PRP regressou pelas armas ao poder, perdendo a província, era o fim de Pimenta de Castro.

Resumo da minha autoria adaptado de : VPV - Ensaios de história e política, cap. II

bicho disse...

Meu caro amigo, é muito amável de sua parte o elogio que me faz, mas como eu friso, o autor não sou eu, apenas lhe resumo as palavras.

Um abraço

João Afonso Machado disse...

Caro Amigo:
Quanto a P. Castro, exactamente como diz, na boa fonte onde colheu. Mas os mortos e feridos não surgiram do nada. essa é o lado irónico da questão: o Exército, realmente ficou a ver, os revolucionários do A. Costa na rua e, contra eles, por P. de Castro... Machado dos Santos, o fundador da República e os seus «voluntários»! Foi entre estes e os afonsistas que se morreu.
M. Santos curiosamente, como sabe, viria a apoiar Sidónio (!) e seria assassinado na célebre Noite Sangrenta de 19/OUT.
É bem verdade que frequentemente a revolução «devora» os seus filhos. Neste caso, o seu Pai.

Nota: excelentes os seus resumos.

bicho disse...

O meu caro por vias travessas chegou onde eu queria que chagasse, ou seja, ao interior da minha cabeça e do meu republicanismo.

Não é a república que é má, ou que falhou, a boa república foi tão vítima do Costa quanto a monarquia.

Eu estava a ver se chegava-mos a este diálogo no seu post da noite sangrenta, chegamos a ele aqui.

Imagine o meu amigo, se após estas confusões do Pimenta de Castro, se o "D Quixote Português" como eu lhe chamo, Henrique Michell de Paiva Couceiro, autoritário, quezilento, arrojado, precipitado, frio e acima de tudo violento no cumprimento da sua missão, chegava ao poder !

Seria muito diferente do Costa ?

Um abraço.

João Afonso Machado disse...

Paiva Couceiro? Completamente diferente. Com provas dadas no Ultramar, onde governou.
Era um militar, acima de tudo. VPV só critica pelo seu quixotismo, nunca pelo seu despotismo.
Não há comparação. Mas acompanho-o na sua pergunta «futurológica» desta maneira: se A. Costa pudesse ter limpo os seus inimigos como o fez Pobmal (aos Távoras), fá-lo-ia? - Sim! Se pudesse ficar mais de 40 no poder como Salazar, ficaria? - Sim!
E agora ao contrário: J. Franco, dito «ditador»: se pudesse, procederia como A. Costa? Não! Isso é dado assente. J. Franco quis modernizar e os seus 1ºs interlocutores foram os republicanos. A «Ditadura» significava legislar pelo Governo, porque o Parlamento estava fechado. Não há, em todo o franquismo, qualquer nota de perseguição politica, seja a quem for. Mais: J. Franco, por sua iniciativa suscitou a celebre questão doa adiantamentos, que tanto aproveitou ao PRP.
Nesse ponto, meu caro, nunca chegaremos a acordo. A. Costa era o Cunhal da época. Couceiro, um militar competente e fiel, sem nada de politico. Estou quase a compará-lo a Salgueiro Maia, mas menos afortunado.

Anónimo disse...

Pior que o Torquemada, o Costa.
E esta malta não quer ver isso.

M. Figueira

bicho disse...

Quanto a Costa, plenamente de acordo, se pudesse ele próprio seria "Rei absolutista" no seu trono dourado, o seu jacobinismo viu-se pela forma como combateu os evolucionistas e os unionistas, para ele nunca foi uma questão de república mas sim de puder, não olhava a meios.

Quanto a Paiva Couceiro a minha ideia é diferente, olhemos a factos :

Era um herói de guerra, sem dúvida, com múltiplas condecorações pelos seus feitos, incluindo a ordem de Avis. Mas tinha um feitio terrível, era ainda cadete quando atirou sobre um camarada de armas por uma discussão, já herói do ultramar agrediu à bastonada um jornalista americano e dois Ingleses; nas guerras contra o Gungunhana foi várias vezes advertido por frequentemente colocar os seus homens em perigo com as suas heróicas investidas, a vida dos soldados tinha pouco valor em combate, tudo pela vitória, tinha um patriotismo exacerbado.
Além disso era ultra conservador, não lia romances sequer, achava-os obscenos, filho de uma Inglesa era ultra católico, mas passou a abominar os Ingleses a partir do momento do ultimatum, fruto do seu ultra patriotismo; aliás, deixou de permitir que lhe chamassem de Mitchell, o seu segundo nome de origem Inglesa por parte da mãe, justamente por essa questão.

