sexta-feira, 28 de maio de 2010

Eleições - a menina dos olhos da República...


Em Novembro de 1925 realizara-me eleições para o Parlamento. Eis como elas decorreram, de acordo com notícias dos jornais Correio da Manhã, Diário de Notícias e A Época:
Em Lisboa: «Os revolucuonários tinham-se colocado à porta da assembleia, impedindo a entrada dos eleitores que lhes não agradavam. A certa altura, quando alguns deles iam a aentrar, o chefe do grupo, um tal Carvalho, disparou contra eles, sendo imitado por alguns facínoras que o acompanhavam».
«Além do escandaloso corte dos eleitores monárquicos, nos cadernos de recenceamento, que só numa das freguesias da capital inutilizou cerca de 700 votos e além da recusa do voto a numerosos eleitores, sob pretexto de não serem conhecidos, cometeram-se em Lisboa as tropelias do costume, que a República reputa indispensável para sua defesa e manutenção»
«Mal deram em ser conhecidos os resultados das eleições, um grupo de indivíduos armados de mocas e bengalões começou a visitar, em atitude de desordem, as várias secções de voto da cidade (...) da freguesia de Santa Isabel e aos "vivas" à república, invadiram a sala, distribuindo pancadaria a torto e a direito. Estabeleceu-se pânico; ouviu-se o disparo de cinco tiros (...). Urnas, mobiliário, cadernos, listas, impressos, tudo se espalhou, feito em pedaços, pelo chão».
Em Matosinhos: «Em Infesta do Balio e Perafita, as assembleias foram invadidas por grupos estranhos que viajaram em camionetas e que, armados de pistolas, cavalos-marinhos e bombas, expulsaram os elitores da lista concelhia»
Em Alcochete: «Houve comício feito da janela do Centro Democrático, sendo maior o número dos oradores que o dos ouvintes, pois a população desta terra é retintamente conservadora (...) Vendo-se perdidos, apenas começou o escrutínio, lidas apenas sete listas, todas dos conservadores, e tendo eles duas, desataram a dar vivas à república, chefiados pelo delegado do Governo, de Aldeia Galega e pelos polícias da S. do Estado, e a expulsarem da assembleia os conservadores. Houve grossa pancadaria, uns saltaram pelas janelas, outros brigavam na rua. Só se ouvia gritos de - MATA! MATA!»
Em Cabeceiras de Basto: «Entre baionetas caladas, procedeu ao simulacro das eleições administrativas, neste concelho, a antiga vereação democrática, que violou o recenceamento eleitoral, passado o prazo legal das reclamações, riscando os votatntes desafectos, com o fim de ser agora reeleita sem oposição alguma, como está sucedendo para "prestígio" da República e do Partido Republicano Português».
Na Golegã: «A eleição correu ilegalmente, negando a mesa o direito de voto a muitos eleitores que se apresentavam com a certidão, e aos quais em caso nenhum podia ser negado esse direito, como é de lei».
Em Mação: «Os democráticos, vendo perdida a eleição, praticaram as mais revoltantes imoralidades, fazendo votar os mesmos indivíduos 3 e 4 vezes e expulsando violentamente os contrários».
Na Figueira da Foz: Nas assembleias de Lavos e Maiorca, onde os monárquicos tinham uma grande maioria, os democráticos roubaram os cadernos eleitorais, não deixando votar os adversários».
Em Alenquer: «A mesa (...) comandada pelo célebre Ramos Rosa, recusou-se terminantemente a abrir a urna e mostrou que nela já havia listas. Em vista de todas essas irregularidades (...) os conservadores resolveram abandonar a eleição (...). Na assembleia de Meca, também os eleitores foram impedidos de votar pela Guarda Republicana que se encontrava a dez metros de distância e protegia os arruaceiros encarregados de impedir a votação. Os eleitores republicanos votaram 5 e 6 vezes cada um».
Em Mafra: «O descaramento e o roubo subiram a ponto de figurarem 710 listas como entradas, quando o número de eleitores inscritos no recenseamento é apenas de 556».
O espectáculo prosseguiria pelas Republicas seguintes. Somente agora sem bengaladas e tiros, com meios mais sofisticados...
Fonte: Costa Brochado, «O Sr. Norton de Matos e a sua candidatura», Portugália editora, 1949, pág. 130.

5 comentários:

Francisco RB disse...

Ora caro amigo, da primeira eleição presidencial da II República, da qual tenho os cadernos eleitorais, houve pessoas da minha família que surge 4 e 5 vezes, com o nome ligeiramente alterado e a profissão diferente, pelo que não é de estranhar que o Gen. Carmona tenha ganho com tão larga margem, só de um deles foram 5 votos, tamanha era a confiança no candidato!!!

bicho disse...

Meu caro amigo João Afonso.

Você puxa a brasa para a sua sardinha o que é perfeitamente normal, dada a devoção que tem à causa, mas um arco não mostra a totalidade do círculo, e por vezes há que olhar um pouca atrás ou à frente para compreender as coisas.