Agora olhemos para D Manuel II, praticamente educado pelos Ingleses. Como o meu amigo sabe, há altura do regicídio, Rei seria o seu irmão que também foi sacrificado juntamente com o pai; D Manuel II durou 2 anos no puder, e já durou muito, pouco podia fazer e vontade não lhe faltou, diga-se em bom rigor histórico, foram as suas cortes que o obrigaram a partir.

Daí para a frente funcionou sempre na linha política dos Ingleses, inclusive impediu o banho de sangue dessa revolta contra Pimenta de Castro de que falamos acima, até porque Portugal tinha oficializado a entrada na grande guerra, com a tomada dos barcos alemães no Porto de Lisboa.

Os Ingleses deram indicações ao Rei para não se envolver em restaurações e o Rei cumpriu, em nome da aliança.

Agora imagine que Paiva Couceiro investe contra a formiga, seria sempre com a desaprovação do Rei e dos Ingleses que ele tanto detestava; como seria daí para a frente, iria subjugar-se à vontade do Rei influenciado pelos britânicos ou convocaria por questões patrióticas novas cortes ?

Seria uma espécie de Sidónio Pais ?

Falo obviamente de Paiva Couceiro porque se havia há altura oposição aos republicanos seriam os monárquicos com Paiva Couceiro à cabeça; teve três intervenções armadas contra as forças republicanas sendo a última delas na "monarquia do Porto" em 1919.

Precisamente por ser quixotesco como digo e por ser heróico e ultra patriótico, de forma até doentia chegaria a arriscar, acho que seria sempre uma figura difícil de controlar, mesmo pelo Rei, e com o poder na mão dificilmente resistiria a querer "domar" o país à moda do exército.

Não acredito que fizesse como Salgueiro Maia, e que no fim da "revolução", como bom soldado, recolhesse ao quartel; até porque se fosse esse o seu feitio ordeiro, ter-se ia posto às ordens da república quando a mesma, mal ou bem, na minha opinião mal por razões óbvias, foi implantada.

Quanto a Franco, por vezes quase que o consigo comparar a Costa Cabral; ambos tiveram "forças ocultas" que os derrubaram pelos motivos errados; a um foi o miguelismo, ao outro foi o Costa !

João Afonso Machado disse...

Sempre VPV! Mas concordo até ao ponto em que falamos de D. Manuel no exílio.
Dois autores: sobre as Incursões, Joaquim Leitão, reportagem completa (4 ou 5 livros); sobre a Monarquia do Norte José Sollari Allegro, filho de um dos maiore responsáveis dessa saudosa esperança.
Isto porquê: Couceiro sempre respeitou a vontade de D. Manuel, como bem claro fica nesses títulos que, aliás, hoje lhe será muito dificil encontrar. Eu tenho-os. e no arquivo familiar há o original de uma proclamação de D. Manuel apoiando as 2ªs Incursões. Tive ontem na mão.
A Monarquia do Norte e Monsanto são momentos em que monárquicos integralistas e constitucionalistas se unem e o lugar Tenente de D. Manuel escreve - este epísódio é célebre - na acta redigida nessa reunião «Go On - Palavras d'El-Rei».
Iso foi entendido (mal) por todos como a luz verde para o movimento restauracionista. Por todos, insisto. Couceiro foi empurrado para a frente pelos outros, dado o seu prestígio.
E a mensagem afinal foi mal compreendida (na minha interpretação). O Rei queria que os monárquicos continuassem (go on) apoiando os sidonistas e esperassem que a república caisse por si e não pela força e iniciativa dos monárquicos. É certo: o Rei sempre quis que não corresse sangue de portugueses irmãos. O «Go on» foi mal interpretado e Aires de Ornelas (o lugar tenente sabia-o) mas não se opos à impoaciência e otimismo generalizado de todos os monárquicos.
Finalizo - já escrevi um capítulo para um livro que vai sair agora, em que me pediram colaboração sobre MN. Não fora Monsanto, onde os monárquicos se renderam cercados e sem munições e alimentos, e o Porto resistia.
O meu amigo vai achar interessante essa história. Ainda a lê no original, via mail...

bicho disse...

O famoso "go on"...

Já agora, e para finalizar consultemos o VPV sobre o tema :

"Em vão, Aires de Ornelas, o lugar tenente do Rei em Portugal, recomendava prudência. No Porto, Couceiro com a sua habitual cegueira política, ouvia uma "juntinha" de oficiais monárquicos, entre os quais uma dezena de antigos combatentes da Galiza, e deixava que se organizasse uma insurreição geral no Norte com o insensato "grito" de "agora ou nunca". Entretanto em Lisboa, os chefes do integralismo pediam a Aires de Ornelas autorização para um "movimento militar de carácter monárquico". Supondo com certeza - numa interpretação caridosa - que esse movimento ainda vinha longe, Aires deu solenemente e por escrito a sua concordância : "go on, palavras de El-rei."

VPV - Ensaios de história e política, cap. III

Como vê, o autor partilha a minha opinião (ou eu é que partilho a dele, assim é que é) de que Couceiro não era de fiar, política à parte, Couceiro queria era combater, se a coisa era ou não planeada e programada; se beneficiava ou prejudicava a causa não era importante, importante era partir para a luta, heróico, valente, sem medo, contra a "canalha".

De pouco adiantou a precaução de Aires de Ornelas, que aliás, segundo a Condessa de Mangualde, nem sequer fora previamente avisado do pronunciamento no Porto, e isto diz tudo...

Um verdadeiro D. Quixote !

Quanto ao seu último parágrafo estamos de acordo, aliás no Porto praticamente não houve oposição, mas você sabe bem que sempre foi em Lisboa que republicanos, maçons e carbonários tiveram a sua base de apoio.

Envie-me lá o email que depois eu comento, e obrigado pela soirée, foi muito agradável.

João Afonso Machado disse...

Vou mandar-lhe. Mas não esqueça. A Monarquia foi restaurada no Norte sem um tiro. E é preciso saber às vezes distinguir a vardade e a maldade (quanto ele acorda mais irritado) de VPV: a «Juntinha» era apenas, meu caro, o mais forte baluarte e o grande sustentáculo do sidonismo. Por acaso maioritáriamente monárquica, claro, mas quem valeu ao sidonismo, sobretudo após a morte do Presidente. Não esqueça a revolta de Santarém e o papel da Junta do Norte na sua contenção.
Um abraço!

Lurdes Gonçalves Pereira disse...