Regressemos então a 1917 quando se deu o Dezembrismo.

Como o meu amigo sabe, a república nasce do sangue real, e as reformas da mesma são implementadas à força, o que leva a uma sequência de golpes de estado, rotativismos e ditaduras, Sidónio Pais, reúne em seu torno as facções menores republicanas e as duas facções monárquicas (numa primeira fase) de forma a instituir o presidencialismo por sufrágio directo, uma maneira de colocar ordem na república.

Com uma base de apoio no mínimo "sui generis" reuniu inimigos à esquerda "democráticos" e à direita "monárquicos radicais integralistas e legitimistas" uns pelo medo da restauração, outros, contra as indicações de D Manuel e de Inglaterra pela ânsia de restaurar um governo militar de forma imediata.

Formam-se as juntas militares, as quais com um cariz maioritariamente monárquico, em especial a norte.

Com o crescendo de poder das juntas, um reaccionário de esquerda assassina o "presidente-rei" com o argumento do perigo da restauração; a reacção da direita radical foi a monarquia do norte com o argumento do perigo do regresso da "demagogia"; Canto e Castro, monárquico e presidente recém eleito, foi a vítima, assim como evolucionistas, unionistas e monárquicos liberais ou constitucionalistas.

A trapalhada foi total, o sidonismo foi uma oportunidade única de criar uma base política onde não só se estabilizaria a república como mais tarde haveria a possibilidade de fazer o tal plebiscito sobre o regime (ao qual se opunha D Manuel); no fim, os republicanos democráticos do PRP acabariam por retomar o poder, mas muito mais radicalizados, com a GNR a funcionar como uma polícia do Estado a bater em tudo o que mexesse !

Fica a nota, Sidónio Pais era republicano e maçon, era um patriota; Canto e Castro também, daí para a frente entramos num estado de terror puro, mas é injusto atribuir à república em si a culpa dos factos, até porque a monarquia do norte não foi um movimento de republicanos...

bicho disse...

Nota : "Canto e Castro também" refiro-me ao patriotismo do homem, obviamente que nem era republicano nem maçon.

João Afonso Machado disse...

Caros Amigos Francisco e Nuno:
Estive ontem numa debate Monarquia/república, em Barroselas, Viana do Castelo. Muito agradável. A I e II Repúblicas não foram discutidas, como períodos históricos - houve concordância quanto aos seus erros.
e aqui, Francisco, se vê que a «lisura» das eleições na II República tinha antecedentes na I.
Admiro o seu sidonismo, cato Nuno, até porque «rema contra a maré» do politicamente correcto. Concordo com o que diz, ressalvando apenas que no Porto (cidade) não houve mortos na restauração monárquica de 1919. Houve em outros locais, mas numa perpsectiva de combates miltares, o que é sempre trsite mas menos ameaçador do que a arruaça, ou seja, o crime puro e simples.
Um bom fim-semana para os meus amigos.

bicho disse...

Caro João Afonso.

É bom que de vez em quando alguém esclarecido fale à juventude.

Quando vou a uma livraria e encontro livros sobre a república de uma Isabel Alçada é sinónimo que muita contra-informação, inverdade e omissão vai rolando na nova história das coisas, os alfarrabistas de cada vez mais vão ter um papel preponderante em repor a verdade dos factos pois os "livros novos" mais populares começam a distorcer muito as coisas.

O meu sidonismo como o meu amigo lhe chama é reflexo do meu presidencialismo republicano no qual creio, dá estabilidade e uma liderança clara mas sempre sujeito a sufrágio, é uma forma de saber quem manda e uma hierarquia bem estruturada e organizada é a chave do sucesso de qualquer boa gestão, um país não foge à regra.

Sidónio teve uma tarefa difícil que nem sequer chegou a realizar por ter sido assassinado, Canto e Castro, de uma forma mais ponderada e menos populista poderia bem ter sido o ponto de viragem do nosso destino e quem o travou não foram os republicanos, foi pena a sua morte prematura... A ala moderada (ligada a Manuel II) da monarquia também foi uma vítima; daí para a frente é como diz o Pulido Valente e bem, ser monárquico tornou-se uma espécie de "profissão de fé", a monarquia fragmentou-se.

Salazar foi um "Sidónio" de um estilo diferente, com profundas raízes clericais e rurais, misturadas com a intelectualidade clássica de Coimbra, e Salazar foi um intelectual, nunca foi um medíocre ! Agarrou-se demasiado ao poder e foi nessa senda que a sua utilidade para o país caducou, poderia também ele ter sido um grande líder, acabou ensombrado por 40 anos de uma ditadura que fartou a todos.

Sidónio e Salazar, assim como o -marquês de Pombal, João Franco e Costa Cabral foram líderes de rotura e grandes reformas, úteis para o país em curtos espaços de tempo, mas todos foram líderes perigosos, pois o poder seduz !

Um abraço.