Se o Sr. João Afonso e o sr. bicho me dão licença, eu gostaria de acrescentar a minha modesta opinião ao vosso interessante debate já de ontem ( pena não ter assistido em directo ). E também colocar algumas questões no q a Paiva Couceiro e à Monarquia do Norte diz respeito.
O facto de ser monárquica não me leva a abster de me pronunciar negativamente quanto a essa figura carismática q foi Henrique de Paiva Couceiro. Concordo absolutamente com o sr bicho embora deva confessar q as minhas bases são VPV e não outras. mas não será este investigador suficientemente credível? Penso q sim. Pode haver alguns laivos de subjectivismo no seu discurso mas creio q ele tem uma boa e merecida reputação no meio historiográfico.
E ele não acusa só o quixotismo de Couceiro, Sr. Dr. João Afonso! Ele refere, argumenta e prova por A mais B que Couceiro era um ingénuo e inconsciente político, um megalómano, com muito pouca visão política e a pouca que tinha era desajustada à realidade. Só isto contradiz a afirmação do Sr Dr. João Afonso quando declara q o Couceiro não tinha nada de político. Ele tinha tudo de político! Os seus objectivos, ideais e planos de acção visavam uma linha de horizonte muito além do seu estatuto meramente militar. VPV não o acusa propriamente de despotismo, mas não sei, não, se ele chegasse ao poder se não se tornaria num, a avaliar pelas suas atitudes já na Escola do Exército, quando rasgava publicamente obras q ele censurava como "impuras". Mesmo q fossem emprestadas, como acrescenta VPV. Era de um catolicismo cego e beato, e em grande parte deve-se a ele o malogro da Monarquia do Norte. Tivéssemos nós tido outro tipo bem diferente de herói restauracionista e quem sabe o desfecho não fosse diferente, não obstante o contexto adverso.
Eu nunca simpatizei com esta figura na nossa história desde a altura em q me dei melhor conta, precisamente com a leitura das Memórias da Condessa de Mangualde ( ah e afinal esta senhora e o seu testemunho também valem como fonte e muito, embora no âmbito do registo de certa forma limitativo como são as memórias,claro ), e uma biografia de Couceiro de VPV, também. As outras fontes q o Sr. Dr. João Afonso menciona não conheço mas a segunda parece-me um pouco suspeita pela ligação familiar...
Seja como for, é de comparar sim, a Afonso Costa, porque não? Ideais antagónicos mas muitas fraquezas
similares. E de carácter. Dada a sua cegueira e incoerência política, de Couceiro, não acredito q ele tivesse ido longe. Mesmo q as circuntâncias lhe fossem favoráveis. Segundo VPL, o próprio D. Manuel detestava-o, o acordo entre Couceiro e o Rei exilado, após o falhanço da 1ª insurreição, não foi de fácil negociação. E, infelizmente, os carbonários esmagaram mais uma vez as acções monárquicas. Enfim, e o resto é como se sabe.
Aliás, eu só sei o q sei e aproveito o ensejo para colocar então uma questão: à parte o fim da prevalência jacobinista, em que medida foi possível os monárquicos verem na ditadura de Sidónio uma ponte para a concretização dos seus sonhos? será q isto revela, também, a inexistência de um verdadeiro líder no seu seio? alguém me pode esclarecer, por favor? E como é q toda a conjuntura monárquica se esvaiu a ponto de VPV afirmar q em 1932 ser monárquico era apenas uma profissão de fé? E hoje? em vésperas das celebrações do centenário?

Por último, gostaria só de deixar uma notazinha: sei q o calor da vossa discussão ontem levou a preocupações mais elevadas q o registo linguístico dos vossos comentários mas nalgumas unidades percebe-se um desfasamento entre conteúdo e forma ( "puder" por "poder", "há" por "à", advérbios de modo acentuados graficamente...) Claro q acredito q sejam falhas de " fast typing" a q eu igualmente incorro, como muita boa gente, mas por quem sois, senhores, fazei atenção...obrigada.
cumprimentos

bicho disse...

Minha cara senhora, pela parte que me toca aceito com elevação a "menina dos cinco olhos" face às calinadas gramaticais que teimam em aparecer neste tipo de escrita informática.

Quanto ao resto, não há muito a dizer, os monárquicos agarraram-se ao Sidónio, um republicano e para mais maçon embora pouco convicto...

Na minha humilde opinião, como se viviam tempos onde ou se era preto ou se era branco, os monárquicos acabaram por se virar para os progressistas na senda de "o inimigo do meu inimigo é meu amigo"

Quem veio a lançar a confusão foi precisamente o Paiva Couceiro !


Tamagnini Barbosa tinha acabado de se tornar primeiro ministro, no rescaldo do assassinato, agregando em torno de si a oposição à "república velha", Paiva Couceiro precipitou-se ? O "go on" foi mal interpretado ? O que é certo é que divididos, progressistas, "monárquicos do norte" e "monárquicos do sul" chamemos-lhes assim, deram oportunidade a Afonso Costa de retomar o puder, uma coisa é certa, mesmo "contrariado" Aires de Ornelas não virou as costas à luta (ou à inconsciência de Couceiro).

Como realmente foi é dúbio, uma coisa é certa, daí para a frente os monárquicos dividiram-se entre D Manuel e o herdeiro de D Miguel, D Duarte Nuno (legitimistas) talvez daí tenha surgido essa condição enfraquecida da monarquia a que o autor se refere como sendo a partir de determinada altura uma "profissão de fé"

Mas certamente que o João Afonso saberá melhor que eu, pelo menos já dedicou bem mais horas ao tema.

Cumprimentos.

bicho disse...

Errata : onde se lê puder deve ser lido poder, obrigado.

Lurdes Gonçalves Pereira disse...

Caro sr bicho, muito bem. Aceitou e aplicou. Uma atitude louvável e inteligente. Eu também procuro ser humilde nesse aspecto, e creia-me q aceitarei tb qualquer correcção q seja feita com lógica.
Muito obrigada pela sua resposta.

Quanto à eventual má interpretação do " go on..." , fala da parte dos integralistas com certeza, ou da parte do Aires de Ornelas... porque este recorreu a palavras de D Manuel para ele próprio autorizar o movimento monárquico. Agora se estas palavras do Rei estavam dirigidas a outro contexto, isso é o q dá a entender o Sr. Dr João Afonso. Mas não percebo é se com isto está a ilibar Ornelas da culpa, tendo "lavado daí as maõs" com as palavras do Rei.
e quando o sr. bicho refere o enfraquecimento da causa monárquica por razões de divisão interna é de interrogar. Porque há divisões e divisões. Posições contrárias no seio da monarquia já existiam desde antes da república. O caso é ser de teor sucessório, não acha? Há sempre facções mais moderadas, outras mais radicais mas o enfraquecimento surge quando se atinge o ponto nevrálgico.
Claro q ambos concordamos q não seja esse o factor exclusivo q conduziu ao monarquismo como mera profissão de fé.
até porque ainda há militância, como se pode ver por aqui.
cumprimentos retribuidos.
LGP

Lurdes Gonçalves Pereira disse...

errata: onde se lê " retribuidos" leia-se "retribuídos".
um pouco diferente.

Lurdes Gonçalves Pereira disse...

ah sr. bicho, e se me permite, mais uma correcção: não foram calinadas gramaticais mas sim ortográficas.
LGP

bicho disse...

Calinadas à parte, que continuarão, até porque o corrector automático induz em erro, este episódio poderá ter muitas interpretações.

Eu não "ataco" nem monarquia nem república, a minha intenção é sempre tentar compreender o que se passou, sem tricas e com muitas dicas, cada qual no seu sentido muito próprio.

Uma coisa tenho por mais ou menos certa, Aires de Ornelas, face a essa espécie de ultimato do Paiva Couceiro utilizou uma espécie de ordem reservada pelo Rei para uma altura digamos adequada. A ideia que tenho é que o "go on" não seria uma indicação para este facto concreto, seria mais uma espécie de "carta branca" dada pelo Rei a ser utilizada pelo seu homem de confiança quando o momento surgisse. Digo isto porque estando o Rei em Inglaterra, e como não haviam telefones nem telemóveis, decisões assim teriam de ser tomadas no joelho, Aires de Ornelas assim fez, de acordo com a sua consciência, se tivesse corrido bem, seria um herói.

Na eminência do golpe é mais que natural que Aires de Ornelas se sentisse entre a espada e a parede pois eram tempos conturbados, e os progressistas pendiam sempre para o lado da república por isso não eram de fiar como apoio à restauração, não é estranho ver Paiva Couceiro como solução possível para este imbróglio.

No máximo, a restauração poderia ser tomada como a única alternativa ao Costa, o que já de si seria positivo mas contar com os sidonistas seria sempre incerto.

O que é certo é que na hora da verdade muitos vacilaram, e a coisa só pegou verdadeiramente a Norte o que veio a causar outro problema, correu-se efectivamente o risco do país ficar dividido em dois, facto que não era desejável a ninguém.

Eu não julgo os intervenientes, ou pelo menos tento não julgar, deixei no ar um "se" Paiva Couceiro tivesse chegado ao poder... O que é facto é que não acredito que ele próprio se impusesse ao poder, só o tomaria se achasse que era a única alternativa, pois era devoto à causa e acima de tudo patriótico.

A "divisão" no seio monárquico veio a ser o corolário, quem participou activamente na "intentona" é perfeitamente natural que de alguma forma se tenha sentido "traído" ou melhor, "desiludido" assim é que é; e como tal, o "miguelismo" ou os seus herdeiros passaram a ser vistos como um caminho alternativo.

O que vem daí para a frente a mim como republicano já me interessa pouco, fala-se em evoramonte, em tratados com D Manuel que legitimaram D Duarte anulando a convenção, enfim, digamos que para mim são questões do foro interno dos monárquicos e nisso não me meto.

Cumprimentos.